RETROMOBILE 2014

Fotos: autor


Todo ano os entusiastas mais apaixonados do mundo por carros antigos e clássicos se reúnem para ir à Retromobile, o salão do carro antigo, em Paris. Essa última edição, a 39ª, realizou-se de 5 a 9 de fevereiro. E que evento!  Todo ano é ainda maior e melhor. Todo ano ainda mais espetacular. E todo ano a turma de fãs de carros antigos saindo de lá já dizendo que voltará no ano que vem.

Com um evento desse tamanho e extensão, seria difícil descrever tudo num artigo só. Por isso, vamos nos concentrar em dez aspectos do evento que, pelo menos para mim, predominaram. Não vou dizer que a seleção é definitiva. Como sou mais interessado em carros de rua do que carros de corrida, o foco é concentrado naqueles. E sendo que a minha lista original tinha 34 “pontos altos”, é óbvio que tive que deixar muito para trás. Mas, de qualquer maneira, vamos em frente.

Paris é linda, mas que frio faz em fevereiro! O sol só nasce às 8h00. E nem é sol, mas uma espécie de neblina cinza-escuro. E a pouca luz do dia acaba lá pelas cinco da tarde. Mas este ano foi mais quente que os anteriores. Temperaturas entre, digamos, 4 °C e 4 °C. Ventos fortes e árticos vindo do Rio Sena. Igual ao Brasil... É melhor ficar dentro da casa mesmo!

O evento é enorme. Esse ano, a Retromobile finalmente se transferiu para o maior salão do gigantesco complexo de Porte de Versailles, o Pavilhão 1. São 44.000 metros quadrados num espaço contínuo, sem paredes fixas, e tudo fechado aos elementos da natureza. Neste espaço, 33.000 metros quadrados são dedicados exclusivamente à exposição de carros — o resto são peças, livros, miniaturas, praças de alimentação etc. Mais de 400 empresas representadas, mais de 100 clubes de automóveis.

O enorme Pavilhão 1 no complexo de Porte de Versailles

Um grande leilão por parte do Artcurial (houve outros leilões da Bonhams e RM em lugares separados, no caso de Bonhams no Grande Palais e de RM, nos Invalides). E, mais incrível que qualquer outra coisa, público de cerca 85.000 visitantes no decorrer dos cinco dias do evento. Uma boa parte, inclusive, de mulheres — sozinhas, sem companhia masculina. Quem diria?

Alpines! E leilões (placa ao fundo) que fazem parte da Reromobile

Fábricas participam. Reconhecendo a importância da tradição e da história de suas marcas, havia estandes de não só das três marcas francesas — Renault, Peugeot e Citroën — mas também da Mercedes-Benz, Porsche, Skoda e Caterham. Eu poderia dizer também que efetivamente havia um estande da Alpine, de vez em quando sob as asas da Renault (e de vez em quando, não...). As marcas francesas correram certo risco apresentando modelos atuais ao lado dos antigos, sendo que em muitos casos os antigos eram bem mais glamorosos e bonitos que os atuais. Talvez difícil de aceitar, mas é verdade.

Estande da Renault

 Entre os carros charmosos e caríssimos havia também carros “normais”. Por exemplo, o “Belo Antônio” da nossa juventude. É provável que a maioria dos leitores saiba que o Simca Chambord foi fabricado no Brasil, mas não era propriamente brasileiro. Ele nasceu em 1955 na França, uns cinco anos antes da chegada no Brasil. A marca Simca era associada à Fiat, mas o Chambord era um Ford Vedette francês com motor Ford V-8 pequeno, de 60 hp. A Ford França desenvolveu o carro e então, em 1954, vendeu a fábrica e todas as operações ligadas à empresa para a Simca. Com isso, a Simca efetivamente herdou o carro completo da Ford.

Um Simca Chambord!

A história não acaba aí. Sendo que o Chambord era pouco resistente não só no Brasil, mas ainda mais na Franca, poucos carros sobreviveram no continente. Existe um clube na França dedicado à preservação destes carros tão sedutores e frágeis, o Club Vedette France (clubvedettefrance.com). Eles mantêm 600~700 sócios. Gente boa. Disseram-me que com óleos modernos e bastante cuidado com a manutenção é possível manter esses carros funcionando até hoje.
Esse foi o ano dos marajás. Um destaque especial era um grande estande dedicado a mais ou menos uma dúzia de carros cujos donos eram marajás da Índia. Organizado pelo Gautam Sen, indiano genial e bem articulado que mora em Paris, e com o apoio da embaixada indiana, o estande teve, entre outros, um Alfa Romeo RL SS de 1925 semelhante a um da coleção Roberto Lee, ambos com carroceria aberta de Castagna. Um Mercedes-Benz 630 SS de 1930 com carroceria Sindelfingen, da própria fábrica e com um capô ocupando quase 50% do comprimento do carro. Incrível! Um Delahaye 135 com carroceria Figoni et Falaschi de 1938, esse da fabulosa coleção de Peter Mullin aqui da Califórnia. Os dois “carros-cisne”, o primeiro de 1910 do excêntrico escocês de Calcutá, Robert Nicoll Matthewson, e o segundo 1930, menor como filhote, do marajá de Nabha. Um lindo Rolls-Royce Phantom I 1926 de carroceria de alumínio sem tinta, polida e brilhante. E um Isotta-Fraschini 8A carroceria Cesare Sala de 1929, originalmente do rajá de Kotwara e que hoje pertence a um notável colecionador de São Paulo.


Mercedes-Benz 630 SS 1930
Um dos dois carros-cisne, este de 1910, hoje de um escocês que vive em Calcutá, Índia
Delahaye 135 1938, carroceria Figoni et Falaschi

 O primeiro carro — pelo menos carro de produção — monobloco. Lembram-se do comercial do padre que andava de Mercedes-Benz monobloco, isso por volta de 1964? Bem, não era carro, era ônibus. Mas de qualquer modo, a idéia de carroceria monobloco não era nova. O primeiro carro de carroceria monobloco foi o Lancia Lambda 1922, representado por dois exemplos na Retromobile — um aberto e um sedã fechado. Para a época, as especificações eram revolucionárias.  Motor V-4 de comando no cabeçote, suspensão dianteira independente com amortecedores telescópicos. E várias carrocerias monobloco totalmente em aço. Carros de dois lugares; de quatro lugares; carros abertos e fechados; carros esportivos e carros formais. Na época, a Lancia liderava não só na Itália, mas possivelmente no mundo inteiro em termos de tecnologia.

Lancia Lambda 1924, 1º carro de estrutura monobloco do mundo, surgido em 1922

O primeiro carro — pelo menos carro de produção — monobloco e de alumínio. Quando a Honda lançou o notável esportivo NSX em 1990, ela anunciou com grande estardalhaço que era o primeiro carro de produção com carroceria totalmente em alumínio. Pena que a Honda tenha exagerado, ou pelo menos não conhecesse o francês Dyna Panhard de 1954. Motor de dois cilindros contrapostos, 850 cm³. Espaço e conforto para seis adultos, 649 kg, consumo de até 17 km/l, velocidade máxima de 145 km/h. E carroceria monobloco de alumínio. Isso na época anterior às soldas TIG e MIG, o que faz a realização tecnológica ainda mais fantástica.

Dyna Panhard 1954, todo em alumínio, o pioneiro no material em carroceria monobloco

Os carros de GP possivelmente mais fantásticos do mundo. Um ao lado do outro. Do museu da Mercedes-Benz em Stuttgart, um dos Mercedes que ganhou o famoso GP da França de 1914 pilotado por Christian Lautenschlager. E um W196, monoposto de F-1 com rodas cobertas que dominou a temporada de 1954. Onde mais se pode encontrar dois carros de corrida tão bonitos, além do significado histórico e tecnológico de ambos?

Mercedes-Benz W196 de F-1, com rodas cobertas

Os irmãos Bucciali. A história da marca Bucciali é complicada, sendo que as reportagens variam tanto que não é possível acertar ou até acreditar no que realmente aconteceu. Mas, de qualquer jeito, os dois irmãos Bucciali, da Itália, que nos anos 1920 e 1930 moraram na França, decidiram criar os carros mais fantásticos do mundo, com tração dianteira, motores de no mínimo oito cilindros, mas planejado para chegar a 16 cilindros. Esses consistiam de dois motores Continental de oito cilindros em linha montados verticais e em paralelo, com dois virabrequins ligados por uma caixa de engrenagens central. Mas esse U-16 existiu só em forma de maquete de madeira, e os carros (chamados de TAV8) em si eram possivelmente tão efêmeros como os próprios motores. Ninguém sabe se era um carro só ou seis. Ninguém pode dizer definitivamente se os carros andavam mesmo.  As fotos da época são de carros — ou até só de chassis — estacionados.  Há várias recriações modernas, umas mais fiéis que outras, mas da época sobrevive pouca coisa sobre os carros e não se sabe se realmente chegaram a funcionar.

Um Bucciali, reconstrução sobre chassi de Cord

Bem, o exemplar cabriolet azul esse ano na Retromobile era plenamente recriação sobre chassis Cord L-29 americano dos anos 1929/32. Motor 8-cilindros em linha, tração dianteira. E, nesse caso, com rodas do tamanho dos Bucciali, bem maiores que do Cord. Essas para dar o efeito visual de um carro não só absolutamente atraente, mas também o de uma altura bem menor que a de outros carros da época. Truque visual, mas de efeito inesquecível.

O Citroën SM cupê e derivados feitos pelos últimos carrossiers independentes da França. O SM em produção entre 1970 e 1975 já era um carro não só impressionante na época, mas em todos os tempos. Motor V-6 a 90° da Maserati (a Citroën era dona da fábrica italiana). Tração dianteira, suspensão hidráulica, direção e freios integrados ao mesmo sistema hidráulico da suspensão, bancos revestidos com pele de porco, alguns com rodas de plástico! Linhas arrojadas do mestre Robert Opron — fantasticamente belas ou meramente chocantes, dependendo de quem vê.

Citroën SM

 Há uma expressão em inglês que diz “one good turn deserves another”, ou seja, uma coisa bem feita merece mais coisas bem feitas. E com a construção na Citroën do cupê SM duas-portas, os dois sobreviventes carrossiers franceses — Heuliez e Chapron — imediatamente começaram a construir modelos derivados. Apareceram na Retromobile esse ano um cabriolet de duas portas chamado Mylord e um grande sedã de quatro portas chamado Opera. Ambos baseados no cupê SM de produção e ambos modificados — ou até construídos — por Chapron.  No ano passado apareceram dois cupês targa “Espace”, esses feitos pela Heuliez.

Citroën SM Mylord, carroceria por Chapron
Miniaturas. Prometi 10 destaques, mas como também sou apaixonado por miniaturas em escala, não seria justo só falar dos carros de escala 1:1. E por que não? Com a elevação impressionante dos preços dos carros 1:1 nesses últimos anos, as miniaturas são bem mais acessíveis — em termos relativos, sendo que algumas podem custar milhares de euros, mas de qualquer jeito mais baratos que os carros de verdade.

Havia no mínimo uns dez vendedores principais de miniaturas esse ano, com outros menores em volta. E havia milhares e milhares de miniaturas a escolher. Algumas por preços de € 5 a € 10, a maioria na faixa de € 25 a € 100, alguns mais requintados de mais de € 200 e os de € 1.000 a € 10.000 ou mais (em certos casos, bem mais) para os verdadeiros apaixonados — ou pelo menos bem ricos. Nunca vi uma oferta tão grande e variada na minha vida e, naturalmente, acabei comprando uns poucos para trazer para casa. Só entre nós, por favor, não digam nada às pessoas daqui de casa…

Mar de miniaturas!

Bem, foi uma cobertura rápida mas longe de completa sobre a Retromobile 2014. Espero que pelo menos uma vez na vida os leitores no Brasil possam um dia ir ao evento. Agüentar o frio, agüentar a multidão de outros entusiastas do mundo inteiro que também comparecem, agüentar sanduíches frios que podem custar € 4 ou, dependendo do lugar, € 23 — R$ 75 por um sanduíche frio de queijo e tomates! Esquecendo por um momento os preços, para mim a Retromobile é como o SEMA de Las Vegas, todos precisam conhecer. Não é necessário todos os anos, mas pelo menos uma vez na vida. Garanto que vocês vão adorar!

Veja mais fotos.


RP

Atualizado em 18/02/14 às 20h07, inclusão de foto no tema marajás.

16 comentários :

  1. Minha nooooossa!!! O que é esse Bucciali? O pneu (gigante) traseiro está no ombro do passageiro, o parabrisa tem 1 palma de altura... Que espetáculo! E eu não conhecia esse HotWheel.
    Pronto, falei, agora posso ler o resto.

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  2. Esse Bucciali é realmente lindo!

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    1. Se vocês gostaram da recriação, esperem só até conhecerem o Bucciali verdadeiro!

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  3. Perfeita Disney para os entusiastas novatos e veteranos, e em plena Cidade Luz....coisa mais chique!

    Meus sais, o que é esse mar de miniaturas? O sujeito precisa deixar o cartão de crédito trancado no cofre do hotel....

    MFF

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  4. I love Paris in the spring time
    I love Paris in the fall
    I love Paris in the winter, when it drizzles
    I love Paris in the summer, when it sizzles.

    Ainda que por mais não fosse, só por uma exposição dessas, Paris merece ser amada.

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  5. Lorenzo Frigerio18/02/14 17:17

    Pena que não tem fotos do Delahaye "Figoni et Fallaschi". Ele coloca no bolso todos esses outros no desenho e nos detalhes. Alguém tem que fazer um post sobre esses carros.

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  6. Citroen SM
    Sapão Cururu

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    1. Eu gosto e acho bonito esse Citroen
      Sapo e seu Fusca caindo aos pedaços

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  7. Bela matéria sobre o Retromobile 2014..!

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  8. Matéria maravilhosa.
    Se dor de corno matasse, quem possuiu e se desfez de algum modelo de Interlagos e/ou Simca (brasileiro) poderia estar comendo capim pela raiz.
    Eu então, nem se fala .... Em meados dos anos 70 achei, perto de Nilópolis, RJ, um Delahaye no fundo de uma oficina. Infelizmente era estudante e não di$punha do $uficiente para comprar o carro.

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    1. Aqui em Brasília tem um Delahaye.

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  9. O Delahaye me lembra demais os primeiros Batmóveis dos quadrinhos, especialmente o design dos paralamas.

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  10. Muito interessante, e que destaque para os carros antigos. Excelente!
    Parabéns ao AutoEntusiastas por mais este tento!
    Saudações
    Alexander Gromow

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  11. Este passeio está na lista das vontades !

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