A INTELIGÊNCIA DAS MÁQUINAS - QUARTA PARTE

"Encounter" de M. C. Escher: emergência e dualidade complementar

Antes de explorarmos a inteligência das máquinas propriamente dita, há uma série de fenômenos, que divergem do senso comum, e que vêm chamando a atenção de técnicos e cientistas. Assim como a eletricidade nos seus primórdios, estes fenômenos surgiram como curiosidade, passaram de repente a ser um problema técnico, para finalmente começarem a oferecer aplicações práticas.

Estes fenômenos estão por toda parte e apenas não os reconhecíamos. Agora eles estão se mostrando um novo campo para a ciência e a tecnologia, e o campo da inteligência artificial é bastante dependente deles.

Imponderável simetria

Vivemos num país tropical, e estamos pouco habituados com a neve. Então há várias coisas sobre ela que desconhecemos, mas é habitual para países frios.

A neve possui uma peculiaridade muito curiosa. Cada floco de neve é único. Nunca foram registrados dois flocos absolutamente iguais. Apesar disso, todos os flocos de neve possuem uma característica em comum. Todos possuem uma simetria radial de 6 eixos, sendo que cada eixo exibe uma simetria bilateral, totalizando 12 sub-estruturas geometricamente idênticas.

Neste design, os ângulos de 60 e 120 graus são abundantes e estão ligados à geometria da molécula da água. Isso era de se esperar. O inesperado é uma outra coisa.

Flocos de neve: diferentes, mas com simetria radial

De que tamanho é um floco de neve? Ele possui vários milímetros de diâmetro. E uma molécula de água? Bilhões de vezes menor que esta escala.

Cada floco de neve nasce de um pequeno cristal e que cresce a partir daí agregando mais e mais moléculas de água à sua estrutura cristalina. O mistério do floco de neve é que a introdução de uma molécula de água na estrutura do floco pode até ser aleatória, até porque cada floco é diferente dos demais, mas assim que essa primeira molécula entra para a estrutura cristalina, ela determina precisamente a posição de outras 11 moléculas que irão se ligar na estrutura há bilhões de moléculas de distância dessa primeira. Somente assim fica garantida a simetria em larga escala.

Que poder é esse que estabelece tão rigidamente a simetria dos cristais dos flocos de neve, construindo-o com alta precisão de posição, molécula por molécula?

A geométrica atmosfera de Saturno

Saturno há séculos fascina a imaginação dos cientistas com seus anéis. Entretanto, algo tão intrigante quanto os anéis foi descoberto na passagem das sondas Voyager pelo planeta.

Saturno é um planeta gasoso, assim como Júpiter, e esperava-se ver padrões turbulentos, caóticos, como furacões gigantescos, espalhados por todo o planeta. Mas para surpresa de todos, ao sobrevoar o polo norte, um gigantesco padrão hexagonal perfeito surgiu nas fotos.

Como as Voyager eram visitantes de passagem, permaneceu a dúvida. Seria o padrão hexagonal apenas uma condição transitória e por pura sorte observada no momento exato, ou seria este um padrão estável, tal como a mancha vermelha em Júpiter, conhecida desde os tempos de Galileu? Essa era uma das respostas a serem dadas pela sonda Cassini, com a missão de vários anos para estudar a fundo o sistema de Saturno e seus satélites.

Precisão geométrica na turbulenta e caótica atmosfera de Saturno

Cassini chegou em Saturno num momento inoportuno. O pólo norte de Saturno estava do lado oposto ao sol, impossibilitando a observação do pólo em luz visível. A Cassini tomou apenas fotos em infravermelho do hexágono no começo da missão.

Após dois anos de missão, o pólo norte do planeta apontou novamente para o sol e as fotos da Cassini mostraram novamente o hexágono ainda perfeito.

Hoje, há cientistas especializados em atmosferas planetárias tentando criar modelos climáticos para Saturno que expliquem como um padrão geométrico maior que o diâmetro equatorial do planeta Terra pode surgir a partir de uma atmosfera puramente turbulenta, mas todos os modelos feitos até hoje dependem em algum ponto de uma “ressonância mágica” para que os dados consigam convergir para observação real.

O mistério da geometria precisa na atmosfera de Saturno ainda permanece.

Uma questão de emergência

A observação de fatos estranhos da natureza que não deveriam estar ou acontecer pelo nosso bom senso, como a simetria dos cristais de neve e a precisão geométrica inesperada da caótica atmosfera de Saturno, vêm se acumulando e mostrando que eles pertencem a uma categoria especial de fenômenos, chamados de “comportamentos emergentes”. Estes comportamentos, perfeitamente ordenados, surgem a partir de situações caóticas ou onde não deveriam ocorrer. Eles fogem do senso comum a que estamos acostumados.

Não existe uma definição precisa do que sejam esses comportamentos emergentes, mas eles surgem a partir do comportamento naturalmente caótico do próprio sistema. Não são erros ou falhas, mas parte natural da funcionalidade do sistema.

Boa parte destes estranhos comportamentos surgem de interações não lineares entre partes de um sistema, de elementos que se relacionam pelo ambiente em que coexistem, e também dos ciclos em que microefeitos são repetidos milhares e milhares de vezes entre milhares de elementos entre si e então unidos e amplificados na forma de macroefeitos.

Engenheiros e técnicos com educação clássica não estão preparados para entender ou perceber os comportamentos emergentes.

Uma das primeiras coisas que eles aprendem é imaginar que seu objeto de estudo está num universo onde o objeto está absolutamente sozinho para simplificar os modelos e facilitar a compreensão dos fenômenos observáveis. Dentro desta visão, o comportamento emergente é uma impossibilidade, e quando ele ocorre e os fatos reais não fazem sentido, eles se sentem perdidos.

Hoje reconhece-se que os fenômenos emergentes não são fenômenos raros. Na verdade eles ocorrem a todo instante e por todos os lados e apenas não os percebíamos ou reconhecíamos como tais.

Entretanto, por estarem ligados à recente teoria do caos e por alguns deles surgirem em episódios muito raros, são geralmente tratados como mistificação por engenheiros e técnicos formados dentro dos cursos tradicionais de dinâmica de sistemas. O desconhecimento e o preconceito são inimigos maiores à solução dos problemas que o próprio comportamento estranho em si mesmo. Mas isso ocorre com todas as ciências novas, tal e qual a teoria da relatividade e a teoria quântica numa época em que a física de Newton imperava.

Estamos falando, portanto, em ciência e tecnologia de ponta.

A borboleta e o estranho atrator

Já mencionei aqui várias vezes como Edwin Lorentz lançou a idéia do caos a partir de um modelo simplificado de clima, e sobre o chamado “Efeito Borboleta”. Mas não contei a história completa.

Lorentz fez outra descoberta importante sobre s propriedades do caos em seu sistema climático simplificado. O sistema climático de Lorentz relacionava três variáveis (pressão, temperatura, umidade) e logo Lorentz percebeu que as três variáveis oscilavam em ondas em torno do tempo. Lorentz fez então um gráfico tridimensional, relacionando as três variáveis, com pontos seguidos vindos da simulação.

Três variáveis da simulação do clima simplificado de Lorentz
Atrator de Lorentz: gráfico 3D com as 3 variáveis climáticas

Para surpresa de Lorentz, ao rodar a simulação, os pontos rapidamente convergiam para uma região restrita do gráfico. Nesta região, os pontos se sucediam em dois redemoinhos planos, à semelhança das asas de uma borboleta Os pontos podiam espiralar por vários ciclos dentro de um redemoinho  e rapidamente podiam trocar de redemoinho. Embora Lorentz não pudesse prever um valor preciso do trio de valores em um determinado instante do tempo, a seqüência de pontos sempre permanecia restrita dentro destes redemoinhos.

Por sua capacidade de atrair e reter a seqüência de pontos, esse conjunto espacial ficou conhecido então como “Atrator de Lorentz”.

O Atrator de Lorentz tinha pelo menos duas propriedades importantes. Pelo Efeito Borboleta, não seria possível fazer uma previsão precisa sobre o minuto que uma chuva começasse no dia seguinte, porém, simulando com algumas mínimas perturbações, seria possível dizer com 95% de certeza se o verão do próximo ano seria seco ou chuvoso. O microcomportamento não era previsível, mas o macrocomportamento do sistema climático podia ser descrito a partir da caracterização do atrator.

Outra propriedade importante aparecia se o sistema fosse perturbado. Neste caso, novamente o ponto convergiria rapidamente de volta para o atrator. A seqüência de pontos não seria a mesma graças ao Efeito Borboleta, mas o macrocomportamento do sistema, mantendo a seqüência de pontos fiel à guia imposta pelo atrator, este estava mantido.

Esta propriedade confere ao sistema um tipo de equilíbrio dinâmico altamente estável. A esta propriedade costumamos nos referir como uma alta tolerância a falhas.

Sistemas caóticos dinamicamente estáveis apresentam atratores (conhecidos como atratores estranhos) multidimensionais. Alguns sistemas podem apresentar múltiplos atratores, oferecendo um equilíbrio dinâmico metaestável com múltiplas regiões de estabilidade.

O clima real do nosso planeta apresenta pelo menos dois atratores conhecidos. Num, o atual, temos um clima ameno, interglacial. No outro, um clima frio, glacial. Sabe-se que a mudança cíclica do clima de glacial para interglacial e de volta para o glacial está, em grande parte, ligada a mudanças das propriedades da órbita do nosso planeta. Entretanto, as mudanças orbitais são lentas e contínuas enquanto a mudança do clima mostra-se abrupta. O clima fica estável dentro de um atrator enquanto as mudanças orbitais da Terra vão forçando esse clima em um sentido. Num determinado instante o limite de estabilidade desse atrator é ultrapassada e o clima escorrega para o outro atrator, impondo novo padrão climático.

Muitas das discussões mais técnicas sobre o aquecimento global se ligam sobre um possível terceiro atrator, que manteria estável as temperaturas do planeta em níveis mais elevados.

O estudo do caos nos sistemas mostrou que embora eles sejam imprevisíveis, eles apresentam comportamentos (os tais comportamentos emergentes), padrões e estruturas muito bem definidos, e isto está ligado à questão dos atratores. Os atratores também oferecem a possibilidade de sistemas operando dentro dele e se interferindo mutuamente se aproximem e passem a operar em sincronismo.

Caos, religião e sociedade

Desde a pré-história o homem evolui pela observação dos fatos da natureza e das próprias relações humanas e tirando vantagens do que aprendia. Temos então a observação de realidades como as mudanças do clima ao longo do ano com as mudanças nos céus e dos ciclos da vida na Terra.

Ao longo de milhares de anos, fatos foram observados, refinados na percepção de sua mecânica e transmitidos de uma geração para outra. O que era compreensível virava tecnologia para aplicação na vida do dia-a-dia, como a confecção de utensílios de pedra, e o que não era compreendido passava para a dimensão da religião, como manifestação das vontades e caprichos divinos.

Representações dos ciclos naturais, da relação do divino com o mundano são encontrados por todas as partes, de Stonehenge passando pelo calendário maia e chegando às mandalas judaicas.

Símbolos religiosos que representam comportamentos da natureza

Muitas das regras sociais, também muito atreladas à religião, são percepções de comportamentos sociais emergentes. Sociedade, assim como outros aspectos da vida, é um mundo fechado e o que fazemos dentro dela afeta em certa medida a todos e sempre retorna a nós mesmos, e a interação intensa entre indivíduos geram diversos comportamentos emergentes, alguns positivos e outros negativos.

Desde a cisão entre a ciência racional e a religião e seu misticismo, muitas das regras que norteavam o bom comportamento do indivíduo no meio social foram questionadas. Para muitos de nós, certas regras são “velhas”, “piegas”,  “sem razão”, mas nunca pensamos que elas podem conter a síntese de milhares de anos de observação e aprendizagem dos fatos da vida, e incorremos em erros que se repetem desde os tempos das cavernas ao recusarmos essa sabedoria.

Hoje a própria ciência começa a compreender o valor de antigas regras sociais e religiosas. Por milênios as pessoas passaram essas regras de geração a geração sem saber a real razão que as faziam funcionar, mas sabiam que funcionavam. Hoje começamos a compreender.

Porém, nenhuma imagem da sabedoria milenar foi mais sintética da estranha realidade que o tei-gi, com a representação dos princípios vivificantes universais do Yin (Ying em algumas grafias) e Yang, pertencentes ao taoísmo.

O tei-gi representa o todo formado por duas forças opostas inseparáveis (Yin e Yang), porém complementares. Na simbologia gráfica do tei-gi, o “olho” de cor oposta indica que onde uma das forças é mais profunda é onde surge a outra.

Yin nasce no mais profundo Yang, e o Yang nasce no mais profundo Yin. Hoje é ciência reconhecer que o caos nasce da mais profunda ordem assim como a ordem nasce do mais profundo caos, e que todo evento não é bom nem mau, mas que se ele tem um lado altamente positivo evidente, ele esconde outro altamente negativo e vice-versa. A ideia filosófica do Yin e Yang é muito próxima da visão matemática de ordem e caos.

A noção que tudo aquilo que fizermos neste mundo retorna para nós, como ensinada por nossos avós, tem seu fundamento sendo aos poucos reconhecido pela ciência, embora não da forma simplista como imaginamos.

Tei-gi: representação das forças opostas que regem o Universo

 Em 1947, em reconhecimento ao seu trabalho de aprimorar a teoria quântica e desenvolver o modelo quântico do átomo, Niels Bohr foi condecorado com a Ordem do Elefante da Coroa dinamarquesa. Por tudo que aprendera com esta nova ciência, para o evento Bhor encolheu o tei-gi para seu brasão de armas, adornada com a frase em latim “Contraria sunt complementa” (“Os opostos se complementam”). Era uma sutil reverência à sabedoria das milenares filosofias e religiões feita por um dos maiores cientistas do século 20.

Brasão de armas de Niels Bohr

Muitos engenheiros, cientistas e outros profissionais hoje mantêm um tei-gi à vista, como lembrança da complementariedade de tudo o que fazem, mesmo que não sigam uma filosofia taoísta. Otimistas tendem a ver apenas o lado Yang das coisas e situações, enquanto pessimistas só veem o lado Yin, e ambos tem visões parciais e distorcidas da realidade. Para estes profissionais, entretanto, é preciso perceber tanto os lados Yin e Yang de cada coisa ou situação para ter uma ideia ampla, não distorcida e unificada da realidade – a visão do tao.

É desta complementariedade dinâmica que surgem muitos comportamentos emergentes da obscuridade do caos para a ordem facilmente observável.

As órbitas de Newton

Em seus trabalhos, após anunciar a Lei da Gravitação Universal e as três leis da dinâmica dos corpos, Newton imaginou um experimento.

Se um poderoso canhão fosse levado para o topo de uma montanha bem alta e disparasse uma bala com pouca força,  a bala tenderia a seguir em linha reta por inércia, mas a gravidade puxaria a bala, arqueando a trajetória e ela cairia no planeta um pouco adiante. Aumentando progressivamente a carga, a bala iria cada vez mais longe. Entretanto, a Terra é esférica e limitada, o que quer dizer que com uma determinada carga mínima, a bala iria tão adiante que ultrapassaria a curvatura da própria Terra. Sem atrito para reduzir sua velocidade, a bala por um lado estaria sempre em queda livre, porém sua inércia a manteria sempre indo além dos limites da superfície da Terra.

É assim que os corpos entram em órbita.

Depois, Newton usou o cálculo integral que ele mesmo descobriu para mostrar que a órbita que ele previra obedecia às leis de Kepler, incluindo o formato elíptico da órbita.

Diagrama explicando a órbita de Newton

A explicação de Newton para a órbita possui uma sutileza só recentemente reconhecida. Em termos modernos, ao aplicar duas regras simples à bala (gravitação e inércia) ele descreveu um comportamento emergente da interação da bala com o planeta, que é a manutenção desta bala em órbita, a qual está inscrita sobre um atrator estranho que lhe confere a forma elíptica, e daí sua estabilidade.

Qualquer perturbação nas condições da bala que não a levem a colidir com o planeta ou escapar da sua gravidade sempre conduz a uma órbita elíptica estável. O sistema é tolerante a falhas e apresenta forte estabilidade dinâmica.

O exemplo da órbita de Newton mostra que comportamentos emergentes e atratores podem surgir mesmo entre os sistemas mais simples.

Um atrator estranho diferente

Em agosto de 2013, uma discussão no fórum 4chan acabou virando notícia em vários jornais pelo mundo. Segundo o relato, um administrador de rede instalou num servidor Linux da empresa em que trabalhava, um programa servidor do jogo Quake III Arena, para que os funcionários jogassem na hora do almoço. Para que ninguém entrasse sozinho na arena do jogo, ele dispôs 16 bots (jogadores controlados pelo computador e com inteligência artificial para criar estratégias adaptativas) que ficavam constantemente se digladiando. O tempo foi passando, o interesse pelo jogo foi diminuindo  até ser completamente esquecido. O servidor, bastante estável, dispensava manutenção e atenção do administrador. E assim se passaram quatro anos, com os bots guerreando entre si sem parar, matando e renascendo num ciclo sem fim.

Um dia, o administrador teve que mexer nesse servidor e lembrou-se do servidor do jogo, e decidiu entrar. Para sua surpresa, os 16 bots estavam parados, desarmados, e apenas acompanhavam com a cabeça o movimento do avatar do jogador dentro da arena. Ele até trocou a arena, pensando haver algum problema com o servidor do jogo, mas todos os bots continuaram parados. Intrigado, o administrador experimentou dar um tiro mortal em um dos bots, e a reação foi imediata. Os bots correram para a arma mais próxima e mataram o jogador. Quando o administrador tentou entrar novamente na arena, o servidor do jogo caiu e ele não tentou entrar novamente. Olhando para os arquivos do servidor, o administrador descobriu que o banco de dados de inteligência artificial tinha alcançado 8 gigabytes, sendo meio gigabyte para cada bot.

Quake III Arena: bots de combate fazendo a paz

Esta história não teve comprovação e pode muito bem ser apenas uma farsa, mas todos os especialistas em inteligência artificial foram unânimes em afirmar que ela é plausível.

Cada bot segue as mesmas premissas básicas. Primeiro ele tem de sobreviver e depois ele tem de matar, nessa ordem. Se a ordem for invertida, o bot se torna um homicida-suicida enlouquecido e se torna um alvo fácil. Após jogos sem fim, matando e morrendo na arena contra outros bots que seguem regras básicas e mecanismos iguais, vai ganhando importância (emergência) para a inteligência artificial o fato de sobreviver sobre o fato de matar. Cada bot aprende essa sutileza sozinho, ao seu modo sobre as diferentes situações de sucesso e fracasso de cada estratégia que ele toma.  O aprendizado de todos os bots então converge para uma mesma conclusão. Em determinado instante, estabelece-se um equilíbrio: se um bot não tentar matar o outro e houver reciprocidade, ambos sobrevivem e ambos lucram dessa forma.

Esta conclusão é prevista pela Teoria do Jogos, e o equilíbrio atingido é chamado de Equilíbrio de Nash (do mesmo John Nash, matemático ganhador do Premio Nobel de economia em 1994 e retratado no filme “Uma Mente Brilhante” com Russell Crowe no papel principal). Entretanto, os bots não conhecem as regras da Teoria dos Jogos nem o Equilíbrio de Nash para chegar a essa conclusão. É jogando e aos poucos aprendendo que cada bot vai chegando a esse comportamento emergente de não agressão mútua.

Do ponto de vista dos especialistas em dinâmica de sistemas, o Equilíbrio de Nash, em vez de ser interpretado como uma lei matemática inflexível como é o Teorema de Pitágoras, ele se apresenta como um atrator estranho para o qual o comportamento dos bots converge. Mas, por incrível que pareça, este não é um atrator estranho não só para bots, mas para humanos principalmente.

Há um bom exemplo paralelo no mundo real com seres humanos. O local é em algum ponto de Flandres, na Bélgica, no natal de 1914, envolvendo soldados ingleses e alemães.

Era o quinto mês da Primeira Guerra Mundial e as mortes, os ferimentos, as mutilações, a saudade da família e as péssimas condições de vida nas trincheiras sob um clima muito frio já haviam desgastado o espírito nacionalista-ufanista dos dois lados. Mas ainda assim os dois lados se vigiavam mutuamente.

Na noite de Natal, os ingleses percebem movimentos estranhos, com luzes de velas vindas das trincheiras alemãs. Os alemães estavam montando árvores de natal e rompendo o silêncio ao som de “Stille Nacht, Heilige Nacht”, numa confraternização entre amigos na falta das famílias. A isto os ingleses respondem cantando em coro “Silent Night”. Logo o silêncio retorna, mas não por muito tempo.

A certa altura, os ingleses passam a gritar “Good, old Fritz!” e são respondidos com inglês arrastado “Merry Christmas, Englishmen!”,  mas logo seguidas das inesperadas palavras “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não atiram”). Das trincheiras alemãs sai um oficial, de mãos ao alto mostrando estar desarmado, caminhando ruma à “Terra de Ninguém” entre as duas trincheiras. Do lado inglês, outro oficial sai com a mesma atitude, e ambos se encontram no meio do caminho e dão um aperto de mão fraternal, sendo logo seguidos pelos outros soldados, que se cumprimentam como velhos amigos. Funerais aos mortos espalhados pela “Terra de Ninguém”, alguns mortos há meses, foram feitos, foram trocados pequenos presentes de Natal (coisas simples e disponíveis, como botões, garrafas de bebidas e lenços), e até mesmo uma partida de futebol com bola improvisada foi organizada. A notícia logo se espalhou rapidamente pelas trincheiras e a confraternização ocorreu em vários pontos ao longo das linhas de batalha, deixando os oficiais dos dois lados completamente enfurecidos. Tiros da artilharia logo encerraram as poucas horas da inesperada trégua daquele Natal diferente.

O fato histórico foi lembrado por Paul McCartney em seu videoclipe “Pipes of Peace”:
Paul McCartney - Pipes Of Peace



Nos anos de 1915 e 1916 um equilíbrio diferente ocorreu nas mesmas trincheiras. Estes foram anos de imobilismo da guerra, com a frente de batalha nunca avançando ou recuando fora de uma faixa de 15 quilômetros. Com a ferocidade dos combates, os ferimentos se multiplicavam, a necessidade de enfermeiros e suprimentos médicos aumentava, as provisões de água e alimentos eram destruídas, novos soldados eram necessários para repor os mortos e feridos, as munições se esgotavam rapidamente, e reabastecimento de todos esses recursos se tornava muito mais difícil e caro. Numa guerra onde um lado não leva vantagem sobre o outro, logo se percebeu que o acirramento dos combates era inutilmente desgastante, e longos períodos de calmaria, de trégua não declarada passou a ocorrer. Sem atirar no inimigo, o inimigo não respondia ao fogo e não feria seu companheiro do lado. A melhor forma de permanecer vivo e inteiro era não atirar no inimigo e ser correspondido na mesma medida pelo outro lado, numa solução ao problema em muito semelhante ao dos bots do jogo Quake III.

 Há um caso relatado que durante uma dessas longas tréguas, um soldado raso alemão adormeceu e caiu sobre seu próprio fuzil, disparando-o, mas sem causar ferimentos. Assustado, imaginando a pior resposta do outro lado ao estampido acidental, o soldado saiu de dentro da trincheira, aos prantos e com as mãos ao alto, pedindo desculpas ao inimigo pelo seu engano e implorando para não revidarem o fogo. Ninguém do outro lado atirou. O medo de disparar e o fogo ser respondido era grande demais para qualquer soldado de qualquer lado puxar o gatilho sem um bom motivo.

Aqui há uma relação importante. Soldados virtuais ou reais instruídos para extremar a agressão apresentando um comportamento emergente de fazerem a paz, o contrário do que foram instruídos a fazer?
Esta imagem é recorrente em todas as escalas do espaço e do tempo, e daí a importância da compreensão do que representa o tei-gi. Quando um processo se torna extremo para um lado, logo surge um outro processo que se opõe em igual medida que irá tomar o seu lugar. Quanto mais radical um processo for num sentido, mais radical tende a ser o processo que irá se opor a ele, apesar de a simetria se manifestar de formas diferentes. Um processo intenso e rápido pode sofrer a oposição de outro processo brando, mas de longo prazo.

Esta é uma mecânica do nosso Universo em busca do equilíbrio dinâmico entre seus componentes, e ele se revela muitas vezes na forma de comportamentos emergentes.

Este caso é importante para avaliarmos o presente e o futuro do trânsito. Há diferentes atratores que ditam os comportamentos dos motoristas no trânsito. Sem compreendermos que atratores são estes e como eles se comportam, não compreenderemos muitos dos fenômenos relacionados com as decisões individuais dos motoristas. Para o futuro, aos poucos teremos a introdução de carros autônomos que certamente terão boa parte de seu comportamento determinado por sistemas de inteligência artificial. Não temos noção do que esses módulos aprenderão, nem para que atratores desconhecidos os comportamentos desses veículos irão convergir. Carros autônomos podem evoluir para comportamentos emergentes até opostos para aqueles a que foram propostos, como ocorreu com os soldados reais e os bots virtuais.

O poder do sincronismo

Como marco comemorativo da virada do milênio, foi criada uma ponte para pedestres sobre o rio Tâmisa em Londres, chamada de Millennium Footbridge. Para parecer futurista, a ponte fora construída suspensa sobre cabos de aço, em avançado projeto arquitetônico.

No dia da inauguração, os londrinos compareceram em massa para apreciar a nova grande obra de arte que ornaria a cidade. Entretanto, quando a multidão tomou a nova ponte, um estranha oscilação surgiu, dificultando o caminhar e embaralhando o sentido do equilíbrio de muitas pessoas, que acabaram passando mal.

Esta oscilação pegou os engenheiros e arquitetos de surpresa. Desde o acidente da ponte do rio Tacoma, nos Estados Unidos, rigorosas medidas foram tomadas para evitar danosos efeitos de ressonância em pontes e edifícios, e esta ponte fora projetada com especificações muito mais rigorosas que as normas vigentes. Não era para ela para ela ressonar, mas ainda assim ela oscilou em ressonância.



A explicação para o fenômeno é que a ponte fora projetada com grande elasticidade, para transmitir uma sensação futurística de caminha no espaço aos transeuntes, algo como andar na corda bamba. O que ninguém pensou foi que a elasticidade da ponte conectaria fisicamente todos os pedestres, induzindo-os a se moverem em sincronismo. O sincronismo do caminhar dos pedestres era a força motriz das oscilação da ponte e a oscilação era o estímulo a todos os pedestres caminhares em sincronismo. A ponte não possuía uma oscilação natural, mas ninguém imaginou que a massa de pedestres ressonassem por sincronismo. Era um efeito de realimentação positiva, um comportamento emergente do sistema.

Aqui temos um vídeo legendado de uma apresentação do professor Steven Strogatz, pai da moderna ciência matemática das redes, que fala de sincronismo, focando especialmente o caso da ponte.

Cérebro x cérebro

A Copa do Mundo de Futebol vem aí, e como é comum nos jogos da Seleção, ao tocar o hino nacional, todos colocam a mão no peito e cantam seus hinos nacionais com prazer.  Há um prazer especial nisso, há a sensação de pertencer a uma unidade maior e que cantar reafirma essa sensação. Há mais nisso do que parece.

Quando se faz um evento grandioso, onde a multidão canta ou ora junta , um fenômeno sutil de sincronismo ocorre. Se tirarmos eletroencefalogramas de algumas pessoas escolhidas aleatoriamente dentro dessa multidão,  completamente desconhecidas umas das outras, os sinais elétricos entram em sincronismo entre si e também com o ritmo da música ou da oração. E quanto mais a plenos pulmões a canção é cantada ou mais alta a oração é entoada, maior o efeito, e mais alto as pessoas cantam e entoam. Entre as pessoas mais sugestionáveis até mesmo os batimentos cardíacos entram em sincronismo.

Nos casos mais extremos deste estado de sincronismo, a percepção da realidade se transforma, estabelece-se uma sensação de êxtase que banha o cérebro em endorfina, o centro de compensação e prazer do cérebro fica excepcionalmente ativo, os mecanismos regulatórios da lógica e das regras sociais são suprimidos, e as portas da sugestão ficam abertas. A sensação é prazerosa, e em alguns casos a descrição é a de se estar em comunhão com um ser superior em uma dimensão paradisíaca.

Nossos cérebros evoluíram de forma a se sincronizarem com facilidade, e os efeitos do sincronismo cerebral são capazes de dobrar até as mentes mais resilientes. Sem os efeitos de sincronismo, não seria possível o sentimento de empatia, necessário para um elevado grau de sociabilidade do ser humano.

Natural sincronismo entre cérebros diferentes podem ser induzidos de forma simples

Entretanto, o sincronismo também é um importante mecanismo para transformar as pessoas em fanáticos e radicais.

Hitler costumava dizer que sentia algo como um orgasmo quando discursava. Seus longos discursos levavam não só ele, mas toda multidão alemã ao sincronismo e à sugestão irrestrita  mesmo das idéias mais absurdas, arrastando o país para uma guerra de porte intercontinental.

Após a guerra, muitos alemães afirmavam que não entendiam como um único homem podia ter enfeitiçado a mente de tantos a ponto de fazerem barbaridades que não teriam feito de sã consciência.

Hitler: ressonância cerebral em larga escala como ferramenta de manipulação popular

Computador x computador

Vamos pensar em dois computadores jogando xadrez, usando programas diferentes. Cada programa possui sua própria lógica de funcionamento, mas ambos tentam a mesma coisa: sobrepujar o outro, jogada após jogada, prevendo o movimento do adversário e tentando achar a melhor linha tática a ser tomada, que precisa ser realinhada a cada jogada. Quando olhamos para dentro dos dois programas em funcionamento, vemos que um programa responde ao outro através das jogadas feitas no tabuleiro. A lógica de um programa “ecoa” dentro do outro através das jogadas que faz numa condição recíproca entre ambos os oponentes, e bons programas entram em sincronismo, como um casal bem entrosado dançando uma valsa. 

Pode parecer estranho, mas quando essa ressonância é muito forte, bons programas de xadrez nem sempre jogam partidas memoráveis em qualidade tática. Alguns jogos de computadores contra computadores podem estar mais do nível de principiantes medíocres.

Máquinas ressonam, apesar de programadas como estanques a fatores externos

Esse sincronismo é um processo que normalmente escapa ao senso comum. Quando o programa é escrito, seu programador pensa apenas num algoritmo linear, capaz de oferecer as melhores jogadas para uma determinada configuração de peças sobre o tabuleiro. O programa é pensado desde o princípio como um sistema estanque, trancado no interior da máquina, como se nada o perturbasse em sua lógica fria e precisa. 

Mas quando os programas estão frente a frente, as seqüências de jogadas de ambas as partes são ponderadas pelos dois programas, de forma que a lógica de um programa interfere com a lógica do outro. Por mais que o programa tenha sido programado com fonte fechada, seu funcionamento fica aberto para o ambiente e reage a ele. Se dois programas se relacionam através desse ambiente (tabuleiro e peças de xadrez), ambos os programas sofrem uma interferência cruzada da lógica do outro programa. E eles entram em sincronismo, por mais que tenham sido imaginados como estanques por seus programadores.

Obter comportamentos emergentes estranhos nestas situações é um fenômeno comum, e o resultado  muitas vezes escapa do comportamento previsível e preciso que geralmente esperamos dos computadores. Esta é uma das maiores dificuldades para se programar robôs autônomos.

Um bom exemplo de como ainda é muito pobre o comportamento entre inteligências artificiais avançadas em razão da ressonância, podemos ver no vídeo a seguir, onde a conversa entre duas inteligências artificiais (no caso, simétricas) não gera uma conversa consistente:





Uma amostra de comportamento emergentes em robôs

No vídeo a seguir, vemos a demonstração de um robô apresentando dois comportamentos emergentes:



O vídeo é bem explícito. O robô apresenta dois comportamentos que não foram programados. Eles ocorrem por interações não lineares entre as partes do programa de controle.

Comportamento emergente não é bug. Se esses comportamentos ocorressem num equipamento de produção em série e um programador despreparado fosse corrigir a programação, ele poderia procurar o bug o quanto quisesse, que não iria encontrá-lo. No caso do robô, é preciso olhar para o conjunto de funções do programa e compreender certas formas estranhas de relacionamento entre elas para perceber como esses comportamentos emergentes ocorrem, mas é preciso uma mente preparada para perceber esta situação.

Durante a apresentação, é demonstrado a forma de sair da frente dele para que ele apresente o comportamento de vagar aleatoriamente pela sala. Mas se uma pessoa aparecer à sua frente enquanto ele vaga, o funcionamento previsto na programação é retomado e o comportamento emergente cessa.

Certos comportamentos emergentes são raros de aparecer, e como são caóticos, podem surgir sem razões aparentes ou relacionáveis. E da mesma forma como surgem, podem desaparecer misteriosamente.

Outra observação importante: como o comportamento emergente não é um defeito, o sistema apresenta o comportamento estranho enquanto as rotinas do sistema operam como se tudo estivesse normal, e não deixa rastros que possam ser seguidos que ajudem a diagnosticar ou periciar o problema.

Muitos sistemas com comportamentos emergentes estranhos não possuem diagnóstico porque o mecanismo do comportamento não é evidente e nem deixa rastros para sua análise.

Dada a raridade com que alguns comportamentos emergentes se manifestam, quase sempre na presença apenas de leigos, da estranheza desses comportamentos, além da dificuldade natural de diagnóstico, é muito comum técnicos e engenheiros considerarem o caso como mera mistificação das testemunhas, algo digno das crendices populares, quando o caso pode ser mais sério do que eles possam imaginar.

Um acidente muito estranho

Um dos maiores acidentes aeronáuticos de todos os tempos foi a do Vôo 004 da Lauda Airlines, companhia do piloto Niki Lauda, e o único grande acidente com Boeing 767, que entrara em operação comercial havia poucos meses.

767 Mozart da Lauda Airlines

Há muitas referências a este acidente espalhadas pela internet, e cada uma apresenta uma versão diferente dos fatos, algumas com versões parciais, outras contam detalhes fictícios, de forma que prefiro me basear no relatório oficial de investigação do acidente, e que pode ser lido aqui

A caixa preta de instrumentos foi destruída pelo fogo, mas vários dados do vôo foram recuperados da memória não volátil da unidade de controle do motor esquerdo, que permaneceu intacta após o acidente, assim como a caixa preta de gravação das conversas dos pilotos.

Este é um resumo da seqüência de eventos que levaram ao acidente, conforme os registros:
– O vôo NG004 da Lauda Airlines, utilizando um Boeing 767 (unidade “Mozart” para a companhia), estava agendado para sair de Hong Kong com destino a Viena, com escala em Bangcoc no dia 26 de maio de 1991;
– O primeiro trecho da viagem, entre Hong Kong e Bangcoc ocorreu sem incidentes, e a aeronave partiu de Bangcoc para seu destino final em Viena às 16:02;
– Condições climáticas excelentes, com visibilidade para além de 10 km e ventos suaves de 6 nós (cerca de 3 m/s);
– Todas as rotinas de pré-vôo, movimentação em terra e de vôo são normais até 5 minutos e 45 segundos após ser ouvido o ruído dos motores sendo acelerados para decolagem;
– A partir de então, segue-se um diálogo entre o piloto e o co-piloto de 4 minutos e meio sobre uma indicação de falha da válvula de isolamento do reverso;
– Durante esta discussão, o manual de referência (Quick Reference Handbook) da Boeing é consultado, e lá consta que a indicação não aponta um problema real e nenhuma atitude de correção é necessária por parte da tripulação, e nenhuma atitude real parece ser tomada;
– Como a indicação luminosa de falha era intermitente e não constante como deveria, e dadas as observações do manual da Boeing, o co-piloto ponderou que o problema talvez fosse apenas alguma sujeira interferindo em algum sensor;
– Aos 15 minutos e 1 segundo, ouve-se o grito do co-piloto “Ah! Reversos abertos!” (“Ah! Reversers deployed!”), seguido um enorme ruído que toma conta da cabine, cobrindo qualquer conversa que tenha ocorrido desde então;
– Vinte e nove segundos depois a gravação se encerra com sons de rompimento estrutural;
– 213 passageiros e 10 tripulantes mortos — o maior acidente aeronáutico até aquela data.



O acidente ocorrera em virtude da abertura indevida do reverso do motor esquerdo. A assimetria de propulsão fez o avião descer fora de controle até colidir com o flanco de uma montanha coberta por uma floresta densa. A geografia do local concentrou os destroços, facilitando o trabalho das equipes de resgate e de investigação.

Reverso aberto do motor esquerdo de um Boeing 767

A análise dos dados do computador do motor esquerdo mostrou que uma anomalia ocorreu entre os canais A e B (canais redundantes) de posição de abertura do reverso, e que a abertura ocorreu com o aparelho em vôo com potência de subida, seguida da lenta mudança automática do manete de potência para a posição “idle” (marcha-lenta). As leituras de velocidade do Pitot do motor indicam que as velocidades passaram de mach 0,78 para mach 0,99, mas com grandes incertezas sobre esses valores. O computador do motor registra ainda que a chave de corte de combustível do motor esquerdo foi comutada cerca de 10 segundos após a abertura do reverso, sendo que a chave física realmente foi encontrada nessa posição em meio aos destroços.

Durante as investigações foram levantadas doze hipóteses como possíveis causas do acidente, e uma a uma, onze foram derrubadas, em análises em detalhes pelo relatório. Somente uma hipótese foi deixada em aberto, porque esta não pode ser reproduzida: comando indevido do computador. Entretanto, as investigações mostraram um ponto crucial: o desbloqueio e a abertura do reverso é um procedimento complexo e que precisa ser feito na seqüência correta para evitar a abertura acidental. Somente através da seqüência de procedimentos de abertura comandado pelo computador é que o reverso poderia ser completamente aberto como foi. Os dados mostrando que a manete de potência retornando a "idle" automaticamente reafirmam que a abertura do reverso foi operada pelo computador.

O Boeing 767 havia entrado em operação havia poucos meses antes do acidente, e era considerado como o máximo em tecnologia embarcada e segurança na época. Muitos dos seus sistemas eram totalmente automatizados e independiam da ação dos pilotos, como era a ação do reverso.

Toda a aviônica do aparelho passara por processos de homologação de hardware e software que demoraram anos para acontecer, e não havia qualquer restrição técnica ao seu uso.

Questionada durante as investigações sobre a recomendação do manual indicando que o alerta de falha da válvula de isolamento não necessitaria de correção ou mesmo de preocupação por parte da tripulação, a Boeing afirmou que estas luzes se acenderam sem motivo durante os testes de qualificação dos protótipos, sendo que nenhum incidente, por menor que fosse, havia sido percebido. As luzes eram acesas pelo computador e não por alguma chave eletromecânica que pudesse falhar e causar o acendimento intermitente. A intermitência indicava algum mau comportamento de alguma rotina do computador.

A Boeing havia documentado que na época investigara as causas do alerta, e nada encontrara, nem na parte física da aeronave e nem na extensa programação dos computadores. Na falta de explicação para o acendimento indevido e intermitente do alerta e na ausência de indicação de riscos, por menores que fossem, a Boeing simplesmente documentou instruções no manual para que as tripulações ignorassem sumariamente o comportamento anômalo do alerta.

Em resumo, a Boeing documentou o problema como um “gremlin” inofensivo por não saber onde ele estava e nem como eliminá-lo. E este não é um caso único.

O relatório sugestiona que toda parte de aviônica dos motores seja reavaliada e modificada bem como todo subsistema de reversos, em virtude das dúvidas que pairam sobre o caso.

Ao longo dos anos seguintes todos os 767 tiveram seus aviônicos trocados e mais nenhum acidente grave ocorreu nem nenhum comportamento estranho perigoso foi reportado.

Até hoje o caso do Vôo 004 da Lauda Airlines é um mistério sem explicação para a ciência dos sistemas de controle, e por isso mesmo se tornou um caso clássico sobre os riscos desconhecidos da automação irrestrita.

Nenhum erro de programação foi encontrado em toda aviônica, e nenhuma simulação conseguiu reproduzir completamente a falha, assim como nenhuma tentativa de abrir o reverso por meio de uma falha simples de componentes foi bem sucedida.

Definitivamente, o computador comandou a abertura daquele reverso, mas mediante qual lógica de controle, isso ninguém sabe.

Para os pesquisadores, este é provavelmente um caso de comportamento emergente do tipo que raramente se manifesta e sob condições muito específicas. Também é possível que os vários computadores da aeronave tenham entrado em um sincronismo ao trocar dados em milésimos de segundo, o que levou um deles interpretar erroneamente que o avião estaria em condição de pouso e comandado a abertura do reverso.

Para os engenheiros apegados às teorias clássicas de controle, a teoria do caos não se aplica, mas também não oferecem nenhuma outra teoria alternativa que explique o caso.

Este acidente não é um fato isolado. Vários acidentes e incidentes, tanto em aviões civis como militares, possuem forte suspeita de falhas ou comportamentos indevidos da eletrônica embarcada como causa desses acidentes. E não só sistemas aeronáuticos saem de controle. Plataformas de petróleo, sistemas metroviários, centrais de logística de correspondências e mercadorias e muitos outros sistemas altamente automatizados já sofreram de panes inexplicáveis, tanto de pequena como de larga escala e que se assemelham muito com comportamentos emergentes.

O caso do acidente da Lauda Airlines é um alerta para fabricantes e consumidores para comportamentos estranhos vindo de sistemas computadorizados cada vez mais complexos que controlam o veículo além do controle do motorista, e isso vale tanto para os carros atuais com sistemas drive-by-wire, assim como os futuros carros autônomos.

É bom lembrar que os sistemas eletrônicos dos automóveis não passam pelo rigor de homologação oficial internacional dos aviônicos, processo que pode levar mais de uma década para ser efetivado, e o número de automóveis é muito maior que o de aviões, o que aumenta muito a probabilidade de acidentes por comportamentos emergentes indesejáveis  desses dispositivos.

Outro caso aeronáutico

O caça americano F-104 StarFighter teve uma ficha operacional muito ruim em seus primeiros anos. Falhas constantes de turbina, bancos ejetáveis da primeira versão que ejetavam pra baixo, impedindo a ejeção a baixa altitude, trocados depois por bancos que ejetavam para cima lentos demais e permitiam a colisão do banco com a cauda do avião... Foram muitas as mortes ao ponto dele ser conhecido como “fazedor de viúvas” e “ataúde voador”.

Porém, nenhum desses problemas era mais aterrador aos pilotos que uma estranha vibração que geralmente surgia bem pequena, sentida no manche, e que progressivamente crescia, para às vezes desaparecer da mesma forma como surgira, ou então continuar crescendo até gerar o total descontrole do aparelho, quase sempre terminada com a morte do piloto.

F-104 Starfigther

Ninguém conseguia ter sequer uma idéia da origem dessa vibração. Ela podia aparecer em vôo nivelado em alta velocidade subsônica, ou poderia surgir na aproximação final para pouso. Aviões idênticos voando lado a lado, sob as mesmas condições, poderiam ter um afetado pela vibração e outro não. Aumentar ou diminuir a velocidade ou gerar manobras bruscas não garantiam seu desaparecimento. Não havia um padrão reconhecível para seu aparecimento que ajudasse a desfazer o mistério. A USAF (Força Aérea dos Estados Unidos) e a Lockheed, fabricante do aparelho, chegaram ao ponto de construir uma reprodução em bancada de todo sistema hidráulico do avião para tentar investigar a origem dessa oscilação e nada foi encontrado.

Sem solução, a USAF decidiu manter os F-104 no chão e providenciar um substituto. Parecia um destino triste e cruel para um dos mais belos caças já construídos.

Nesta época, a Alemanha Ocidental e a Itália estavam à procura de caças supersônicos. A política externa americana não permitia (e ainda não permite) que caças de alto desempenho fossem exportados, e assim empurram o F-104 defeituoso para alemães e italianos.

Os alemães foram os primeiros a receber o avião, e não demorou muito para o “fazedor de viúvas” fazer novas vítimas entre os pilotos da nova Luftwaffe. O caso foi parar nos jornais e criou um impasse diplomático sério com um país que tinha fronteira para o mundo socialista em plena Guerra Fria.

Mas os alemães não se fizeram de rogados. Com sua tradicional habilidade com as máquinas, os alemães desmontaram os F-104, reprojetaram toda parte parte hidráulica e adicionaram uma unidade eletrônica de estabilidade em vôo. As aeronaves reformadas se mostraram extremamente confiáveis, servindo por muitos anos na Alemanha (F-104G), Itália (F-104S) e Japão (F-104J). Os Starfighters da reserva americana foram reconstruídos com as modificações alemãs sob licença e recolocados em serviço ou vendidos a países aliados. Os últimos Starfighters da Itália saíram de serviço em 2004, quase 50 anos após o projeto do avião.
Com as modificações alemãs, a perigosa oscilação nunca mais apareceu.

Essa estranha oscilação, quando avaliados todos os depoimentos, gravações de pilotos com a torre e de instrumentos nas caixas pretas aponta para um comportamento emergente do conjunto. Ao trocarem a parte hidráulica por outra nova, a “receita” dinâmica do avião foi mudada, e com ela, as condições para o aparecimento da misteriosa oscilação. O problema pode ter sido resolvido, mas a causa da misteriosa oscilação nunca foi descoberta.

O caso do Starfighter exemplifica um fato importante. Comportamentos emergentes dependem de uma “receita” dinâmica do conjunto para se manifestarem. Muitas vezes eles se manifestam sem que os técnicos tenham condições de descobrir sua causa para eliminá-los. Neste caso, um boa dica é mexer na “receita”, o que muda as condições do sistema ao ponto de eliminar o comportamento indesejável. Muitas vezes se mexe no que parece não ter a ver com o problema, mas funciona.

Os mais maravilhosos e valiosos comportamentos emergentes

Dois importantes e altamente sofisticados comportamentos emergentes estão mais próximos de você, leitor, do que possa imaginar. Tanto o fenômeno da vida como o da mente humana são reconhecidos hoje como comportamentos emergentes.

Sabe-se que um ser humano e os demais seres vivos são formados por um punhado de carbono, nitrogênio, oxigênio, hidrogênio, ferro, zinco, cálcio, fósforo e mais meia dúzia de elementos químicos corriqueiros, que em punhados valeriam centavos, e que, dispostos sobre uma mesa, não se juntariam para formar um indivíduo pela lei termodnâmica da entropia. Ainda assim, trilhões de átomos dessas substâncias confabulam desde o nível atômico para tornar animais e plantas algo corriqueiro sobre a face do planeta.

Da mesma forma, a mente humana e seus componentes (consciência, inteligência, sentimentos etc.) são a expressão emergente das interconexões dos neurônios do cérebro.

O próprio Universo é reconhecido como resultado da soma de muitos comportamentos emergentes. A teoria do Big Bang diz que nosso Universo surgiu de uma sopa explosiva e caótica de partículas, enquanto a lei termodinâmica da entropia diz que o fim do Universo está no caos absoluto. Para a ciência estabelecida, o Universo ordenado que vemos é uma mera probabilidade estatística.

Entretanto, a ciência vem descobrindo na própria natureza caótica do Universo uma força de qualidades quase divinas de criação.

Cenas do próximo capítulo

O objetivo desta parte, um tanto off-topic para o assunto “automóvel” na sua aparência, tem duplo objetivo.
Em primeiro lugar, muitas das tecnologias de inteligência artificial, em vez de serem algo deterministas como o funcionamento de um motor, operam por meios estranhos, ainda pouco conhecidos, porém utilizáveis, dos comportamentos emergentes e da Teoria do Caos.

Em segundo lugar, automóveis, sejam eles autônomos ou guiados por humanos, estão rodeados por comportamentos emergentes importantes. Os problemas de trânsito, em especial os congestionamentos, são comportamentos emergentes por excelência, e jamais os entenderemos na sua plenitude e ofereceremos soluções realísticas para eles sem que possamos contemplar sua verdadeira natureza.

Para que ambos os objetivos fossem alcançados, foi necessário escrever este capítulo quase off-topic para compreensão das próximas partes. Portanto, peço desculpas por este artigo não focar mais especificamente o assunto automóvel.

Entretanto, comportamentos emergentes no automóvel será o assunto em foco da próxima parte.

AAD

Fontes das imagens:

84 comentários :

  1. Essa dos discursos de Hitler "enfeitiçando a mente de tantos", está se repetindo atualmente em um certo país tropical. Por maior que sejam as imbecilidades que o "orador" e a "oradora" dos dias atuais profiram, as massas acreditam e aplaudem.

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    1. Ainda vamos sofrer muito com esses governantes
      Doravante temos um povo alienado, desconformado, resignado e uma falta de cultura generalizada
      Isso somado perpetua esse maldito governo

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    2. A diferença é que o Hitler, reconstruiu um país destruido, e a dupla do Brasil está destruindo o país, e antes que falem das "milhoes"de mortes, não esqueçam da nossa guerra civil não declarada nas ruas.

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  2. Muito legal o artigo!!!
    Um exemplo de efeito emergente não seria o fenômeno "whirl mode flutter" que acontecia com as asas das primeiras unidades do avião Lockheed L-188 Electra?
    Obrigado!

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    1. EduRSR, é possível. O motivo alegado na época foi a de que a nacele do motor produzia uma turbulência com frequência igual à de ressonância da asa. Mas o problema pode ser também algo como o sincronismo da ponte Millenium de Londres, que coloquei no texto.

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    2. Duplo harmônico. Há um grande potencial nesses seus textos, André. Sugiro reuní-los em um livro.

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    1. braz portari17/02/14 22:57

      EXCELENTE E TOTALMENTE INESPERADO ESTE ARTIGO DADO SUA ABRANGENCIA E TOPICOS ABORDADOS...SÓ QUEIRA ACRESCENTAR AOS CASOS DOS AVIÕES, O CASO TAMBEM ESTRANHO DO VOO DA AIR FRANCE QUE SAIU DORIO E CAIU NO ATLANTICO....
      DEVIDO A PROBLEMAS NA AVIONICA.

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    2. Braz, o caso do vôo 447 da Air France é diferente.

      Em primeiro lugar, tem muita briga em cima, ainda mais que o relatório final da perícia apontou falha da tripulação.
      Mas uma coisa é inegável. Tudo começou com a falha simultânea dos três pitots.

      O relato mais completo que achei sobre o acidente diz que o Airbus possui 5 computadores numa configuração chamada de "redundância simétrica". Ou seja, são 5 computadores idênticos em hardware e em software, e essa foi uma das causas da falha de aviônica.

      Parece que quando houve a falha simultãnea dos pitots, o programa de navegação estava preparado para a falha de 1 ou 2, mas não dos três, executou uma operação indevida (algo como uma divisão por zero) e travou simultaneamente nos 5 computadores. Esses computadores possuem uma função chamada "watch dog", ou seja, o programa tem que reiniciar um contador a cada X segundos, ou o hardware executa um hard reset. Com o programa travado, os 5 computadores realizaram o hard reset juntos, causando outro problema.
      Toda navegação da aeronave está baseada em acelerômetros, e esse sistema precisa de uma referência inicial de velocidade e posição para funcionar, o que é feito em terra, antes da decolagem. Com o reset, os computadores estavam sem referência de velocidade, posição, altitude, horizonte arfificial, etc.. Após o reset, os computadores partiram de referências zeradas, e, claro, não faziam sentido, como estava falado nas gravações da cabine.

      Pra botar fogo na lenha, depois que a poeira abaixou, a BBC fez um documentário onde, sem falar nada, reproduziram o cenário do vôo 447 num simulador para tripulações treinadas nas técnicas mais avançadas de navegação e pilotagem em Airbus. De mais de 10 tripulações, só uma se salvou do acidente e o piloto era um dos melhores pilotos de caça da RAF.

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  4. "O caso do acidente da Lauda Airlines é um alerta para fabricantes e consumidores para comportamentos estranhos vindo de sistemas computadorizados cada vez mais complexos que controlam o veículo além do controle do motorista, e isso vale tanto para os carros atuais com sistemas drive-by-wire, assim como os futuros carros autônomos."

    Não consigo gostar de acelerador eletrônico.
    Quando resolvi trocar de carro, testei um Classic 2010 com acelerador eletrônico e um 2008, último ano do motor VHC que tem cabo. Escolhi o 2008 por ser mais rápida e direta a resposta ao pé direito e o risco de falha ser menor por ser um sistema mais maduro apesar de menos eficiente. Ah e também porque o 2010 não tinha DH. :-p

    AAD, obrigado pelo post, interessantíssimo como sempre!
    Impossível não reconhecer o trabalho árduo de reunir tantas informações de forma impecável. Mais uma vez, obrigado!


    Vinícius

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    1. Vinicius, pra mim nem é uma questão de gostar ou não. Já trabalhei muito com controles eletrônicos e cansei de ver comportamentos anômalos onde eles não deveriam existir.
      Veja abaixo o relato do colega Martin Ávila Witt. A experiência dele é bem similar à minha.
      Existe uma limitação na tecnologia de automação atual e a própria ciência não sabe onde estão estes limites. Mas muitos engenheiros deconhecem esses limites, e esse é um problema para o qual eu faço questão de alertar.

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  5. Cachorros sabem qual mato comer quando estão com dor de barriga, nasceram com essa informação..........todas as plantas medicinais, que por milênios, foram descobertas pelos seres humanos, não surgiram ao acaso ou por experimentação, acredito que, fazendo parte do todo da natureza, tínhamos essa informação naturalmente. Esse nível de interação com a natureza também poderia ser considerado como um comportamento emergente?

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    1. Quase todo processo evolutivo é emergente por excelência. Existe uma tecnologia importante da inteligência artificial que usa um sistema genético simulado e processos de seleção natural para fazer o computador trabalhar de forma inteligente. São os chamados "algoritmos genéticos". Vou dar uma boa passada por eles num dos artigos dessa série. Fenômenos como esses naturais que você descreve surgem também nas soluções das máquinas.

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    2. Obrigado, André Dantas, grande aula!

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  6. AAD, obrigado por mais essa aula!!

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  7. Muito bom!
    Em escalas muito menores já vi e presenciei comportamentos não previsíveis ou "lineares" em linhas automáticas de montagem de veículos, controladas por vários CLPs e robôs. Logico que lá não havia nada de tão extraordinário que pudesse se chamado de inteligência artificial, mas, situações complexas e jamais pensadas provocam reações e falhas totalmente inesperadas. Vi linha que, já em produção por mais de ano, teve falha com crash entre robôs que não poderia ter ocorrido e, somente depois de muito tempo e muitas situações "testadas" na pratica no dia-a-dai de produção, conseguiram abrir um caminho que possibilitava o "acidente". Quanto mais complexo o sistema (com muitos itens sendo controlados ao mesmo tempo, operações simultâneas, etc...) mais difícil de se rastrear todas as possibilidades de falhas. Realmente, criar equipamentos com sistemas inteligentes de controle (artificiais) é uma responsabilidade enorme e está longe de poder ser considerada 100% segura, com todas as situações previstas e problemas sanados... Quase dá saudade da época do "platinado"....

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    1. Martin, tenho especial atenção a esse tipo de falha há mais de 20 anos, e foi justamente isso que me fez enveredar pelos caminhos estranhos da Teoria do Caos.
      Veja o que eu escrevi sobre um fantasma do elevador neste meu post:
      http://autoentusiastas.blogspot.com.br/2013/06/fantasmas-eletricos.html

      O difícil desse tipo de defeito é que, quando ele acontece, não tem lógica. Vc, enquanto técnico de campo vê o fenômeno acontecendo na sua frente, mas quando relata o problema para o projetista, ele simplesmente diz: impossível. E vc fica rendido, sem saber o que fazer.
      Já passei muito por esse tipo de situação.

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  8. AAD,

    só uma coisa: os casos citados dos bots de Quake e da confraternização entre os soldados da Primeira Guerra não se configuram como um Equilíbrio de Nash. Este se daria se, ao se levantar da trincheira, desarmado e com as mãos para cima, o soldado levasse um tiro do seu adversário, retornando ao clima de hostilidades.

    Guilherme C. Vieira

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    1. Guilherme, é um equilíbrio de Nash sim. É um equilíbrio estável, local, pode ser quebrado por uma perturbação, mas naquela condição nenhum bot consegue a estratégia e sair ganhando. Mesmo que o equilíbrio seja quebrado, o atrator puxa de volta. Vc quebra o equilíbrio, os bots voltam a guerrear, mas de novo sobreviver pesa mais que matar, e os bots voltam a reduzir a intensidade do combate até pararem de novo. É o mesmo que ocorreria se vc pegasse os parâmetros do modelo de Lorentz e jogasse longe. O sistema vai operar um pouco fora do atrator, mas logo retorna a ele. Veja bem, atrator significa que o sistema pode ser perturbado, mas ele retorna ao regime com o passar do tempo.

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    2. AAD,

      mais formalmente, o equilíbrio de Nash não é um equilíbrio absolutamente estável, mas um equilíbrio de ponto de sela - estabilidade condicional. Mais intuitivamente, o equilíbrio de Nash se dá quando nenhum dos participantes consegue melhorar a sua situação sem depender do comportamento condicional dos outros participantes do cenário estratégico. Ou seja, sem precisar de conluio, explícito ou implícito. Este último era o caso dos exemplos citados no texto.

      Guilherme C. Vieira

      PS: desculpe-me pelo pedantismo das correções.

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    3. Prezado Guilherme,

      Você está correto ao afirmar que a situação do Quake não configura equilíbrio de Nash. O fato de o jogo ser repetido infinitas(desconhecidas) vezes é que trouxe o equilíbrio para o melhor pay-off possível para todos. O primeiro bot que abandonou a estratégia "matar" não estava na sua melhor estratégia dadas as estratégias dos outros, logo, não é Nash.

      A situação do Quake assemelha-se à do dilema dos prisioneiros, em que o único Nash é a dupla(múltipla) delação e o pay-off não é o maior para nenhum jogador.

      No entanto, é perfeitamente possível um equlíbrio de Nash estável (com número finito ou não de repetições), ainda que não seja o caso.

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    4. De forma alguma, Guilherme. A discussão é sempre positiva.

      Da Wikipaedia:
      "O equilíbrio de Nash representa uma situação em que, em um jogo envolvendo dois ou mais jogadores, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente."

      Ocorre que o "mudando sua estratégia unilateralmente" não significa que os bots não possam criar estratégias de colaboração, que é o foco do dilema dos prisioneiros.
      A melhor solução simultânea para o dilema dos prisioneiros é justamente o colaborativo, especialmente em jogos cíclicos, como ocorre no Quake III.

      São 16 bots simétricos em termos de objetivos e de inteligência artificial, apesar de personalidades diferentes. Partida após partida, sobressai a capacidade de sobreviver ao de matar.
      Eu não sei como a solução evoluiu exatamente, mas vou dar meus chutes.

      Primeiro, os bots devem ter aprendido que se movimentando menos, eles se expõem menos, e com isso sobrevivem por mais tempo.
      O segundo passo é uma redução progressiva da agressividade. Nenhum bot deve ter abandonado de vez a agressividade, mas devem ter preservado a capacidade de auto-defesa. Se um bot reduz sua agressividade mas mantém sua capacidade de auto-defesa, ele se expõe menos tentando matar os outros. Ele sobrevive mais e tem uma estratégia melhor que a antiga, e a inteligência artificial incrementa esse comportamento. Se dois bots com estratégias de menor agressão se encontram, a ferocidade do encontro é menor, as chances de sair vivo do encontro é maior, e o comportamento de não agressão entre eles é reforçado em ambos. Se um bot de agressividade reduzida encontra um bot com agressividade normal ou aumentada, ele vai se defender, mas o que ele aprende se defendendo não incrementa a capacidade ofensiva. Uma hora estabelece-se uma estratégia comum do tipo "eu não atiro e você também não".

      Se um novo bot agressivo de repente surgir na arena, os 16 originais sabem que não precisam temer uns aos outros, exceto esse único. Para todo lado que este novo bot se mover, ele vai atirar e vai receber tiros de volta.
      Acredito que o nível de inteligência artificial dos bots do Quake permite que eles trabalhem em equipes, e se for assim, o bot agressivo pode ser até mesmo caçado pelos demais. Vai ser um massacre. É exatamente o comportamento que foi descrito quando o jogador disparou contra um bot.
      Isso vai forçar a emergência rápida dos comportamentos de redução da movimentação e da agressividade desse novo bot, recolocando a arena toda de volta em equilíbrio.

      Agora, vejam que interessante:
      http://www.cienciadaestrategia.com.br/teoriadosjogos/capitulo.asp?cap=m6

      Realmente, o atrator não "puxa" os bots por ser um equilíbrio de Nash estático, mas por ser a melhor solução coletiva para o jogo. Mas o equilíbrio de Nash trabalha de forma dinâmica aí.
      Enquanto o comportamento emergente dos bots converge para a paz, cada passo que cada bot dá em direção a ela é uma estratégia vencedora, enquanto voltar atrás representa uma estratégia perdedora. Quer dizer que o atrator impõe ao sistema uma linha de evolução estratégica de sentido único para uma condição convergente, algo como puxar a alavanca do freio de mão. Quando todos os bots evoluem suas estratégias para a paz total, eles atingem um equilíbrio que se um deles tentar voltar atrás unilateralmente, estará assumindo uma estratégia pior que a atual.
      Em outras ṕalavras, enquanto os bots evoluem suas estratégias, eles não estão em equilíbrio embora suas estratégias estejam evoluindo direcionadas pelo atrator. Mas quando todos os bots atingem a paz, eles alcançam um equilíbrio de Nash. Em outras palavras, eles estão sendo atraídos para um equilíbrio de Nash no centro do atrator.

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    6. BrunoL, é preciso tomar um pouco de cuidado com a os textos básicos da teoria dos jogos quando falamos em comportamentos emergentes. Se um bot pirou e desistiu de lutar sozinho, certamente ele saiu perdendo e deve ter voltado à agressividade. Entretanto, a evolução do comportamento rumo à paz deve ter sido progressiva e equalizada por todo grupo. O comportamento emergente, mais que um comportamento individual, é coletivo.

      Processos evolutivos ocorrem dessa forma.

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    7. Prezado André, agradeço e valorizo muito sua resposta. É realmente muito bom, e raro, este tipo de discussão em bom nível na internet. Teoria dos jogos é mesmo um tema interessantíssimo e que dá muito pano pra manga.
      Dando sequência, o texto é brilhante e não há o que discutir sobre o quanto é surpreendente o comportamento emergente dos bots. O que venho apontar é com relação ao equilíbrio de Nash, que não acontece no exemplo dos bots de Quake se olhado da forma tradicional.
      Olhando apenas por round, onde cada round é um jogo, o equilíbrio não-violento alcançado é melhor do que o anterior (violento) para todos os bots, mas não é um equilíbrio de Nash. Veja que o bot teria vantagem unilateral se furasse a trégua sozinho. De maneira análoga à do dilema dos prisioneiros, portanto, o único equilíbrio de Nash é o "matar/matar" (no dos prisioneiros, "delatar/delatar"). O equilíbrio que os bots alcançam através do comportamento emergente ("não-matar/não-matar") é, na verdade, um ótimo de Pareto. O exemplo da wikipedia para “dilema do prisioneiro” serve perfeitamente. Lembrando, cada jogo é um único round.
      Para encontrar o equilíbrio de Nash precisei aumentar um pouco o nível de abstração. Acho que se os bots enxergaram um jogo maior, não limitado a um round, ou seja, notaram que o round era repetido infinitas vezes (se não fosse infinito não se aplicaria), isso leva a um novo “jogo”. Neste novo jogo continua a valer a instrução primária “não morrer”, que maximiza seu pay-off. No entanto, a distribuição destes pay-offs é diferente da de round único, e portanto, do dilema dos prisioneiros.
      Neste jogo infinito, o melhor pay-off é obtido minimizando o número total de vezes que cada bot morre, e isso só é alcançado com “trégua” de todos os jogadores. Um eventual desvio de um bot para “matar” seria punido pelo grupo nos rounds seguintes, o que desincentiva a estratégia se olharmos pro longo prazo. Ou seja, existe um único equilíbrio de Nash no jogo maior, pela sua infinitude, que é justamente a trégua cooperativa, uma vez que qualquer estratégia diferente desta teria resultado pior.
      No entanto, olhando do ponto de vista micro, por round, o equilíbrio de Nash não é o alcançado, mas sim um ótimo de Pareto. Confesso que posso ter interpretado mal o texto, assim como o Guilherme das respostas acima, mas acho que vale a ressalva de que o equilíbrio de Nash ocorre olhando apenas a “big picture” e não em cada round, como seria o intuitivo.
      Lamento pela resposta excessivamente longa e pela enchessão de saco.
      Um abraço!

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    8. BrunoL, um dos problemas de sistemas emergentes com relação à Teoria dos Jogos é que os textos clássicos da teoria mostram rounds bem definidos com início e fim. Já nos sistemas emergentes temos uma massa onde um round termina e recomeça para um elemento,enquanto há vários rounds em diferentes estágios rodando para outros elementos. Isso cria o equivalente a uma massa em transformação contínua. Outra coisa que torna o sistema mais próximo de uma massa é a possibilidade de elementos se associarem de forma colaborativa, e o grupo passa a funcionar como elemento único. São arranjos bastante complexos e escaláveis. Pense que isso é válido para para 16 bots tanto quanto para bilhões de células individuais se juntam pra formar vc.

      Não sei se o ótimo de Pareto é aplicável pro caso dos bots.

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    9. André,
      Como você bem notou minha área de estudo está restrita a jogos mais tradicionais, aplicados principalmente a economia, então não tenho como avaliar.
      De qualquer forma, parabéns pelo texto!
      Abs,

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  9. Wagner Schatzer17/02/14 15:47

    Uma verdadeira aula de filosofia, mecânica e lógica, como há muito eu não lia...

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  10. Como sempre, ótimo artigo.

    Quando li que "Certos comportamentos emergentes... da mesma forma como surgem, podem desaparecer misteriosamente", lembrei daqueles defeitinhos que aparecem no carro só quando estamos sozinhos.
    Ao chegar na oficina, na frente do mecânico, o defeito desaparece misteriosamente.

    Um caso interessante (se é verdade, não sei, mas li em uma revista séria) aconteceu nos Estados Unidos, há muitos anos atrás, nos tempos dos carburadores.
    Um revendedor recebeu a queixa de um cliente que seu carro novo (Buick, se não me engano) afogava toda vez que ele parava para comprar sorvete em determinada sorveteria e deixava o carro parado com o motor e o ar condicionado ligado, devido ao calor.
    Mas, o que era estranho é que o carro só afogava quando ele comprava sorvete de um determinado sabor especial, vamos supor, abacate.
    Quando ele comprava sorvete de chocolate ou morango, nada acontecia com o carro.
    O pessoal da concessionária achou que era brincadeira, e que uma coisa nada tinha a ver com outra.
    Diante da insistência do cliente, um mecânico o acompanhou à sorveteria, e descobriu que o tal sorvete de abacate, devido à pouca venda, era estocado no fundo da loja, e levava algum tempo adicional para ser trazido até o cliente.
    E este tempo extra era suficiente para o carro esquentar e causar "vapor lock" na linha de alimentação de combustível do carro.
    Quando o sabor do sorvete era comum, a entrega era rápida e o fenômeno não acontecia.
    O cliente tinha razão...

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    1. BlueGopher, esse efeito do defeito sumir na cara do mecânico tem nome: chama-se "Efeito Demonstração". Também acontece quando vc vai fazer uma apresentação, e está tudo funcionando. Na hora H, falha tudo.

      Sobre essa história do carro e do sorvete, ela em si é falsa, até onde eu sei. Mas ela tem fundamentação real.

      Existe um efeito nos carburadores chamado de percolação.
      O motorista dirigiu seu possante carro com motor V8 por 100 milhas sem parar, até que ele para num posto pra comer um lanche e abastecer o carro. Mas conforme ele parou, o calor do motor subiu e ficou retido no capô. Entre o capô e o motor está o carburador cheio de gasolina. Com o calor a gasolina evapora formando vapor nos dutos onde deveria ter apenas líquido. Pronto. O carro já não dá partida até esfriar. Carburadores mais modernos, do final dos anos 1960 em diante possuem circuitos especiais para drenar esse vapor, chamados de circuito anti-percolação.

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    2. Lorenzo Frigerio18/02/14 03:40

      O termo correto é "vapor lock", mesmo. A percolação é o gotejamento de gasolina pelos difusores principais que acontece quando a gasolina ferve na cuba por calor extremo, ou quando a bóia está encharcada (típico nos DFV 446 dos Dodge e Opala, pois a bóia é feita de material de péssima qualidade), ou o nível de bóia está incorretamente ajustado para um nível alto. O motor afoga.
      Com o motor em marcha, o carburador pode ter um sistema que explora a percolação (na verdade, um efeito sifão) para complementar a alimentação em alta. Isso é comum nos carburadores Brosol/Solex (chamado "Econostat").

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  11. Sem falsa modéstia, André, tuas matérias juntas com o Autoentusiastas, pra mim, fazem o melhor lugar da internet pra se ler de carros e aprender algo realmente útil e não somente o blá-blá-blá da nova Ferrari ou o que quer que seja de um Nissan GTR.
    Você está de parabéns!!!

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    1. Suponho então que irá achar ruim a continuação do artigo, que como ficou claro vai relacionar todos esses problemas aos carros atuais. E se for um artigo completo, por carro atual quer dizer quase qualquer carro. Existem inúmeros problemas semelhantes com carros equipados com uma simples injeção eletrônica e mais nada de "automação".

      Sistemas mais antigos de "automação" que ainda não envolviam informática também apresentavam bugs e condições inesperadas, muitas delas com a mesma característica de serem difíceis de reproduzir. É comum na parte elétrica e mesmo em carburadores como já deram exemplos.

      Vai ver interessante e útil é falar apenas de conceitos abstratos (recomendaria um bom blog de filosofia) ou então de apenas de Escorts e outras super máquinas "puristas" e "insubstituíveis". Existe uma certa xenofobia de alguns ao falar de tecnologias em carros novos, por mais interessantes e bons que sejam. E ao falar dessas mesmas tecnologias em carros do passado, de repente vira tudo interessantíssimo.

      Lembremos que o 767 existe fazem uns 30 anos e qualquer carro popular dos últimos 10 anos tem um nível de automação igual ou maior que ele. Lembremos também que carros como Ferrari e Nissan GTR são como o 767 no seu lançamento, obras de arte que representam o máximo da engenharia disponível então. Cada um no seu estilo, com mais ou menos aparatos tecnológicos, cada um para um gosto e bolso. E cada um com seus problemas, como em qualquer produto.

      O que se mantém é que sempre alguns torcem o nariz quando eles surgem, mas é quase fatalmente a famosa groselha. Problemas imprevisíveis acontecem toda hora com aerodinamica pura e simples também. O próprio AD acabou de dar um exemplo de um sistema hidráulico que apresentava situação emergente. É um sistema mecânico, sem automação é "purista", um sistema Escort no meio desses aviões GTR de "hoje em dia". Deveria ser perfeito e não ter os mesmíssimos problemas então...

      E, como sempre igualmente, não são os 727 que sobreviveram para contar a história, muito menos tinham índices de acidentes melhores (mesmo numa época em que se voava muito menos)...

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    2. Anonimo, como eu mostrei, até em sistemas muito simples, como o da órbita de satélites, funcionam por comportamentos emergentes.
      Eu deixei justamente o caso do Starfighter por último justamente para frisar que esses fenômenos não precisam de computadores para ocorrer.

      Entretanto, nós temos um problema com a atual tecnologia de controle. O caos faz parte do sistema. Quanto maior, mais complexo e mais interligado for o sistema, maiores as chances do caos emergir do sistema.

      Vou explorar esse problema mais à frente, mas uma das razões de se tomar cuidado com a atual tecnologia de controle é que enxergamos complexidade onde há complexidade, e controlamos complexidades com sistemas complexos. Isso é bailar com o caos.
      Na natureza, a complexidade é obtida através da simplicidade, e daí seu sucesso.

      O problema da complexidade gerada pela complexidade cria um limite de até onde podemos ir com ela, mas isso não é regularmente ensinado aos engenheiros da área de automação. Quando o caos surge no sistema, esses engenheiros não sabem o que fazer, porque o problema não tem lógica.

      Essa teoria que estou apresentando está para a teoria clássica de controle assim como a teoria da relatividade está para a mecânica clássica newtoniana. Ela não faz sentido ao bom senso, mas a mecânica clássica não explica fenômenos cad vez mais facilmente observáveis.
      Como está no texto, isso é ciência e tecnologia de ponta.

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    3. AD é verdade. O texto tinha deixado a entender essa questão que embora existam comportamentos emergentes em qualquer coisa, quando isso envolve o controle de alguma coisa (ainda mais sistemas de muita importância, como os avionicos) isso passa para uma escala de problemas e de gravidade muito maior. E realmente tende a ficar cada vez mais sério e imprevisível com o aumento de complexidade.

      O que critiquei é que alguns já vieram com o mesmo discurso de sempre, interpretando o texto de forma errada e achando que é um problema dos "carros de hoje" e em especial dos mais avançados. Mais uma desculpa para falarem abobrinha de carro x ou y, para exaltar um z que às vezes é bem pior. Como se fosse uma crítica à tecnologia e aos carros com mais tecnologia e o texto é muito mais que isso, sem contar que o problema de emergência depende mais de outros fatores que simplesmente o número de chips ou de novidades num carro.

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  12. BlueGopher
    Essa história de sorvete e vapor lock é ótima e até factível, mas foi inventada. Afirmo isso porque quando gerente de imprensa da GM recebi uma consulta a respeito e para informar corretamente consultei todos os anais de assistência técnica da matriz. Absolutamente nada sobre esse caso.

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    1. Bob, realmente tinha tudo para ser apenas um "causo", mas sempre quis saber se era mesmo só uma história.
      Interessante que até você já tinha pesquisado a respeito.
      Abs!

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    2. Bob.
      Eu trabalhei como consultor técnico em um concessionário GM. Se não me falha a a memória entre 1996 a 2000. Dentre todos outros consultores eu fui escolhido para fazer os testes dos carros antes e depois de consertos, revisões etc. Todos passavam por mim inclusive os novos com revisões de entrada. Entre muitos casos que aconteceram talvez um tenha algo a ver com este post. Certo dia uma cliente que não me recordo bem, se era promotora de justiça ou juizá chegou com seu Kadett 2.0 GLS 1998, que tinha comprado a poucos meses. Veio até mim e disse, “o carro está aqui, resolva. Caso contrário não quero mais” E com calma me explicou tudo que tinha acontecido com o carro, nos poucos meses que estava com ele. O carro dela tinha uma falha que levava o motor a parar de funcionar depois de algumas horas na estrada. Em trajeto urbano nunca acontecia. Mas ao pegar a estrada e depois de algumas horas o motor simplesmente morria, não importando a velocidade, marcha, carga sobre o motor etc etc. A dona do carro foi transferida logo que o comprou. Por esse motivo levou o carro a outros concessionários antes de me entregar a encrenca.. Ela comunicou ao serviço de atendimento da GM, aquela coisa toda, pois várias vezes ficou parada na estrada e até durante a noite. Eu entreguei o serviço a um dos melhores mecânicos e após muita conversa com a cliente anotei tudo que poderia nos ajudar a resolver o problema. Ela inclusive vez questão de autorizar o uso do carro com livre quilometragem a ser percorrida, mas em 30 dias deveríamos solucionar o problema. Caso contrário entraria na justiça. Eu dirigi o carro praticamente 20 dias e mais de 4500 km. Tivemos dezenas de paradas súbitas do motor sem explicação alguma. Após cada parada, que em algumas vezes ocorriam em situação de risco, como em uma curva e chovendo ou numa ultrapassagem na subida, eu e o mecânico providos de vários instrumentos e ferramentas de teste, incluindo o Tech 2, tentavamos encontrar o defeito. O problema erá que na tentativa de dar partida e fazer testes o motor voltava a funcionar e assim ficava por mais ou menos 300 km de uso. Tudo que podia ser feito, foi feito. Até que um dia um engenheiro da GM chegou e falo comigo e com o mecânico. Pediu um Kadett do nosso estoque do mesmo modelo do qual tinha o problema. Carros colocados lado a lado no box e começou a troca de componentes. Foram dias e dias trocando e testando. No final sem muito o que fazer, o engenheiro determinou que boa parte da fiação elétrica do carro fosse trocada. Deu um trabalho enorme. Após a troca dirigi por mais uns dias em todo tipo de estrada e o problema parou. O chicote do carro com problema foi enviado a fabrica, mas nunca fiquei sabendo onde estava o real motivo da falha. Um novo chicote veio para ser instalado no carro de estoque. Entreguei o carro para a cliente e nunca mais teve o mesmo problema. Abraços.

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    3. Lorenzo Frigerio18/02/14 17:51

      Real Power, imagine se a LUCAS fornecesse chicotes para a GM. Você ia ter trabalho.

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    4. Real Power, relato interessante. Esses casos estranhos são assim mesmo.
      No próximo artigo vou contar sobre dois carros que vi os "defeitos" com meus próprios olhos.

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    5. Real Power
      Pelo histórico, uso mais prolongado, estrada, esse sintoma me parece respiro do tanque obstruído parcial ou totalmente.

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    6. Bob. Acredite, fizemos de tudo. Cheguei a andar com o carro sem a tampa do tanque. Tínhamos manômetros na linha de combustível, e tudo mais. O interessante também que se o carro fosse dirigido de forma normal, o problema não acontecia e se acontecia era após maior tempo de uso. Mas se o carro fosse usado mais forte, buscando mais performance o motor morria por pane elétrica. A dona do carro me falou que ela não era do tipo pé leve não. Sempre que pegava estrada andava forte. Independente de usar ar condicionado, faróis ligado ou não o problema acontecia. Mesmo sob plena aceleração do nada as luzes do painel acendiam e o motor parava. Chegamos a constatar diferença de temperatura do chicote no carro em questão. Uma coisa engraçada aconteceu em um dos testes em estrada. Eu estava a mais de 160 km/h prevendo que logo aconteceria a falha. Não me dei conta que estava chegando num posto de policia rodoviária. Passei com tudo e cerca de 10 km a frente o motor parou !!!. Com coração na mão deixei o carro rolar para fora num pequeno trevo que tinha uma descida e consegui tirar o carro da BR. Rezei para o motor pegar imediatamente, coisa que aconteceu depois de minutos. Pegamos outro caminho de volta. Acho que até hoje os policiais não sabem que carro passou lá.

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    7. Tem sido comum desde que foi popularizada a injeção eletronica esses problemas do carro desligar do nada, especialmente em estrada. Quase sempre que não se acha explicação, o motivo está no chicote. Alterações simples como alarme ou rádio também podem dar esse problema, mesmo que não devesse dar.

      O chicote novo apresentava temperatura inferior ao do antigo?

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    8. Lorenzo Frigerio19/02/14 01:28

      Real Power, não havia nenhum código de falha?
      Esse engenheiro da GM certamente era auto-entusiasta: é incrível ver um fabricante bancar esse número absurdo de horas-diagnóstico, quando os mecânicos envolvidos poderiam estar resolvendo um monte de problemas simplórios em outros carros. Nesses casos, a fábrica sai pela tangente e espera o processo, lançando mão de seu enorme Depto. Jurídico para protelar a solução ao máximo e vencer o consumidor pelo cansaço. Vide o caso do Ford Pinto, em que um cálculo de "processos X mudança no projeto" foi feito pela fábrica. Aposto que existem uma série de cálculos similares, onde o valor representado pela perda de um cliente também é considerada. É perfeitamente normal que uma grande empresa faça esses cálculos, mas os documentos são "top-top-top-secret" e provavelmente vão à fragmentadora após o modelo sair de linha.

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    9. Anônimo 18/02/14 21:28.
      O carro era totalmente original, sem nenhuma alteração mesmo.
      Quando resolvemos pela troca do chicote o mecânico falou após um retorno do teste que o chicote novo estava sensivelmente em temperatura mais baixa. Isso foi uma constatação pessoal dele, do tipo que vai passando a mão, verificando possíveis falhas, mal contato etc. Lembro vagamente que o engenheiro e ele estavam falando algo sobre possíveis pontos de resistência no chicote. Quando o carro estava sendo reparado eu aproveitava para dar uma limpada na fila dos carros a espera de teste. Então trocava informações praticamente quando solicitavam um novo teste.


      Lorenzo Frigerio.

      Nunca em momento algum a falha gerou um código, o que nos intrigava. E foi com a troca do chicote que tudo se resolveu. A dona do carro sempre tratou bem as pessoas envolvidas na tentativa de reparação do problema, não era do tipo de cliente que sai gritando etc. Mas tinha muita firmeza no que falava e sempre munida de uma pasta com documentos etc. Em um momento ela me falou que iria pedir a troca do carro e exigir indenizações caso o problema não fosse resolvido. Era a última chance. Acho que a GM preferiu buscar uma solução técnica ao mesmo tempo que ia se preparando para uma briga judicial. Quando entregamos o carro a ela eu afirmei que estava resolvido justamente com o mecânico. Aí ela agradeceu e falou, “seus nome também estão aqui”, mostrado a pasta . Ela estava realmente preparada para uma briga, mas certamente busgava uma solução mais rápida. Eu tive a oportunidade de trabalhar com alguns engenheiros da GM em mais alguns outros casos de reclamações de clientes em relação a seus carros com problemas. Sempre dirigindo o carro e passando informações. Foi um bom tempo aquele. Abraços

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    10. Real Power, imagino ter sido uma época realmente interessante. Apesar da responsabilidade do trabalho e de ter que resolver problemas chatos (com o cliente reclamando ainda por cima e com razão) devia ser bacana todo esse trabalho e o contato com os engenheiros e mecânicos.

      Dizem que a GM nessa época estava no seu auge na questão de atendimento ao cliente. Eu mesmo lembro que tive um problema num Corsa e foi prontamente resolvido sem nem precisar de atendimento e ainda te entragavam uma nota contendo tudo o que foi trocado em garantia.

      Não sei se hoje continua assim e se manteriam uma pessoa para dar tanta atenção aos casos de problemas. Em muitas concessionárias hoje a revisão de entrega nem é mais feita.

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    11. Eu fui trabalhar nesse concessionário GM após sair de um da VW. No primeiro ano eu e mais uns mecânicos formamos um rigoroso controle de qualidade. Já no ano seguinte tivemos nota máxima da GM no setor de serviços, e assim foi por mais 3 ou 4 anos. Quando a direção da empresa resolveu contratar uma consultoria para melhorar o que já era ótimo. Resultado. Corte de custo, justamente os melhores mecânicos, corte de ações que levaram a obter a nota máxima em qualidade de serviço. Isso gerou uma queda no custo do setor de serviços a curto prazo. Foi quando bati de frente com os consultores e falei que em médio e longo prazo a coisa iá acabar mal. Mandei bem “educadamente” os consultores tomarem naquele lugar. Então no dia seguinte estava demitido. Um dos diretores me falou que não teve como segurar as pontas devido ao meu ato. Mas me entendeu e até me deu razão. Ele era contra a consultoria, mas sempre vencido pelos outros diretores. O fato importante aqui é que muitos outros profissionais foram demitidos ou pediram para sair devido a forma que a coisa andou. Resultado. Queda no padrão de serviços, queda na arrecadação e fuga dos clientes. Lembrando que na época mais de 50% dos carros que faziam serviço eram fora da garantia, pois tínhamos um ótimo serviço a preços competitivos. Mais um ano e foi a vez dos consultores serem demitidos. O alto padrão no atendimento e nos serviços nunca mais foi alcançado. Houve uma tentativa de aproximação da empresa junto a mim, para eu retornar. Não aceitei, mas ainda tenho bom relacionamento com os donos e atuais diretores. Até comprei um carro lá.

      Abraços

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    12. Real Power
      Esses consultores de reorganização/reestruturação são a desgraça do mundo, tenha certeza disso. Todos (maus) contadores de feijão.

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  13. Cadê meu comentário?
    Bom eu como alguém que já se formou como Técnico de Manutenção de Aeronaves e agora curso Aviônicos digo que realmente me parece assustador o nível de automação de um Airbus.
    Essa semana passada um professor vem contar sobre o treinamento para pilotos que esta dando na maior empresa do Brasil.
    Lá diz que alguns comandantes de A330 agora vão pilotar os novos 767. Estão reclamando de ter que efetuar atuações sobre a máquina que no Airbus não era necessário.
    Ai eu penso, que dependência e confiança que o homem cria sobre a máquina em detrimento de suas próprias habilidades.

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    1. Gechejr
      A que comentário você se refere? Com esse são dois comentários seus hoje relativos ao post do André.

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    2. Obrigado Bob. O primeiro deste post. Uma hora após eu comentar já haviam aparecidos outros comentários mais recentes que o meu, eu estava escrevendo o segundo e nada. Mas depois apareceu.

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    3. Grechejr, sobre a reclamação dos pilotos de A330 irem para 767:
      http://autoentusiastas.blogspot.com.br/2011/11/carro-inteligente-motorista-burro.html

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    4. É pra acabar mesmo!!!
      André, achei o vídeo do A320 que eu queria lembrar, vou fazer um comentário e postar.

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  14. Lorenzo Frigerio17/02/14 18:59

    O AD torna o AE "Super Interessante"!
    Desta vez você se superou!
    Definitivamente, o AD é um cara de Exatas que NÃO é um "nerd"!

    O acidente com o 767 da Lauda Air dá a entender que o público leigo está completamente equivocado quando contrapõe Boeings a Airbuses, como se um fosse "computadorizado" e outro "manual". Pelo visto, os diferentes graus de informatização não tornam um aparelho mais inseguro que o outro, e certamente não dá para criar um modelo matemático que demonstre isso.
    O desatre da TAM em Congonhas teve uma série de agravantes bem concretos, como falta de canais de escoamento no piso e reverso pinado. Mas o acidente pelo visto não foi devidamente explicado. Terá havido "comportamento emergente"?
    E finalmente, a pergunta inevitável... gostaria de saber sua idéia sobre o comportamento do computador HAL-9000, do filme "2001 - Uma Odisséia no Espaço" - meu filme favorito de todos os tempos - que matou a população para salvar a missão. Foi um "bug" ou um "comportamento "emergente" (considerando que a máquina interagia com humanos)? Ou não há elementos para definir?

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    1. Lorenzo, Yin e Yang... :-D Sou tão nerd, mas tão nerd, que vc não me reconhece como um.

      Sobre a Lauda Air, precisamos tomar cuidado com conclusões apressadas. Veja que o evento da Lauda Air é provavelmente um comportamento emergente de surgimento aleatório, portanto, probabilístico. Vai saber quantos comportamentos emergentes latentes tem esses aviões que nunca se manifestam, ou quando se manifestam ficam apenas nas luzinhas piscando sem necessidade e nunca avançando para um acidente total. Talvez, se aquele acidente não tivesse ocorrido, o avião poderia estar voando até hoje com aquela configuração, com as luzes de falha piscando só pra deixar os copilotos malucos e ninguém desconfiar que haveria o potencial de um acidente ligado a esse comportamento. Desta vez foi um Boeing, mas poderia ser um Airbus.

      Sobre o filme 2001, curiosamente acabei de reler o livro, que é bem diferente do filme. Nem no livro e nem no filme ficam claras as razões para o enlouquecimento de HAL. Já no livro 2010, essa razão fica bem clara. Quando o Dr. Chandra religa HAL, encontra ordens da Casa Branca sobre procedimentos que HAL deverá seguir de forma rigorosa e em total sigilo, mesmo da tripulação ou dos operadores da missão. O problema é que as ordens da CAsa Branca entram em conflito com as diretrizes da missão, deixando HAL numa situação de lógica paradoxal. A saída lógica que HAL encontra é que entre as suas diretivas básicas há a possibilidade dele completar a missão mesmo com a morte de toda tripulação. Com a tripulação morta, ele não teria que se esforçar em manter um sigilo que ele não pode contar pra ninguém. Não é um bug, portanto. Talvez possamos até interpretar como um comportamento emergente.

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    2. Lorenzo, neste aqui de Congonhas do prédio da TAM os fatores de falta de ranhuras e reverso pinado não foram decisivos. Estas aeronaves são homologadas para pousar somente com freio nas rodas. Então teria capacidade de parar sim.
      O que ficou mais ou menos claro foi que houve inconsistência entre parametros e julgamentos dos computadores. Não sabiam se estavam em pouso ou em decolagem, por mais que a aeronave estivesse configurada para pouso. São três computadores, 2 trabalhando e julgando, um terceiro de STDBY, havendo discrepância entre os 2 o terceiro sobrepõe o errado e assume o seu lugar.
      Pelo que me lembro é mais ou menos isto. Posso ter cometido algum engano aqui.
      A aeronave passou por toda a pista mantendo a aceleração intermediária, nem aumentou a potência e nem diminuiu. Não foi o primeiro caso do tipo.
      Vou procurar e se achar coloco aqui o primeiro caso.

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    3. Lorenzo Frigerio18/02/14 03:16

      André, tenho a impressão que um "bug" é o equivalente em código de um silogismo na lógica. Talvez o que aconteceu com HAL.
      Estava agora pouco lendo os comentários de um artigo sobre depressão no Daily Telegraph... tive um insight, de que a depressão é a manifestação da emergência de vários sistemas lógicos e rotinas dentro da mente humana. A verdadeira depressão é uma nova entidade lógica que surge na cabeça das pessoas, como resultado dessa emergência, e para nos livrarmos dela é necessária ajuda externa... talvez seja o ponto em que a emergência atinge o equilíbrio, como no caso dos bots, e é necessário rompê-lo.
      Outra coisa incrível é a morte, em casos que a pessoa vai parar na UTI mas já tem idade ou o caso é complexo. As UTIs de hoje têm aparelhos capazes de "travar" uma série de parâmetros do corpo humano para induzir a estabilidade e dar ao corpo a chance de se recuperar, mas a Ceifeira sempre encontra um caminho, como se a vida entrasse em "stall". Você aperta aqui e estoura lá, e não tem fim, até que a Ceifeira resolve descer a foice. Cazuza escreveu um verso incrível em uma de suas músicas e acertou na mosca: "Eu vi a Morte de perto/ E ela estava viva!
      Um outro tipo de estabilidade que não chega a estar ligado ao caos, mas não deixa de ser curioso são os pontos de Lagrange (para um dos quais será enviado o telescópio espacial James Webb). Outro seria a Grande Mancha de Lixo do Oceano Pacífico.

      "Vai saber quantos comportamentos emergentes latentes têm esses aviões que nunca se manifestam (...)": esses comportamentos latentes, ou "não entidades" me lembraram de uma teoria - se você quiser queimar os neurônios da turma um dia, poderá falar nos "Cérebros de Boltzmann", na minha opinião uma das coisas mais absurdas concatenadas pela nossa vã filosofia, mas que encontra respaldo na Física.

      Cara, se você é realmente tão "nerd" que não o reconheço como tal, então ou é porque sou "nerd" também (caso no qual estou em boa companhia!), ou então porque normal é você e "nerds" são os outros. O que me remete a um episódio do seriado "Além da Imaginação" chamado "A Beleza Está nos Olhos de Quem a Vê", talvez você o conheça.
      E para finalizar, quando você mencionou o "Fantasma do Elevador", lembrei de um filme holandês de terror "trash" dos anos 80 chamado "O Elevador Sem Destino"... ele mostra por que utilizar uma forma avançada de "fuzzy logic" para controlar um elevador NÃO é uma boa idéia.

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    4. Lorenzo, eu costumo estudar um pouco de filosofia e religiões orientais. Há muita coisas interessantes nelas.

      O budismo, por exemplo, é muito focado na busca da perfeição espiritual, e ele parte do princípio que somente com o auto-conhecimento uma pessoa pode perceber suas imperfeições e é capaz de retrabalhar essas imperfeições até atingir a iluminação.
      Em busca do auto-conhecimento, o budismo desenvolveu técnicas de introspecção (literalmente, mergulhar profundamente na própria mente), em especial o budismo tibetano.
      Ao longo de milênios, os monges budistas mapearam a mente humana, e descobriram que a mente não possui um núcleo indivisível. Ao contrário, a mente é constituída de diferentes forças que colaboram e se opõem ao longo do tempo.

      O mais curioso é que esse mapeamento hoje está sendo referendado pela ciência do cérebro. As divisões da mente mapeadas pelos budistas hoje possuem correspondência direta com as diferentes zonas do cérebro. Neurologistas de prestígio internacional estão estudando o mapeamento da mente humana feita pelo budismo para avançar nas pesquisas sobre o cérebro.

      A depressão ocorre quando esses núcleos da mente e do cérebro passam a não se relacionar da forma correta. A alteração não é só mental. Há alterações bioquímicas envolvidas. Mas vc está certo. É um comportamento emergente negativo.

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    5. Lorenzo Frigerio19/02/14 01:33

      Já diziam os gregos... "Homem! Conhece-te a ti próprio!".

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  15. Texto épico, dos melhores do Ae até hoje. Tanto que nem senti falta dos carros.

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  16. Bob, André,

    1. Assistindo os documentários no Discovery sobre acidentes aéreos, fiquei muito intrigado com a conclusão do acidente da TAM em Congonhas. No meu entendimento, foi erro humano. Colocaram a culpa na pista, na chuva, no reverso, mas tudo leva a crer que o piloto esqueceu ( talvez pela fadiga) de colocar em idle o manete de potência do reverso defeituoso, confiando que os computadores fariam o resto.

    2. Os autoramas inteligêntes citados em um post anterior poreriam apresentar comportamentos emergêntes? Fiquei confuso.

    3. Os aviões americanos apresentaram um comportamento emergênte em um sistema hidráulico certo? Neste caso, não havia eletrônica envolvida, apenas um fator mecânico. Se enetendi bem, o caso seria semelhante ao da ponte que balançava por conta do ritmo lateral dos pedestres, que tinham o andar lateral pelo balanço da ponte. Dizima periódica.

    4. O texto sugere que qualquer processo lógico tende a criar inteligência. Esta inteligência pode criar comportamentos emergêntes. Estes comportamentos estão ligados a instintos. Se os intintos estão ligados so registros de experiências enteriores, logo precisamos de mémória. Essa memória seria a origem de comportamentos emergêntes?

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    1. Na verdade, segundo o relatório do Cenipa, o acidente com o avião da TAM (3054) foi erro do piloto. O relatório não é conclusivo devido as condições em que foram encontradas as manetes após o acidente. No entanto, existiam 2 procedimentos para pouso, um que a TAM já utilizava e outro que foi emitido pela AIRBUS para evitar que acidentes assim acontecessem como já havia ocorrido anteriormente. Ao que tudo indica, o piloto não executou nenhum dos 2 procedimentos e deixou uma manete em aceleração e a outra em reverso. O correto seria trazer as 2 manetes (mesmo um motor estando com o reverso travado) para a posição de reverso. Os computadores do avião ficaram doidos sem saber se o piloto queria pousar ou decolar. Há um erro na lógica destes aviões uma vez que permitem comportamentos erráticos como este e falta um aviso aos pilotos informando que um motor está acelerando enquanto que o outro está freando.

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    2. Lorenzo Frigerio18/02/14 17:34

      Aun, ele mencionou que cada "bot" tinha 500 Mb de memória, talvez seja essa a resposta.

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    3. Lorenzo Frigerio18/02/14 17:44

      Anônimo, não parece um erro muito tosco por parte de um piloto com tantas horas, mesmo sob fadiga, ter "esquecido" o manete em ponto morto? O cara teria que estar num delírio canábico para fazer isso. Não teve já um caso que o manete acelerou sozinho após ter sido posto em ponto morto? Ou estou misturando estação com o Fokker 100 da TAM?

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    4. Aun, aqui vão minhas respostas:

      1 - Até onde eu sei, no caso da TAM em Congonhas o erro primário foi do piloto, apesar de vários agravantes.

      2 - Comportamento emergente em autoramas autônomos não é impossível, como não é impossível em qualquer dispositivo mais complexo. Mas cada caso é um caso, e aí está a dificuldade do assunto.

      3 - O comportamento emergente tem a ver com o conjunto dinâmico do sistema, não importando se ele é computadorizado ou não. Eu escolhi o caso do Starfighter para figurar logo após o da Lauda Airlines justamente para frisar esse ponto. Essa oscilação não era uma ressonância simples, assim como não era a da ponte. O mais provável é que, assim como a ponte, o conjunto dinâmico do avião entrava em sincronismo com o ar passante, causando a oscilação. Quando a parte hidráulica foi refeita, a parte dinâmica foi mudada e as condições para o sincronismo deixaram de existir.

      4 - Aí está o mais estranho sobre comportamentos emergentes. Muito do que nosso senso comum entende como inteligência é a soma de vários comportamentos emergentes e não é uma inteligência criando comportamentos emergentes. Entretanto, como veremos na próxima parte, existem sistemas que exibem comportamentos emergentes altamente inteligentes sem que haja uma inteligência central mantendo o controle ou mesmo com capacidade de memória. Formigueiros e colméias funcionam dessa forma. Memória é um comportamento emergente altamente sofisticado, e pertencente aos animais de ordem mais superior na cadeia alimentar, e mais evoluída nos organismos mais modernos. Bactérias exibem diversos comportamentos e não precisam de inteligência ou de memória para fazer o que fazem a bilhões de anos.

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    5. Lorenzo
      O mais triste no acidente do Fokker 100 da TAM foi o comandante não ter feito a única coisa que deveria, voar o avião. O aparelho bateu nos prédios e caiu na rua com trem embaixo e não estolou. Era esquecer motor e manete doida e iniciar a subida, recolhendo logo o trem, dar uma volta e pousar. Tinha potência mais que suficiente para isso. Tantas vidas perdidas!

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    6. Lorenzo,
      Não foi um erro tosco.
      O piloto desde a aproximação se preocupava com as condiçoes da pista e do avião. No entanto,deve ter dado um tilt em seu cerebro devido aos 2 procedimentos existes e por isto não executou nenhum dos 2. Baseio-me puramente no relatório do cenipa (http://www.cenipa.aer.mil.br/cenipa/paginas/relatorios/pdf/RF3054.pdf). Confome dito, devido as condições das manetes não há como determinar realmente a posição em que se encontrava.

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    7. Tam 3054
      Principal hipótese - Como o único indicativo de que os pilotos deixaram os manetes fora da posição recomendada - um na posição de aceleração e outro em frenagem - veio da caixa-preta, o Cenipa resolveu estudar as duas hipóteses mais prováveis: falha no sistema de controle de potência do jato, que teria transmitido ao motor informação diferente da que indicava o manete, ou um erro dos pilotos Kleiber Lima e Henrique Stefanini di Sacco. A segunda hipótese, diz o Cenipa, é a mais provável, "uma vez que é elevada a improbabilidade estatística de falha no sistema de acionamento" dos manetes. (http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/relatorio-final-acidente-tam-aponta-causas-nao-culpados)

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  17. Excelente artigo, ainda não li todo mas vai só uma pequena correção:

    "– 213 passageiros e 10 tripulantes mortos — o maior acidente aeronáutico até aquela data"

    Não é nem de longe, em 1991 já tinha ocorrido vários piores:

    http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_accidents_and_disasters_by_death_toll

    Só se for o maior da Tailandia, no caso.

    Abs

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    1. Vou verificar outras fontes. Grato pelo apontamento.

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    2. Andre,
      Dá uma olhada no Jetsite: http://www.jetsite.com.br/2008_v35/AcidenteBlackbox.aspx
      O maior acidente aéreo da história aconteceu em Tenerif em 27 de março de 1977 onde uma aeronave da KLM se chocou com outra da Pan AM onde 603 pessoas perderam a vida.

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  18. Bob, o de Petrópolis18/02/14 12:02

    Fantástico!

    Discretamente, meus olhos estão suando...

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  19. Fabrício Maas18/02/14 14:47

    Texto espetacular, sem mais.

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  20. Excelente série.
    Conhecimento de altíssimo nível.
    Como já falaram aí em cima, seria interessante reunir estes e outros artigos em um livro.

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  21. Parabéns - Aguardando o próximo capítulo!

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  22. Que post maravilhoso. Eu moro na área rural de Joanópolis, na divisa com o município de Camanducaia - MG, sou produtor de leite,e nunca deixo de visitar o blog, após cada ordenha de todas as manhãs.
    Além de um AE orgulhoso, sou apaixonado por conhecimento de todo o tipo, tanto que um dos meus brinquedos favoritos é um pequeno telescópio refrator, que me serve para aguçar a curiosiade de minha filhinha de dois anos.
    Fiquei doido com este post!
    Maravilhado mesmo!!
    Quanta coisa fantástica escrita aqui....
    Muito obrigado.
    Os artigos de vocês ribombarão nos recantos da Serra da Mantiqueira.
    Sucesso a todos,

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  23. Amigos, segue o vídeo do acidente do Airbus A320 que passou reto pela pista.
    Algo muiiito estranho, que tornou-se fatal:
    http://www.youtube.com/watch?v=Yk-Hy83k2Nk

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_Air_France_296

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    1. Grechejr, esse caso é polêmico. Os franceses fizeram um relatório onde culpavam o piloto. O piloto, junto com as autoridades inglesas provaram que as caixas pretas retiradas do avião não são as mesmas apresentadas no caso. Os ingleses ainda descobriram que a gravação da caixa preta apresentada tem um lapso de tempo não explicado quando comparado com a gravação da torre de controle.
      O que aumenta a teoria da conspiração é que o A320 era peça chave para o futuro da Airbus, e esse acidente poderia queimar o filme da nova aeronave, matando ela no ninho junto com a companhia. Tinha muito dinheiro da Air France na Airbus também. O sistema fly-by-wire ainda era muito recente pra atingir maturidade de uso em campo.
      Queimar a imagem do piloto tiraria muita gente da reta. A polêmica do caso continua.

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  24. Alan_Braga19/02/14 19:05

    André talvez vc ache minha pergunta meio estúpida mas tenho essa dúvida há algum tempo, todos os tipos de comportamento emergente que vc citou como exemplos no texto se deram em sistemas complexos, supercomplexos ou em uma populaçao relativamente grande de individuos, vc acha que esse tipo de comportamento anômalo pode se manifestar em um único individuo ou em um sistema simples?
    O texto é brilhante, aprendi mais com ele em meia hora do q em um semestre inteiro de cinemática.

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    1. Alan Braga, como sempre dizia meu professor de curso técnico, a pergunta mais estúpida que existe é aquela que nunca é perguntada.

      Há comportamento emergente em sistemas simples. O exemplo da órbita de Newton exige apenas 2 elementos. É um sistema bem simples.

      Veja que muitos sistemas são altamente escaláveis. Um cupinzeiro começa com apenas uma rainha jovem. Essa rainha jovem pode, alguns anos depois, ser a mãe de um cupinzeiro com um milhão de servos. As regras e os comportamentos emergentes do cupinzeiro estão presentes desde a rainha solitária.

      A questão do indivíduo é uma questão interessante. O robô mostrado no vídeo apresentando comportamentos emergentes é um indivíduo, mas é a interação das partes da programação dele que geram os comportamentos emergentes. É a questão da unidade formada por uma coletividade. Isso muitas vezes é recorrente.

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  25. Texto formidável! André Dantas como sempre...nos brindando com um texto enriquecedor.

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