A PRIMEIRA VEZ

Foto: commonswikimedia.org

Não era esse, mas era igual, até a cor. O Fiat 500 C era de um grande amigo, o Luís Carlos Barbará, e vivíamos para baixo e para cima nele. Isso por volta de 1957/1958 eu com 15 para 16 anos.

Já tinha algum conhecimento de mecânica, vivia mexendo nos motores de bicicleta Victoria e na Lambretta que tínhamos lá em casa. Por isso, quando o Luís Carlos me disse que o 500 estava com barulho no diferencial, me ofereci para consertar. Antes de começar o serviço dei uma volta e identifiquei ruído de rolamentos da caixa de satélites. Eu lia muito e sabia que pares cônicos helicoidais requerem um bom ajuste de profundidade do pinhão na coroa e distância entre as duas engrenagens, que é o que dá a folga entre dentes. Mas como era só trocar os rolamentos não seria necessário fazer o ajuste - eu nem meios para isso tinha. E mãos à obra.

Era um carro bastante simples e não houve dificuldade maior em retirar o eixo motriz traseiro, puxar para fora a caixa de satélies com os rolamentos, removê-los e colocar os novos. Um deles estava realmente em mau estado, portanto o diagnóstico foi correto.

Ajudou eu ter lido que ruído de pinhão e coroa cônicos é em sustenido musical, semi-tom e que muda radicalmente entre acelerar e tirar o pé. Diferente do som de rolamento com problema, que é contínuo e proporcional à velocidade.

Outra boa, essa aprendi muitos anos depois, é num câmbio bem-escalonado a diferença do som do motor na troca ascendente também ser um semi-tom...Se for uma nota musical inteira é porque o buraco entre uma marcha e outra é grande demais...

Voltando ao "serviço", a montagem não teve problema maior, foi só fazer tudo na ordem inversa. Tudo pronto, ao ligar o carro a bateria estava bem descarregada e o arranque não virava. Pegar empurrado era fácil para um carro de 590 kg. Tentamos, tentamos e nada.

Até que numa tentativa o motor finalmente pegou. Como a marcha usada para fazer o motor pegar não era a primeira, engatei-a e...o carro andou para trás. Achei que tinha errado o engate e pus em primeira de novo. Para trás...segunda, terceira e quarta e o carro andava para trás. Aí, já certo da trapalhada, pus em ré, e o carro foi para frente. Montei a coroa do lado errado...Que bela primeira vez!

O transeixo dos Volkswagen arrefecidos a ar também é reversível, o que tornou possível a Kombi ter caixa de redução no cubo das rodas traseiras. Por isso, os lados de montagem da caixa de satélites com a coroa são invertidos. Há um truque para o mecânico não errar: olhar para o transeixo com a carcaça de embreagem voltada para si e pensar "a Kombi faz mal a o fígado", pôr a mão no lado direito do abdômen e assim saber que por esse lado que a caixa de satélites deve ser colocada. Se for uma Kombi, claro.

Foi por ter o transeixo reversível é que foi possível colocar motor de Corvair em Karmann-Ghia, pois esse vira ao contrário da maioria dos motores. Bastava inverter o lado de montagem da coroa.

Consta que num dado momento havia quarenta Kombis no pátio da VW, no começo dos anos setenta, com quatro marchas para trás e uma para frente...

Parodiando um velho ditado da aviação, que só há dois tipos de piloto, os que nunca pousaram com o trem em cima e os que já, só há dois tipos de mecânico, os que nunca montaram a coroa do lado errado e os que já...E eu fui um deles!

BS

22 comentários :

  1. Só não erra quem não faz.

    A engenharia de hoje deve ter essa preocupação: a de criar peças e componentes que não se encaixem do jeito errado, só do jeito certo.

    Se uma coisa encaixa do jeito errado, com certeza alguém, em algum momento, vai errar na hora de montar. É a lei de Murphy aplicada à engenharia.

    Ou a coisa tem que funcionar corretamente encaixada de ambas as formas possíveis, ou então tem que ser desenhada pra só ser possível encaixar e montar do jeito certo.

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  2. Verdade, e além do jeito certo praticidade.
    Lembro que uma vez tive um problema na porta do meu gol, incrível como usando uma chave de fenda e a intuição vc consegue praticamente desmontar o carro inteiro...

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  3. Quando eu tinha uns 15 anos um vendedor de garapa me disse que o mecanico montou errado o cambio da sua Kombi e ela ficou com 4 marchas a ré e a ré pra frente, eu disse depois para o meu pai que aquilo era mentira , mas, somente uns anos depois descobri que era verdade rsrsrs , nem todos os cambios são projetados assim, o dos Passat / Voyage não da para inverter.

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  4. E pensar que so eu tinha feito uma bobagem destas, hehehehe

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  5. É errando que se aprende,hehehe...

    Estou a pouco tempo de completar os 18 anos e tirar a CNH,mas no carro de casa já faço praticamente tudo em relação a mecânica.Só mando em oficinas quando é necessário elevador ou alguma ferramenta especifica que vai custar caro.O conhecimento que adquiri até agora foi grande,e ainda tem muita coisa para aprender.

    É incrivel ver como peças pequenas e aparentemente inuteis formam um belo conjunto...

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  6. Entre as lendas urbanas de Brasília, há aquela que diz que alguns malucos montavam Volks com o câmbio invertido com o intuito de correr de ré pelas ruas, isso lá nos idos dos anos 60.
    Fico imaginando a cena: um racha de ré entre um Fusca e uma Kombi, talvez perto do balão do aeroporto, em algum lugar da década de 60, com a "delicada" polícia de então podendo chegar a qualquer momento. Acho que o pessoal era mais feliz antigamente...

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  7. Bob, me fez lembrar quando montei os diferenciais do meu Jeep com a ajuda do meu primo. Ele me perguntou: de que lado entra a coroa? Tranquilizei ele dizendo que o eixo Dana só monta de um lado.

    Aí ele me contou uma história de quando ele trabalhava na concessionária New Holland: Depois de uma manutenção no eixo dianteiro, o trator simplesmente não andava, de jeito nenhum. Depois de coçarem a cabeça, se tocaram que o mecânico montou a coroa dianteira ao contrário. Um indo pra frente e outro indo de ré não ia a lugar algum rs..

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  8. Rômulo Rostand23/02/11 06:43

    Bob,
    Loteria foi o motor ter pego no tranco apesar da inversão do diferencial.

    Outro fato que ouvi algumas narrações aconteceram com motos Zundap, comuns em épocas passadas. Nessas, o motor por ser dois tempos, algumas vezer funcionava com sentido de giro inverso...
    Imaginem o susto na arrancada !

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  9. Rômulo,
    Os microcarros da Messerschmitt foram mais longe, e fizeram pleno uso dessa característica dos motores dois tempos: a marcha-à-ré era acionada por um comando que fazia o motor girar ao contrário...

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  10. "num câmbio bem-escalonado a diferença do som do motor na troca ascendente também ser um semi-tom..."

    São trechos assim que me deixam de queixo caído. É brilhante e eu não sabia!

    Um carro que "toca" a melodia errada pode ser um desprazer ao dirigir.

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  11. Danniel
    Essa do trator deve ter sido mesmo intrigante.

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  12. Pedro Henrique
    Que legal, continue assim.

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  13. Rômulo Rostand23/02/11 09:12

    Alexandre,
    Não sabia dessa característica dos Messerschimitt. Solução ousada e engenhosa, só não devia ser muito cômoda. Mas, na época o baixo custo era a prioridade e, marcha a ré nesses carrinhos com motores derivados de moto já devia ser um grande diferencial. Legal!

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  14. Rômulo Rostand e Alexandre Zamariolli
    O motor 2-tempos de admissão controlada pelo pistão, a maioria, é reversível. No DKW, se a ignição estivesse muito atrasada e se fosse empurrado para pegar fazendo o motor girar ao contrário, tipo empurrar para trás em segunda, o motor pegava normalmente. Apenas a luz do dínamo ficava acesa, pois dínamos só geram num sentido, ao contrário do alternador. Nos navios de motor Diesel 2-tempos a ré é dada fazendo o motor girar ao contrário. Outra curiosidade de funcionamento de motor é o Ford modelo T pegar sem acionar a manivela: com motor aquecido, era avançar a ignição pelo manete junto ao volante até dar ignição no cilindro em posição favorável. O mais incrível é uma marca japonesa estar trabalhando num sistema desliga/liga em que a partida do motor é feita pela ignição, exatamente nos mesmo moldes do Ford modelo T.

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  15. Rômulo Rostand23/02/11 10:54

    Bob,
    Depois de ler sua postagem fiquei curioso e fiz uma breve pesquisa sobre o sistema, na Internet. Vi que já está sendo utilizado em dois modelos de série da marca japonesa. Na verdade o sistema se vale da injeção direta e da ignição. O motor de arranque é sempre utilizado, mas é menos exigido, com a vantagem da maior suavidade da partida. O sistema controla a posição de parada, incluindo limpeza dos gases de combustão deixando o motor cheio com ar e pronto para injeção seguida de ignição. Excelente!
    Fiquei pensando que esse sistema start / stop deve aumentar ainda mais as desvantagens competitivas dos carros híbridos e elétricos.

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  16. Agora sai da prancheta meu projeto do carro com motor central traseiro! Agora que sei desse detalhe do diferencial dá pra montar o motor a frente do eixo traseiro e inverter o diferencial para mante-lo empurrando o carro!!! Agora vai!!!

    TED

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  17. Vejam uma que é de amargar:
    O palio 16 valvulas argentino tem um de ferramentas para travar os comandos de valvulas na posição.
    So que a entrada de ar praticamente da um volta sobre o motor e vai ligar ao filtro de ar justamente proximo bem proximo ao eixo comando de Escape.
    ha caso muitos mecanicos ou entendidos( mas sem malicia) colocar a ferramenta de admissão no comando de escape = ferramenta de adimissão no comando que esta perto da "adimissão.

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  18. E os atuais carros da ford que na caixa de fusiveis usam um DIODO com os mesmo "formato fisico" dos fusiveis.
    O desavisado tira examina , TA BOM e enfia de volta , AO CON TRA RIO .
    É mole?

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  19. Bob, quer ver outro carro onde pode-se montar o diferencial invertido? Corcel/Belina/DelRey/Pampa, todos com motor Ford.

    Quase fiz isso, ou melhor, fiz, mas percebi a besteira antes de montar o transeixo no carro. Há um macete para se identificar o erro: ao se montar o diferencial invertido, a coroa passa MUITO PERTO do ímã do bujão de descarga.

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  20. Bussoranga,
    Não sabia que o transeixo do Corcel e derivados podia inverter lado da coroa. Aprendi mais uma, obrigado. E ainda bem que você percebeu o erro a tempo.

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  21. Um dos detalhes que facilitou muito a construção de milhares de Protótipos com motor Volkswagen Boxer entre eixos foi exatamente a possibilidade de inverter o fluxo do direncial sem grandes trabalhos ou custo.

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  22. Roberto Costa
    Exatamente! Até Ferry Porsche se valeu disso quando fez o 356/1 e resolveu partir para 356/2, de motor pendurado na traseira.

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