O MÉTODO CIENTÍFICO E AS PAIXÕES HUMANAS


O mundo da ciência e da tecnologia vive uma eterna batalha entre verdades que expliquem o mundo que nos cerca e as "verdades" que são convenientemente aceitas pelas pessoas. O cérebro humano é especialmente adaptado pela evolução para a concordância com fatos que são aceitáveis para ele.


Ouvir um “sim” exige poucos circuitos cerebrais, circuitos mais primitivos, simples, e diretamente ligados às zonas de satisfação. Ouvir um “não”, ao contrário, mexe com circuitos cerebrais muito maiores, complexos e ligados com as zonas depressoras de satisfação.
Para nós é muito mais fácil lidar com uma aceitação do que com uma negação, já a partir da nossa fisiologia. A partir daí percebemos que há um desequilíbrio natural entre aceitação e negação em nosso comportamento animal, e a partir disto vem toda nossa cultura. A ciência por sua vez, é baseada na melhor aproximação possível da verdade, e nem toda verdade dita pela ciência é necessariamente agradável. É a partir deste descompasso que começam os diferentes tipos de choques entre a razão científica e a emoção humana.

A ciência é baseada em teorias. Uma teoria científica nunca se propõe a ser a verdade absoluta ou definitiva. Ela tenta explicar da melhor maneira possível determinado conjunto de comportamentos da natureza. Estas teorias se baseiam no fato que comportamentos elementares serem repetitivos e reprodutíveis, servindo assim para prever fenômenos futuros.

Toda teoria começa como uma hipótese. Esta hipótese precisa ser codificada e estruturada e, a partir disso, criar-se um experimento cujos resultados validem a hipótese.Uma hipótese será elevada à categoria de teoria aceita quanto melhor ela conseguir modelar aquele conjunto de resultados. Uma teoria pode ser aceita mesmo que apresente várias discrepâncias com a realidade observável, desde que apresente previsões coerentes em maior quantidade e qualidade que as teorias rivais.


Para ilustrar como este mecanismo funciona, vamos imaginar que Einstein fosse contemporâneo de Newton, propondo a Teoria da Relatividade ao mesmo tempo que a Teoria da Mecânica Clássica de Newton. Hoje sabemos que a Relatividade de Einstein tende a apresentar os mesmos resultados da Mecânica Clássica quando as velocidades envolvidas são muito menores que a velocidade da luz, um ente desconhecido das teorias de Newton.

Confrontadas naquela época, não existiam avanços em outras teorias (como a eletromagnética) e de instrumentos (como a de telescópios) que pudessem embasar qualquer experimento que comprovasse as previsões da Relatividade. Sendo uma teoria muito mais simples, próxima ao senso comum e de resultados comprováveis, a Mecânica Clássica teria vencido a batalha contra a Relatividade. Esta última teria sido relegada ao esquecimento até que os estudos do eletromagnetismo encontrassem nela respostas que a Mecânica Clássica não seria capaz de oferecer. Embora tal embate não tenha ocorrido, outros como este realmente aconteceram ao longo da história da ciência.

Este é, ao menos em tese, o procedimento clássico e correto para a condução da ciência, mas a ciência é uma atividade humana, e, portanto, sujeita, mesmo que por pequenos períodos, a desvios causados por diversos tipos de interesse puramente humano. Um grande e surpreendente caso de paixões humanas atuando sobre a ciência ocorreu em 1936 na Alemanha, durante os Jogos Olímpicos de Berlim.

Hitler havia atingido o posto de Chanceler alemão no ano anterior, utilizando a bandeira da superioridade da raça ariana, e não mediu esforços para provar esta teoria. Até mesmo grandes médicos e cientistas alemães foram recrutados para coletarem provas científicas que comprovassem essa teoria.

Hitler abertamente pretendia usar as Olimpíadas para provar a sua tese, e o Comitê Olímpico Internacional (COI) tentou mudar a sede dos jogos no último instante, sem sucesso. Entretanto, a grande estrela destes jogos foi um negro americano chamado Jesse Owens.


Owens ganhou quatro medalhas de ouro, sendo que igualou o recorde dos 100 metros rasos e quebrou os recordes dos 200 metros rasos, revezamento 4 x 100 metros e salto em distância. Jesse Owens passou para a História como aquele que derrubou o mito alemão da superioridade da raça ariana.

Entretanto, do ponto de vista da ciência, Owens não provou definitivamente nada com seus feitos. Owens poderia ser apenas um atleta muito acima dos padrões dos demais atletas, um mero desvio estatístico do ponto de vista da ciência.

Nesta Olimpíada a Alemanha foi a vencedora, com 33 medalhas de ouro, 26 de prata e 30 de bronze contra 24 de ouro, 20 de prata e 12 de bronze do segundo colocado, os Estados Unidos. De um ponto de vista puramente estatístico/científico aplicado restritivamente à Olimpíada, os alemães demonstraram numericamente sua superioridade. Como o caso de Jesse Owens deve ser entendido?

A teoria da superioridade da raça alemã era parte de uma fórmula de auto-afirmação para o povo alemão, que estava se reerguendo. Era agradável ao alemão ouvir que ele é superior aos demais, que haviam imposto à Alemanha uma situação vergonhosa após a Primeira Guerra Mundial. Para os demais, não era agradável ouvir que “cientificamente” eles eram inferiores aos alemães.

Jesse Owens pertencia a uma etnia considerada inferior num país com racismo legalizado, onde um negro era obrigado a ceder o banco em que estava sentado num ônibus para um homem branco se este o solicitasse. A leitura real feita dentro dos Estados Unidos para as vitórias de Owens durante a  Segunda Guerra Mundial era a de que se um atleta de uma raça inferior nos Estados Unidos bateu tão vigorosamente os representantes da raça ariana, maior ainda era a vantagem da “raça superior” americana sobre os alemães. Não é, pois, de se estranhar que os feitos de Jesse Owens fossem aclamados até pelos brancos racistas americanos. A História é escrita pelos vencedores, e a visão de um Owens sendo a contra-prova científica para a teoria da superioridade racial alemã persiste até hoje.

Entretanto, esta afirmação é sutilmente carregada de sentimentos humanos opostos, distorcendo a realidade. Nunca houve ciência real em nenhum dos lados deste caso. A superioridade ariana era uma afirmação conveniente e agradável para um grupo, e desagradável e inconveniente para os demais, e esses sentimentos antagônicos moveram as engrenagens da História. Hoje a ciência começa a comprovar uma verdade inteiramente nova sobre este assunto.

A variedade genética humana é ínfima, de forma que sequer a ideia de diferenciação de raças existe. As diferenças étnicas entre indivíduos são adaptações ao ambiente em que viviam. Negros originários da África tinham que se deslocar a pé por muitos quilômetros em meio a uma paisagem quente e seca. Hoje, os negros dominam as provas de atletismo. Caucasianos se desenvolveram num ambiente muito mais ameno e cercado de água. Hoje os caucasianos dominam a natação. Entretanto, a própria ciência reconhece que isso não é uma lei rígida e inflexível. Podem existir velocistas recordistas brancos assim como negros medalhistas olímpicos na natação.

Hoje, a ciência jogou por terra todas as teorias de superioridade racial. Mas nos corações de muitas pessoas ainda há espaço para o racismo e “fatos” que o justifique. Paixões também acometem cientistas a ponto de distorcer a própria ciência pela qual tanto zelam.

A Teoria da Relatividade previa em suas equações um Universo finito e em constante expansão, um conceito que era estranho para Einstein. Para resolver uma questão que lhe parecia absurda, Einstein introduz uma “constante cosmológica” em suas equações, que agiria como uma força de repulsão no estilo da gravidade que conseguiria evitar que o Universo colapsasse sob a ação da gravidade, equilibrando as forças gravitacionais e criando um Universo estável, estático, sem começo nem fim. Einstein, evidentemente, forçou a mão em suas próprias equações para obter o que ele achava mais lógico, simétrico e belo.

Em 1922, o matemático russo Alexander Friedmann demonstrou teoricamente que a constante cosmológica podia igualmente conduzir a diferentes Universos em expansão ou em contração.Em 1929, Edwin Hubble comprova que as galáxias mais distantes se afastam rapidamente, e a velocidade de afastamento é acelerada num fator proporcional à distância entre a galáxia e a Via Láctea. Em 1946, Georgy Gamow usa os dados de Hubble para estabelecer a Teoria do Big Bang, hoje amplamente aceita, e que jogou por terra definitivamente a ideia de constante cosmológica de Einstein.

A constante cosmológica de Einstein fez toda uma comunidade científica trabalhar pesado durante 30 anos. Muito esforço foi feito tanto tentando melhorar e comprovar a teoria da constante cosmológica, quanto para negá-la. Se Einstein não permitisse a interferência da sua paixão, muito trabalho de outros cientistas altamente capacitados teria sido poupado, e possivelmente um progresso mais rápido neste setor teria ocorrido.

Este caso ensina que, embora um cientista precise de sua paixão para impulsionar seu trabalho, ele não pode deixar que ela interfira numa visão sem preconceitos dos resultados obtidos. Ciência turvada pela paixão não é boa ciência.

Este artigo não poderia estar completo sem falar da teoria científica que mais mexe na atualidade com as paixões das pessoas. “Aquecimento Global”, convenhamos, é uma teoria dá muito o que falar.


Essa é uma teoria que acompanho há quase 30 anos. Portanto, não é uma teoria que podemos chamar de recente. Quem se interessa pelo assunto, procure por um seriado de documentários chamado “Cosmos”, do renomado cientista Carl Sagan (9/11/34-20/12/96), líder do projeto Voyager. Este seriado foi gravado em 1979 e tem um episódio inteiro dedicado a esta teoria. Para todos é interessante ver este episódio em particular, pois tem previsões que podem ser comparadas com a realidade atual, trinta anos depois.

Antes de discutirmos diretamente esta teoria, precisamos colocá-la em sua verdadeira grandeza. Para tal, primeiro, vamos a um importante evento astronômico ocorrido longe da Terra, para obtermos uma referência sobre o verdadeiro tamanho do aquecimento global. Em julho de 1994, o cometa Shoemaker-Levy 9, partido em 20 pedaços principais, colidiu com Júpiter. Este cometa era pouco mais que uma bola de gelo sujo com 20 km de diâmetro e de consistência tão baixa que o puxão gravitacional de Júpiter foi capaz de despedaçá-lo. Era tão pequeno e frágil que muitos cientistas duvidavam que ele seria capaz de causar algum dano visível no gigantesco planeta. Quando colidiu, entretanto, cada um dos vinte pedaços criou uma fornalha nuclear capaz de queimar de dois a quatro planetas do tamanho da Terra.


Em contraste com o ocorrido em Júpiter, aquecimento global é um fenômeno meteorológico, ocorrendo principalmente na nossa atmosfera, uma coberta gasosa de apenas 70 km de espessura na sua parte mais densa, e que recobre um planeta de mais de 12.000 km de diâmetro.

Temperatura é uma medida da energia térmica de qualquer sistema, e no pior dos quadros segundo esta teoria, o planeta aquecerá 6 graus Kelvin sobre uma média atual de 290 graus Kelvin (17 graus Celsius), ou meros 2% de variação na energia térmica média da atmosfera. Ainda por cima, não é um fenômeno instantâneo, mas que ocorre ao longo de vários anos. Daí vem a primeira conclusão: em termos de processos astronômicos, o aquecimento global é um fenômeno energeticamente muito, muito pequeno. Portanto pode ocorrer mesmo sob qualquer mínima alteração.

A segunda relação surge da relação entre a Terra e o Sol.


A Terra está numa região do Sistema Solar chamada “zona tépida” (conhecida também como zona habitável ou zona Goldilocks), onde é possível haver água nos três estados físicos (vapor, líquido e sólido) ao mesmo tempo na superfície de um planeta, algo considerado como essencial para o surgimento de vida. Estende-se de pouco antes da órbita de Vênus até pouco depois da órbita de Marte.

A zona tépida é dependente da radiação solar. Se a atividade solar diminuísse tão pouco quanto 1%, a zona tépida fica aquém da órbita da Terra, e nosso planeta viraria uma bola de gelo. Se a atividade solar aumentasse tanto quanto 1%, a zona tépida iria para além da órbita da Terra, e o planeta viraria um deserto seco e quente.

Esta é a segunda conclusão: nosso Sol é uma estrela muito estável, oscilando muito pouco em valores absolutos em sua atividade em bilhões de anos, permitindo que a vida se estabelecesse e prosperasse aqui, e que pequenas variações nas suas emissões de radiação afetam significativamente nosso clima. Esta alta estabilidade cria um problema para os cientistas que estudam o Sol, pois muitos processos são muito sutis para serem percebidos e para que uma boa teoria sobre o funcionamento do Sol seja estabelecida.

Estas duas conclusões serão importantes para prosseguirmos. A teoria do aquecimento global de origem antropogênica (causado pela atividade humana) é a teoria científica atualmente em voga. A grande maioria dos cientistas acredita nela, e muitos esforços vêm sendo feitos o sentido de investigar seus efeitos.

Apesar das várias linhas investigativas e das variadas teorias-fim, o alicerce teórico é único e consolidado dentro da comunidade científica. Dentre os cientistas, menos de um a cada sete nega esta teoria, o que em si dá grande respaldo a ela. O número de teorias alternativas é grande e cada uma aponta para causas muito variadas, e não convergem para uma base teórica unificada. A incapacidade destes cientistas de gerar uma teoria alternativa consistente e consolidada também reforça a teoria reinante.

Há um pequeno grupo de grandes especialistas, adversários da teoria do aquecimento global antropogênico, conhecido como “céticos do clima”. É o grupo tecnicamente melhor qualificado e preparado para se opor à teoria do aquecimento global. Inicialmente, este grupo se esforçava em negar o aquecimento global em sua totalidade.

Entre os anos de 2007 e 2008, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) coordenou um esforço mundial de mapeamento do aquecimento global, e os céticos do clima foram especialmente convidados para participar. Conforme os dados forams sendo compilados e começaram a ser analisados, os céticos do clima renderam-se ao fato do planeta estar aquecendo, mas continuam a negar veementemente que a causa original seja humana.

Depois da mudança de ponto de vista, alguns dos céticos do clima começaram a desenvolver teorias baseadas em aumento da atividade solar. Eles também preveem que antes de 2020 haverá um arrefecimento da atividade solar, e, por conseguinte, do aquecimento global. A resposta é cômoda e aconchegante. O Sol não pode ser influenciado pelo homem, e o aquecimento global irá regredir naturalmente.

Entretanto, ao posicionar como causa do aquecimento global no Sol, o grupo causa um problema maior do que propõe resolver. Ninguém conhece o suficiente sobre o Sol pra poder fazer uma afirmação destas. E se o Sol não arrefecer? E se o clima continuar aquecendo? O que devemos fazer? Boas perguntas. Até para os céticos do clima.

Ao penetrarmos a fundo tanto na teoria vigente como nas teorias dos céticos do clima, vemos que ambos os lados concordam na imensa maioria dos itens, e que divergem em pontos bem pequenos e específicos. Como o aquecimento global é um efeito astronômico muito pequeno, pequenos erros absolutos levam a conclusões muito diferentes e opostas sobre o clima. Ambos os lados se digladiam em cima destas margens de erro, agarrados a fenômenos ainda não totalmente conhecidos.

Do lado de fora desta disputa, é interessante observar como a paixão, e não a razão, move as pessoas. Muita gente não gosta desta teoria porque ela é incômoda. Afeta negativamente seu modo de vida. Por isso esta teoria é questionada tão amplamente pela população, mesmo sem ter qualquer base mais técnica para se posicionar. Em comparação, a física quântica é muito menos lógica, mas está tão afastada da vida cotidiana e ainda nos traz diariamente tantos mimos eletrônicos de alta tecnologia, que ninguém do grande público sequer se lembra dela. Física quântica só é polêmica dentro de um círculo muito pequeno de especialistas. Não desperta paixões na população em geral, por mais que não seja lógica.

Há várias teorias conspiratórias sobre a manipulação da teoria do aquecimento global, mas uma coisa posso afirmar com certeza. Conheço a base da teoria e posso dizer que não é um trabalho primário, que possa ser atacado diretamente como uma fraude óbvia. Se fosse, com a quantidade e a diversidade de interesses das pessoas que lidam com esta teoria e que serão prejudicadas por ela, alguém já teria apontado alguma falha indiscutível. Isso descarta a maioria das teorias conspiratórias que acham esta teoria uma simples farsa.

Também é bastante comum, em meio a tantas notícias sobre o aquecimento global, o comportamento no qual mal aparece na imprensa algum cientista desmentindo a teoria para automaticamente muita gente já sair dizendo: “Olha alguém dizendo a verdade!”.

A explicação oferecida pode ser a mais sem fundamento possível, mas as pessoas nem se preocupam se é consistente ou não. Dão apoio apenas porque ele se rebela contra algo que lhes é particularmente desconfortável. Este é um comportamento instintivo, baseado na nossa assimetria orgânica entre aceitação e negação. Iconicamente é como a imagem do avestruz que enfia a cabeça num buraco pra se sentir seguro diante de um perigo.

Mas este é um comportamento errado e arriscado. Basta lembrar do caso da teoria da superioridade da raça ariana e da facilidade com que foi aceita para entender a armadilha. Aderir a uma teoria apenas porque ela é confortável e conveniente ou porque é uma negação de outra desagradável, é uma atitude altamente perigosa, como podemos ver no próximo caso.

O risco da mistura conflituosa entre ciência e sentimentos humanos apareceu novamente em 2004, em Dover, uma pequena cidade da Pensilvânia, Estados Unidos.

Lá, os diretores de uma escola secundária tentaram implantar a todo custo o ensino da Teoria da Concepção Inteligente (“Intelligent Design”) em oposição à Teoria da Evolução de Darwin, o que resultou no ano seguinte em um processo judicial que mobilizou a opinião pública americana e mundial, e terminou pela proibição de seu ensino nas escolas americanas.

Até mesmo o então presidente George W. Bush se manifestou à favor da Teoria da Concepção Inteligente. Os Estados Unidos contêm uma parte da população com educação profundamente religiosa, que assume as escrituras bíblicas literalmente como verdadeiras, e qualquer questionamento a uma parte delas é considerado como um questionamento da verdade bíblica como um todo. A Teoria da Evolução de Charles Darwin é considerada por muitos americanos como uma afronta direta às sagradas escrituras, pois afirma que o ser humano evoluiu do macaco, em vez de ser criado diretamente por Deus.

Na década de 80 surge a chamada Teoria da Concepção Inteligente, que afirma que há muitas falhas na Teoria da Evolução porque há vários detalhes nos seres vivos que só poderiam ter sido criados por uma inteligência superior.

Em resumo, troque “inteligência superior” por “criador”, e teremos de novo a história do Gênesis bíblico, o que a torna conveniente para os religiosos mais fervorosos. Por isso, é conhecida como religião disfarçada de ciência.

A questão é que a Teoria da Evolução é hoje uma das mais amplamente testadas e verificadas teorias científicas modernas, permanecendo praticamente inalterada desde sua publicação há um século e meio. Há comprovações dela vindas de ramos que Charles Darwin sequer imaginaria, como genética, a bioquímica, a geologia e a paleontologia. E hoje há importantes aplicações tecnológicas em inteligência artificial que partem dos princípios desta teoria. Não há como negar que esta teoria funciona.

Em contrapartida, a Concepção Inteligente é um fenômeno marcadamente americano, sem trabalhos científicos sérios e sem resultados apresentáveis e comparáveis em outros setores da ciência. É uma teoria que se estrutura não por explicações próprias, mas pela obsessiva negação direta de vários aspectos da Teoria da Evolução e seguindo à risca o que é dito no Livro do Gênesis. Nos Estados Unidos, a questão “Darwin x Criador” divide a opinião pública ao meio de uma forma radical.

Enquanto isso, no Brasil, não há qualquer conflito entre a teoria de Darwin e a igreja, e temos poucos problemas religiosos, morais e éticos com relação a esta teoria.

O resultado disso é que, enquanto o Estados Unidos mantêm uma briga interna para manter uma educação alienante para a realidade científica e corte de verbas em importantes pesquisas na área da genética, o Brasil progride a largos passos neste campo, que promete ser nas próximas décadas o que a informática tem sido nos últimos 30 anos.

Estas pessoas religiosas não aceitam evidências que existem dentro das próprias casas. Se elas se alimentam de milho e trigo melhorados sobre as espécies selvagens, ou possuem a companhia de um cão fiel, elas usufruem dos resultados de uma seleção artificial levado a cabo pela própria mão humana, e se é possível ao homem modificar e aprimorar outros seres vivos pela seleção, é possível que esses seres vivos se modifiquem pela seleção natural.

Há vários outros casos onde o avanço da ciência foi atrasado pela interferência dos sentimentos humanos. Na época da Inquisição, Copérnico só deixou publicar sua obra após sua morte, Leonardo Da Vinci escrevia de trás para frente, em escrita especular, para não ser apanhado, e Galileu foi processado. Não é só no campo da grande ciência que esta batalha ocorre. Ela ocorre com coisas mais corriqueiras na vida das pessoas. Vamos trazer esta discussão para aspectos mais próximos dos carros e do leitor.

A área de preparação está cheia de pseudo-teorias científicas, e que são muito enganadoras para o motorista leigo. Lembram quando falei do Canto das Sereias?

Pois bem, vamos focar novamente os corpos de borboleta, pensando em um caso absurdo. Imagine que vamos trocar o corpo de borboleta original por outro de um metro de diâmetro. A tese reinante não é a de que “mais é sempre melhor”? A potência do motor dobra se dobrarmos o diâmetro do corpo de borboleta? Se pensarmos numa comparação de um corpo de diâmetro de um metro, é nítido que não dá pra ganhar nada com a mudança. Então, evidentemente, “mais” nem sempre significa “melhor”.

Agora, vamos pensar no motor acelerando. Para o motor, um corpo de borboleta tão grande deixa de ser restrição significativa com um curso de acionamento mínimo, e o motor atinge potência máxima com ele. Todo curso restante é ineficaz no controle da potência. Assim, o corpo de borboleta enorme é muito pouco progressivo para o controle da potência naquele motor.

Vamos pensar agora sobre o que acontece na realidade. Um rapaz leva seu carro para o preparador, e o preparador recomenda um aumento do corpo de borboleta para aumentar a potência. Feito o serviço, o rapaz vai acelerar e sente que o motor responde mais prontamente, mais bruto, ao mesmo comando de aceleração. A sensação confirma o bom trabalho do preparador. É uma sensação agradável, e o rapaz recomenda o serviço pra todos os seus amigos.

A sensação referenda a teoria do aumento do corpo de borboleta aumentando a potência do motor. O que passa despercebido é que aumentar o diâmetro do corpo de borboleta afeta a progressividade do componente. Uma abertura pequena do corpo retrabalhado equivale a uma abertura maior do corpo original. O motorista acelera o mesmo que está acostumado e recebe uma resposta mais vigorosa do motor.

Como explicado no artigo do Canto das Sereias, o motor pode até perder potência com o retrabalho, mas ninguém tem sensibilidade para perceber. Só medindo a potência num dinamômetro para constatar a diferença. A falta de compreensão do que realmente ocorre leva aqueles que optam por esse serviço a acreditar piamente que o motor teve a potência aumentada através dele. Cria-se então uma mistificação, com uma aura agradável como o canto das sereias, e o fenômeno se perpetua. Mais gente manda fazer o serviço, mais preparadores passam a oferecer o serviço, porque “os resultados são garantidos”.

Tente explicar o que realmente acontece, e muitos que experimentaram os “resultados comprovados” não irão aceitar a visão alternativa, mais precisa tecnicamente.

Outra mistificação muito comum é sobre ignições superpotentes. A Bosch afirma que uma centelha de 0,2 milijoules é suficiente para produzir uma boa ignição de mistura, e que 30 milijoules é suficiente para ser empregado na prática para compensar perdas que o desgaste do sistema de ignição vá tendo progressivamente. A literatura técnica afirma que ignições superpotentes até prejudicam a boa queima do motor. O excesso de potência aquece excessivamente a mistura, deixando-a mais rarefeita para iniciar a frente de chamas. 

Testes de dinamômetro também são documentados na literatura técnica, mostrando que não há acréscimo de potência com o uso de ignições superpotentes. Entretanto, os partidários do “mais é sempre melhor” oferecem ignições de quase 1 Joule de potência por centelha como panacéia a todos os males do motor, prometendo ganhos irreais de potência e economia ao mesmo tempo. É a típica pseudo-teoria não comprovada pela literatura técnica em lugar algum, mas permanece porque satisfaz e conforta muitas mentes.

Isso faz surgir uma mistificação difícil de ser eliminada, e muitos produtos inúteis são vendidos apoiados nela. Estas mistificações sobre as tecnologias do automóvel encontraram solo fértil na internet, através das redes sociais. São idéias confortáveis, fáceis de serem repassadas, contra a dificuldade de se encontrar bom material técnico acessível ao leitor em geral.

Hoje a ciência moderna enfrenta um problema. Compreendemos cada vez mais o complexo Universo que nos cerca, mas há tanto conhecimento agregado que há a necessidade cada vez maior de especialistas em diversos assuntos. Isso afasta a ciência moderna da compreensão das pessoas comuns. Sem compreender as respostas da ciência, as pessoas são atraídas para o misticismo e para a pseudo-ciência, que traz respostas mais compreensíveis e confortáveis, sob o risco de conduzir as pessoas para uma alienação da realidade e as colocam contra a verdadeira ciência.

Mais importante do que saber qual teoria é a verdadeira é as pessoas tomarem atitudes mais conscientes diante dela. Com boa ciência, teorias ruins são sempre substituídas por teorias melhores, mas uma ciência sujeita aos sentimentos e caprichos humanos é retrógrada e maléfica.

Teoria científica se combate com outra teoria científica, e vence aquela que modelar melhor os fatos e prever melhor o futuro. Não se enfrenta uma teoria científica estabelecida com paixões e mistificações. É legítimo não gostar de uma determinada teoria científica, e incentivar o surgimento e o estabelecimento de outra alternativa, desde que dentro dos parâmetros do rigor científico. A ciência progride com essas trocas.

Nenhuma teoria é eterna ou insubstituível, mas a que a substituir deve tratar os fatos melhor que a precedente. Quando se cria ou se apoia uma teoria alternativa, deve-se estar consciente que talvez os resultados das pesquisas que tentem comprová-la acabem servindo para reforçar a teoria vigente e incômoda que se pretende substituir.

O bom método científico manda que. mesmo a contra-gosto, estes dados devam ser mostrados e devidamente analisados. Entretanto, com o orgulho em jogo e paixões feridas, muitos preferem ocultar estes dados ou mesmo fraudá-los para que a teoria alternativa seja comprovada à força. A fraude serve apenas para desqualificar uma teoria que muitas vezes até tem fundamento, e nestes casos ela pode demorar muitos anos para restabelecer sua credibilidade.

Por toda história da humanidade, quando o preconceito, as crendices e os interesses humanos se sobrepuseram à verdade científica, uma era obscura se estabeleceu, e o progresso foi interrompido. Estamos entrando numa era tecnológica sem precedentes, e não há mais espaço para este tipo de atitude. Quer seja nas grandes como nas pequenas questões.

Usuários leigos precisam repensar suas atitudes para usufruírem ao máximo os benefícios da ciência sem causarem entraves desnecessários. Engenheiros, num segundo escalão como usuários da ciência, não podem se dar ao luxo de aderir à mistificações e pseudo-ciências. Sem ciência de verdade, nenhuma tecnologia funciona.

Não existe uma ciência do bem porque acreditamos nela e uma ciência do mal porque duvidamos dela. Existe uma única ciência , e que deve seguir os seus ritos para mitigar os erros e imprecisões.  Esta é uma realidade que cabe a todos enfrentar, a bem do nosso futuro.

AAD

31 comentários :

  1. Não é um post para todos pois envolve a capacidade de "razonar" e alguma educação acadêmica para entende-lo, mesmo que parcialmente. Ainda assim, um artigo que se propõe a encontrar e/ou mostrar que o equilíbrio entre aquilo que rejeitamos e o que aceitamos como verdades universais, passa obrigatóriamente pelo caminho do meio mesmo que se utilize das beiradas. Com toda a sofisticação do enunciado, pode ser utilizado inclusive para o mal, bastando para tal, saber "explica-lo" aos que não compreendem ou que não querem se dar ao trabalho de pensar e que aceitam em A ou B.
    Isso tudo me lembra uma historinha que diz que os cientistas sofrem um bocado para comprovar alguma coisa, escalando o lado mais difícil da montanha e quando chegam no topo encontram uma multidão de "crentes" que simplesmente acreditam na criação divina pois foram movidos pela fé... escolho a escarpa pois também quero saber o por quê.

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  2. André, ótimo texto, com bastante estilo. Mas, me permita, em alguns pontos é positivista demais. Se a ciência conseguisse perceber que todo conhecimento é, a priori, humano, primordialmente um produto da linguagem (vocalizada - não aquela das abelhas ou dos gansos), sugeriria a hipótese de que não existe conhecimento sem um comprometimento da libido (não necessariamente aquela dispensada ao ato sexual, mas a toda dispensada nas animações humanas). Por isso, assim como não adianta explicar às crianças de 5 anos o sistema reprodutivo, também não se pode conjugar todos os argumentos físicos e químicos para convencer um adulto sobre o mitos que envolvam algo tão peculiar como é a cultura automobilística. O quê não renega a pertinência de seu texto ou a qualidade da sua escrita

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  3. AAD, ótimo texto, parabéns.

    Agora tente explicar isso para alguém sem formação acadêmica, ou com formação porém de qualidade duvidosa...

    Os mitos se formam pelas pessoas que os divulgam, tenho dito.

    []s

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  4. O que isso tem a ver com automóveis, mesmo?? Texto no site errado!!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. exto muito interessante André. E por falar em velas, viria a calhar a publicação de um artigo sobre sistemas de ignição, velas, a discussão sobre a eficiência de mais de um eletrôdo nas mesmas e com curiosidades e dicas sobre isso.

    Renan Veronezzi

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  7. Assunto fascinante! à época que foi postado o "Canto da Sereia" eu não conhecia o AE e só após a indicação de hj, fui ler o artigo. Só posso dizer o seguinte: Quero mais...
    Parabéns e obrigado

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  8. Mauro R.V.18/02/11 12:59

    Grande André! Excelente texto!
    Foi a melhor explanação que já lí sobre as varias teorias sobre o aquecimento global.

    Mas me causou estranheza seu comentario sobre ignições de alta potencia.

    Eu sempre tive como fato (talvez errado) que uma folga maior nos eletrodos das velas propiciaria uma melhor queima. E daí achava que uma ignição de maior potencia poderia trazer melhoras justamente por permitir que se use folga de eletrodos maiores.

    Por favor, me ilumine Mestre! :-)

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  9. Rodrigo Laranjo18/02/11 13:11

    Não se esqueça dos "carros chipados" que só mudam a sensibilidade do acelerador...

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  10. Tenho a mesma dúvida do Mauro... Um gap maior na vela não produz uma queima mais homogênea não?

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  11. André,

    André,

    A curiosidade, o conhecimento e o método científicos precisam ser estimulados no Brasil. A Ciência é algo absolutamente fascinante e libertador. Duvido que alguém que entenda pela primeira vez a explicação de Einstein para a gravidade (algo de que sequer Newton foi capaz) não fique impressionado com o mundo natural e o poder elucidativo do método cientifico.
    Crendices e supersticoes prevalecem sobre verdades cientificas provadas (vide caso recente das "pulseiras de equilíbrio").
    A quem se interessar recomendo a leitura de "O mundo assombrado pelos demônios", do já citado e saudoso Carl Sagan.

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  12. Xi, logo logo aparece o Cesar "Centelha" (fabricante de um placebo chamado de MEG ignição) e vai ser o apocalipse no blog.

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  13. André,

    Parabéns pelo excelente texto.

    Abs,

    Roberto.

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  14. Também estranhei a parte da ignição,sempre achei que quanto maior o GAP da vela melhor a queima.Em um fórum que participo tem uma discussão incrível sobre esse assunto,de um lado o que defende o Cézar Centelha(ri com o apelido,rsrsrs)e do outro os defensores de maior GAP e outras ignições..

    Se puder,fale mais sobre o assunto..

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  15. Texto pretensioso e muito confuso.
    Achei horrível. Minha opinão.

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  16. Obrigado a todos.

    Bom, vamos à dúvida da ignição, que, pelo jeito está na cabeça de muita gente.

    Imaginem os eletrodos da vela dentro da câmara de combustão, cercados de mistura.

    Quando a centelha salta entre os eletrodos, ela forma um plasma extremamente quente, que aquece um volume vizinho, que por sua vez se incendeia, iniciando a propagação da frente de chama que irá queimar toda a mistura dentro da câmara.

    Entretanto, há um detalhe importante.
    A centelha é linear, e o fluxo de energia segue em uma dimensão, enquanto a mistura circundante que irá iniciar a frente de chama ocupa um volume, ou três dimensões. Assim, um crescimento linear do gap da centelha aumenta o volume sensível à centelha ao cubo desse crescimento. Uma variação pequena do gap varia muito a quantidade de mistura sensível à centelha.

    Se o gap é pequeno, o volume de mistura é muito pequeno. A quantidade de energia da mistura queimada diretamente pela centelha pode não ser suficiente para queimar a próxima camada de mistura, e temos uma falha de ignição (misfiring).

    Se o gap for um pouco maior, logo a frente de chama envolve os eletrodos da vela, que está mais frio, e absorve calor dessa frente de chama suficiente para apagá-la, causando misfiring.

    Se o gap for muito maior, o volume sensível à centelha é significativamente maior, exigindo maior quantidade de energia para iniciar a queima. Entretanto ao disparar a centelha, pelo maior volume, a subida de temperatura da mistura é mais lenta, e permite que a mistura se expanda antes de atingir a temperatura de ignição, causando uma frente de chama deficiente.
    Um gap maior implica num eletrodo de terra maior e mais afastado do corpo da vela. Este eletrodo terá maior dificuldade de dissipar o calor que ele toma da frente de chama e passa a trabalhar a quente, podendo se tornar um ponto de pré-ignição, que é uma ignição defeituosa.

    Como tudo na engenharia, existe um meio termo em tudo. Se o gap for pequeno demais, o sistema perde de uma forma; grande demais perde de outra. Então existe um gap ideal que balanceia essas características e se obtém a melhor frente de chama.

    Existe mais um detalhe.
    Nem tudo na engenharia é proporcional.
    Um palito de fósforo é suficiente pra acender uma vela, mas também é suficiente pra incendiar uma floresta. Não é porque uma floresta está pegando fogo que foi uma tocha gigante que começou o fogo.

    Da mesma forma, não há uma grande diferença entre o gap de uma vela de moto e de um V8 big block.

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  17. BOX666, desculpe se se não o agradei com meu texto, porém acredito que os demais entenderam onde eu quis chegar com ele.

    Escrevo sobre tecnologia na internet há mais de uma década, e o que mais vejo nos grupos que discutem carros é a desinformação, a mistificação, a má interpretação e assim por diante.

    Pode não parecer, mas ao comentar sobre fatos que não tem nada a ver com automóveis à primeira vista, na verdade estou alertando de forma didática os leitores para erros bastante similares que eles encontram todos os dias e não só em grupos de carros.

    De pouco adianta estar falando de carros, se ao invés de discutirmos tecnologia como merece ser discutida, ficarmos discutindo mistificações que nada tem de reais.
    É preciso que os leitores estejam alertas para este fato, tanto aqui como em outras comunidades a que pertençam.

    Poder participar do blog pelo lado de cá é um prêmio para mim, pois o objetivo do blog, a de disseminar boas informações sobre carros, é a mesma bandeira que levanto a tantos anos.

    Senti que era hora de dissipar muitas nuvens escuras que obscurecem o assunto automóveis, e escrevi o artigo.

    Sinto se não pude agradá-lo desta vez. Não é sempre que se pode agradar a gregos e troianos.

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  18. "Não é um post para todos pois envolve a capacidade de "razonar" e alguma educação acadêmica para entende-lo"

    Não precisa se explicar, é que de repende me vi lendo algo que mais parece uma tese de mestrado, e pareceu "fora de lugar" no AutoEntusiastas. Um post como esse merece ser publicado em alguma "nerd-zine" (hehe) dedicada exclusivamente à Tecnologia.

    Afinal a maioria das pessoas vem aqui para se distrair, e não para ler algo 10x sem entender nada.

    Parabéns pela sua erudição, só tente ser mais "acessível" ao publico em geral. Boa sorte.

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  19. É a velha questão da valoração, da lógica interna. A religião, assim como as ciências, partem de crenças distintas (ou pressupostos, dirão alguns) para se estabelecer um método, uma doutrina.
    O problema é que, desde o séc. XIX, cada um esqueceu do seu lugar: o cientista acha que deve fazer cosmologia (que equivale dizer metafísica, "religião"), e o padre busca explicar tudo a partir de um documento que não tem essa pretensão. E o filósofo ficou à deriva...
    A teoria darwiniana é científica, e ciência, como bem se percebe, surgiu alicerçada por toda uma metafísica (de Kant, Descartes, e do próprio Newton). É necessário quebrar o preconceito do outro lado, porque assim como o religioso crê em Deus, o cientista crê ser capaz de conhecer tudo racionalmente (e sem esta crença, como se observou no niilismo, não há sentido na ciência ou em qualquer empreendimento sistemático no campo dos saberes).
    A ciência e a religião possuem sua utilidade específica, quando em seu "ergon" específico; e as crenças não são empecilhos, mas pressupostos. O erro é não respeitar o espaço que cada uma ocupa, em cada grupo da sociedade.
    E falando de ciência, concordo o que vale (em sua lógica interna) é seu método: o resto não precisa ser combatido (em uma "cruzada" positivista), mas ignorado enquanto teoria válida, adequada.

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  20. Quem trabalha com tecnologia, sabe muito bem que a emoção humana interfere negativamente para se obter os melhores resultados, e é díficil para o ser humano se livrar dela.

    O próprio "efeito placebo" que é basicamente o poder do ser humano de alterar algo com a fé, é um fato aceito pela ciência, e, não podemos ser prepotentes ao ponto de acharmos que sabemos tudo, ou que para sermos Deuses, basta conhecimento suficiente.

    “A ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”.
    Albert Einstein

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  21. Meus cumprimentos. Excelente.
    Conclusões, cada um tire a sua.
    E é isso que torna o texto ainda melhor: nao impoe verdades ou falsidades faceis. Deixa o leitor decidir.

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  22. Mauro R.V.19/02/11 14:20

    Valeu André! Ótima explicação.

    Como sempre, coisas aparentemente simples mostram bem mais complexidade ao serem vistas de perto. ;-)

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  23. BOX666, para entender o texto é preciso terminar a quinta série.

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  24. Bera Silva20/02/11 12:29

    O fato de ainda haveram discussões de determinados assuntos nos EUa se deve a uma parcela da mídia que ainda faz o papel dela, muitissímo diferente da mídia brasileira, que só copia notícias do New York Time e Washington Post, além de que todos os canais brasileros tem a petulância de falar sobre a mesma coisa, ao mesmo tempo, do mesmo jeito e ainda chamar de jornalismo.

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  25. Bera Silva20/02/11 13:20

    O que está acontecendo de uns séculos para cá é a ciência querer se tornar religião. O limite da ciência é o limite da nossa observação ( A Física). A partir daí, começa a Metafísica: a Filosofia e a Teologia.
    Outro problema é quando grupos de pressão se apossam da "ciência". Isso aconteceu num passado recente quanto surgiu a Eugenia (baseada nas idéias do "santo Darwin"), cultivada por toda uma elite (médica, política e intelectual) na Europa e América. Estes "eugênicos" já haviam esterelizados milhares à força e promulgado leis eugênicas antes da II Guerra. Como havia uma barreira constitucional nos EUA para eles avançarem, viram na Alemanha terreno fértil para suas idéias. Fundações como Ford e Rockfeller, etc. enviaram dólares, pessoas e apoio logística para Hitler avançar com seu programa eugenista, que eliminou os indesejáveis, como velhos, doentes, deficiêntes, etc.
    Sobre evolucionismo:
    http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cadernos&subsecao=ciencia&artigo=evolucionismo&lang=bra
    http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=ciencia&artigo=20060411102027&lang=bra
    http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html
    http://www.santotomas.com.br/?p=94
    http://www.santotomas.com.br/?p=10
    http://www.olavodecarvalho.org/semana/071224dc.html

    Sobre eugenia:
    http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=ciencia&artigo=eugenia1&lang=bra
    (vejam as três partes, especialmente a terceira).

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  26. Bera Silva20/02/11 13:32

    "...e se é possível ao homem modificar e aprimorar outros seres vivos pela seleção, é possível que esses seres vivos se modifiquem pela seleção natural."

    Permita-me discordar. São dois mecanismos diferentes. Primeiro a seleção das plantas e animais domesticados resulta da seleção das características desejadas que já estão no ser vivo. Por exemplo, se eu tenho um rebanho de zebú e percebo que um indíviduo cresceu mais que os outros comendo no mesmo pasto a mesma quantidade de capim, então eu vou pegar esse zebú e cruzar com diversas vacas. Alguns de seus filhotes crescerão mais e seu eu der preferência de cruza para esses filhotes, em alguns anos meu rebalho terá gados maiores do que hoje. A característica de "crescer mais" já estava no indíviduo, logo, eu não criei nenhum gene, nem o zebú, o gene já estava lá. Tampouco criei uma nova espécie, o código genético continua o mesmo, podendo eles se cruzarem entre si e gerarem descendentes férteis.
    A teoria da evolução diz que surgem genes, e isso nunca foi constatado nem provado.

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  27. O autor ñ mencionou o fato de a teoria da evolução ser uma TEORIA, por mais cientifica que ela posa ser atraves de obsrvação, etc, ñ foi comprovada cientificamente a ponto de ser uma LEI geral da evolução (por que será?). Ou seja tamto como o criacionismo vc precisa de FÉ para acreditar nela (o cúmulo do paradoxo).
    Embora este ñ seja o lugar para este tipo de discusão ( por mais que o autor queira fazer parecer de relevância ao assunto automóvel:
    ..."Pode não parecer, mas ao comentar sobre fatos que não tem nada a ver com automóveis à primeira vista, na verdade estou alertando de forma didática os leitores para erros bastante similares que eles encontram todos os dias e não só em grupos de carros."...
    Ao meu ver para soar como "entendido" e tentar induzir outros em sua fé (na ciência). De qualquer forma, se a teoria da evolução parte de uma avaliação lógica e racional da seleção natural, então vamos usar uma avaliação lógica e racional do Criacionismo, com um exemplo bem didático e que todos aqui iram entender: um engenheiro projeta uma ponte, e depois tem de projetar outra, ele irá tentar "reinventar a roda" ou irá usar o modelo anterior como base?
    É lógico e racional que ele ira usar o melhor desing para dar continuidade as suas obras. Por isso os invertebrados são fundamentalmente parecidos uns com os outros e as aves e os reptéis e finalmente os mamíferos isso é lógico e racional, ou para vc acreditar em criacionismo tudo teria de ser completamente diferente um do outro entre as espécies e etc?
    Deus sendo o engenheiro competente que é,tem esta capacidade, mas teria sido uma perda de tempo enorme para satisfazer uns que não conseguem ver a beleza e "simplicidade complexa" de sua obra.
    Que Deus vos abençoe a todos.

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  28. Bera Silva, algumas das questões que você levanta são muito mais complexas do que imagina.

    Um Zebu é maior que os outros porque? E se uma mutação genética aleatória ocorreu para torná-lo maior?
    Se o ser humano prefere esse tamanho, e o seleciona como reprodutor, logo o gene mutante entra pra matriz genética da raça.
    A seleção natural age da mesma forma, mas no sentido selecionar o padrão com as melhores características para sobrevivência.

    Mutações genéticas ocorrem aleatoriamente, na natureza ou sob a proteção do homem.

    Quando eu fazia a pesquisa para este artigo, descobri um fato interessante.

    Durante anos, os religiosos contrários à teoria da evolução diziam que o ser humano tinha um par de cromossomos a menos que os macacos, e que por isso, não poderíamos ser aparentados com eles.

    Entretanto, a alguns anos, a partir do mapeamento do genoma humano, descobriu-se que o par de cromossomos número 2 era a fusão de dois pares de cromossomos existentes nos macacos.

    Cromossomos são começados e terminados por estruturas chamadas de telêmeros, e possuem uma estrutura intermediária chamada centrômero.
    Os cromossomos 2 humanos revelaram a existência de uma sequência de telêmeros intemediários, assim como dois centrômeros, sendo um desativado.
    Estas estruturas anômalas permitiram demonstrar o emparelhamento de vários genes humanos com genes dos macacos.

    Esse cromossomo humano é a união de dois cromossomos dos macacos.

    O que define a separação de espécies é a incompatibilidade genética entre elas.
    Dinâmicas de transformação como a do macaco em homem é que separam as espécies em definitivo. E isso ocorre num lapso de tempo muito grande.

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  29. Bera Silva, a questão da eugenia até uns 20 anos atrás era apenas uma questão moral e ética, mas tomou novos contornos desde então.

    O homem escapou do mecanismo da seleção natural nos últimos séculos, e escapou da seleção por doenças no último século e meio.

    Mutações ocorrem raramente numa população reduzida, e demoram a se espalhar.
    Mas numa população de bilhões de indivíduos, elas ocorrem com constância e se disseminam mais rapidamente.

    Como praticamente o homem não se submete a nenhum mecanismo de seleção, genes bons e ruins tem a mesma chance de sobrevivência, o que potencializa a disseminação dos genes ruins entre os genes bons.

    A Organização Mundial da Saúde prevê uma pandemia de hipertensão e diabetes de origem genética até 2030.

    Essa projeção mostra na prática um crescente empobrecimento do padrão genético humano.

    Para os próximos 100 ou 200 anos será necessária alguma intervenção nesse padrão para não termos uma população doente.
    Só que isso é eugenia.

    Aí nos encontramos de novo com a discussão.
    Quem pode ter ou não filhos? Que genes são bons e quais os ruins?

    Uma hora teremos de decidir.

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  30. Alvarenga, acredito que vc caiu na mesma armadilha que o artigo tenta dissipar.

    Não existem leis no sentido literal da palavra na ciência. Só teorias.

    A Lei da Ação e Reação de Newton, por exemplo.
    Ela prevê que quando um corpo age sobre outro, o outro reage instantaneamente sobre o primeiro.
    Einstein mostrou pela relatividade que a reação não é instantânea, mas se propaga na velocidade da luz.

    Se Newton tivesse escrito uma lei natural, ela não estaria submetida a uma revisão posterior.
    Então a lei da ação e reação é uma teoria, e não uma lei.

    A partir do instante uma hipótese precisa ser comprovada para virar uma teoria, isto elimina a fé da equação de credibilidade.

    Vc me respondeu através de um computador, cujo projeto depende da física quântica pra funcionar.
    Vc depende da fé na física quântica para que seu computador funcione?

    A teoria da evolução é uma teoria científica nos mesmos moldes da física quântica.
    Ela existe em função das confirmações de suas predições.

    A teria da concepção inteligente prevê que uma mente superior ordenou o mundo em seus mínimos detalhes. Onde está ela para que possa ser estudada?
    Aqui sim há uma necessidade de fé, a menos que ela seja encontrada e comprovada.

    Nenhum carro se move apenas pela fé. Mas as mistificações em torno dele são enormes.
    Esse é um demônio que precisa ser exorcizado.

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  31. Alexandre Freitas09/03/11 00:47

    André,
    Excelentes posts (aproveitei para ler o Canto das Sereiras). Quem não entende e ainda critica deveria partir para outros sites, pois ninguém é obrigado a visitar o blog.

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