CATEGORIA D



Já tinha guiado o caminhãozinho Agrale 1600D do meu sogro várias vezes, nele peguei o jeito rápido. É bem mais alto e largo que um carro, mas não tão mais comprido. O freio hidráulico dele passa sensação ao pedal parecida com de qualquer carro, apenas é mais duro e menos eficiente. Os espelhos laterais são grandes o suficiente para enxergar bem as laterais do baú. O que matava mesmo era o peso dos comandos. A direção não tinha assistência, era um tal de girar o volantão para lá e para cá. A caixa de marchas também estava longe de ser uma seda, o comando da alavanca era bem pesado. Essa combinação delicada dava para deixar qualquer um exausto depois de um dia inteiro de volante.

Andei um bom tempo sem a habilitação específica para caminhões leves (categoria C no caso), quando ele comprou uma Besta é que resolvi correr atrás da mudança para categoria D, que permite guiar veículos de 10 passageiros para cima. Uma bobagem exigir essa habilitação para guiar um furgão tipo Besta, ele está muito mais próximo de um carro do que de um ônibus. Nos EUA é possível dirigir veículos bem maiores sem habilitação diferenciada.

Me matriculei então em uma autoescola para ter uma aulinha com o grandão. Algumas autoescolas faziam (ou ainda fazem) questão de divulgar possuírem microonibus, justamente para não assustar a senhora que apenas queria se habilitar para guiar um furgãozinho de transporte escolar. Eu não, afinal era a oportunidade de guiar um buzão.

A aula era aqui na Av. Embaixador Abelardo Bueno, mais conhecida como reta do autódromo, em uma época onde pouca gente morava por aqui. Hoje me incluo nos que moram nessa região e atesto que seria impossível ensinar alguém a guiar ônibus nessa avenida, por conta do enorme aumento do fluxo de veículos.




O ônibus era do tipo urbano, com motor dianteiro. Ajeitei os espelhos retrovisores laterais, sentei no banco do motorista, soltei o freio de estacionamento (ptssssss !), engatei a primeira (ainda era para baixo, dog leg) e fui saindo com ele. É bem estranho, a primeira é curtíssima, mal a gente se mexe e a injeção quase corta. Engato a segunda, a alavanca é tão ou mais pesada do que do caminhãozinho Agrale, e bem mais vaga. Não esqueço do dia da prova, quando um sujeito querendo mostrar que era bom, saiu decidido em primeira, deu a famosa aceleradinha interina, na hora de engatar a segunda, só arranhada e nada da marcha entrar. Sorte que o fiscal do Detran estava de bom humor e deu uma segunda chance ao rapaz.

Engato terceira, vou tocando o bruto, logo à frente o retorno, dou um toque no freio. Aqui, outra grande diferença, a resposta do freio. Tem um lag estranho, e como não percebi resposta ao toque no pedal, pisei um pouco mais forte. Não devia, o buzão estancou na hora, sorte que não havia nenhum passageiro.

Não encarei nenhuma situação onde precisasse me virar com o tamanho dele, andei em grandes retas, curvas abertas, e principalmente, com quase nenhum trânsito. Mas sei que, do mesmo jeito que acostumei com o Agralezinho e já passava bem em locais mais estreitos com ele sem sustos, encarar trânsito com o ônibus seria questão de costume. Basta ver os muito responsáveis motoristas dos ônibus daqui do Rio, tiram finos a toda hora em velocidades não exatamente baixas.

O que me pegou mesmo foi manobrá-lo em um lugar apertado. Nem tanto pelo tamanho, mas pelo fato de sentar à frente do eixo dianteiro. Isso é que é muito estranho, você vai manobrando, e para achando que a roda vai encostar no meio-fio. Aí o instrutor manda você continuar e você não obedece de primeira, no melhor estilo "como assim?" Ele insiste e lá vamos nós, passando com a bunda por cima da calçada, sem no entanto as rodas dianteiras tocarem o meio-fio.

No dia da prova, só exigiram um trechinho de reta, em um exame mais superficial do que o exame de carro, e dias depois ostentava uma habilitação A/D. Ônibus, nunca mais dirigi, mas confesso que morro de vontade de experimentar um Scania rodoviário, com 420 cavalos parrudos, todos a postos a 1.900 rpm.

AC

31 comentários :

  1. Acho que a 1º curta é característica de carros pesados Diesel. A D20 do meu pai também tem a 1º bem curta. Acredito que esta característica que falaste (lag) do freio de serviço se deva ao fato de serem a ar e não hidráulicos.

    Já tive diversas instruções sobre funcionamento de mecânica pesada, além de minha experiência prática, e é bem interessante.

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  2. AC,

    Meu sonho é um pouco menor: um hatch pequeno movido a diesel e com mais de 20 quilos de torque a menos de 2000 rpm. Com uma caixa de escalonamento aberto, deve ser algo delicioso. O Opel Corsa tem uma versão 1,7 L com mais de 30 quilos de torque, disponíveis entre 2.000 e 2.500 rpm. E, para apoiar o Bob, pra quê que um carro desses usa uma caixa de seis marchas. Podia ser um 3 + E, que ainda andaria a contento.

    Espero viver o suficiente para ver carros de passeio a diesel liberados no Brasil. Nossos hermanos têm, por que não podemos?

    Abraço.

    Fernando Campolina

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  3. AC,

    Vou fazer uma invejazinha...hehehe
    Trabalhava num concessionário MB e um belo dia chegou uma Double Decker (2 andares) para entregar a um cliente. Tinha 360 cv, câmera de manobras (preto e branco) e poltronas confortabilíssimas, encarroçado pela Busscar. Dei umas voltas nele no pátio e depois consegui dar uma escapada com ele... 4 km de emoção! Muito gostoso de guiar, pena que não tenho carteira para isso.
    Mas o mais legal é que esse ônibus é da PRF. hehehhee

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  4. Quando comecei a dirigir, aos 12/13 anos manobrava muito o O-362 rodoviário que o meu vizinho, o "seu" Albertino trabalhava, levando o pessoal da Aeronautica pra base aérea, em troca de ajudá-lo a lavar o MB.
    Bons tempos...

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  5. AC, mas Agrale também não é mole. Sua caixa - nas versões mais antigas - é famosa pela imprecisão e pelas inevitáveis arranhadas.

    Mundo pequeno! Essa foto ali, provavelmente foi batida na aldeia alemã de Nova Petrópolis; há duas semanas, passei nesse exato local de bicicleta em um enduro de regularidade.

    Caminhões são bichos esquisitos mesmo, um dia, passei a mão na chave de um MB 916 de um amigo, e mandei ele subir na carona. O que mais me deixou impressionado, é que andando, toda a sensação de ergonomia ao volante é diferente do que você sentado ao volante com o caminhão parado. Você dirigindo de fato, parece que fica muito mais projetado à frente, o volante fica muito embaixo, o banco muito alto...realmente muda! O carona também fica um tanto assustado pois a lateral do caminhão está sempre no limite territorial da pista, e olhando pelos espelhos, não se percebe tanto assim.

    Mas é uma experiência bem divertida, é fácil pegar a mão e confesso que também tenho uma tara por ônibus pesados rodoviários, aqueles que a gente curte ver as plaquinhas traseiras de "360 hp Scania", "abs", "soft shift"...etc.

    Mister Fórmula Finesse

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  6. Falando em ônibus...em uma das visitas que fiz a Marcopolo (que estrutura eles tem lá, muito legal ver como "nasce" um ônibus) vi eles fazendo teste de rodagem com um DD (tem uma pista lá dentro). O motorista entrava nas curvas com aquele baita ônibus praticamente de lado, parecia que ia tombar.

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  7. Sou "D" desde os anos 70. Já fui "E" para poder dirigir carreta com combustivel. Fiz até o curso de cargas perigosas, pois era a única maneira de cobrar dos motoristas responsabilidade. voltei ao "D" pela idade (63) sendo mais que suficiente para minhas necessidades. Minha primeira vez foi com um F-600 da Ford (alguém lembra disso?) um pesadelo! Depois guiei de tudo até FNM com marcha cruzada, (outro pesadelo!) hoje, com e as facilidades existentes, não chega a ser um drama, direção assistida, cambio macio e, o mais demorado é o fato de sentar muito a frente do eixo dianteiro e aprender a "entrar" numa esquina qdo a impressão que se tem é que não vai dar pra virar. he he... mas, prefiro automóvel.

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  8. Regi: dirigir FNM é algo para heróis, eu com certeza nunca conseguiria...

    Filipe: a pista da Marcopolo é maravilhosa, mais de uma vez fiquei imaginando peraltices motorizadas divisando aquele asfalto do portão de acesso!

    Mister Fórmula Finesse

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  9. Na minha época de exército dirigi os F600 (se não me falha a memória eram estes)...caixa seca...queixo duro...4x4 com caixa reduzida...A 1º e a 2º eram uma ao lado da outra...

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  10. meu sonho é passar a vida rodando sem destino num motor home montado num cma ciferal (daqueles tipo cometa flecha azul), com um scania ds14 v8 turbodiesel e uma garagenzinha embaixo comum pequenino roadster dentro....

    olha só q beleza d ronco http://www.youtube.com/watch?v=KFWV19Ce03k&feature=related

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  11. Aceleração interina em troca de marcha ascendente?

    Não entendi essa...

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  12. Mister Formula,

    o Agrale, para ajudar, era equipado com o MWM 229 3 cilindros e 65 cv. Mas certa vez fiz Miguel Pererira-Tijuca em 1h45, quem conhece sabe que o tempo é razoável.

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  13. Anderson,

    deve ter sido por isso que o cara se embananou. Ao invés de deixar o giro cair naturalmente e engatar segunda, subiu as rotações.

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  14. Francisco V.G.23/02/11 12:47

    Na época em que tirei CNH, em 1984, curiosamente o Detran aqui de SP estava emitindo a categoria "C", sendo que ninguém à época fez treinamento em veículos do tipo para tal categoria.
    Tive poucas experiências com esses veículos diferentes, porém, foram bem bacanas. Meu cunhado que é motorista profissional - já trabalhou com cegonha, levou chassi "pelado", ônibus, cavalo, etc... - me proporcionou tais momentos. Entre 1994 e 1996 ele trabalhava em uma empresa que prestava serviços para a Mercedes-Benz, sendo que, além de conduzir cegonhas recheadas com classes "C", "E", "S" e alguns AMG, também tinha de levar uns chassis e cavalos, em geral para o Nordeste e DF. Nunca vou me esquecer quando ele me soltou um "1935" na mão por centenas de quilometros na BR-050 em direção à Brasília. Aquilo, quando vazio(só o cavalo), anda que é uma barbaridade, uma estupidez de arrancada e aceleração, e não devia nadinha em conforto para qualquer automóvel: Direção leve e precisa, ar condicionado e até vidros com acionamento elétrico. Não me lembro bem mas eram 16 marchas(8 na "baixa" e 8 na "alta") sendo que, bastava fazer uso de tres delas na "alta" na condição em que estávamos (só cavalo). faz coisa de 1 ano o dito cujo me apareceu em casa com um cavalo modelo Axor. Meu amigo, que caminhão é esse! Lembrei do "1935" que guiei 15 anos antes e pude ver como a coisa evoluiu, e olha que aquele de 1995 já era bom demais. Quanto ao meu sonho, esse seria "tocar" um ônibus que marcou meus tempos de moleque: Um Ciferal Líder com motor Scania 110 super, o famoso "turbo-jumbo" da Cometa. Ainda não vi coisa mais bonita que aquilo, mesmo com toda a evolução que existe hoje, e o sopro da turbina era coisa de louco, quem for da minha época e passou por isso sabe do que falo.
    E, para terminar (esse comentário ficou grande, mas me desculpem, a memória começa a trabalhar que nem doida com posts com esse), já que falamos desses "brutos", acho que não tem coisa mais arrepiante do que o ronco de um motor Detroit.

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  15. a melodia dos detroit diesel 2 tempos:

    http://www.youtube.com/watch?v=dVjXwS8HzFw
    http://www.youtube.com/watch?v=EnN1i9LjAw0

    os v8
    http://www.youtube.com/watch?v=6ADOFZ77Bio
    http://www.youtube.com/watch?v=r79WC0c_bN8

    e os v12
    http://www.youtube.com/watch?v=ttLnunAG86w
    http://www.youtube.com/watch?v=PD7_FXAENJo
    http://www.youtube.com/watch?v=FUq_dX7I9x4&feature=related (detalhe prá baliza q o kra tá fzd)

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  16. Tomas Torbano23/02/11 13:20

    Aqui em Sampa todos os onibus tem um adesivo colado no parabrisa:

    "Sempre saia de primeira marcha, nunca de segunda"

    Frase ignorada pelo motoristas que sempre saem com a segunda. Raras exceçoes de ladeiras e rampas ingremes.

    Alias é para isso mesmo que a primeira é curtissima, só para tirar o bichano de dez toneladas da ladeira.

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  17. Saudades de pilotar caminhões fora-de-estrada rebaixados para trabalho em túneis. O monstrinho só carregava 50 toneladas e era articulado..

    O motorzinho era um DETROIT DIESEL COM INJEÇÃO DDEC ( DETROIT DIESEL ELECTRONIC CONTROL) ,
    transmissão hidrostática rodas com redutores e estupidez pura !!!

    Existem também os motores DEUTZ V8 diesel turbo REFRIGERADOS A AR !!

    Coisa de doido...

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  18. Marcos Alvarenga23/02/11 20:41

    Minha infância foi dirigir um Mercedes 608-D 1981 do meu pai, sempre em estradas de terra, quando íamos pescar. Minha maior dificuldade eram os mata-burros, quando eu tinha de passar bem à esquerda pra não cair. E lembro até hoje do intervalo que tem de ser dado entre uma marcha e outra pra que a marcha entre sem arranhar. Saudade...

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  19. Marcos Alvarenga23/02/11 20:41

    Minha infância foi dirigir um Mercedes 608-D 1981 do meu pai, sempre em estradas de terra, quando íamos pescar. Minha maior dificuldade eram os mata-burros, quando eu tinha de passar bem à esquerda pra não cair. E lembro até hoje do intervalo que tem de ser dado entre uma marcha e outra pra que a marcha entre sem arranhar. Saudade...

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  20. alguem poderia explicar o funcionamento do freio a ar?!?!

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  21. Pedro Bergamaschi23/02/11 21:22

    Falando da categoria D para veículos "pequenos", pior que o caso da Besta, é a Galloper Diesel que saiu com (virtuais) dez lugares em algumas versões. Exatamente o mesmo tamanho e peso das versões normais, mas exigindo carteira "D". Isso, somado a avaliadores do Detran "pé-no-saco" resultam em quase 6 anos dirigindo esssa camioneta por ruas e estradas com carteira "A".

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  22. Thiago, o funcionamento do freio a ar é feito justamente como diz o nome: o acionamento é com ar comprimido e não com fluído de freio. Ônibus e caminhões tem compressores de ar que fazem o "enchimento" do sistema e a pressão necessária. Não sei se tu já viu, mas em alguns veículos sem manutenção (com vazamentos no sistema)é necessário ficar um tempo com o motor ligado para pressurizar o sistema e poder soltar o freio de estacionamento?...o sistema está vazio e não enche as "cuícas" pra soltar o freio (aquelas peças que parecem reservatórios próximos as rodas). Mas nas rodas os componentes são basicamente os mesmos de qualquer outro veículo.

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  23. Thiago,
    O Felipe já respondeu. Só acrescento que o estado normal é freado, servindo o ar para desfrear. É por isso que o veículo não anda enquanto não houver pressão de ar suficiente para liberar o freio. De resto, como o Felipe disse, é igual aos outros freios, que se baseiam em atrito de lonas contra tambores ou de pastilhas contra discos.

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  24. Cruvinel

    Em 2006 fui à apresentação do ônibus Scania que serviria a CBF na Copa do Mundo de futebol. Era um Irizar topo de linha, com o seis cilindros mais potente.

    Fiquei perturbando os colegas: "Dá pra colocar o V8 Scania no ônibus não dá????".

    Chegaram a perguntar se eu era louco... Mas loucura por loucura, nada vale sem diversão.

    FB

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  25. Bitu,

    Loucura é não usar o V8.

    Tenho um video passeando com o LK do Maran. Está no youtube.

    []'s

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  26. Nem precisa de V8, a Scania tem um variante de 470cv a 224kgfm. hehe

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  27. Os "pesados" são mesmo muito interessantes... Ainda prefiro os clássicos como o Scania 111S, talvez o modelo antigo mais prevalente em nossas estradas. Fico imaginando um desses com um motor Merlin...
    Um programa televisivo interessante é a série "Caminhoneiros do Gelo", trasmitida pelo canal por assinatura History.
    Mais sobre o Scania "Jacaré" e pesados em geral nos links:

    http://amocaminhoes.wordpress.com/page/4/
    http://www.cargapesada.com.br/
    http://www.ciadeonibus.com/

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  28. Amigo,você pode me confirmar se para dirigir a Kia Besta SV Grand preciso da carteira "D". Agradece pela gentileza.

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  29. Daniel,
    Se a lotação for maior que oito passageiros, motorista excluído, precisa. Por exemplo, a Kombi, fora o motorista, leva oito, portanto basta a carteira "B".

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