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Corvette C7.R e Ferrari 458 Italia

O primeiro Corvette, o original de 1953, com seu anêmico motor seis-cilindros Blue Flame de 150 cv de potência bruta, não era mesmo grande coisa em termos de desempenho. Quando Zora Arkus-Duntov tomou as rédeas do programa, logo colocou um V-8 no pequeno esportivo e o sucesso foi meteórico.

Não demorou para que o Corvette emplacasse também nas pistas, com carros espetaculares e resultados que até os europeus se surpreenderam. Vendo os últimos anos, um dos grandes representantes da dinastia foi o C6.R, modelo que até o ano passado competia de igual para igual com Ferrari, Aston Martin e Porsche.

Vencedor na sua classe em Le Mans e campeão da categoria em 2012, o C6.R além de rápido mostrou-se resistente, com a confiabilidade de um V-8 Chevrolet mais do que conhecida e renomada. Criado pela Pratt & Miller, empresa americana de preparações e projetos especiais, o modelo não deixava nada a desejar em termos de tecnologia frente aos concorrentes europeus.

O Corvette C6.R da Larbre Competition em Interlagos

O V-8 de um único comando alojado no meio do "V" e válvulas acionadas por varetas e balancins é a prova de que a simplicidade ainda é o forte para provas de longa duração. Quanto mais complicados, mais peças, maior a chance de um problema ocorrer. Nos primeiros modelos de 2005, o motor era um 7-litros derivado do LS7 para a categoria GT1, depois passou para 6 litros e até o 5,5-litros da última geração, já no que era a GT2.

Neste ano, com o lançamento da nova geração do Corvette Stingray de rua, o carro de corrida também tinha que ser atualizado, e nasceu o C7.R com a nova carroceria que remete ao carro de produção. O motor manteve-se similar ao do carro anterior, 5,5-litros “varetado”, mas agora com injeção direta de combustível e sem o sistema de comando variável disponível no carro de produção.



O Chevrolet Biscayne das fotos foi alvo de uma restauração de três anos de duração, típica dos americanos, que resulta em carros em condição melhor do que quando saíam de fábrica, conhecidas como over-restoration (sobre-restauração). Muita gente não aprova esse tipo de tratamento, mas antes de condenar a prática, precisamos saber o motivo.

Fazer um Chevrolet aparentemente tão simples e de alta produção ser assim tratado e ficar nessa condição tem um motivo muito especial. É um carro que precisa ser entendido para ser admirado por todos que consideram importantes a história da General Motors e de Zora Arkus-Duntov (1909-1996) em particular. O ex-engenheiro-chefe do Corvette, que chegou a esse cargo por ter sido o responsável pela transformação de um pacato conversível no ícone esportivo americano, é também o mentor desse cupê concebido para uso policial.

O Biscayne, fabricado a partir de 1958, é diferente desse carro de 1959, quando praticamente todas as marcas americanas começaram a fabricar carros mais baixos. O estilo de 1959 é único, o 1960 já sendo diferente novamente.

A traseira é curiosíssima, com a tampa do porta-malas parecendo um par de asas, acima de lanternas de desenho curioso. Um verdadeiro show!





"O automóvel particular comum é o mais importante mecanismo de transporte do mundo. Sua habilidade de mover pessoas e coisas é simplesmente inigualável. Mas o automóvel não é importante não somente pelo que é e poderá ainda ser, mas também porque ele traz para todas as pessoas a maior das liberdades, a de ir de qualquer lugar para qualquer lugar, no seu próprio tempo e conveniência. Isto é uma liberdade de movimento apenas sonhada através das eras, mas nunca atingida antes dele.

Como engenheiros de automóveis, mesmo admitindo meio que a contragosto a necessidade atual do transporte público, porque o congestionado desenho medieval das cidades supostamente modernas exige a aglomeração de pessoas em tais meios de transporte para levá-los para essas tocas de coelho no período da manhã e extraí-los à noite, acreditamos que, a não ser que que os padrões de vida do mundo sejam reduzidos de forma violenta, a continuação das condições insalubres e de humilhação pessoal de tais meios de transporte é impensável. As cidades devem ser abertas na textura até que eles possam absorver totalmente o transporte pessoal, sem superlotação. Por falta de um tal processo de abertura, os centros lotados de muitas cidades estão visivelmente decadentes, e tornando-se favelas. A estrutura interna de um país que não é construído em torno do uso de transporte pessoal deve ser considerado como obsoleto e ineficiente.”

O texto acima é a introdução a um dos mais influentes tratados técnicos da história do automóvel, “The Road Manners of the Modern Car”, escrito por Maurice Olley, um engenheiro inglês que iniciou sua carreira trabalhando com Sir Henry Royce, mas alcançou notoriedade como o teórico de suspensão da General Motors dos EUA. Este texto, apesar de nunca vendido ao público, teve uma influência vasta para o mundo do automóvel, distribuído de mão em mão, como já contei aqui.

Trata de explicar suspensão basicamente, e sua leitura foi ponto de partida para gente importantíssima: sabe-se com certeza que Colin Chapman (Lotus), Zora Arkus-Duntov (que foi subordinado de Olley na GM), Giulio Alfieri (Maserati) e Helmuth Bott (Porsche) foram influenciados fortemente por essas 30 páginas datilografadas. Sabe-se lá quantos engenheiros desconhecidos também o foram.



No final dos anos 1960 e princípio dos 1970, a indústria automobilística estava muito focada em novas tecnologias. Como a era de ouro dos carros americanos já tinha passado, quando basicamente a cada ano um novo design era apresentado, mas sempre usando o mesmo conceito mecânico de motor e chassi, as novidades agora teriam que ser esta área.

Os americanos, em especial, concentraram muito dinheiro e tempo em conceitos arrojados de motores não convencionais, como as turbinas a gás e os motores de ciclo Wankel.

A Chevrolet foi uma delas, apostou no Wankel como opção para seus carros, a princípio, no Vega. Ed Cole, então presidente da GM, estava em um momento de fascinação pelo projeto do alemão Felix Wankel, visto que os japoneses da Mazda já estavam vendendo carros com os motores de rotores triangulares. A suavidade e potência deste tipo de motor fez a cabeça de Cole, assim ele conseguiu liberar alguns milhões de dólares da empresa para o desenvolvimento de uma unidade própria.

Em paralelo, a GM estava no auge com o Corvette, seu carro esporte, que já estava ganhando fama em função das competições internacionais e regionais. Seria um caminho relativamente natural que o Corvette recebesse, nem que fosse apenas para estudo, uma proposta com o motor rotativo. E foi exatamente o que aconteceu. 
Chevrolet Corvette, atual séria C7, sétima geração

Recém-lançado, 7a geração, C7 — óbvios para a indicação do carro e sua edição — o Chevrolet Corvette é bela peça de engenharia esportiva, fugindo do antigo carimbo estadunidense de aumentar desempenho por simplório incremento de cilindrada. Ao contrário, suas últimas três edições são bons trabalhos de engenharia para andar mais, como o uso de ligas leves na parte mecânica, o emprego estrutural de motor e câmbio, só para citar.

Mais recente, motor V-8, 6,2 litros, fazendo 455 cv de potência — ou 460 cv se equipado com escapamento esportivo (uma curiosidade, tal engenho, formulado, desenvolvido e testado por fabricante deste porte, oferecer pouco mais de 1% em ganho. Abaixo do equador sempre imaginamos conquista em torno de 5%).

Caixa automática de seis marchas. Ágil, faz da imobilidade a 60 milhas por hora (96,5 km/h) em 3,8 s. Velocidade final não divulgada, e é econômico, dado financeiramente desprezível a quem se interessar comprar nos EUA a partir de US$ 51 mil: entre 16 e 28 milhas por galão, de acordo com os critérios oficiais da agência estadunidense EPA, a do meio ambiente. Quer dizer, entre 6,8 e 11,9 km/litro de gasolina E10.

O painel do novo Corvette Stingray (C7). (netcarshow.com)

Quem pode, faz. Quem não pode, apenas fala a respeito.
Ditado popular

É difícil para alguém que, como eu, apenas fala a respeito de carros, ouvir uma frase como esta. Mas é a mais pura verdade. Quando nos propomos a avaliar o trabalho de outros, é bom lembrar que não pudemos fazer melhor. Sim, porque se pudéssemos realmente, estaríamos do outro lado da cerca que divide quem faz de quem apenas assiste.

A dura realidade que temos que enfrentar é que mesmo o mais insatisfatório dos automóveis é mais importante do que a melhor piada que pudemos fazer designando-o como tal. Mas é muito fácil se esquecer de tal coisa e de se recolher à sua insignificância; principalmente se o que você escreve ou fala encontra ávidos ouvidos, e tal ocupação lhe traz fama e influência, e em alguns raros casos, até fortuna. O sucesso tem o péssimo hábito de fazer as pessoas acreditarem que não são apenas pessoas, e sim algum tipo de ser iluminado que sempre tem razão em tudo.

Mas isto não quer dizer que a ocupação do avaliador não seja honrada, longe disso. Na verdade, é necessária e importantíssima tanto para quem faz os carros, como para quem os compra. Sem uma opinião séria e isenta, como saberíamos o que comprar, ou como saberíamos onde se errou? E errar todos erramos, porque se não o fizéssemos não faríamos parte da espécie humana. Seríamos algum tipo de ser iluminado que sempre tem razão em tudo.


Os anos 1980 trouxeram ao mundo diversos mitos e marcos históricos, tanto bons e memoráveis quanto muitos ruins e lastimáveis. A queda do Muro de Berlim, a criação dos computadores pessoais, "Thriller" de Michael Jackson, o lançamento do Super Mario. Por outro lado, a moda de vestimentas estilo Restart, músicas deprê, José Sarney.

No mundo automobilístico, seus altos e baixos também foram marcantes. Os supercarros vieram com tudo, a lendária disputa Ferrari F40 vs Porsche 959 vs Lamborghini Countach. Por outro lado, encerraram o Grupo B de rali e tivemos a Autolatina.

Exatos trinta anos atrás, saía de linha um dos mais famosos automóveis dos anos oitenta, e não famoso por suas vendas, seu desempenho ou seu preço, mas sim por causa de um filme. Uma trilogia, na verdade, que todo entusiasta conhece de ponta a ponta. Em 1982, morria o DeLorean DMC-12, o sonho que virou pesadelo, e foi imortalizado no clássico filme "De Volta para o Futuro", de 1985.

Allard J2

No sábado passado publicamos a  parte 1, onde fiz uma descrição geral desse evento anual, em Lakeland , Flórida. Agora, mais  fotos dos carros que não mostrei semana passada.

Não foi possível fotografar tudo, portanto procurei captar os mais significativos e os que nunca havia visto a não ser em fotos. Espero ter atendido os desejos da maioria.

Começando pelo Allard da foto de abertura, esse tinha motor Ford, mas existem os com mecânica Cadillac também. Apesar de não serem extremamente raros, como eram carros feitos para corridas e por isso mesmo bastante abusados, encontrar qualquer um no estado desse significa presenciar um trabalho de restauração extenso.

O grande Zora Arkus-Duntov foi um criadores desse carro, e ambos estão bem explicados aqui nesse maravilhoso texto.




Quem acompanha o AE bem de pertinho sabe que já falamos aqui sobre o Chrysler Hemi, sobre o Ardun V-8 de Zora Arkus-Duntov, e também sobre o Simca Emi-Sul. Resolvi hoje falar sobre outro V-8 na mesma configuração, ou seja, comando único no bloco, válvulas no cabeçote opostas em seção, e câmara de combustão hemisférica. O V-8 inglês da Daimler (acima).

A Daimler inglesa, apesar de ter a mesma origem da mais conhecida alemã (essa origem sendo os motores de Gottlieb Daimler), tem muito pouco em comum com ela. Desde muito cedo, tomaram rumos diferentes, e em 1910 a empresa inglesa é vendida para a Birmingham Small Arms Co, uma empresa gigantesca que então produzia de tudo um pouco, mas que ficaria famosa pelas motocicletas que levavam suas iniciais: BSA.

A Daimler ficou conhecida por seus carros de alto luxo e limusines, inclusive se mantendo como tradicional fornecedor delas para a família real britânica. Mas nos anos 50 precisava desesperadamente de mais volume e modernização, seus carros gerando muito pouco interesse no público comprador.





Há uma série de confusões históricas comuns quando se fala do Chrysler Hemi, principalmente aqui no Brasil. A primeira diz respeito a Zora Arkus-Duntov e sua conversão do Ford flathead V8 em um Hemi, que levava o nome de sua empresa Ardun. Segundo a lenda corrente, o Chyrsler seria uma cópia do Ardun. Depois, quase como uma consequência disso, há confusão sobre a relação entre este cabeçote de Zora e o nosso Simca Emi-Sul, que segundo a mesma lenda é também derivado dele.

A intenção deste post é tão somente esclarecer estas histórias todas, pelo menos até o ponto em que se sabe hoje. Infelizmente, aqui no Brasil se dá muito pouca importância aos fatos e a análise histórica, principalmente quando se fala de carros, um campo nebuloso e cheio de "especialistas". Já vi muita coisa estranha publicada inclusive em livros por aqui. Para os que se interessarem, indico algumas publicações confiáveis ao fim do post, para que quem assim o desejar, puder se aprofundar um pouco mais no assunto.

Para começar, se faz necessário resumir aqui a história do cabeçote Ardun, e de quebra matar uma confusão que aparece regularmente não só aqui no Brasil, mas mundo afora. Esta confusão diz respeito à nacionalidade de Zora Arkus-Duntov.


Zora Arkus-Duntov foi um dos grandes gênios da engenharia automobilística, e um dos mais avançados de sua época e local. Famoso pelo Corvette, Zora era quem comandava os desenvolvimentos de alto desempenho e sofisticação.

CERV-1 é o nome de um de seus conceitos mais interessantes, a sigla representava abreviadamente Chevrolet Engineering Research Vehicle, ou veículo Chevrolet de Pesquisa de Engenharia, e o "1" era devido a ser o primeiro da família, nascido em 1960.



Todo mundo sabe que a Hyundai é hoje uma das mais impressionantes histórias de sucesso da indústria. A empresa, que há pouco mais de 20 anos apareceu para o mundo ocidental com alguns carrinhos baratos, mas de aparência questionável, hoje já é um incômodo para todos os líderes mundiais estabelecidos. Todo mundo a usa como exemplo de eficiência e visão empresarial, e alguns analistas saracoteantes capricham no gel do penteado e no terninho novo para destrinchar o exemplo coreano em palestras mundo afora, onde a história desse sucesso é invariavelmente chamada pelo nome bacana de "case study".

Para mim todo este oba-oba é uma grande bobagem. O sucesso e o declínio de grandes conglomerados automobilísticos podem ser facilmente explicados por um dado simples: sua idade.

O Corvette split window de 1963 foi uma bela obra tanto de design quanto de mecânica com a ajuda de Zora Arkus-Duntov e os aprendizados com o CERV I. Duntov desenvolveu um sistema de suspensão traseira com o CERV I que foi aplicado no Stingray racer de Mitchel e depois também utilizado no Stingray de série.

Duntov com o CERV I de 1960

Em 1963, o Corvette estava ficando cada vez mais europeu no sentido de carro esporte. Pela primeira vez uma versão berlineta, ou cupê, foi oferecida ao público. Larry Shinoda foi responsável pelo desenho do carro que tinha sido inspirado em uma de suas criações para Bill Mitchell, o lendário Stingray racer de 1959.

O Stingray racer de 1959

Mas além de criar a versão berlineta e conversível do Corvette 63, Shinoda recebeu a tarefa também de criar uma versão 4-lugares do Corvettes. Isso mesmo! Um Corvette para quatro.

O Ford Thunderbird de 1955, um sucesso de vendas.


Algum tempo atrás falei sobre o LS7, que pode ser comprado nos EUA por 12 mil dólares. Mas na verdade isto é apenas a ponta do iceberg.
A GM, por meio da divisão GMPP (General Motors Performance Parts), oferece um sem-fim de motores completos, prontos para serem montados em qualquer carro. Trata-se de uma tradição que remonta aos anos 50, quando, devido a uma idéia de Zora Arkus-Duntov, a Chevrolet lançou uma série de componentes de alta performance para o seu então novo V-8 small-block. Desta forma, a Chevrolet, por meio de equipamentos desenvolvidos pelos engenheiros do próprio fabricante e vendido nos concessionários, ajudava amadores e semi-profissionais a serem mais competitivos, e assim levar o nome Chevrolet com eles.
Os hot-rodders americanos também aproveitaram a chance para usar esses componentes nas ruas, e esta venda de peças acabou por ser também um lucrativo negócio para a GM, que evoluiu para a GMPP de hoje.
O catálogo da GMPP, que pode ser baixado no site (clique AQUI), é de dar água na boca. Além das tradicionais peças para preparação, a maior fonte de renda da divisão hoje vem dos chamados "crate engines", ou motores na caixa. São motores completos, novos, criados por engenheiros das GM. Pacotes prontos e testados, sem tentativa e erro; ótimos para reduzir a quantidade de trabalho necessária para completar aquele hot rod tão sonhado.
Todos nós podemos imaginar uma série de utilizações para um leve LS7 de alumínio com 512 cv. Mas o leque de opções é simplesmente impressionante.
Tem-se os small block V-8 tradicionais, que vão do 350 (5,7 litros) "básico" com um carburador de corpo quádruplo e 294 cv, até o potente ZZ383 (6,3 litros) e 431 cv, com leves cabeçotes de alumínio.


Os LS e LSX têm ainda maior variedade, e podem ser comprados com injeção e carburador, e várias cilindradas Os três motores originais disponíveis no Corvette também são oferecidos a venda, estes motores feitos para durar uma vida inteira, totalmente dóceis a baixas rotações e civilizados, apesar das potências estratosféricas: 442 cv (6,3 litros), 512 cv (7,0 litros) e 628 cv (6,3 litros com compressor).

A linha de tradicionais big block V-8 é ainda mais impressionante em tamanho e potência. São motores enormes, não cabem em qualquer carro, mas são inigualáveis monstros quando se fala de força: deslocam a partir de sete litros.
O maior deles, a jóia da coroa, é o ZZ572R: um monstro de 9,4 litros, 730 cv e nada menos que 95 kgfm de torque. Garantidos pela GM.
Baixem o catálogo e divirtam-se!
MAO


Ano passado descobri esse blog, que para minha surpresa tinha um integrante famoso, o Bob Sharp, quem eu tive a oportuniade de conhecer desde que era menino e morava no Brasil.

Logo contatei o Blog e fui apresentado à toda equipe. Ano passado também fui convidado para fazer contribuições e aqui estão duas delas:

CORVETTE C6 ZO6, O LEGADO DE DUNTOV AINDA VIVE

TUBARÃO! TUBARÃO!

O AUTOentuiastas se tornou leitura diária para mim. Através desse blog, pude fazer novas e interessantes amizades. Também através desse blog conheci o trabalho dos Keller que me abriram o olho para a quantidade de ótimos exemplares de Corvettes existentes no Brasil. Quem eu sou? Bem, eu sou apenas mais um AUTOentusiasta e tenho alguma experiência no assunto.

Adoro automóveis e tive uma educação particular em Jaguar enquanto crescia, tendo dirigido praticamente quase todos inclusive o SS-1, primeiro modelo fabricado. Porém minha paixão desde 1974 são Corvettes e tive a felicidade de possuir alguns bem como ser membro da NCRS. Isso me proporcionou com uma boa experiência em relação ao American Sports Car que eu gostaria de dividir com vocês.

O meu intuito aqui é tentar contribuir com textos em portugues e informações sobre Corvette (que praticamente não existem na língua portuguesa) bem como outros automóveis que me foram significativos em algum momento da minha vida.
Abaixo uma pequena bio que já foi publicada aqui no blog:

Carlos, brasileiro radicado em Park City, Utah nos Estados Unidos, é engenheiro sênior e trabalha atualmente na Avocent Corporation, divisão LANDesk, em South Jordan, Utah. Possui mestrado e bachalerado em Engenharia de Computação pela Universidade de Utah, além de diplomas em inglês pelas Universidades de Cambridge e de Chicago. Cursou também Engenharia Mecânica na FEI, em São Bernardo do Campo. Entusiasta, ávido motociclista e connoiseur de Corvettes, já foi proprietário de quatro exemplares e é também membro da National Corvette Restorers Society, NCRS. Em seu estábulo há um BMW X5, um Corvette cupê 1992 todo original e um Z06 de última geração, além de uma Star Roadliner de 1.900 cm³. Carlos é regularmente visto trafegando a bordo de um Corvette por Utah.

Um abraço a todos,

Carlos Fernando Scheidecker Antunes
Ou as criaturas do oceano que fizeram a história do estilo do Corvette.

Por Carlos Fernando Scheidecker Antunes, de Park City, Utah, EUA

Bill Mitchell é a outra lendária figura na história do Corvette. Digo outra porque Zora Arkus-Duntov é considerado por muitos como o homem que fez do Corvette um verdadeiro esportivo competente, ao ponto de brigar com o melhor da Europa. Mitchell foi um dos vice-presidentes de Design da GM, sucedendo o lendário Harley Earl no posto. Earl tinha em Mitchell seu protégé, em particular era grande admirador dos esboços de carros de corrida que Mitchell tinha a mania de fazer. Mitchell trabalhou nos estúdios de design da GM de 1930 até o final da década de 70. Desenhar carros de corrida sempre foi a grande paixão de Bill Mitchell.

Na foto de abertura acima vê-se o Stingray Racer de 1959, como Mitchell o deixou para uso na rua.

Assim como o lendário Zora Arkus-Duntov, Mitchell era um entusiasta nato e olhava para automóveis de corrida como frutos de divina inspiração artista. Porém, ao contrário de Duntov, que se concentrava no lado de engenharia e desempenho do Corvette, Mitchell era o homem de estilo. Em 1957, resolveu desenvolver um carro para seu prazer particular de contornar curvas rapidamente. Naquela época existia o Projeto do Corvette SS que foi liderado com méritos por Duntov. Porém para o desespero de vários entusiastas norte-americanos trabalhando em qualquer das três grandes de Detroit, a AMA (Automobile Manufacturers Association) decide banir as corridas de automóveis. Como consequência as competições americanas se tornam o território exclusivo de donos de oficinas e verdadeiros entusiastas. Como resultado do banimento da AMA, Mitchell decide se tornar um corredor independente e construir algo que sempre gostou de desenhar: um carro de corrida único.

Detalhe do habitáculo do Stingray Racer de 1959, já com o segundo banco adicionado.

Amigos leitores,

O texto que se segue foi escrito pelo meu amigo Nasser, e eu achei bacana demais, legal demais, interessante demais para não postar aqui nesse nosso blog que é legal demais.

Espero que gostem. E a você, Grande Amigo, muito obrigado pela gentileza!



DE ORIGENS & PATERNIDADES

Por Roberto Nasser

"Na história do automóvel existem alguns referenciais que ocuparam lugar próprio. Deixaram de ser passivos personagens e assumiram a posição de criar variantes da história. Uniram linhas, conceitos, propostas e, costurando com linha personalizada, desenvolveram produtos novos em marcas, formulações e, glória suprema, até aplicativos diversos. São eles, basicamente, o Ford Modelo T, viabilizador e popularizador do ente automóvel; o Citroën Traction, criador do conceito do monobloco e da tração dianteira; o VW sedã, com sua simplicidade construtiva gerador de produtos tão díspares quanto os bugues e os Porsche; o Cadillac do período 49-59, os nossos Rabo-de-Peixe, que impôs mecânica e estilo, sem economia em decoração e confortos, criando o conceito do carro americano, vigente até recentemente com a crise do sub-prime.

Não se deve esquecer o Jeep, tanto pelo recorde em prazo de criação, quanto pelo uso múltiplo. Pelo caminho que abriu merece trato à parte. Mas o fio condutor da história contada neste texto, que a muitos parecerá irreverente dentro da sua absoluta e incontestada realidade, é a Rural, primeiro subproduto do Jeep, gerador de desdobramentos previsíveis e outros inimagináveis. E a Rural, quem diria, é a mãe do Corvette e avó do Cherokee!

Difícil de acreditar? Conversa de fim de reunião de clube? Nada disto. Verdade verdadeira, como conto e provo. O cenário é o seguinte. Acabada a Segunda Guerra Mundial, na qual o Jeep foi a estrela como ferramenta bélica e de transporte, o mercado norte-americano estava ávido por consumo. Havia o animus dos conquistadores, dos vencedores e, domesticamente, a mobilização das montadoras para o esforço de guerra que suprimira a produção de veículos novos.

Na retomada, sua indústria automobilística exibia como cenário as três grandes – GM, Ford e Chrysler – dominando 75% do mercado. A quarta era a Willys, exportando 75% de sua produção, e se comprimia, com todas as demais, disputando um quarto das vendas. Já não tinha um automóvel, de produção encerrada antes mesmo dos EUA aderirem à II Guerra, e por isto, monoproduto, optou criar veículos baseados no mito do Jeep.

O primeiro foi o Jeep Station Wagon. Era o pioneiro veículo utilitário esportivo, SUV, como a nossa imitante cultura insiste em chamar os Blazer, Explorer, Grand Cherokee etc. Menor que os carros norte-americanos de então, motor Continental de quatro cilindros – válvulas no bloco, cabeçote como simplório tampão – tração em quatro ou duas rodas – e, em demonstração para o uso urbano; laterais simulando madeira, como moda à época; pneus para cidade; bandas brancas; calotas; sobre aros; aposição de cromados, enfim, um pacote de atrativos. Queria ser opção na lista de espera, num mercado carente por veículos atualizados, novos, atingindo um nicho onde nenhum dos concorrentes estava presente: ser o carro da mulher do combatente, do vencedor retornando da guerra, onde convivera com o Jeep e ajudara a transformar sua imagem em ícone.

Como produto foi novidadeiro mas não foi impactante. Não conquistou o universo de clientes pretendidos, mas sobreviveu, gerou filhos e netos, praticamente se perpetuou. Curiosamente, seus descendentes tanto por melhor formulação quanto pela própria expansão do mercado, venderam muito mais que o produto de origem. A Willys, rentável, foi comprada por dois empresários que queriam entrar no ramo, Joseph Frazer e Henry J Kaiser. Desenvolveram carros próprios – o Henry J, que erroneamente chamamos Henry Junior, era um deles; espalharam os produtos herdados à Willys pelo mundo.

Lá, com o final da aventura, sobreviveram os iniciais: Jeep, Station Wagon; pick-up; e os automóveis Aero, que conhecemos bem. Acabou com a operação automóveis em 1955, centrou-se na família básica, transformou-se em Jeep Corporation, e veio tocando a vida, lançando o Eagle – o primeiro 4x4 com rodar tentativamente aproximado ao de um automóvel.

Cherokee

Dizer que a Rural é avó do Cherokee é desnecessário a quem tem mínimo senso de observação. É constatação óbvia, de osmose mecânica e estilística, incontestada até pelos mais alienados consumistas. A história mostra, no gargalo que se transformou a indústria automobilística norte-americana, foi comprada pela Chrysler, hoje uma empresa controlada pelo sindicato de empregados, governo, porém dirigida pela Fiat. Por enquanto, no leque de produtos, mantém esta família com personalidade própria, empregando sinergias para reduzir custos.

Os produtos, resumidos em Jeep, Station e Eagle, logo saídos de produção, evoluíram pouco em motorização e transmissão, adotando motores Chrysler. O lançamento do Cherokee, no meado dos anos 80, com o nome Cherokee em 1991 – mantido em produção até 2001 – não negava as origens da Rural: linhas anguladas; suspensões com eixos rígidos, sistema de transmissão primário, sem diferencial intermediário ou sistema viscoso. E DNA presente em coisas simples, como o manter o estepe fixado à esquerda do compartimento de cargas e o macaco colocado sob o banco traseiro!

O desdobramento luxuoso, o Grand Cherokee, descombinava conjunto mecânico com motores 5.2 e 5.9, era uma evolução. A versão Laredo, mais barata porém melhor equilibrada, mantinha a ossatura mecânica marcada pelo motor de seis cilindros em linha, 4.0, e suspensão por eixo rígido – na verdade um belo trabalho de engenharia oferecendo dirigibilidade e estabilidade desconhecidos num veículo com sistema tão antigo e primário.

A nova geração evoluiu, transformou-se em monobloco, incorporou releitura da grade do Jeep, registrando-a como logomarca para barrar as tentativas da Suzuki no Jimny e do Hummer em buscar soluções estéticas para agregar as lembranças de valentia sempre relacionadas à grade do pioneiro Jeep. Traçou alguma evolução em ganho de espaço, confortos, mas a origem é a mesma: o velho e pioneiro utilitário esportivo, a nossa Rural.

Corvette

Dirão Corvettistas, pretensos especialistas, colecionistas, puristas e outros istas, que é delírio a afirmativa que o Corvette e filho da Rural. Mas é. Quem conta a história é Karl Ludvigsen, americano apesar do nome, nascido perto de Detroit, em seu “Corvette: America’s Star-Splanged Sports Car, the Complete History”, Ludvigsen é um dos autores mais festejados em todo o mundo sobre o tema automóvel, prolífico autor, especialmente nos recentes anos em que vem desmobilizando seu escritório de consultoria automobilística em Londres, passando temporadas cada vez mais extensas em pequena casa na Sardenha, onde escreve um livro em dois meses.

Segundo ele, nos anos posteriores à II Guerra Mundial, início da retomada do poder americano, e quando o mercado se mostrava altamente comprador, o major da Força Aérea Kenneth Brooks presenteou a mulher com um Jeep Station Wagon. Novidadosa e com o kit-sensação da época: cromados, pneus de automóvel com bandas brancas. Na carroceria, faixa externa na pintura imitando madeira, o wood graining. Para surpresa do presenteador, a presenteada recusou. Utilitários esportivos não eram exatamente a moda ou faziam a cabeça das mulheres em 1950.

Manobra tática, Brooks, o vitorioso major no conflito mundial, perdeu a batalha doméstica, mas não a guerra. Afastou o topete feminino e, para não dar o braço a torcer, encomendou a Bill Tritt, fundador da Glasspar Boats – fabricante de lanchas em fibra de vidro – uma carroceria esportiva para vestir a estrutura mecânica do Station Wagon. Um esportivo é quase igual a um barco emborcado, imaginou com objetividade militar. Tritt topou. Seria caminho negocial nunca imaginado.

O projeto ganhou o nome extra oficial de Brooks Boxer, e na prática se materializou num conversível de linhas muito agradáveis à época em que os EUA descobriam e se inundavam de esportivos importados, em especial MGs, Jaguares e Allards. As proporções das massas aplicadas à encomenda do militar – motor, habitáculo, porta-malas – e o para-brisa, em estrutura metálica cromada, muito lembravam o do Jaguar XK, recém-surgido no mercado como a grande definição prática e visual do então atual conceito de linhas esportivas.

Quando o Brooks Boxer estava pronto, e o militar se dispunha a utilizá-lo com a superioridade de quem transformou um limão em limonada, o destino assumiu a condução e mudou a história. Um executivo da Nauatuck Chemical, divisão da U.S. Rubber, grande fornecedor da indústria automobilística, convenceu o Major Brooks a cedê-lo – não há registro histórico da transação, se foi compra, locação, comodato, e também se ignora se o carro voltou ou não ao dono da ideia. Mas espera-se e presume-se que o teimoso major tenha recebido o suficiente para ter saído da refrega doméstica, do esforço criativo, vitoriosos e impositivos níveis de testosterona, e para comprar o carro dos sonhos na visão da Sra. Brooks.

Em paralelo, intermediando e participando da proposta de convencimento, Tritt entendeu haver uma oportunidade mercadológica acima da simplória proposta ao major, e colocou a carroceria em produção, devidamente adaptada para vestir chassis de Fords de 1939 a 1948. Haviam-nos em grande quantidade no mercado e subitamente envelhecidos com o lançamento da linha 49, de novos e elegantes conceitos estéticos. E, em que pese não existirem dados, é de se imaginar que tenha conquistado sucesso, pois que a demanda de consumo criada pelos três anos da suspensão da produção de automóveis nos EUA inteiramente dedicada a suprir o esforço de guerra, ainda não havia sido atendida.

O súbito surgir da carroceria esportiva, leve e barata, último grito do mercado, era tudo o que o dono de uma mecânica usada queria – carro novo, atrativo, a baixo custo. Muito mais Earl Ebers, o executivo da U.S. Rubber que assumira o Brooks Boxer, não era um fanático por automóveis, como também não queria apenas um curioso, insólito, rústico, simplório carro com desenho esportivo. Desejava coisa maior.
Era o efeito-demonstração que precisava para exibir aos executivos das três grandes montadoras as vantagens da utilização do GRP, glass-reinforced plastic, como então era chamado o que tratamos com intimidade, fibra de vidro. A matéria-prima era produzida por sua empresa, e a ideia era deixar as vendas para produtos periféricos, transformando-a em produto de elevado consumo industrial.

Em março de 1952 Ebers levou o automóvel para a National Plastics Exposition, na Filadélfia, onde engenheiros da GM ficaram impressionados com o carro e com o material que o moldava. Convidaram-no a apresentar o Brooks Boxer no quartel-general da GM, em Flint, Michigan. Da Filadélfia a Detroit, maior referência como cidade próxima a Flint, Ebers dirigiu o Brooks Boxer, enfrentando o frio do início da primavera num carro sem tratamentos de confortos, boa vedação ou aquecimento, de rodagem áspera – como a de uma Rural 1950, tracionado por motorzinho de aplicação universal, o Continental e seus 70 hp.

Na sede da General Motors, Ebers e o Boxer foram levados à presença de um grupo de engenheiros de manufatura, de estilistas, de executivos de custos, e mais curiosos de praxe, e palpiteiros em geral. Lá, reinando, estava Harley Earl, que previamente consultado, condescendeu em olhar o carro. Earl era o czar do design da GM, multi-aclamado, referenciado, superior, vaidoso. Para surpresa geral, gostou. O Brooks Boxer era simplório como automóvel em rústica construção, dividindo espaço industrial numa fábrica de botes. Mas, apesar da distância que separava tal simplicidade, dos meios e poderes da então maior empresa automobilística do mundo, era o conceito por ela buscado para fazer um esportivo destinado a competir na faixa de mercado surgida no pós-guerra.

Tentara inutilmente, formulando os Buicks Le Sabre e XP 300, atrações do GM Motorama, exposição-show sobre rodas que percorria dos Estados Unidos. Eram grandes, pesados, excessivamente cromados – a antítese do conceito americano sobre carro esportivo – mas a essência do ponto de vista dos vencedores da guerra mundial e que caracterizaram os desperdícios automobilísticos americanos dos anos 50. Mas àquela época, liderando os Aliados, e depois vencedores na Guerra da Coréia, os americanos se sentiam os senhores do vento e do fogo: faziam, aconteciam, ganhavam. E queriam expor este superior poder bélico impondo tamanhos, volumes, cromados. Nada de cozinha natural, queriam frituras - minha nossa!

Depois de observar o Boxer, e de se assustar com as surpreendentes e positivas reações de Earl ao admirar o tosco protótipo em abissal distância ao que faziam, a filosofia do produto ficou clara para o pessoal que decidiria a produção do futuro esportivo GM: abandonar tudo o já pomposamente projetado; riscar das opções os chassis GM já existentes; esquecer a teoria de encurtar um chassi de sedã Chevrolet; apagar os conceitos industriais sedimentados por décadas, de vesti-lo com uma carroceria pretensamente esportiva estampada em tradicional chapa de aço.
Prático e simples, o buscado esportivo GM teria chassi próprio, com linhas materializadas em GRP. E custo industrial e prazo para viabilização sensivelmente inferiores aos projetos e construções convencionais.

A Nauatuck Chemical, investindo para tornar-se fornecedora dos materiais de construção, substabeleceu o Brooks Boxer à GM para os estudos que traçariam o início conceitual do Corvette – as medidas e proporções do rústico, porém simpático esportivo foram tomadas como referência. E o protótipo do que iria se chamar Corvette, iniciou com dimensões assemelhadas, incluindo entre-eixos — 102 polegadas, 2 a menos que a Rural. A suspensão dianteira por eixo rígido do Boxer, nos anos 50 típica a carros de serviço, era caminho a não ser seguido, aplicando-se uma de automóvel, independente, com balanças e molas helicoidais.

No inovador caminho industrial, a fábrica e a metodologia de produção seriam à parte do processo de produção da GM em todas as suas fábricas, pois o GRP empregava manufatura e processos industriais totalmente diversos aos aplicados no trato com a chapa de aço utilizada em todos os outros produtos GM.

A fórmula simples e metodologia prática permitiu reduzir muitíssimo o prazo para o projeto. Em vez de dois anos, como se tomava à época, em 100 dias após o primeiro protótipo estava pronto. O motor era o seis-cilindros, 235 pol³ – os mesmos 3.800 cm³ da primeira série do brasileiro Opala 15 anos após – tricarburado e 150 hp, chamado Blue Flame, mas ainda o antigo seis de quatro mancais. A transmissão, típica ao comprador americano, mostrava a desorientação no projeto: era a dos Chevrolet da época, Powerglide com duas marchas.

Inovadora ou simploriamente, o carro teve apenas um protótipo testado, e logo entrou em produção, em temporária passagem por galpões na mesma Flint, Michigan, antes de ganhar fábrica própria.

São temporariamente desconhecidos os dados relativos à quantidade decarrocerias Glaspar produzidas e por quanto tempo isto ocorreu. Algumas unidades sobreviveram – um exemplar destes estava à venda, pré-crise nos EUA, por aproximados US$ 40 mil.

Merece citação que Zora Arkus-Duntov, o engenheiro de ascendência russa dito pai-do-Corvette, só apareceu no cenário pós-lançamento. Por isto, será melhor chamá-lo padrinho-do-Corvette, pois coube-lhe dar posição mercadológica, cara, mudando a receita original e criando o Sting Ray.

Pois é, independentemente do caminho mais ou menos óbvio da evolução do Jeep Station Wagon desaguar no Cherokee, a condução da linha da história entre o pioneiro SUV e o mais esportivo dos carros americanos, a conclusão a ser depurada é uma só: nada como uma mulherzinha peituda para dizer não a um carro 0-km. E nada como um militar vitorioso, condecorado, saudado como herói por seu país, parentes, amigos, vizinhos, porém ferido domesticamente em orgulho próprio, para criar uma segunda opção frente a uma dificuldade aparentemente intransponível.

A vida é assim, começa e acaba com gente, e não com planos e projetos suntuosos e acadêmicos de aparentemente auto-suficientes multinacionais.

Legenda: Brooks Boxer, filho da Rural, pai do Corvette. Quem não gostar, proteste."



Nota: o Roberto Nasser dirige o Museu do Automóvel de Brasília, que tem um interessante acervo de modelos nacionais e importados, veja no link: Museu do Automóvel
O detalhe do vidro traseiro do Corvette 1963, o famosos "split window", é o elemento de design mais famoso de todos os Corvettes. Sem dúvida é um dos detalhes mais bonitos também. Mas durou apenas um ano!

A segunda geração do Corvette - o C2 - foi lançado em 1963 com um design completamente novo. O lindo design teve origem no Sting Ray Racer de 1958, um carro para testes de performance que acabou fazendo sucesso nas corridas e mais tarde se transformou em showcar.

Sting Ray Racer

Para o C2 conversível o design estava praticamente pronto, pois o Sting Ray Racer era um open top. Para o coupe a inspiração veio da admiração do Bill Mitchel - chefe de design da GM na época - por coupes franceses da década de 30 como Talbot-Lago, Delahaye e especialmente o Bugatti 57C Atlantic. Então o designer Larry Shinoda criou o coupe Chevrolet.

Bugatti Atlantic

O Bugatti influenciou diretamente a "espinha central" no vidro traseiro. No entanto o Sr. Duntov detestava o elemento de design que atrapalhava a visão traseira. Com a insitência do Bill Mitchel o Split Window foi para o mercado, para o nosso deleite.


STING RAYS - C2 Split Window 1963 e C3 1969

C2 Split Window 1963

Porém, em 1964, Duntov venceu a batalha e o Split Window se foi. Mas o Duntov tem tantos créditos que esse fato não o desmerece em nada. Muito pelo contrario, acabou transformando o 63 em algo muito especial.
Na verdade esse não é um post novo. Ao ler a frase "Foi de Zora a ideia de introduzir o motor V-8 no Corvette em 1955" na história do Carlos Scheidecker sobre o legado do Duntov, logo me lembrei de um post antigo que fala sobre essa importante passagem.

O post ENTUSIASMO contém uma carta em que Duntov solicita ao então seu chefe, Ed Cole, a criação de um time específico e exclusivo para ser trabalhar no Corvette.
Acho que vale uma relida.
CORVETTE C6 ZO6, O LEGADO DE DUNTOV AINDA VIVE
Por Carlos Fernando Scheidecker Antunes

O Corvette C6 Z06 é talvez um dos esportivos mais desejados da atualidade, simples, eficiente, extremamente rápido e de um design que incorpora tudo de clássico que a série Corvette apresentou até hoje. Porém é impossível entender o Z06, bem como a atual sexta geração do Corvette, sem falar sobre Zora Arkus-Duntov.

Zora Arkus-Duntov é uma daquelas figuras míticas. Engenheiro, piloto, entusiasta e gearhead nato, Zora é tambem o pai do Corvette. Ou melhor, talvez o padastro do Corvette.

A vida de Zora mais parece uma grande produção de Hollywood, porém seu início nao foi fácil. Nascido na Bélgica em 1909, seu nome de batismo era Zachary Arkus. Seus pais eram imigrantes Judeus Russos. O pai de Zora era um engenheiro de minas e sua mãe, estudante de medicina em Bruxelas, daí o local de seu nascimento.

Após conclusão dos estudos de sua mãe, os Arkus voltam à cidade natal, Leningrado e logo em seguida se divorciam. A mãe de Zora casa-se novamente com outro engenheiro de minas, Josef Duntov e então Zora e seu irmão adotam o sobrenome Arkus-Duntov em respeito ao pai e ao padastro. Estranhamente, tanto o pai de Zora, como sua mãe e seu padrasto, moram juntos na mesma casa.

Zora Arkus-Duntov (1909-1995)

No final da década de 20, a familia muda-se para a Alemanha em busca de uma vida melhor. Desde adolescente, Duntov tem como paixão a velocidade. O seu primeiro veículo é uma moto de 350 cm³ (um absurdo para a época) a qual ele usa para corridas locais, bem como corridas nas ruas de Berlim.

Seus pais, temendo os perigos oferecidos pelas corridas de motocicleta, insistem que Zora se livre dela e corra com algo de quatro rodas. Então ele adquire um carro de corrida. O primeiro carro de Zora é um Bob, marca artesanal alemã voltada às competições e de curta existência. O Bob era fabricado para corridas em ovais e, como consequência, não tinha freios na frente e os de trás eram insuficientes para frear o bólido.


Zora e sua moto


Zora e o seu primeiro carro: o Bob