google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 O MELHOR CARRO DO MUNDO - AUTOentusiastas Classic (2008-2014)

O MELHOR CARRO DO MUNDO


Decidir qual é o melhor carro do mundo hoje em dia é simplesmente impossível.

Existem carros que podem ser dirigidos a mais de 400 km/h. Existem carros que podem levar três apresentadores de televisão descerebrados ao pólo norte. E entre esses dois extremos, existe um sem-fim de veículos cuja eficiência e excelência, se analisados à minúcia, espantariam qualquer pessoa inteligente. Perguntar sobre qual seria o melhor do mundo hoje traria invariavelmente outra pergunta: melhor em quê?

Mas 100 anos atrás, quando o automóvel era um infante descobrindo seu lugar do mundo, esta era uma pergunta válida e recorrente. Esse mundo, que seria em breve sacudido irremediavelmente por Henry e seu T, ainda se preocupava seriamente em descobrir qual era a forma definitiva de automóvel, o melhor entre os melhores, o Santo Graal da carruagem sem cavalo.

Foi nessa época, mais precisamente ao fim de 1906, que Henry Royce apresentava talvez o único carro que jamais mereceu o título de melhor absoluto: o Rolls-Royce 40/50hp.

O que vocês tem que entender logo de cara sobre Royce é que ele era um perfeccionista como nunca mais se viu. Usava somente peças forjadas, acreditando que pouquíssimas vezes um fundido era aceitável. Todas as peças de seus carros eram polidas à exaustão, em TODAS as suas superfícies, não apenas naquelas de trabalho, depois de passar por inspeções minuciosas. Essas inspeções, realizadas com lentes de aumento, procuravam qualquer fissura superficial e rejeitavam as peças com base nisso. Furos eram tratados com um cuidado ímpar, visto que Royce os odiava como descontinuidades em suas perfeitas peças, e então deviam ser realizados com o cuidado necessário para que não iniciassem quebras ou trincas. Suas peças niqueladas tinham uma camada de níquel de 0,15 mm (espessura de uma folha de alumínio caseira), quando todo resto da indústria, até hoje, usa deposição eletroquímica microscópica. Toda peça que girava era totalmente balanceada. Somente os melhores (e muitas vezes mais caros) materiais eram utilizados, sem nenhum e qualquer cuidado com o custo.

E Royce exigia de seus trabalhadores também nada menos que a perfeição; era o pesadelo do chão de fábrica e uma pessoa totalmente e absolutamente incansável. Diz a lenda que seu sócio Rolls contratou um funcionário com a expressa função de fazer ele comer algo. O resultado é que Royce ficava permanentemente perseguido por uma tigela de porridge (um tipo de mingau inglês), que permanecia invariavelmente cheia...

Charles Rolls e Henry Royce se juntaram em 1905, quando o primeiro, um rico aristocrata inglês (terceiro filho de Lord Llangattock), tratou de colocar seu nome na frente do seu conhecido engenheiro-chefe para criar sua fábrica de automóveis. O 40/50hp foi apenas seu segundo veículo, mas foi criado com o expresso intuito de ser o melhor carro já criado até então.


E, ao contrário de hoje, isto era perfeitamente possível. A essa época não havia carros esporte, camionetes, sport utilities, minicarros ou outra subdivisão. Existiam apenas carros, vendidos exclusivamente como chassi, sem carroceria, no qual eram montados carrocerias diversas. Carros como o 40/50hp estavam destinados a se tornar speedsters de dois lugares; limusines imensas para 7 pessoas e bagagem; ambulâncias de guerra; tourers abertos de 5 lugares, camionetes para carregar balões; station-wagons de madeira e shooting brakes (uma perua de duas portas para caçada, coisa para qual se usa uma Cherokee hoje). O melhor carro esporte era certamente também a melhor perua, camionete, e assim por diante.


Os carros mais caros, com os maiores chassis e motores, eram invariavelmente reconhecidos como melhores que os mais baratos. E o Rolls-Royce era o melhor de todos eles: seis cilindros em linha em dois blocos de três, sete mancais, lubrificação forçada, válvulas laterais, duas velas por cilindro e sete litros de deslocamento garantiam uma potência e durabilidade nunca vista até então. O carro, numa época em que trocar marchas era um sacrifício e as caixas automáticas não existiam, era capaz de cruzar seu país de origem sem sair da terceira e última marcha, direta.

E mais: era completamente liso, abolindo totalmente vibrações e barulho. Podia se equilibrar copos cheios de vinho até a boca em seu capô e acelerar, sem que uma gota caísse. Outro famoso teste público da companhia colocava uma moeda de 10 pence equilibrada no capô com o motor funcionando, e lá ela permanecia.

Suas suspensões, chassi e direção prezavam leveza aos comandos e conforto total; Rolls-Royces foram os primeiros carros em que se viajava grandes distâncias com um conforto suficiente para torná-las algo usual. O carro era longo e baixo, belíssimo para a época, e sendo mais baixo, facilitava o acesso dos passageiros. Velocidades de cruzeiro de 100 km/h se tornaram de repente possíveis, dependendo apenas das estradas.

Hoje o 40/50hp é conhecido como Silver Ghost, nome de um famosíssimo exemplar de 1907 com carroceria "Roi des Belges" (abaixo) que venceu o Dewar Trophy, bem como alguns reides de durabilidade populares a uma época em que sair de automóvel ainda era uma aventura. "Silver" (Prata) pela aparência (detalhes em prata maciça, carroceria pintada de prata), Ghost (fantasma) pelo silêncio com que se movia", dizia a companhia em sua publicidade. O nome nunca foi oficial para o modelo, que permanecia com a potência fiscal/potência real em hp como nome.


Foi produzido até 1925, e foi montaria de cabeças coroadas mundo afora. Muitos de seus donos aristocratas chegavam ao cúmulo (para o mundo de hoje) de manter em sua garagem duas ou três carrocerias diferentes para o mesmo chassi. desta forma, abandonava-se a carroceria tourer aberta usada no verão, para uma limousine fechada no inverno.

Sir Henry Royce veio a falecer no ano de lançamento de seu último carro, 1933. Este carro, o magnífico Phantom III V12, acabou por se tornar também o último Rolls-Royce construído sem nenhum respeito ao custo, e com o perfeccionismo que Sir Henry exigia.

Parte da personalidade da empresa permaneceu intacta nos carros que se seguiram. Um Rolls ainda é fácil de dirigir a despeito do tamanho, e o conforto e isolamento do exterior ainda são impecáveis. Também permanece a tradição em que num Rolls, você parece ser impelido por uma gentil mas incrivelmente poderosa mão invisível, nunca por algo tão cru como a infame combustão interna. O silêncio, a suavidade e a potência dos carros permaneceram sempre, mesmo quando o motor passou a ser um BMW. Mas um moderno Rolls-Royce é estampado, soldado e pintado tal qual um Mille. Seu acabamento e mecânica são impecáveis, mas desenvolvidos com objetivos de custo como qualquer outro carro. Sir Henry rolando na tumba ou não.

Quanto a mim, incorrigível saudosista, ainda acredito que para um Rolls-Royce merecer o nome, ainda devia ser feito como o fantasma prateado que descrevemos aqui. Devia ser uma peça de arte saída da mão de uma pessoa que nunca deixaria algo tão insignificante, irrelevante e mundana quanto dinheiro interferir na maneira em que seria criado seu legado. Seu LEGADO para a humanidade.

Um legado que o mundo moderno tenta emular com uma grade em um enorme BMW.

MAO
Nota de rodapé:
Este post nasceu para tentar corrigir um erro: deixei o melhor carro do mundo à sua época, que por acaso deslocava sete litros, fora de minha lista de melhores carros com motor de 7 litros...Imperdoável!

9 comentários :

  1. MAO, por volta de 1966/1967 eu trabalhava na Vemag como inspetor de serviço, baseado no Rio de Janeiro. Uma das concessionárias Vemag era a Automóveis Citroën Ltda, no bairro de Botafogo. Nas minhas visitas de rotina, e por ter ficado amigo do pessoal de lá, inclusive o simpático diretor-geral. o francês Michel Fondeville, eu costumava admirar os DS 19, não raro saindo para experimentar algum junto com o chefe de oficina, o José, um português simpático e competente no serviço DKW. Numa dessas visitas ele fez questão de me mostrar um Rolls-Royce que atendiam. Entrei no carro, sentei-me no espaçoso e confortável banco traseiro, admirei os detalhes de acabamento em madeira, enfim, um verdadeiro show de qualidade. "Vem cá ver o motor", disse o José. Saí do carro e me aproximei da dianteira. Ele então abriu o capô (lateral) e foi aí que me veio o espanto: o motor estava funcionando em marcha-lenta e eu não o havia notado estando a bordo. Nunca me esqueci disso.

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  2. Existe também aquela que um proprietário de Rolls quebrou no meio da estrada, o pessoal da assitência não acreditou no ocorrido, mesmo assim mandaram fazer o reparo, findo....o magnata quis pagar a prestação de serviço mas na fábrica todos negavam que qualquer tipo de ação corretiva ou de manutenção foram feitos no referido no carro..."Deve ter sido um engano senhor, um Rolls NUNCA quebra!". Um dos proprietários da mítica marca construiu um modelo para levar seu balão (miséria, miséria...), com plataforma de carga traseira o que seria talvez o rolls mais exclusivo do mundo, absolutamente lindo.

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  3. Há um caso semelhante ao relatado pelo Bob, mas envolvendo um Opirus. Conta-se que um cliente solicitou um test drive para conhecer o carro. Tiraram, então, um veículo do Showroom e fizeram o teste, devolvendo-o ao local de origem. Quando foram fechar a loja perceberam que o carro havia ficado ligado o dia inteiro, sem que ninguem percebesse.
    Antes que alguem fale, NÃO estou comparando um Opirus a um Rolls, somente cito a semelhança entre os casos.

    Abraço

    Lucas

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  4. Havia uma história antiga em que um nobre inglês fez uma viagem até a China, numa época em que viajar de São Paulo a Santos sem ser pela linha férrea era uma aventura (imagine atravessar dois continentes sem asfalto, isso quando tinha estrada), e lá o diferencial quebrou. Solicitou via correio a peça para reparar seu Rolls prometendo que ia pagar pelo pedido assim que chegasse à Inglaterra, o que foi prontamente atendido, isto é, levando em conta que não havia também serviços expressos de entregas e aviões também eram somente para aventureiros e soldados das iniciantes forças aéreas de alguns países, digamos, mais aventureiros. Voltando ao seu país de origem, foi pagar pelas despesas de remessa e da peça, como todo nobre inglês que se preza. O funcionário que o atendeu, com toda educação britânica disse que não havia recebido nenhum pedido. O nobre insistiu querendo ressarcir a empresa pelas despesas, mas o funcionário respondeu: "Um Rolls nunca quebra, senhor".

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  5. MAO,

    Eu tive o prazer de ficar algumas horas olhando motores Rolls Royce Merlin aeronautico em corte e outros inteiros, me deliciando com cada detalhe deles. Realmente não são maquinas feitas visando o lucro. Foram feitras com a mesma nobreza de espirito descrita aqui inerente aos fundadores da marca. Feitos numa época em que sabiam claramente que o Merlin (nome de um passaro, Esmerilhão, como todos os outros motores aeronauticos da Rolls Royce que eram batizados com nomes de aves) era o que poderia fazer toda a diferença ( e em verdade o fez) em uma guerra que se aproximava velozmente a cada dia. Me fica muito claro que sempre que um avião ingles sobrepujou um alemão em combate, todo o espirito e perfeccionismo deles valeu a pena e se justificou.

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  6. Clésio Luiz13/04/2009 23:22

    Merlin, olhando a ficha dele bem que não faria feio num carro atual: V12, 4 válvulas por cilindro, refrigeradas a sódio, carburador pressurizado, etc. 27 litros o bichinho. Começou com cerca de 1000 hp no final dos anos 30 e terminou a guerra em 1945 com 2200 hp nas últimas versões, com os mesmos 27 litros de deslocamento. E era carburado, com compressor mecânico de 2 estágios e 3 velocidades (eu acho).

    Seu rival alemão, o Daimler-Benz DB600 (601 e 605) era maior no deslocamento, 35 litros e usava injeção direta. Ah, e era um V12 invertido, ao contrário do Merlin e tinha o cano de canhão de 20 ou 30mm entre os cabeçotes!

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  7. Clésio Luiz13/04/2009 23:25

    Ah, o Merlin bebia gasolina de 150 octanas (pelo menos é o que os veteranos de guerra dizem).

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  8. Clésio,

    Não esqueça do Griffon de 36,4 litros, maior que o merlin, derivado dele, igualmente fantástico.

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  9. Claude Fondeville11/02/2010 07:44

    Caro Bob, primeiramente obrigado pela referencia ao meu pai, muitas saudades dele. Em segundo lugar quero te dizer que após longa procura fui contatado pelo filho do José Correia que me deu seu telefone. Leguei para ele, saúde totalmente OK, marquei de passar lá para reviver o passado. José foi meu "professor" de mecânica pois iniciei com ele na oficina do meu pai quando eu tinha meus 12 anos, eu de ajudante e ele chefe da parte mecânica.

    P.S. Pneus novos atrás :-)

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