UM HÓLON CHAMADO AUTOMÓVEL



A partir do final do século 19, a ciência evoluiu para uma visão estranha do Universo que nos cerca.

O matemático Henri Poincaré, ao estudar o problema de múltiplos corpos orbitando mutuamente, proposto sem solução desde os tempos de Newton, chegou à conclusão que as órbitas dos planetas não eram matematicamente determinadas, mas que ocorriam em caos em torno de certos limites. Apesar de caóticas, Poincaré ainda foi capaz de demonstrar a importância das ressonâncias entre as órbitas dos planetas


Com este trabalho, Poincaré deu fim à ideia do determinismo matemático e científico como forma de prever eventos futuros.


Max Plank introduz a física quântica, que logo revelaria o seu lado da imprevisibilidade, obrigando o uso de estatística junto às deduções, pois o mundo das partículas não é determinístico, mas probabilístico.

Einstein, que ganharia seu Premio Nobel usando a física quântica para explicar o efeito fotoelétrico, nunca a apreciou a contento. Teria dito a certo instante que "Deus não joga dados". O estudo da teoria quântica mostra uma física aparentemente sem pé nem cabeça do ponto de vista do bom senso, mas os computadores de que tanto dependemos hoje só funcionam graças a ela.

Edward Lorentz, ao estudar primitivos modelos meteorológicos simulados em computador, baseados em equações não lineares, se depara com comportamentos anômalos, caóticos. Seu trabalho sobre sistemas caóticos se juntam ao trabalho de Poincaré para dar origem à chamada Teoria do Caos.

É de Lorentz a explicação-símbolo desta teoria, conhecida como Efeito Borboleta: "...uma borboleta batendo asas no Brasil pode desencadear uma sequência de efeitos que podem conduzir a um furacão no Texas...".

James Lovelock, um respeitado pesquisador independente, projetista de vários sensores usados em sondas planetárias pioneiras da Nasa, publica um livro chamado "Gaia", onde, através de uma longa explanação sobre a interação entre a biosfera, a litosfera, os oceanos e a atmosfera da Terra, propõe que o planeta se comporta como um ser vivo completo, e que as condições que suportam a vida no planeta são consequência da ação direta da própria vida sobre o ambiente, e não de fatores completamente avulsos a ela. A vida moldou o planeta, e não o contrário.

Na época, a proposta de Lovelock ficou conhecida "Hipótese de Gaia". Já demonstrou tantas vezes a consistência de suas previsões, que foi elevada e consolidada ao nível de teoria. Apesar disso, ainda é uma teoria controversa perante vários especialistas de renome.


Outro pesquisador, Richard Dawkins, escreveu outro livro brilhante, chamado "O Gene Egoísta", onde ele especula que as células, unidades elementares da vida no planeta, foram estruturadas pelos genes, para que oferecessem suporte por sucessivas gerações para que os genes pudessem se preservar e se multiplicar ao longo do tempo. A verdadeira vida estaria nos genes, e não nos seres construídos a partir deles. Os mais variados comportamentos dos seres vivos, da agressividade ao autruísmo, seriam apenas formas condizentes para que os organismos preservassem seus genes.

Portanto, todo processo evolutivo estaria focado nos genes, e não nos organismos em si. Esta é também uma teoria bastante provada e controversa.


Há forte paralelo entre os trabalhos de Lovelock e Dawkins, mostrando que tanto o ambiente modela os genes, assim como os genes são agentes de transformação do ambiente. A grande diferença entre o trabalho dos dois é que a Hipótese de Gaia parte de uma visão de um mundo macroestruturado rumo ao mundo microestruturado, enquanto a Teoria dos Genes Egoístas parte de uma visão no sentido oposto.

Entre vários outros trabalhos importantes, ainda vale mencionar o do químico Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química de 1977, que em seus estudos de termodinâmica criava turbulências em líquidos e gases para verificar que o processo induzia o caos em sistemas ordenados, e que ao cessar todos os estímulos, a estrutura remanescente era de uma ordem muito mais complexa que a estrutura original.

É do próprio Prigogine a extrapolação de que os sistemas termodinâmicos não lineares possuíam similaridades com o comportamento da sociedade humana, do mercado financeiro, de sistemas ecológicos, entre outros, e que suas observações sobre o comportamento de fluidos era aplicável a estes outros sistemas. A estes sistemas Prigogine deu o nome de "estruturas dissipativas".

Estes e muitos outros trabalhos ao longo do século 20 decantaram em torno de um dos mais importantes livros filosóficos da segunda metade desse século. Intitulado "Ghost in the Machine" (Fantasma na máquina), escrito por Arthur Koestler e publicado em 1967, o foco deste livro está em explorar a dualidade corpo-mente, proposta por René Descartes, concluindo que tal dualidade é apenas aparente, já que são na verdade manifestações diferentes do mesmo "objeto".

Como obra filosófica da época da contra-cultura, que gerou outros ícones como Beatles, Jimmy Hendrix e os hippies, o livro influenciou e continua influenciando a cultura popular. Entre tantas obras, o álbum "Ghost in the machine" do grupo The Police (1981) e o filme "Brazil – O Filme" (1986) são obras inspiradas diretamente no livro.

No desenvolvimento de suas ideias, Koestler cria o conceito de "hólon", algo que é um todo, composto por partes, e que por sua vez é parte de algo maior, outro hólon.


Cada hólon é mais que a simples soma de hólons-partes. Ele é feito também da interação que os hólons-partes geram entre si e das geradas entre ele e outros hólons externos a ele.


Conceitualmente, o Universo todo se compõe por hólons. Partículas formam átomos; átomos formam moléculas; moléculas formam células; células formam órgãos; órgãos formam indivíduos; indivíduos formam sociedades, e assim por diante.

Cada hólon é uma entidade particular, com "personalidade" (características), "vontade" (lógica de escolha) e "necessidades" (objetivos a serem alcançados) próprios, dependentes das características dos seus hólons-partes, com certa capacidade de autonomia de ação contra contingências sem precisar de instruções de níveis de autoridade superiores.

Eles podem se associar livremente a outros hólons semelhantes ou bem diversos deles, estabelecendo canais de relacionamentos, visando a satisfação das necessidades individuais, criando estruturas hólon ("holarquia"), que são hólons de nível superior.

Eles podem responder a comandos vindos das holarquias de maior nível a que pertencem.

Comportamentos vindos das microestruturas em direção às macroestruturas geram respostas difusas, enquanto comandos vindos das macroestruturas em direção às microestruturas geram uma centralização de controle com resposta colaborativa das subestruturas.

Tentativas de relacionamentos malsucedidas dos hólons individuais são prontamente evitadas pelos demais hólons da estrutura, enquanto que tentativas bem-sucedidas são logo assimiladas e repetidas pelos demais.
Assim, o fracasso do indivíduo se torna a chave do sucesso para o grupo.

Estruturas de hólons são altamente caóticas, dissipativas e altamente colaborativas e resistentes a falhas. A resposta a desafios, tanto internos como externos, são geralmente inteligentes.

Diferente das estruturas humanas de projeto convencional, baseadas no dimensionamento de cada componente, as estruturas de hólons se edificam orientadas por tentativa e erro em direção ao objetivo desejado. Apesar de caótico, este método criativo cria estruturas complexas de maneira bastante elegante e eficiente.

Durante muitos anos o conceito de hólon e sua modelagem especialmente da sociedade não eram levados a sério além dos restritos círculos filosófico, esotérico e de grupos que propõem sociedades alternativas. Porém, sua grande influência cultural permitiu que ele fosse progressivamente revisto e ampliado.

O filósofo americano Ken Wilber introduz o conceito de artefato para o hólon. Artefato, na concepção de Wilber, é tudo o que pode ser criado por um hólon individual ou por uma coletividade de hólons. Um artefato configura também um hólon.

Sob a visão de Wilber, um formigueiro não é apenas a junção de todas as formigas daquela sociedade, mas também a edificação de túneis e câmaras, as plantações de fungos e os resíduos e até o uso de feromônios para comunicação.

Da mesma forma, a sociedade humana não é apenas a coletividade dos indivíduos humanos, mas também os prédios, roupas, comidas e carros. Carros, por fazerem parte do tecido social, e por outro lado serem constituídos por seus sistemas, que por sua vez são construídos a partir de peças, é um bom exemplo de hólon artefato.


Fatores imateriais, como emoções, ideias, cultura também constituem hólons. Amor, uma solenidade religiosa, e até mesmo o entusiasmo, são hólons.

A convergência de trabalhos em áreas tão diversas como economia, medicina, inteligência artificial e física de partículas em consonância com a lógica hólon, a tem tirado da obscuridade nos últimos anos. Propriedades das estruturas baseadas em hólons como a alta flexibilidade, inteligência e tolerância a falhas são constantemente usadas como forma alternativa de explicar diversos fenômenos observados. Em outros casos torna-se a única forma.

Vamos imaginar uma situação. Hólons humanos possuem hólons automóveis. Automóveis precisam de peças, que tem de ser providenciados por seus donos. Está estabelecida uma necessidade. Pessoas instintivamente visam lucro, o que é outra necessidade. Uma forma de obter lucro é vender peças para as pessoas que precisam delas.

Estabelecer um canal de vendas de peças satisfaz necessidades em mão dupla. Permite que os donos dos carros obtenham as peças que precisam e os comerciantes alcançarem o lucro que desejam. A relação é tão natural que o canal de vendas de peças já faz parte da concepção de uma concessionária.

Entretanto, o canal não é uma via de satisfação livre de pressões. Se as concessionárias oferecerem peças a preços elevados e/ou tiverem problemas de fornecimento, o canal de vendas pode não ser satisfatório para muitos donos de carros. Concessionárias são licenciadas pelos fabricantes e existem em pequena quantidade para satisfazer a todos que desejam lucrar com a venda de peças. Há pessoas insatisfeitas querendo comprar peças mais baratas e pessoas querendo lucrar vendendo peças mas sem direito de montar uma concessionária. É natural que se estabeleça um novo canal, de lojas vendendo peças pelo mercado paralelo.

Se os canais oficiais e do mercado paralelo ainda não forem suficientes para satisfazer ambos os lados, criam-se canais de peças reaproveitadas (desmanches), e prosseguindo até o furto de veículos para atender este canal.

Todo este processo depende das necessidades de ambos os lados. Se houver poucos proprietários com aquele modelo de carro, o interesse em vender peças será reduzido, havendo poucas concessionárias, inexistindo o mercado paralelo, e o mercado de desmanche cobrando alto pelas poucas peças usadas disponíveis. Se houver muitos proprietários, o interesse em vender é grande, e com a variedade de interesse dos compradores, todos os canais são reforçados.

O equilíbrio entre os diferentes canais depende de uma série de fatores. Peças originais são as melhores, porém se forem muito caras e/ou difíceis de conseguir, o canal das concessionárias é enfraquecido em prol dos outros canais. Baratear as peças e facilitar seu fornecimento pelas concessionárias é uma forma de reforçar o próprio canal em prejuízo dos outros.

Este exemplo mostra algo mais profundo que a relação direta entre consumidores e vendedores de peças.

O canal de vendas pelas concessionárias e o desmanche que vende peças de carros roubados são apenas facetas de um hólon maior, o do comércio de peças. O que é moral ou imoral, lícito ou ilícito são apenas conceitos humanos, alheios à natureza dos hólons.

Não adianta apenas combater o comércio de peças ilegais fechando os estabelecimentos se não forem eliminados os fatores de pressão. Um canal ilícito é fechado e logo em seguida outro é estabelecido, se os fatores de pressão e necessidade não forem compatibilizados a contento.

Se o preço das peças é alto, mas há um público que paga por elas, o canal das concessionárias é reforçado e o preço das peças não cai. Peças caras representam alta margem de lucro para quem vende e uma pressão muito alta contrária à suas compras por várias pessoas que não aceitam aquele preço. É tudo o que se precisa para alimentar um canal ilícito de vendas de peças.

Quem vende e oferece mais barato, mas ainda assim com grande margem de lucro, quem compra aceita mais facilmente o preço mais baixo, independente de ser um canal ser ou não moral e legalmente correto.

Enquanto houver quem aceite comprar peças caras pelos canais legais e que adquire uma peça legal por todo seu caminho de fornecimento, indiretamente participa de um ciclo que reforça o canal de peças ilegais.

Outro exemplo bem marcante deste comportamento pode ser visto na questão dos DVDs. Enquanto houver quem pague R$ 40,00 num DVD e R$ 80,00 num Bluray de um filme no supermercado, comprado licitamente, estará colaborando para que o preço desses discos não caia. Enquanto o preço dos discos originais estiver elevado, a vida do pirata que vende o DVD "alternativo" por R$ 5,00 estará garantida. Por isso, aquelas propagandas de tom altamente paternalista para que as pessoas deixem de comprar DVDs piratas e passem a comprar apenas os DVDs originais são uma enorme falácia.

Os chamados "diamantes de sangue" existem porque muitos homens apaixonados se dispõem a pagar alto preço por anéis de diamante para suas amadas. Um ato sincero, honesto e inocente, muitas vezes absolutamente lícito, mas que indiretamente leva muitas pessoas à morte num país bem distante apenas por interesses comerciais.

Eliminar o comércio de peças ilegais numa grande sociedade como a nossa é virtualmente impossível, mas o emprego de práticas comerciais mais favoráveis aos consumidores muda o equilíbrio do mercado no sentido de minimizar este canal.

Para tanto, impostos e margens de lucro precisam ser reduzidos, e a tolerância ao custo ao capital imobilizado em grandes estoques de peças precisa ser aumentada. À medida que governo e comércio decidem não abrir mão dos seus quinhões, a sociedade como um todo terá de tolerar e conviver com um certo nível de crime e violência.

Além de uma ferramenta útil para o estudo de mercados, os hólons servem para estudar medidas de cunho sociológico, como o combate às drogas, seguridade social etc.

Outro exemplo. Todos os cidadãos de São Paulo têm o direito de comprar seu carro, e podem comprar o carro que quiserem. A grande maioria, embalada pelo aumento do poder aquisitivo, exerceu ou está em vias de exercer este direito. Mas será que podemos acreditar piamente na satisfação plena desses desejos?

Quem (hólon humano) deseja comprar um carro (hólon artefato) precisa trabalhar, consumindo tempo e esforço, para conseguir dinheiro (hólon artefato) para trocar com o carro. Um carro não é barato e exige muito tempo e esforço para ser comprado. Ter e dispor do dinheiro para comprar um carro é uma pressão contrária à sua aquisição.

Quem compra um carro o faz com o desejo primário de usá-lo para se locomover mais facilmente. Porém, no exato instante em que um carro sai da garagem, ele estabelece um canal com o sistema viário (hólon artefato) e com os demais carros.

As ruas de São Paulo são praticamente as mesmas há mais de 40 anos. Entretanto, a frota da cidade não para de crescer. Hoje são emplacados mais de 1.000 veículos novos na cidade todos os dias. Cada carro a mais nas ruas irá disputar em igualdade de direitos o espaço estagnado de ruas da cidade. Cada carro novo representa alguns milímetros de espaço a menos para os demais. O resultado disso é um trânsito cada vez mais congestionado.

Hoje, segundo estatística da própria prefeitura de São Paulo, um cidadão paulistano perde em média três horas por dia só se deslocando no trânsito travado da cidade. Ter um carro em São Paulo já não representa ter um transporte pessoal rápido satisfatório, o que é outra fonte de pressão contra a compra do automóvel.

O primeiro questionamento que vem na cabeça de muitos consumidores é se vale a pena a compra de um carro maior e mais caro. Na maior parte do tempo os automóveis são usados apenas para deslocar o motorista, anulando a vantagem de maior tamanho de alguns carros, e carros maiores tem maior dificuldade de manobra em trânsito pesado. Este fator gera uma pressão no sentido do consumidor adquirir um carro menor, mais barato e mais utilizável.

Se a pressão contra o uso do automóvel para ir trabalhar (congestionamento, dificuldade de estacionar etc.) atingir um nível crítico, as pessoas comprarão os carros para usá-los apenas para tarefas secundárias, como ir ao supermercado à noite, após o expediente.

Estas pessoas podem questionar quanto vale para elas investir num automóvel que será tão pouco utilizado. Progressivamente, com a piora das condições de uso dos seus carros, várias pessoas irão diminuir a prioridade na aquisição de veículos, e transferindo estas prioridades para outras coisas e atividades. Como cada pessoa (hólon) possui propriedades próprias, sua sensibilidade a cada um dos fatores favoráveis e contrários à compra de um automóvel varia.

Análises de mercado exigem amplo uso da estatística para avaliar médias, dispersões e tendências. Entretanto, como muitos dos comportamentos dos hólons, consumidores não são lineares, e há um lapso de tempo entre as pesquisas estatísticas e a aplicação da ação desejada, seu comportamento geral deixa de ser previsível, tornando inúteis as projeções já feitas.

É por isso que costumeiramente vemos o lançamento de produtos ditos revolucionários feitos por grandes empresas e que se tornam grandes elefantes brancos, logo esquecidos.

Sistemas baseados em hólons são sistemas caóticos, estáveis dentro de determinados limites. A ideia vinda da nossa educação capitalista de crecimento infinito de recursos e de sucesso não encontra apoio em sistemas hólon.

Como todos os sistemas estão interligados, se o limite de um mercado não é financeiro, ele pode estar em outro lugar, no mundo físico, por exemplo, como no caso do espaço cada vez menor nas ruas para se andar de carro.

Todos os mercados possuem limites de saturação e, se são propensos ao crescimento, são igualmente propensos a crises. Medidas regulatórias são obstáculos que progressivamente os agentes financeiros (hólons) aprenderão a contornar.

O transporte público exerce um papel interferente não linear no trânsito da cidade. São Paulo tem transporte urbano muito ruim, obrigando muita gente a utilizar seus carros, o que piora as condições do tráfego. Por outro lado, segundo dados da Prefeitura, apenas um carro a cada três é utilizado diariamente nas ruas da cidade.

Se o transporte público começar a ser melhorado, muitos motoristas preferirão ir de ônibus a ir de carro para o trabalho. No instante em que estes motoristas tirarem seus carros da rua, outros motoristas que antes deixavam seus carros em casa se sentirão estimulados a usá-los. A melhoria progressiva do transporte urbano até certo nível implicará apenas na substituição dos carros em circulação, e não irá melhorar as condições de tráfego na cidade.

Como hólons possuem propriedades diferentes, as razões para as quais cada um escolhe um canal ao outro são diferentes. Sistemas baseados em hólons são extremamente tolerantes a perturbações e falhas em função da individualidade de suas partes, e é o que vemos no caso de tentar interferir no sistema de trânsito através da melhoria do transporte urbano.

À luz do modelo hólon, melhoria do trânsito só ocorrerá quando o transporte público for melhorado num nível bastante elevado, contrariando a opinião dos especialistas que esperam o trânsito melhorando junto com a melhoria progressiva do transporte público. Em várias partes do mundo há diferentes medidas para tentar amenizar o problema do tráfego.

São Paulo adotou há 13 anos o modelo de rodízio por final de placas para retirar carros de circulação, inspirado numa medida semelhante tomada na Cidade do México. O rodízio impõe às pessoas a obrigação não usar o carro por seis horas um dia a cada semana. Esta medida cria uma assimetria inconveniente no uso do automóvel por parte das pessoas. Elas podem usar livremente seus carros por 4 dias da semana, mas ficam incapacitadas de usá-lo livremente no seu dia de restrição, e têm de achar uma forma alternativa de se moverem nesse dia.

A saída pretendida pelas autoridades é que o estorvo propiciado pelo rodízio leve a um aplainamento por baixo do uso do automóvel, com o motorista optando todos os dias pelo transporte urbano. Entretanto, este canal encontra forte pressão contrária a seu uso pela limitada qualidade do serviço.

A maneira mais fácil de resolver o problema encontra-se em adquirir um segundo veículo, com placas  de final diferente. Trocando de carro, contorna-se a medida restritiva e nivela-se por cima o uso de transporte pela opção individual.

Vemos aqui o comportamento de hólons flexibilizando suas relações para contornar uma forte pressão contrária. A assimetria de uso levou muitas famílias com um carro na garagem a adquirir um segundo. A primeira consequência do rodízio não é a de diminuição da frota circulante, já que o carro que fica impedido de circular possui um substituto ao lado, mas sim de aumento da frota total da cidade.

Para piorar ainda mais o quadro, onde antes havia um carro para circular tlivremente todos os dias da semana, agora existem dois carros livres para circular juntos por três dias da semana.

Para o trânsito da cidade, o rodízio trouxe um aumento artificial de 40% da frota circulante dentro da faixa da população que optou por possuir um segundo carro. Portanto, em vez de diminuir o tráfego circulante, o rodízio obteve o resultado inverso.

Este tipo de situação é bastante comum, onde medidas aparentemente lógicas, se não considerarem o caráter dinâmico e caótico do sistema, podem trazer fortes efeitos colaterais com resultados opostos aos desejados.

No Japão há décadas existe uma lei diferente. Lá, se o cidadão só pode comprar um carro com motor maior que 660 cm³ se provar que possui uma garagem para guardá-lo. Sendo um país altamente povoado, com território pequeno dominado por terrenos íngremes de montanha, o espaço para cada cidadão é muito restrito. Espaço para ser usado como garagem lá é um luxo muito caro para a grande maioria, e o espaço nas ruas para tráfego também é bastante reduzido.

Como resultado, a maior parte da frota circulante nas cidades japonesas é constituída de carros pequenos, leves, de baixa cilindrada, os chamados "kei jidosha" ou "key cars". O trânsito, embora pesado, tem alta granulidade, facilitando a fluidez, reduzindo emissões de poluentes e assim por diante.

Como o problema do espaço de garagem é incontornável para a maioria da população, e a lei não cria assimetrias contornáveis, só resta ao cidadão comum se conformar em usar seu pequeno carro todos os dias.

A assimetria de uso proporcionada por uma lei interfere e força o sistema caótico a operar dentro de novos limites. Geralmente, quanto mais abrupta a limitação ou a interferência, mais abrupta é a resposta do sistema. Quanto mais um sistema hólon de estrutura dissipativa é forçado, mais o sistema se mostra complexo, caótico, oscilante, com ciclos mais rápidos e difícil de controlar.

Embora eu tenha dado dois grandes exemplos como casos isolados, eles coexistem junto com muitos outros processos e são todos interferentes entre si, dificultando uma análise plena de qualquer processo isolado. Uma medida que vise controlar um aspecto de um processo irá causar efeitos colaterias em outros, de funcionalidades bastante diversas.

Mas não é só de estudos e simulações a que os hólons têm se prestado.

Nos anos 1980 e 1990, o CIM (Computer Integrated Manufacturing), uma filosofia de gerenciamento de fabricação integrado por computador, imperou entre as grandes empresas. Era a convergência de várias outras tecnologias baseadas em computador, como o CAD (Computer-Aided Design), o CAM (Computer -Aided Manufacturing"), o CAE (Computer-Aided Engineering) e as máquinas CNC. (Computer Numerically Controlled). Era uma teoria acadêmica muito consistente e lógica.

Entretanto, ao tentar levar o CIM a campo, verificou-se que todas as empresas possuiam particularidades que impediam a implantação do CIM em sua plenitude e em sua pureza teórica. Muitos setores destas empresas jamais funcionaram com o apoio do CIM, enquanto outros operaram com sistemas CIM distorcidos por customizações. Por mais que o CIM fosse teoricamente perfeito, não possuía a flexibilidade exigida na prática pelas empresas.

Foram tantos os problemas de implantação que o CIM progressivamente perdeu seu brilho.

Nos últimos anos, algumas empresas passaram a utilizar técnicas administrativas tratando cada recurso (funcionários, máquinas, ferramental, matéria-prima etc.) como hólons e dando a eles liberdade de associação para formar múltiplas holarquias a cada novo pedido de produção. Não há nestes sistemas administrativos o formalismo acadêmico do CIM, mas mais uma implantação prática do modelo hólon.

Estas empresas têm observado uma capacidade adaptativa dos sistemas hólon nunca encontrados nos antigos sistemas CIM, e obtendo resultados mais palpáveis.


No setor de software, muitas das técnicas computacionais de inteligência artificial, como redes neurais e sistemas genéticos e de inteligência de colônias de insetos, são técnicas de forte fundamentação hólon, embora criadas longe da sua inspiração.

Há instituições financeiras que vêm substituindo seus programas monolíticos de inteligência artificial para carteiras de investimentos por programas baseados em agentes hólon, capazes de se associar em inúmeras holarquias sobrepostas, com bom ganho de eficiência.

A teoria hólon é hoje uma figura em amplo debate. É uma teoria ampla, que pode ser usada para explicar convincentemente, sob um mesmo modelo, fenômenos de áreas tão distintas quanto a sociologia e a geologia, em alternativa a teorias há muito sedimentadas em cada setor.

Dado que esta teoria surgiu e se manteve longe da ortodoxia acadêmica por muitos anos, e a rápida assimilação de outras teorias recentes, de difícil entendimento e ainda em desenvolvimento, como a teoria do caos, não é de se estranhar que sofra forte oposição de especialistas de cada área.

Entretanto, diante dos resultados consistentes que tem mostrado, é uma teoria que merecerá toda a atenção nos próximos anos.

Sob a ótica da teoria hólon, a humanidade é em seu comportamento muito semelhante a um formigueiro, porém seus hólons humanos possuem alta inteligência e usam hólons-ferramenta, em especial o automóvel, ampliando o poder individual de cada pessoa. O conjunto numeroso de pessoas altamente capazes tornou a humanidade a segunda maior força atuante sobre o planeta.

Ela também aponta dificuldades futuras. No antigo Egito, a sociedade era pequena, simples e altamente estável. Por seis meses os egípcios plantavam, colhiam e pagavam impostos. Nos seis meses seguintes, com as cheias do Nilo, dispensavam a mão de obra, que ia trabalhar nos monumentos e templos tão sólidos que chegaram aos nossos dias, a troco de salários pagos pelo Faraó. Era uma sociedade tão simples de se viver que não conheceu a inflação. Os registros apontam que o preço do pão ficou estável por quase 2.500 anos.

Hoje a sociedade é inúmeras vezes maior, mais complexa e acelerada. Ciclos que no passado demandavam séculos para se completar, hoje se iniciam e encerram em semanas. Se no passado tínhamos longos períodos de calmaria entrecortados por crises, hoje vivemos em constante estado de atenção, com crises localizadas pipocando em todos os lados.

Num ambiente tão caótico e rápido quanto o atual, decisões políticas e comerciais aparentemente lógicas podem levar ao efeito contrário. O descompasso continuado de decisões e resultados insatisfatórios pode agravar os problemas de dinâmica e previsibilidade sociais.

A ordem surge do caos tanto quanto o caos surge da ordem. Daí a dificuldade em tomar uma decisão ampla plenamente acertada.

Para nós, seres curiosos e visuais, fica a curiosidade em saber como seria esse ser "humanidade" a que pertencemos. A dificuldade é natural. Seria quase o mesmo que uma célula da língua querer perceber o que é o corpo humano inteiro.

Entretanto, no dia 11 de agosto de 2002, exatos 11 meses após o atentado contra as torres gêmeas, em Nova York, a Nasa divulgou uma imagem inspiradora.


Numa composição de fotos noturnas de satélite, uma fotografia em alta resolução mostra a distribuição de luzes sobre superfície da Terra sem nuvens. Fora alguns poucos pontos isolados na América do Sul, África e Austrália, devido a queimadas e incêndios florestais, ela mostra as luzes da iluminação pública e dos faróis dos carros, emoldurando o tecido do organismo "humanidade" que domina o cenário.

Muito da força desta fotografia está no componente social, ou hólon se preferirem, chamado automóvel. Antes dele, este cenário era bem diferente...

AAD

Nota: Este é um artigo especial de Natal. Nesta época costumamos trocar presentes e, hoje mais raramente, lembramos das lições de fraternidade trazidas pela lembrança do nascimento do aniversariante. Este artigo não é um mero acaso. Seu tema, à luz da ciência e da filosofia modernas, nada mais é que o equivalente aos milenares ensinamentos do Natal. Relembrá-los, sob qualquer ótica, é nos fazer tomar contato com um lado cada vez mais esquecido de nós mesmos.

Feliz Natal a todos! Um Feliz Ano Novo também! E que o hólon Papai Noel traga um maravilhoso hólon de presente a cada um de vocês!

17 comentários :

  1. André um Feliz Natal para você e para todos aqui do blog. Realmente e infelizmente o Natal está cada vez mais uma data comercial e as crianças cada vez mais são afastadas do que ele realmente representa e acho que fora a culpa da mídia, os pais também tem parcela dessa culpa.

    Feliz Natal e felicidade para todos nós.

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  2. André Dantas, é lendo artigos como este seu que eu tenho esperança num mundo melhor; reforço minha fé na humanidade ao ver que ainda existem seres raciocinantes sobre a Terra. Essa iluminação interior é o tema que deveria ser refletido sempre, e especificamente nesta época do ano. Que você e todos do blog tenham um novo ano repleto de sabedoria!

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  3. Puxa vida! Ainda estou sem fôlego. Fosse uma revista, seria um daqueles artigos pra recortar e guardar!!!

    Parabéns pelo belíssimo texto. E no mias, um feliz natal para toda a equipe do blog.

    Abs, Ricardo Montero

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  4. André, me sinto em casa e normal aqui neste blog. Agora mesmo estou lendo essa matéria e prestando atenção também em documentário sobre física quântica... rs
    Sinceramente ainda não terminei de ler a matéria, mas boa parte do que eu li já vi que mais uma vez vocês se superaram!

    Ótimo novo ano a todos nós, que possamos fazer deste blog um belo ponto de encontro de entusiastas realmente.

    Abraços a todos.

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  5. Muito interessante o artigo, para reflexão. Eu li "O fantasma na máquina" há muito tempo atrás, acho que terei que reler...
    É interessante o foco na noção do caos e do interelacionamento das coisas que mostra que soluções simplistas podem levar a resultados contrários aos esperados.

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  6. Parabéns pelo excelente texto Andre!!!

    Feliz Natal a todos e um Excelente 2011!!!

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  7. Elogiar o artigo é chover no molhado... Denso, pesado e extremamente estimulante!!!
    Mesmo meio "alegre" pelo teor alcoólico natalino, lí com um sorriso no rosto.

    Torço para o hólon do transporte público funcionar à perfeição para o meu hólon do automóvel andar mais livremente...

    Um natal de paz e harmonia pra todas as famílias autoentusiastas!!!
    Alguém vai um bolinho de bacalhau com uma cervejinha gelada???

    Abraços!

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  8. henrique schauz26/12/10 19:32

    Olá,para quem gostou do artigo, muito bem escrito,por sinal, sugiro uma leitura "digestiva" nas férias... A TEIA DA VIDA, acredito que deva ser encontrado novo ou em sebos por um preço razoável, no mais FELIZ NATAl A TODOS e obrigado pelo excelente texto,henrique.

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  9. Não sei se to viajando na maionese, mas um efeito de quando o governo baixou o IPI foi da manutenção dos preços, aumentando a fatia do bolo dos fabricantes. Porque a massa ao saber da redução do imposto correu pra concessionária e a alta procura elevou os preços, deixando no mesmo patamar.

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  10. André, muito obrigado! Que presentaço de Natal!!!
    Feliz Natal e que todos os AutoEntusiastas tenham um excelente 2010!

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  11. kkkk... Feliz 2011!!!

    Olha aí André... Fiquei até atrapalhado com tantos hólons.

    Abs

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  12. Obrigado a todos pelos elogios.

    A Teoria Hólon pertence a uma nova safra de teorias científicas que ameaça tomar o lugar de uma série de outras teorias academicamente estabelecidas.

    Evidentemente, não é de se esperar que isso aconteça sem resistência.

    Outra fonte de problemas é que muitas previsões feitas por essa teoria não são confortáveis nem politicamente corretas.
    No instante que essa teoria "pisar em alguns calos", serão ouvidas vozes contrárias.

    Há um grande exemplo, facilmente compreensível por qualquer um que aprendeu um pouco de genética na escola, mas incrivelmente pouco comentado.

    Todos conhecemos a Teoria da Evolução de Darwin.

    O que não se comenta é que o homem saiu do processo seletivo natural, mas continua sofrendo e propagando mutações, tanto boas como ruins.

    Sem o processo seletivo natural, genes ruins tem as mesmas chances de sobreviver e se propagar na população que genes bons.

    O resultado é um empobrecimento do padrão genético da humanidade, e isso já pode ser medido.
    A OMS já alerta para uma pandemia de doenças genéticas, como pressão alta e diabetes.

    Evidentemente ninguém quer ouvir falar em crianças morrendo nas garras de predadores e nem por estarem doentes, mas a verdade é que a notícia constante de que a taxa de mortalidade infantil caiu no mundo tem um lado negativamente sério e preocupante.

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  13. AE realmente é para iniciados no assunto !! Que grande prazer em encontrar algo de tão alto nível na Internet.

    Abraços a todos e sucesso ao Blog

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  14. Ideias bem interessantes.

    O que acontece é que tudo busca um equilibrio.

    Com a melhoria do transporte publico o numero de carros nas ruas vai diminuir e o transito melhorar, mas depois a quantidade de carros vai aumentar para encontrar um equilibrio e tem relação com o custo-beneficio.

    Se o custo-beneficio do transporte publico for maior, no caso de ser mais barata a tarifa do que o custo de manter um carro rodando, e o beneficio do carro não ser muito maior - o conforto e o tempo gasto do carro não justificar seu custo, usa-se o transporte de massa. Caso contrário, usa-se o carro.

    Em um determinado ponto, o equilibrio dos que tem um custo-beneficio maior do transporte publico e do carro vai ser alcançado. Porém, quando maior for o transporte de massa, menor será o do carro.

    Quem puder pagar, escolherá o carro. Quem não puder, com certeza não terá problema de usar um transporte publico - se este por bom, claro. Equilibrando o fatores: custo, tempo do percurso e o conforto, as pessoas se dividiram entre os meios de transporte.

    O problema é que hoje o custo-beneficio do transporte publico é muito baixo, aumentá-lo um pouco - especialmente no parte do beneficio: mais metrôs, onibus melhores e menos lotados, tempos de trajetos menores - já levará uma grande migração para este, até o ponto em que iguale ao do carro, promovendo o equilibro.

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  15. ÉÉÉ AD, infelizmente o macho alpha, no caso do homem, é o que tem a "carteira mais gorda"... Neste mundo onde "deus é uma nota de 100", mas existe o hólon falta de cultura, que faz pessoas que mal têm o que comer, fazer filhos desenfreadamente. Tomara que um dia este "hólon torto" seja "balanceado", mas em tempos de bolsa-família, eu acho difícil que isso aconteça logo.

    Abs

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  16. Rafael existe também o hólon "entusiasmo ao dirigir", no caso o meu aumentou muito, estes últimos dias, apesar daquela sensação péssima de estar trabalhando enquanto a maioria está curtindo uma praia, dirigir em São Paulo sem trânsito é uma delícia, fazer curvas pela cidade que eu nem conhecia, pois a rotina nestas vias é "anda e para".

    Sds

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  17. Gostei André. Também fiquei atrapalhado com a Teoria do Caos, a Física Quantica, os Genes e o Holon...Vou ter que ler com cuidado. Parabéns pelo excelente artigo.

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