ABERTA A TEMPORADA DE ENCHENTES



Todos sabemos. São Paulo já não é mais a terra da garoa, mas sim um lugar de aguaceiro.

Como já reclamamos várias vezes aqui no blog, o trânsito já caótico de São Paulo trava com a primeira gota que cai do céu. Se isso já não bastasse, ele agrava um problema que põe em risco o patrimônio e a vida dos seus cidadãos.

O paulistano sai do trabalho, fica preso num congestionamento qualquer, vem a chuva pesada e, quando ele menos espera, está cercado pela água que sobe depressa sem que ele possa defender a si mesmo e o carro que está preso no meio dos outros.

O que ele não imagina dentro desta situação é que ele está pagando por erros cometidos em série contra o ambiente em que vive.

A São Paulo dos bandeirantes era um local recoberto pela Mata Atlântica. Os pioneiros aqui se estabeleceram porque havia alta capilaridade de rios, riachos e córregos, facilitando o deslocamento das pessoas por uma área vasta.

Lembrança daquela época, a conhecida Ladeira Porto Geral, no centro de São Paulo, levava em tempos remotos a um pequeno porto fluvial que atendia o povoamento do local, daí seu nome. O riacho ainda está lá, canalizado sob o asfalto e longe dos olhos das pessoas, que nem sabem que ele existe.

Este mapa de 1943 já mostra a maioria dos bairros da capital e a vascularidade da bacia hidrográfica, dominada pelos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Ainda nesta época estes rios ainda apresentavam suas configurações naturais, cheias de voltas, meandros e lagoas nas suas áreas de várzea pouco ocupadas.


Anos depois, o curso destes rios foi retificado, acelerando a vazão, e disponibilizando as antigas várzeas para ocupação.

Os rios possuem áreas de várzea, que são áreas baixas e alagadiças, e que fazem parte do processo regulatório do próprio rio. Elas existem para conter e controlar as cheias naturais.

Estas áreas não foram respeitadas e foram intensamente ocupadas com imóveis, ruas e avenidas, com destaque às Marginais, que logo se tornaram importante via de acesso rápido da cidade.

Foram instaladas duas usinas elevatórias de água no Rio Pinheiros, invertendo o sentido natural para abastecer a represa Billings, que por sua vez fornece água para a usina hidrelétrica de Henry Borden, em Cubatão, ao pé da serra.

Com a inversão do sentido do Pinheiros, a represa Billings, uma importante fonte de água para a cidade, passa a receber o esgoto gerado na própria cidade.

Minha família é testemunha de quando a várzea do Tietê era uma grande área de recreação nos fins de semana para os paulistanos, que ali iam pescar e nadar.

Marco desta época são as torres da tradicional Ponte da Bandeiras, feitas para juizes e locutores das então populares regatas que ali eram promovidas, com maior destaque para os times dos clubes Tietê e Espéria.


Eu já sou da geração que recebeu o Tietê completamente retificado e transformado em esgoto a céu aberto, com as várzeas totalmente tomadas. Esta transformação ocorreu durante o rápido desenvolvimento que o país experimentou a partir dos anos 1950. Mas estas transformações atingiram a cidade como um todo.

Construções se espalharam por todos os lados, tomando o lugar da antiga floresta. Córregos e riachos logo viraram esgotos. Ruas e avenidas foram pavimentadas.

Grandes avenidas, e hoje importantes artérias de trânsito foram criadas nas várzeas de riachos, incentivadas pela facilidade de construção em terreno plano.

Anhangabaú, Nove de Julho, Av. Do Estado, Aricanduva e Inajar de Souza, entre tantas, fazem parte de uma lista encabeçada pelas Marginais do Tietê e do Pinheiros.

O que parecia óbvio no tempo da edificação destas obras carregava um erro fundamental pelo qual a cidade pagaria caro tempos mais tarde.

O solo, antes recoberto de farta vegetação, retinha a água da chuva, que demoravam a chegar ao sistema natural de drenagem. Depois, com o processo de urbanização, ele vai sendo paulatinamente impermeabilizado.

Este processo de impermeabilização dá grande velocidade de escoamento à água, e logo começam a surgir os primeiros pontos de alagamento.

Estes alagamentos e a necessidade de espaço e de isolamento de muito córregos transformados em esgotos a céu aberto espalharam pela cidade as obras de canalização e cobertura das calhas naturais destes córregos, a criação da rede de esgoto e de águas pluviais, fazendo a água da chuva escoar ainda mais rápido em direção ao Tietê e ao Pinheiros.

Já na década de 1970 as enchentes do Tietê e do Pinheiros começam a se tornar regulares, afetando as importantes avenidas marginais e bairros vizinhos. Estes rios já não dão conta da vazão da água que chega rapidamente aos seus leitos vinda de toda a cidade.

Num país essencialmente rodoviário, e tendo São Paulo como coração financeiro e industrial do país, cometeu-se o erro de convergir as principais rodovias estaduais e federais para as marginais, fazendo com que pelo menos 75% da economia nacional baseada em transporte de cargas passasse por ali.

Quando as marginais passaram a alagar, o prejuízo atingia o país todo, e não apenas a cidade.

As transformações no uso do solo da cidade não pararam. Bairros tradicionalmente constituídos de residências e sobrados (casas de dois andares em outras regiões), passam por um processo de verticalização com os prédios de apartamentos.

Num espaço onde viviam quatro famílias, hoje vivem 40, empilhadas umas sobre as outras.

Se habitualmente estas casas e sobrados possuíam jardins e vasos de plantas que ajudavam na retenção inicial da água da chuva, agora possuem prédios e vagas de estacionamento impermeáveis. Tudo colaborando para uma maior velocidade da água da chuva em direção aos pontos mais baixos, e, finalmente, aos rios.

A ação danosa do homem sobre o ambiente continua com o lixo jogado pelas ruas, e que entope os sistemas de drenagem. Falta um serviço amplo e eficiente de coleta de lixo, e falta educação para a população.

O problema, que já não era simples, foi agravado por três novos fenômenos, que se tornaram evidentes nos últimos 40 anos.

O primeiro é a mudança dos padrões de temperatura dos oceanos, em especial a intensificação do fenômeno El Niño/La Niña, que alternadamente esquenta e esfria as águas do Oceano Pacífico, afetando o clima do planeta como um todo.


No Brasil, este fenômeno afeta principalmente o regime de ventos que trás umidade da região amazônica para a região Sudeste, bem como o direcionamento de frentes frias vindas do Círculo Polar Antártico. Esta mudança climática traz mais umidade para a cidade durante o verão, e deixa o clima seco como um deserto durante o inverno. A previsão é a de o fenômeno se intensificar nos próximos anos.


O segundo fenômeno está ligado à formação da chuva.

Quando a pressão atmosférica e a temperatura caem, a umidade relativa do ar se eleva, causando o aparecimento das nuvens. Mas mesmo com a atmosfera saturada de umidade, esta água em suspensão na atmosfera só se precipita na forma de chuva pela presença de partículas sólidas muito finas em torno das quais a umidade condensa. Essas partículas se comportam como o germe em torno do qual há a nucleação das gotas de chuva, que crescerão até não poderem mais ser sustentadas pelas correntes de ar.

Em condições naturais, há uma certa densidade de partículas no ar que podem nuclear as gotas de chuva, distribuindo o excesso de água em suspensão no ar ao longo de uma extensa área.

Porém, a cidade provê uma quantidade muito elevada de partículas causadas pela atividade humana, em especial os particulados emitidos pelos escapamentos dos veículos a diesel.

O terceiro fenômeno é que a cobertura de concreto e asfalto da cidade, além de impermeabilizar o solo, cria um ponto de calor sobre a cidade. Quando as frentes carregadas de umidade colidem com o ponto quente, são obrigadas a ganhar altitude rapidamente, instabilizando esta umidade.


A conjunção destes três fatores tem elevado a intensidade das chuvas na cidade, que constantemente vem batendo recordes de precipitação.

A todo instante ouvimos que a chuva precipitada uma única vez equivale às médias de uma ou duas semanas daquele mês. E a chuva que cai concentrada aqui deixa de cair em uma área muito mais ampla.

Com chuvas mais intensas, o sistema de drenagem da cidade não dá mais conta de absorver o excedente, causando novos pontos de alagamento e a transformação de ruas e avenidas em traiçoeiras corredeiras.

As avenidas construídas sobre as várzeas de rios e riachos, hoje importantes corredores de tráfego da cidade, se transformaram em verdadeiras armadilhas para o motorista. Elas não estavam lá por mero acaso. Se formaram no fundo de vales, cercados de morros.

Com as chuvas intensas, a água escorre rapidamente em direção ao vale, e estas avenidas são muitas vezes tomadas por grandes quantidades de água em alta velocidade, arrastando perigosamente carros e pessoas.

Emblema deste fenômeno no começo dos anos 1990, a Avenida Pacaembu, uma área nobre da cidade, foi palco de cenas de pânico e desespero, mostradas pela TV para o país todo.

O problema foi resolvido com a construção do primeiro piscinão da cidade, sob a Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacembu.

Daquela época até os dias atuais, os piscinões se multiplicaram, a calha do rio Tietê foi aprofundada e concretada, e agora uma lei municipal obriga que novos condomínios de prédios possuam cisternas para reter água da chuva. Todas obras ligadas ao problema das enchentes.

Pode-se incluir nesta lista como obra indiretamente causada pelas enchentes a construção do Rodoanel, evitando que o transporte de cargas que antes apenas atravessava a cidade ficasse paralisado em caso de enchente.

A cidade aos poucos vai sendo retalhada por estas obras que existem em grande parte por culpa de outras obras. Na prática, vão se tornando o remendo do remendo. E mesmo elas, por maiores que sejam, não vêm dando conta.

Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da Prefeitura de São Paulo, há 20 anos existiam em torno de 300 pontos de alagamento na cidade. Hoje estão perto de 500, sendo 30 críticos, mesmo após todas estas obras realizadas durante este período.

A cidade já não comporta obras de grande porte em número suficiente, e muito da rede coletora de águas pluviais está envelhecendo e não há condições para que ela seja totalmente refeita. O sistema já não comporta um aumento do fluxo da água da chuva.

A solução está em várias obras de pequeno porte, que tenham a água captada localmente, evitando que ela seja conduzida imediatamente ao sistema de coleta, e, ao máximo possível, permitir que ela infiltre no solo, o que serviria também para reposição do lençol freático que existe sob a cidade.

Neste sentido, a Universidade de Brasília desenvolveu uma cartilha onde mostra várias opções de obras de pequeno vulto a serem construídas em casas, condomínios e empresas.


Enquanto a solução não vem, previna-se.


Estude os trajetos a que está acostumado, procurando saber onde ficam os pontos de alagamento, com que facilidade alagam e quais os caminhos alternativos podem ser tomados sem o risco de ficar preso dentro d´água. Se desconfiar que haverá chuva pesada, siga pelo caminho alternativo, por mais longo e difícil que ele seja.

Se não for possível deixar de passar por um ponto alagado, evite andar com a água acima do eixo das rodas. Se não conhecer o local, para saber a profundidade da água e evitar armadilhas, espere que algum outro veículo maior atravesse e o tome por base.

Alguns carros possuem a captação de ar para o motor num ponto muito baixo, o que exige atenção do motorista para este detalhe. A última coisa que se deseja no meio da água é um motor quebrado por calço hidráulico.

Calço hidráulico é o nome que dá ao impedimento de movimento do pistão devido ao cilindro estar cheio de líquido, em especial água. Como líquidos são incompressíveis, o pistão, ao tentar se movimentar, vai danificar componentes como a biela e/ou o cabeçote. Prejuízo grande.

Fique atento. Quem paga os danos causados pelos erros passados e a conta das obras novas é o cidadão.

E a temporada de enchentes está só começando.

AAD

11 comentários :

  1. Ótima a sua visão deste problema que começa nas cidades do ABC e finaliza nas Marginais....

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  2. Conheço bastante do assunto. Tenho um imóvel e meu "vizinho" de um lado é um córrego que desagua no Pirajussara. Pensava em construir uns prédinhos com 16 apErtamentos e fui na SEHAB (secretaria da habitação do municipio) pedir diretrizes para nortear o projeto e me informaram que não podia construir nada. Cobram o IPTU religiosamnete. Bem, sugeri uma desapropriação amigável que juntando com uma praça enorme e sub aproveitada, do outro lado do tal corrego, mais a própria cava que, possibilitaria a construção de um piscinão que aliviaria o pressão hidráulica em cima do Pirajussara, rio bem conhecido pelos problemas que causa TODO ANO, além de abrir umas quadras de esporte para a população do entorno utilizar fora da época das enchentes como é usual em vários outros piscinões e me disseram que não havia interesse, salvo através de um vereador que entrasse com um projeto qualquer nesse sentido. Parece-me clara a "razão" para tal. Venho batalhando nesse assunto desde o periodo da Marta e até agora só portas fechadas.
    E assim caminham os grandes politicos que elegemos.
    De qualquer forma meu caro, excelente post que mostra bem a degradação de nossa cidade e a volúpia de construções (necessárias) porém implantadas em local errado.
    Por aqui até em cima de viaduto enche (vide o da Washington Luiz sobre o corredor Vicente Rao/Vereador João de Lucca/Cupecê) Nem precisa dizer embaixo dele o que acontece... Seria cômico se não fosse trágico. E nós cordeiramente vamos pagando a conta. Até quando?

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  3. Belissimo comentario, mas não é só em SP não, aqui no Rio é a mesma coisa .... infelizmente...

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  4. Somasse a tudo que está escrito no belo post , que o Tiete não está sendo desaçorado , ou seja todo o trabalho de aprofundamento da calha feito na gestão Alkmin foi perdido na gestão Serra , portanto previnam-se Paulistas!

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  5. Não sou engenheiro nem urbanista. Mas, se ao menos tivessem retificado os rios, sem aterrar córregos e sem permitir construções próximas, não teríamos tantos problemas. Só que esse tipo de coisa não dá voto.
    Aqui em São José dos Campos, é cada vez maior o investimento em obras viáris, que chamam a atenção. Construção/ampliação de avenidas, etc. Só que não se vê ônibus nessas avenidas. Estamos caminhando para sermos São Paulo.
    Mas isso dá voto, até pra quem não tem carro.

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  6. Sou de são josé dos campos e confirmo com todas as letras o que o colega jopamacedo afirma e ainda mais...
    Quando chove nesta cidade o trânsito também trava a lá SP e DEUS nos acuda se por acaso algum carro, sem manutenção provavelmente pois sempre acontece quando chove, venha a quebrar nestes corredores. Sem contar a imperícia dos motoristas fazendo as ruas parecem parque de diversão com o bate-bate... Ontem com a chuva no final da tarde observei carros alagados, trânsito travado, carros batidos, quebrados, semáforo parado... E isso pq a cidade tem somente 520 mil habitantes aproximadamente.
    Precisamos do partido dos AE...

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  7. Infelizmente como dizem aqui em São Caetano...é só um cachorro mijar no poste para bagunçar o transito e logo começa a encher...
    Otimo post...abraço.

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  8. Obrigado a todos.

    Escrevi sobre São Paulo porque é onde conheço melhor os problemas e desafios. Mas acredito que muitos dos erros que foram cometidos aqui se repetem Brasil afora.

    É um problema que não terá solução nem a médio prazo.
    Daí a necessidade de se prevenir.

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  9. Maravilhoso post, André, parabéns.

    Aqui em Campinas estamos caminhando para esse mesmo caminho, com o contratempo que não há obras e todos os anos os mesmos pontos alagam, causam grandes estragos e ninguém faz nada.

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  10. Excelente post AAD!!! Parabéns!
    Sempre muito elucidativo, temos que fazer com que textos como este cheguem aos nossos políticos para ver se algo começa a acontecer neste país! Talvez assim desperte um pouquinho de vontade verdadeiramente política neste pessoal.

    Abs

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  11. Excelente post, ADD. Bastante esclarecedor.

    Infelizmente, o problema das enchentes parece ter virado questão nacional.

    Moro em Montes Claros, cidade com 355 mil habitantes localizada no norte de Minas Gerais. Chove pouco, mas é suficiente para que alagamentos sejam cada vez mais frequentes.

    Segue um vídeo que mostra uma das principais avenidas da cidade invadida pela água do Rio Vieira (afluente do Rio Verde Grande):

    http://www.youtube.com/watch?v=xqRrZYky0h0

    O que me chamou a atenção foi um dos comentários do vídeo:

    "Agora fazer alarde, ficar sempre repetindo a mesma coisa fica chato e cansativo.

    Se não chove ta ruim, se chove esta pior, Dêem graças a Deus, coisas piores que isso estão acontecendo em outras partes do Brasil."

    É engraçado ver um cidadão dizer que é pra dar graças a Deus por não ser igual em outras regiões do país. É claro que não está igual, oras! Esses grandes alagamentos são recentes, e a cada ano que se passa, surgem novos focos de alagamento na cidade.

    O que era um problema pequeno está se tornando grande - e como resolvê-lo, se nem a população trata esse problema com a seriedade devida?

    Lamento pela falta de ação do poder público para resolver - de vez - o problema das enchentes no Brasil. Não faltam soluções para isso, inclusive baratas. E sobra para quem pagar o pato? Nós.

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