UM OGRO SENSÍVEL



Para quem ainda não sabe, o AUTOentusiastas começou a partir de um grupo de discussão entre amigos. Foram vários formatos de grupos com muitos participantes e muitas discussões, mas sempre tratando de temas relacionados com o mundo do automóvel e com muito entusiasmo. O conteúdo discutido sempre foi de alto nível e em um determinado ponto achamos que esse conteúdo poderia e deveria ser compartilhado com outros autoentusiastas. Então fizemos o blog AUTOentusiastas com essa idéia e passamos a ampliar as discussões com a participação ativa de muitos leitores através dos comentários também de alto nível que sempre recebemos. Com isso multiplicamos o autoentusiasmo.  

Alguns dos colunistas e ex-colunistas ainda participam de um grupo, agora bem mais descontraído mas nem por isso menos autoentusiasta. 

Nesses dias, um dos participantes que está viajando pelos Estados Unidos nos enviou a foto acima, achando muito bacana ter conseguido enquadrar três carros entusiastas e vermelhos na mesma foto. Aí começou uma discussão sobre se esses três carros são realmente entusiastas e até sobre o quarto carro da foto. Um dos participantes disse que o New Beetle deveria ter sido cortado. O Alexandre Garcia, que já escreveu muito para o AUTOentusiastas, também conhecido como Ogro do Agreste, ou simplesmente AG, discordou e disse que o New Beetle não deveria ser cortado da foto. Eu entrei na conversa e tirei uma casquinha do AG dizendo que o ogro também tem um lado sensível, e que não dá pra comparar o New Beetle com os também retrôs MINI e Fiat 500, muito mais entusiasmantes.

E não é que o ogro é sensível mesmo? Ele mandou uma excelente resposta. Na verdade gostamos de carros, mais de uns do que de outros, mas no geral o entusiasmo é pelo automóvel. E nesse sentido, salvo algumas exceções, os carros são feitos de muito trabalho e dedicação de uma grande quantidade de entusiastas anônimos, que nem sempre conseguem fazer tudo do jeito que gostariam, mas colocam paixão naquilo que fazem. Sendo assim, todos os carros merecem ser respeitados e podem ter coisas bacanas. Talvez o New Beetle não esteja na mesma categoria desse novo MINI ou do BMW série 3 E30. Mas isso depende de como definimos a categoria, o que dá um bom papo com muito pano pra manga.

Achei muito bem colocada a resposta do AG e que cabe aqui no blog. 

"PM,

Respostinha longa, mas sincera e bem pensada.
O convívio com pessoas, com idéias e entusiasmos diferentes neste nosso grupo mudou vários conceitos meus sobre automóveis. E você tem uma parte de responsabilidade nisso, bem como todos os demais do grupo. Viva a diferença!
Eu me lembro do PH citando os bons sentimentos que tinha ao ver peças simples que ele tinha projetado para diversos carros. No que ele descreveu, mesmo que o carro nem fosse lá essas coisas todas, a peça era coisa dele e ele se emocionava ao ver. Transfiro tudo ao ver um carro cujo tema sirva de bandeira, de imagem a um fabricante. Mesmo um carro comum, nada fora do normal tem este fato, teve carinho, dedicação, zelo em diversos pedacinhos dele que algum PH fez.
Eu era meio indiferente a coisas que não eram do meu mundo, das minhas paixões, dos meus carros. Eu podia achar bacana um Fiat coupé, mas era só um Fiat. Eu podia até achar legalzinho terem metido um 5-cilindros num Marea; não era mais 4 e sim 5, mas e daí? Mais um Fiat bundão. Alfa? Nem pensar, dependendo do modelo é só um tipo travestido de carro de bacana. Novo Fusca? Golf de florzinhas. Conversível então? Mais ainda.
Mas aí você tenta olhar além do óbvio. Aí você vê o PM entusiástico devotado a fazer melhor, a fazer mais, a tentar dentro do que podia melhorar e tornar mais entusiasmante um carro corporativo apenas competente mas completamente insosso, como o Corolla. Aí a gente viu Corollas azuis, vermelhos, verdes e dourados, cada um mais bacana que o outro, sobressaindo do mar de prata/preto/cinza de todos os outros. Aí, meu camarada, não tem como não admirar um monte de coisas.
Assim, no dia que um amigo me ofereceu um Marea desbielado, quase que dado, eu encarei e fui aprender como refazer o motor. Ao observá-lo, vi tanta coisa lógica, bem-feita, elaborada, evoluída dos antigos Fiasa/Sevel/Tempra que me empolguei e fui analisar mais fundo ainda o que era aquilo ali direito. Vi camisas que não são distorcidas pelo repuxo dos parafusos dos cabeçotes porque os mesmos ancoram na base dos cilindros, junto com a base dos mancais fixos do motor. Observei que havia uma bomba de óleo na ponta do virabrequim, dispensando acionamentos extras, e de quebra ainda tocando uma árvore contra-rotativa para deixar ele absolutamente liso. Aí ferrou. 
No dia que apareceu um Alfa 156 no mesmo estado, catei sem pestanejar. Quando fui refazer o seu motor quebrado, vi o mesmo projeto básico do Marea, mas com toda a genialidade de aproveitar coisas boas e criar outras especificas para um 4-cilindros girador. 
Se a gente quiser pensar no Fiat 500 como um troço bacana e genial, a gente pensa, andei em dois ovos de test-drive e amei ambos, teria com facilidade qualquer um deles. Se quisermos pensar em um travesti feito em cima de um Ka, podemos pensar e denegrir o que também podemos admirar. Idem pro MINI. Meu vizinho por acaso tem um One, que eu já dirigi um monte e que curti muito mais que o 500. Veja, o One que é o mais simples e fraco de todos, então imagina o quão bacana num deve ser um JCW!
Daí que eu acho o New Beetle legal, o Fiat Coupé, o 500 e o MINI. Claro, Tigra e Calibra também.
Ontem teve um lance MUITO legal: meu filho dirigiu pela primeira vez o carro que ele escolheu e eu comprei pra ele. Qual carro? Um Neon 1997. Isso, Chrysler Neon, verde, 2,0 16V automático, sem nada demais. Original, inteiro, sem grilo algum, mas um carro que a maioria aqui e em todo lugar nunca julga ser empolgante. Eu amei o carro como carro urbano de todo dia, sem esforço algum, leve, preguiçoso, baixíssimo especialmente se comparado aos aventureiros atuais. 
Ele recebeu a carteira agora, mal dirige, anda sempre comigo de cadeira 2 dando dicas e tentando ajudar a ele a andar melhor. Dirigiu muito apenas o Palio 1,0 da autoescola e a Elba daqui de casa, que ele amava dirigir porque dizia que tinha o mesmo feeling do Palio. Fui buscar ele no emprego de Neon e já disse: vai levar ele pra casa dirigindo? Ele disse que sim. 
Depois de uns pouco quilômetros, exclamou: este carro é tudo de bom, como eu estou feliz por ter escolhido ele. E mais ainda de você tê-lo me dado. Veio até em casa todo contente, e depois, mais tarde de novo agradeceu e meu deu um bom abraço. Disse que quer sair muito mais vezes com o carro e que sentiu vontade de verdade de dirigir e usar ele. 
Na boa, nem precisa muito para a gente ser feliz, né?
Abração
AG"

PK

60 comentários :

  1. Declaração de amor aos carros. Acho que a maioria de nós aqui compartilha.

    Mesmo os "bean-counters" e os carros mutilados por eles merecem um pouco do nosso respeito, porque viabilizam projetos pequenos e sem muita preocupação com lucro que surgem quando o dinheiro sobra.

    Vida longa ao automóvel!

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  2. Por estas coisas este blog é referência, principalmente por ir além do óbvio, analisar cada carro em sua característica e para que ele foi pensando, com parâmetros coerentes, ficam marcados em minha memória coincidentemente dois post de fiats, o post do mille eterno do BS e o do MAO e seu companheiro palio young

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  3. Realmente, a resposta do AG é o que deveria acontecer. Hoje, se você não compra o "custo-benefício" do momento, ou o da moda porque se encaixou legal em outro carro, é apedrejado. Podia comprar sedan médio, mas quis um sedan compacto porque acho mais.....kart, mais justo, sei lá.....
    Esse é o espírito que deveria ser o do verdadeiro gearhead...curtir e não só tentar impôr sobre os outros.

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    1. "gearhead" é gíria para usar no jalopnik.
      Aqui deve usar "entusiasta".
      Cada macaco no seu galho... hehehehe

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    2. Má notícia: o Jalopnik brasileiro acaba no dia 31.Uma pena. Era uma turma empenhada, liderada pelo amigo Juliano Barata.

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    3. Oliveirajc16/12/13 19:45

      Como diria o Charlie Brown, que puxa! Certos sites que sonham com plataforma; bloco como sinônimo de motor; montadora; roda no lugar de trafega; avaliador ordenhando vaca, etc, estes não acabam.

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    4. Também leio o Jalopnik, entusiastas também, mas com outro enfoque. E conteúdo aos montes.

      E é bom ver o quanto a equipe amadurece com o passar dos anos.

      Mas eles vão continuar com outro nome, a mesma equipe.

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    5. É, o Jalop vai acabar, mas o trio formado pelo Leo, Dalmo e Barata irá continuar no FlatOut. E acho que essa mudança fará muito bem ao conjunto como um todo.

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    6. Curto muito o Jalopnik - foi através dele que conheci o Blog AutoEntusiastas pela indicação de um leitor da matéria sobre os dois Sevens (para mim, essa matéria é épica).

      Acho que ambos os espaços se complementam. O Jalop (em breve Flat Out) por ser mais leve, descolado, fluido e com boa dose de humor. O AE por ser mais técnico, dedicado, paciente, expressivo, fluido e com boa dose de humor.

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  4. O New Beetle tem um bom motor 2.0, faz de 0-100km/h em 10,9s, tem um "handling" impecável, espaço de sobra, bons bancos com bom apoio para o motorista e carona da frente e ainda tem um estilo muito bacana. Não é somente um carro para entusiasta como também um carro bem construído e bastante racional.

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    1. Hugo, você tem razão. Eu apenas não acho que ele demonstre esportividade como o BMW e o MINI. Essa nova geração melhorou bastante nesse quesito.
      Abraço.

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    2. PK, quem será o PM?

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  5. Leo Cordeiro16/12/13 12:47

    Show de resposta!Também partilho dessa ideia,no meu caso desde sempre,que por mais que se tenha preferência por este ou aquele carro,esta ou aquela marca,ou modelo,ou versão;o legal é curtir o UNIVERSO AUTOMÓVEL! Muitas vezes fazemos pré-julgamentos sobre carros que nem mesmo conhecemos e ao conhecer,podemos nos surpreender e muito!Por isso sempre digo:Viva a diversidade,viva o automóvel:paixão incontestável!

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  6. Quando falo que até Gol 1000 Quadrado é entusiasmante, ainda tem gente que me xinga...
    No fim das contas, quando se encara algo porque gosta, não como uma tarefa repetitiva, tudo muda, fica bom, divertido, e a partir daquilo se tenta melhorar em outras coisas. Como de um operador de pedais e alavancas o sujeito pode virar um motorista.

    Sobre os detalhes que algum apaixonado fez para o carro, por mais sem graça que ele seja, me lembrei de outra coisa: a tristeza que tenho quando vejo algum antigo todo arrebentado na rua, seja circulando ou abandonado. Fico imaginando que algum dia ele saiu novo de uma concessionária, com um comprador sorrindo de orelha a orelha, talvez a família inteira, foi bem tratado como um ente querido e no fim acabou jogado em um canto qualquer, descartado. Querendo ou não, é um pensamento triste esse.

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  7. Lembrei da historia de um fiesta, aqui do blog, cada carro tem um detalhe que pode empolgar quem gosta de carro.
    Luciano.

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  8. Victor Gomes16/12/13 12:59

    Que texto bonito! Exprime bem o que eu já disse aqui algumas vezes: Todo carro tem potencial.
    O que é ruim para você, pode ser bom para outros. Viva a diversidade!

    Em relação a foto, creio que aquele Mazda 3 sedan seja bem autoentusiasta. Dizem que ele possui um "handling" tão notável quanto o do Ford Focus. Uma pena não venderem Mazdas novos aqui. Seus modelos são muito bonitos. Mereciam reportagens aqui no AE.

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  9. "Na verdade gostamos de carros, mais de uns do que de outros, mas no geral o entusiasmo é pelo automóvel. E nesse sentido, salvo algumas exceções, os carros são feitos de muito trabalho e dedicação de uma grande quantidade de entusiastas anônimos, que nem sempre conseguem fazer tudo do jeito que gostariam, mas colocam paixão naquilo que fazem. Sendo assim, todos os carros merecem ser respeitados e podem ter coisas bacanas."

    Perfeito! Nada a acrescentar!

    Mendes

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  10. Não precisamos de muito para sermos felizes e não só em relação aos automóveis.


    Mas, não saindo foco do espaço, que são os automóveis, digo que o verdadeiro entusiasta não se empolga apenas com um carro novo, macio silencioso e potente, ou só com os supercarros, di$tante da realidade da maioria dos mortais.


    Na minha humilde visão,um entusiasta gosta de andar em um Audi a 4 novinho em folha, tanto quanto em um carro nacional dos anos 70 (Corcel, Chevette, Chevrolet C-10) usado na zona rural, em estado lastimável, com massa plástica, gambiarras com arame etc.

    Claro que são sensações diferentes, mas todas autoentusiastas.

    Nesse sentido, um texto do Bob Sharp em que ele relata ter entregue ao representante da BMW no Brasil um modelo equipado com motor V12 e, logo após, ter pego para teste, um Gurgel.

    Bob, e demais editores e leitores, corrijam-me se estiver enganado quanto aos carros mencionados no parágrafo acima. Mas pelo meu texto, percebe-se que o que busco dar relevo e, ao fato de que o autoentusiasta gosta de carros nobres e plebeus.


    E viva a diferença.


    Michael Schumacher

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    1. Tá entendido e compartilhado Michael! Abraço, PK

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  11. Texto de entusiasta! Parabéns AG! Curtir o entusiasmo do filho é algo que reforça o próprio, sem dúvida.

    Abs

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  12. Marco Molazzano16/12/13 14:07

    Grande AG!
    O que a vida nos ensina, com o tempo, é ser mais aberto a boas idéias, bons argumentos e boas histórias, sem o preconceito dos nossos tempos adolescentes cheios de exageros, bullyings (modernizando as "sacaneadas") e testosterona típicos.
    A paixão é pessoal, tem motivos diferentes pra cada um, mas ela não tem porquê desqualificar a paixão alheia. Até porque nunca sabemos quando nós cairemos em uma armadilha da vida que nos faria "desfalar" o que falamos. Como essa do AG.
    Parece que precisamos de rótulos pra simplificar a vida, AG=V8 americano e assim vai. Se for pra divertir e provocar risadas entre amigos, ótimo. Mas a internet cria machões atrás dos teclados, com suas linguas venenosas que pouco agregam à discussão. Mas também aproxima pessoas com afinidades sem barreiras de distância.
    Então fiquemos com o que a internet tem de melhor e relevemos (ignoremos) a parte podre.

    E sejamos felizes em nosso entusiasmo. Por carro, por pessoas, pela vida!

    MM

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    1. MM, eu poderia ter incluido essa parte também no post! Valeu!

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    2. MM e PK,

      De novo aquilo que falamos tantas vezes, o meio copo, o jeito de ver um fato isolado e poder ter diversas interpretações. Vamos ver a metade que está cheia, o que tem de legal bom e positivo. Vamos ser muito mais felizes, vamos viver melhor e curtir muito mais a vida!
      Aliás, só o fato de termos algo como nosso autoentusiasmo já trona nossa vida muito mais legal e interessante que a de muitos que veem apenas o meio copo vazio.

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  13. Off,

    Puxa, eu lembrei que por volta de 2002/2003 eu quase comprei um Neon 97/98 igual a esse só que preto. Que tentação!

    A parte engraçada foi quando o dono deixou eu dar uma volta.

    - Demos partida com bateria auxiliar, andamos 500 metros e o burrinho aqui parou no posto e desligou o carro... A sorte é que o bicho pegou de boa.
    - Mais uma: o carro tinha a alavanca de seta esquerda partida ao meio, o dono ao ver que notei disse: "Isso acha em qualquer esquina". Fingi que acreditei.
    -A última é que andamos bastante na cidade em trânsito meio que parado. Quando estavamos voltando o dono disse: "Procura outro lugar mais livre, pra você sentir a troca de marcha". Com aquelas 3 marchas longas, ainda não tinha entrado a segunda... Descobri ali o america way of drive, e o motivo dos dupla embreagem e os automáticos de mil marchas terem demorado a cair no gosto deles.

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  14. E esse é o verdadeiro espírito AUTOentusiasta! Ver a beleza de todo carro e curti-lo em toda sua essência.

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  15. Só o AG pra escrever isso. A paixão pelos carros (qualquer um, até de rolemã) está nos olhos dele.
    Não tem como não se admirar...

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  16. O AG, malgrado trabalhar em meio a ferramentas pesadas, e ferro bruto...como um Hefaístos da era moderna, é um lorde quando escreve e transmites suas verdadeiras aulas a nós, anônimos leitores aqui do blog.

    Um lorde dos mais sensíveis. De fato, o respeito por todo tipo de carro ou sistema de locomoção deveria ser o mantra dos verdadeiros autoentusiastas, não apenas curtir doentiamente uma vertente da cultura automotiva; tipo: "eu só adoro carros americanos"...podemos adorar, gostar mais de um ou de outro, mas a curtição é geral; desde os modelos à vapor de 1880 em diante, passando pelos modelos T, Packards Eight, Fiats minúsculos, muscels cars, limusines Rolls, minis, topollinos, Austins, Alfas, Teslas...etc, etc. ufa....tudo é um caleidoscópio de cores, formas, vibrações, barulhos....ode à liberdade individual ambulantes.

    Bacana essa "doença" que te faz olhar para um Corolla champangne e desejar dar uma guiada pela estrada curtindo o silêncio e a fidelidade suave dos comandos, ou desejar cambiar uma antiga D20 turboplus com quase cinquenta quilos de torque, lenta na arrancada, marcha sobre marcha, uma encima da outra na comprida alavanca nada sutil ou suave...ou imaginar um reator nuclear movido a pistão nas tuas costas, vindo de um Lamborghini, cada toque nas pás atrás do volante sendo respondidos com uma nova onda de pressão nas costas, como se o motor quisesse te atropelar e tudo que tivesse na frente dele; ou feeling rústico e delgado de um fusquinha dos anos sessenta, volante finíssimo, o barulhinho gostoso da embreagem voltando ao berço, tudo passando devagar ao redor...

    Carros não são eletrodomésticos, cada um deles te devolve uma experiência diferente, nunca são iguais, são parecidos...com cada um deles tu moldará um tipo diferente de ação e reação, cada um deles é um livro mecanizado de história; quando tu entra no teu simplório Hobby de 1000cm3, e começa a sintetizar a história por de trás dele, do projeto mundial, dos protótipos com tração traseira para o mundial de rally dos anos 80, das versões européias com turbo, do passado de glórias como fetiche da classe média de anos passados (versão XR3) - você vai tratá-lo de outro modo e ele te devolverá a dedicação nos mesmos molde, tu vai guiar ele com mais compromisso, mais suave, mas vai explorar mais o motor ao mesmo tempo, ele entenderá e vai ter responder com mais entusiamo, tudo vai ficar melhor, e a simbiose que melhora o teu dirigir - mesmo em um carro tão modesto - acontecerá...

    Claro que estou viajando, mas é isso: o carro é uma viagem, qualquer emblema hoje é quase centenário - atrás dele vêm uma parcela da odisséia humana que puxa para o alto e avante, o exemplo do Escort Hobby pode ser aplicado a qualquer carro praticamente...todos têm o seu valor e associações praticamente infinitas; tu vê um vulgar (fora daqui) Matra Murena e faz a relação com o McLaren F-1 com sua disposição igualmente insólita de acomodação para os ocupantes; observa um velho opala com motor 151, e o imagina como como um Holden Monaco GTS que perdeu metade dos cilindros...

    Carros são história e movimento, cores e formas, barulhos e aromas...parecidos com seus criadores e quase seres vivos como nós, e portanto, merecem todo o respeito.

    MFF

    (pronto, agora posso voltar a minha dose de Ritalina)

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    1. MFF,

      comecei a ler o seu comentário, praticamente um outro post, sem ver quem assinava pois ficou como anônimo no cabeçaçho. No segundo parágrafo rolei a página apostando comigo mesmo que era voçê o autor.

      Excelente!!!

      Abraço. PK

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    2. MFF,
      Já disse outra vez, mas volto a repetir: és um poeta! Seus textos são inconfundíveis.
      Abraço!

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  17. É Holden Monaro, nao monaco na minha comparação anterior.

    MFF

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  18. Belíssimo texto! De ogro esse camarada não tem nada...
    Criticar (carros no caso) é fácil, qualquer cabeça de bagre pode fazer isso. Difícil, é transformar aquele monte de chapas, plástico e outros materiais em um carro pronto lá no final da linha de montagem.

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    1. Boa!!!! Por pior que um carro possa ser, não é qualquer um que faz. PK

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  19. "Na boa, nem precisa muito para a gente ser feliz, né?"
    Acho que essa é a premissa de um autoentusiasta. A alegria esta nas coisas simples.
    Tenho um fiasa 1.0 com um leve tapinha, nada fora do original... 9.2 de taxa (ante 8.5), escapamento esportivo, e tudo que pude tirar de peso foi tirado. O resultado é um carro leve e divertido pra dirigir, a hora que sobe o giro dos 5 até uns 8 mil rpm) grita com vontade parecendo uma moto...
    pena que motores giradores são uma especie em extinção.

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  20. Parabéns ao AE pela crescente diversificação de conteúdos.
    Um blog democrático e que consegue se reinventar a cada dia.

    Mas eu queria falar mesmo é sobre a foto. Uma foto incrível. Além dos três carros vermelhos e entusiastas, o autor da foto conseguiu enquadrar uma casa típica de "casa-entusiasta". Parece saída diretamente de um conto de Agatha Christie, Sherlock Holmes ou Edgar Allan Poe.

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    1. CSS, essa diversidade também vem dos leitores!!!!Adorei a coisa da casa! Abraço PK

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  21. ...PS.: acho muito interessante essa versão do New Beetle, pé-de-boi com calotas, que não tivemos.

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    1. Adoro o New Beetle com calotas e o Camaro com rodas de aço. Mas aqui não venderia nada...

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    2. Aqui na cidade onde moro roda um curiosíssimo Smart ForTwo da primeira fornada, 1998 com rodas de aço cor alumínio, sendo as traseiras bem mais largas que as dianteiras, e com aquele "copinho" preto no centro e sem ar-condicionado! Acho o máximo.

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  22. Rafael Ribeiro16/12/13 16:38

    Já tive carros de vários tipos, de várias marcas, e sempre admirei as boas características de cada um deles, desde Jeep Ford até BMW, passando por Galaxie, Fusca, Corolla, Suzuki Vitara. Só não tive esportivos de verdade (ainda...). No momento, tenho um Fusca (o antigo, não o atual), um CRV e um Fit em casa, além de um BMW320i (E46) de meu pai, desde 0km, que guardamos para a posteridade. Tenho tesão por cada um deles. Cada um, à sua maneira, é interessante para determinada finalidade. Me considero autoentusiasta portanto.

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    1. Rafael, claro que é autoentusiastas. Com uma variedade dessas, por esse pensamento e por ler este blog...
      Abraço PK.

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  23. Belo post , o Ogro tava afiado mesmo,mandou logo um "relato autoentusiasta", também acho que o Fusquinha não poderia ser tirado da lista,que maldade!,apesar de preferir o BMW ,hehe .Carro faz parte das nossas vidas, das nas nossas alegrias ,mesmo que o governo e os ecochatos não queiram.

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  24. O New Beetle é a única opção no Brasil de motor TFSI com câmbio manual.

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    1. Não é o new beatle, é o "new" fusca que tem o 2 litros tfsi

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  25. É exatamente isso o que acho; não importa o modelo, ano ou marca, cada carro possui suas próprias características que os diferenciam dos demais, e todos, em maior ou menor grau, são entusiastas.

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  26. Ivo Junior16/12/13 17:29

    Para um entusiasta de verdade, não importa o carro, é a paixão, a vontade de explorar - e apreciar - as diferentes soluções técnicas e a "carronalidade" que somente aquele modelo possui. O AG foi muito feliz nos comentários dele, e nos mostra que, mesmo com tantos carros bacana que montou e dirigiu, até um carro "simples" pode nos trazer um sorriso e despertar a paixão pelo automóvel.

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  27. Fusca é Fusca, um dos carros mais importantes de todos os tempos. O New Beetle, e o New New Beetle também, são Golfs piorados. Uma inutilidade atroz.

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    1. Vejo o Fusca como nova geração do Fusca, em que pese seja "plataforma" de Golf. Qual carro agrada a todas a cada nova remodelagem? Difícil.

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    2. Eu acho eles charmosos...
      O New New Beatle tem um ar de Porsche e uma mecânica fantástica!
      Mas eu nao tenho bala para comprar um desses.... Fico só no sonho

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  28. Caramba, que texto! Impossível não se emocionar ao ler, principalmente no final, onde o AG conta a experiência do filho dirigir o primeiro carro! Essa experiência é única, guardo-a muito bem quando passei pelo mesmo momento.

    Tenho que confessar que também mudei minha forma de ver os carros em geral depois que passei a ler o AUTOentusiastas. Tinha o costume de desdenhar daqueles modelos que considerava estranhos, exagerados ou que simplesmente não me agradavam. Com o tempo, passei a perceber que, por pior que seja um determinado veículo a meus olhos limitados, tal veículo é fruto de muito trabalho de muita gente, muitas vezes o melhor que tal grupo pôde desenvolver na ocasião.

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  29. Ricardo - Vitória ES16/12/13 19:33

    Puxa vida, bacana Paulo, valeu mesmo o post. O relato do Alexandre foi inusitado e tocante, gosto de carro demais, mas quando entra na estória relação pai e filho, a coisa fica séria pra mim e me emociono demais, lembro dos relatos do Arnaldo Keller e a relação dele com o pai, coisa linda de viver. A hora do abraço do filho do Alexandre garanto que valeu por tudo, inesquecível. Parabens!

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  30. Um dia deixei o Monza todo macio e suave em casa e peguei um fusquinha 1500 73 emprestado todo arrebentado (Sem freio, banco rasgado, porta que não fecha, cinto de segurança amarrado, fedendo a mofo e gasolina, nem manopla de cambio tinha) e fui na casa dum amigo meu pra gente dar umas voltas. Foi uma tarde de MUITAS risadas e diversão, pq apesar de tudo o carrinho tinha uma vontade de andar que só ele! O motorzinho (sem escapamento) berrava com vontade e o cambio apesar de passar a sensação de estar completamente solto não errava uma marcha! Passamos bons momentos esguelando o fusqueta e ele parecia que agradecia!
    Qualquer pessoa "normal" estaria reclamando do cheiro, do barulho, dos comandos duros, do aperto e do desconforto, enquanto nós ríamos de felicidade.
    Carro é bom até quando é "ruim".

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  31. PK,

    Ficou bem legal camarada, valeu pelo post!

    Todos,

    Os comentarios que fiz começaram bem espontaneos num dia em que eu estava muito feliz pelo lance com o meu filho e o neon. Dai pensar e escrever sobre o entusiasmo de forma ampla foi bem tranquilo e natural.
    Fico feliz ao ver que algumas idéias minhas sirvem para expressar bem o que sentimos por estes bichos de 4 rodas!

    AG

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  32. Este conceito de "o simples pode encantar" se aplica inclusive aos carros antigos, mesmo que esteja longe de ser um simples já na categoria de clássico e adorado, como um Fusca. ´É por isso que quando vejo, por exemplo, um Fiat Oggi impecável, admiro aquilo demais, fico fascinado, mesmo que ele esteja rodeado por outros antigos que sejam unanimidades desejadas por quaisquer colecionadores. Com mulher é a mesma coisa: uma caboclinha brejeira dentro de um vestido de chita pode encantar tanto quanto uma diva do cinema toda produzida e "vestida para matar", na noite de entrega do Oscar, he, he, he!!!

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  33. Vocês todos que fazem o Autoentusiastas existir estão de extremos parabéns!!! De verdade.
    Este site pra mim é um referência, inclusive bem mais que o ótimo Jalopinik.

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  34. Destaco essa parte: "O convívio com pessoas, com idéias e entusiasmos diferentes neste nosso grupo mudou vários conceitos meus sobre automóveis. E você tem uma parte de responsabilidade nisso, bem como todos os demais do grupo. Viva a diferença!"

    Também sofri essas mudanças. No começo só ligava mesmo para os carrões esportivos com mais de 280cv - e ainda achava pouco - e alguns outros poucos que tinha afinidade. Hoje curto o mais singelo dos VW 1300 (Fusca) ou um ordinário Uno Mille. Fui vencido pela dinâmica de um mero Ka 1 1.0. E creio que já seria bem feliz com um simples Chevette (se der para ser um GPII bem original... hehe). Também dou mais valor aos carros que tenho mais contato e assim aprecio-os bem mais.

    Tudo se resume a ver além do óbvio e perceber que até aqueles que nos rodeiam tem qualidades excepcionais que nem imaginamos, e só achamos que vamos encontrar naqueles que estão fora de nossa realidade. A felicidade é aqui e agora.

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  35. Fiquei contagiado e emocionado pelo relato do AG sobre seu filho. Muito legal ele ter curtido o Neon. Mais legal ainda foi o papel que o AG fez em se colocar de prontidão para ajudar o filho a perder o medo e ganhar habilidade e prática ao volante. Julgo-me sortudo porque meu pai também fez o mesmo comigo. Sem hesitação em me dar o carro, esteve ali para me ajudar a superar os obstáculos até que eu pudesse me virar sozinho. Sou imensamente grato a ele por isso.

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  36. Fantástico post PK!

    É ótimo ter um local para compartilhar nossas experiências entusiastas, paixão essa que nos dá ainda mais alegria em viver.

    Richard G.

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  37. Em muitos textos que li aqui fica evidente que a maioria acha que se é "veiculo autopropulsado" merece ser de certa forma cultuado, pois sempre dentro de uma circunstância particular ele pode ser admirado por alguém, ser útil e até por falta de opção “divertido”.
    Bem não deixa de ser verdade, mas não deixem seu julgamento ser influenciado pelo que se poderia ter ou se tem.
    Um exemplo claro, o mesmo carro testado em países de primeiro mundo tem um conceito bem inferior ao que ele tem testado aqui, somos muito bonzinhos.
    Diga-se de passagem, nós somos tolerantes demais, mas não só com carros, com tudo.
    Na foto, o BMW e o Mini sim, devem ser carros Autoentusiastas, porque se nota que foram feitos porá entregar “algo mais” que bons números de venda.
    O New Beetle não, pois existem carros e produtos que são "baixados goela abaixo" do o pessoal da engenharia, caça níqueis que passam sem ser notados pela história do automóvel, são como aquelas continuações de filmes que não fazem jus ao original.
    Embora tenham dado trabalho e tenham sido caras, tais produções não merecem e não devem ser elogiadas.
    Vamos levantar o nível, elogiar e achar tudo bom, mesmo que sobre certas circunstâncias, não é algo que formadores de opinião como os senhores, que aqui escrevem, devam fazer.
    Elogiar todos os carros atrai leitores, quem não quer ver sua escolha "elogiada".

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  38. Parabéns pelo texto, não alteraria uma vírgula.
    É bom saber que não sou o único capaz de se entusiasmar com absolutamente qualquer carro!

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