MAZDA FURAI, VIDA E MORTE DE UM CARRO-CONCEITO



Praticamente todos os carros que vemos hoje no mercado nasceram de algum carro-conceito, podendo ou não terem sido mostrados ao público. Os carros-conceitos que ficam conhecidos são os que vão para exposições e salões. Há conceitos que apenas os membros do alto escalão das empresas podem ver, e tomar decisões.

A função de um carro-conceito é mostrar tendências ao público e ver sua aceitação, quase sempre de novos designs. Desta forma, o fabricante pode decidir se seguirá com algo parecido para produção em série ou não. Funciona como um teste de carisma para a proposta.

Muitos carros conceitos são apenas estáticos, não possuem motor. Às vezes, nem mesmo um interior funcional é feito, pois o que interessa apenas é a carroceria, a parte exterior. Estes são chamados de mock-ups pelos termos da indústria.

A Mazda, famosa pelo seu motor rotativo de ciclo Wankel, ficou anos sem grandes lançamentos no que diz respeito a designs arrojados. Com uma renovação na sua linha do ano 2000 para frente, o visual de seus modelos mudou bastante. Diversos carros-conceitos foram apresentados, e entre eles, um chamado Furai.

Desenho artístico preliminar do Furai, feito por Carlos Salaff, antes da fabricação

Furai significa “o som do vento” em japonês. Ele nasceu logo depois do conceito Nagare, que ditou uma linha de estilo para a marca por alguns anos. Nos dias de hoje, definir um modelo ou uma espécie de identidade é um recurso comum. Uma linha de design é apresentada e usada como referência por algum tempo, até que outro conceito seja introduzido, e assim a marca evolui. Lembrem-se do conceito Evos da Ford, que ditou a forma básica do atual Fusion e novo Fiesta, que lembra um Aston Martin.

O conceito do Mazda Nagare foi o direcional para as linhas do Furai e outros modelos da marca

O Furai foi criado para ser a conexão entre os carros de rua e os carros de corrida da marca, como uma forma de homenagear a herança dos carros de competição da Mazda, entre eles o lendário 787B, vencedor de Le Mans em 1991. Diga-se de passagem, o único carro japonês a vencer as 24 Horas.

Vista traseira do Furai no desenho de Salaff

Diferente da maioria dos carros de exposição, o Furai é totalmente funcional. A idéia de homenagear a linhagem de competição da marca abriu a porta para que o carro fosse desenhado como um carro de corrida. Como ele não iria participar de nenhum campeonato, não precisava atender nenhum regulamento ou normas técnicas que limitam as dimensões externas do carro, logo suas linhas foram desenhadas livremente.

O resultado foi uma carroceria de compósito de fibra de carbono muito arrojada, futurista, que transmite sensação de velocidade. Como o carro seria funcional, era um laboratório para estudos de aerodinâmica da Mazda, além de novos recursos, como faróis, sistemas de arrefecimento e motorização.

O Furai remete à linhagem de competição da Mazda

Ao contrário de conceitos como o Lamborghini Sesto Elemento, que focava na engenharia de seu novo chassi, o Furai nasceu em cima de um carro existente. Para que os criadores não tivessem que desenvolver um carro totalmente do zero, que não era a proposta, um chassi de Courage C65 foi utilizado. Este chassi correu no campeonato da American Le Mans Series (ALMS) entre 2005 e 2006, pilotado inclusive pelo brasileiro Raphael Matos.

O motor Renesis é um Wankel de três rotores e mais de 450 cv

A Mazda é conhecida pelo seu motor Wankel, e o Furai não poderia ser diferente. O chassi do Courage que foi usado correu com uma versão preparada do motor Renesis-R20B, uma unidade com três rotores, que teve também uso em carros de rua. No Furai, o motor foi revisado e desenvolvia 460 estrondosos cavalos. Detalhes estéticos do carro mostram que o Wankel está ali dentro, pulsando como o coração desta fera, e faz parte da história da Mazda.

O carro que deu origem ao Furai, um Courage C65 equipado com motor Mazda

Uma das propostas do Furai era também o uso de combustíveis alternativos, no caso, o álcool etílico. O motor foi preparado para receber o combustível ecológico, velho conhecido nosso, em parceria com a empresa BP.

Com o chassi pronto à disposição dos projetistas, sua carroceria foi esculpida como uma obra de arte. Todos os elementos foram desenhados para terem funcionalidade na aerodinâmica, desde o pára-brisa até os faróis e suas fixações. As linhas fluidas permitem um baixo coeficiente de arrasto aerodinâmico ao mesmo tempo que gera boa quantidade de força aerodinâmica vertical (downforce). O Furai pode chegar a 300 km/h.

Por não ser um carro de competição, o Furai leva dois ocupantes. O habitáculo original do C65 foi aumentado para acomodar um passageiro, além do piloto. Toda a parte eletrônica do modelo de competição da ALMS ficava onde é o banco do passageiro, e foi acomodada em diferentes locais do carro.

O conceito era totalmente funcional; aqui, em uma das suas aparições em autódromos

Em 2008, a Mazda levou o Furai para ser apresentado oficialmente ao público no Salão de Detroit. Foi um sucesso absoluto. Os elementos que remetem aos rotores triangulares do motor deram esperanças ao amantes da marca, pois a continuidade do Wankel para a produção em série estava em discussão.

O sucesso do Furai foi ainda maior quando todos souberam que era um carro funcional. Apresentações restritas foram feitas em alguns circuitos, entre eles Laguna Seca, na Califórnia, onde o inconfundível som dos três rotores ecoava pelo deserto. Em alusão ao passado, o Furai carregava o número 55 na sua pintura. Este era o número do carro vencedor de Le Mans de 1991.
Interior simples, como um carro de corrida

Depois de algumas aparições, o Furai desapareceu sem deixar vestígios. Não é incomum isto ocorrer, uma vez que os carros-conceitos logo devem sair de cena para que novas propostas sejam feitas e o design continuar evoluindo. Dependendo da expressividade e aceitação do público, estes estudos de engenharia e design são guardados, ou nos museus de suas respectivas marcas, ou dentro de algum galpão nos estúdios de design das fábricas para eventualmente serem usados. Para os carros menos representativos, seu fim acaba sendo a destruição.

Era muito pouco provável que a Mazda destruísse o Furai, pois foi um sucesso. Trancá-lo dentro de um galpão, longe dos olhos de todos? Talvez. A verdade seria revelada anos depois para a surpresa de todos. Hoje em dia a notícia já não é novidade, mas recentemente mais informações e imagens foram publicadas sobre o desaparecimento do Furai.

Depois das apresentações oficiais, o Furai era visto como a menina de ouro da Mazda. Pouquíssimas pessoas teriam acesso ao carro. A única que pôde andar no carro foi a revista Top Gear – não confundir com o programa de televisão, esta é a publicação, obviamente do mesmo grupo.

A revista Top Gear seria a primeira de poucas selecionadas para avaliar o carro. Em 19 de agosto de 2008, o carro estava na pista do aeroporto de Bentwaters Parks para a sessão de fotos.

Detalhes de estilo que remetem ao rotor triangular, característica dos motores Wankel

O editor Charlie Turner, o fotógrafo Lee Brimble e o piloto da Mazda, Mark Ticehurst, davam as últimas voltas para fechar as fotos da matéria. Turner queria algumas fotos do Furai cuspindo fogo pelo escape nas reduções de marcha, então ele e o fotógrafo, a bordo de um carro de apoio seguiam o piloto no Furai.

Depois de algumas passagens pela reta do aeroporto, o Furai e o carro de apoio com os membros da revista estão do outro lado da longa pista de decolagem, longe de onde a equipe de apoio está. O Furai começa a fazer um som estranho do motor e fumaça começa a sair pelas aberturas da carroceria.

O carro com Turner e Brimble consegue se aproximar do Furai para avisar Mark das chamas (a visão do piloto em um carro destes é muito restrita, principalmente para trás), e assim que o piloto percebe, corta a ignição do motor e encosta o carro para cair fora. Brimble desceu para ajudar Mark, enquanto que o Turner voltou o mais rápido que pode, buzinando desesperadamente e dando sinais de farol para avisar os bombeiros que algo estava errado.

Momento em que o Furai pára na pista já em chamas, apenas com o fotógrafo e o piloto próximos

Como eles estavam longe do time de apoio, e conseqüentemente do caminhão de bombeiros, o resgate chegou tarde demais. A pista do aeroporto possui uma elevação na sua parte central, uma minicolina bloqueava a visão de todos que estavam no pequeno acampamento. Para ajudar, o vento soprava de tal forma que a fumaça não era visível.

Um erro que não poderia acontecer. A equipe de socorro deveria estar no centro da pista, teoricamente o local melhor posicionado para atender qualquer ocorrência, onde quer que fosse. O segundo erro, aparentemente, foi que nem o piloto do Furai nem o carro do pessoal da revista estava com um rádio de comunicação para falar com a equipe de resgate. Isto é básico, ainda mais em um carro como o Furai.

Antes e depois do incêndio que vitimou o carro

O tardio resgate acabou com as chances de sobrevivência do protótipo. Nada poderia ser feito, o mais marcante carro conceito da marca em anos estava morto.

O fogo consumiu toda a fibra de carbono da carroceria, destruindo uma obra de arte sobre rodas

Muito já foi dito contra o Top Gear, injustamente ao meu ver. Como o programa de televisão conta com muitos absurdos e besteiras, as críticas foram fortes. Mas eles nada tiveram a ver com isso, e mesmo se fosse na mão deles, nas circunstâncias que o Furai morreu, também não seria culpa deles. Foi na mão da revista Top Gear, mas poderia ter sido com a EVO ou com a Road & Track. Houve falha de não ter sido levado um rádio de comunicação, mas o fogo repentino também teria acontecido. Talvez o resgate chegasse mais rápido e houvesse chance de reparo no carro.

Um acordo entre a Mazda e a revista foi feito para que nada fosse divulgado por anos, até que em outubro deste ano, a Top Gear foi autorizada a contar a história de como o Furai deu sua última acelerada no motor Wankel queimando álcool. O relato foi do próprio editor, Charlie Turner.

Desta forma que o carro foi retirado da pista e levado para longe dos olhos de todos

O que sobrou do Furai foi recolhido pela equipe da Mazda e levado para longe dos olhos de todos. Não se sabe o que aconteceu com o Furai, se ele está guardado, ou se ele foi destruído por completo.

Como o próprio nome sugere, o som do vento soou uma última vez, heroicamente, em alta velocidade e plenos pulmões dos três rotores emblemáticos da Mazda, para depois calar-se em um silêncio profundo.


MB


Fotos: Mazda, Top Gear, ultimatecarpage, ALMS, autowp, motorsport.com

26 comentários :

  1. Victor Gomes11/12/13 13:12

    Acredito que com vontade a Mazda poderia fazer outro idêntico. Afinal, esse carro foi criado numa época em que já se fazia uso intenso de programas em 3D. Era só imprimir tudo novamente.

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    1. Sim! E imprimir em uma impressora 3D, no melhor estilo papercraft, só que não em papel. :)

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    2. Seria um 787 moderno? Tem vídeos dele, que som e parece que andava bem o Furai.

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    3. O custo de construção do carro certamente foi extremamente alto e a Mazda decidiu por não fazer outro.

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  2. Belli,
    não sabia desse incendio, nem conhecia a origem do carro.
    Post demais de bom, gostei mesmo !
    Está na hora de fazer outro Furai, não pode ficar só nas fotos.
    Valeu.

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  3. Esta Top Gear, a julgar pelos poucos programas que consegui suportar ver na tv a cabo, é uma boa m.....Escutar hs de extremas babaquices, idiotices, apresentadores absolutamente idiotas e gays para ver alguns segundos de uma pseudo matéria de um carro, nem autoentusiasta suporta !!! E ninguém merece! O mazda em questão também não suportou estes idiotas. PREFERIU SE SUICIDAR! Bravo! Mil vezes um haraquiri a aguentar estas malas!! Jesus!

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    1. O Top Gear americano é uma imitação do Top Gear inglês. Comparar o Top Gear americano com o inglês é como comparar um carro antigo xunadasso com um carro restaurado em perfeito estado.

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  4. Tem lá no Play Station, para quem quizer ver e dar uma dirigidinha virtual......

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  5. Anônimo da Silva11/12/13 16:29

    Dificilmente a Mazda fará outro conceito, muito menos carro de produção, com motor wankel. Recentemente anunciaram que estão desistindo "oficialmente" do desenvolvimento do motor rotativo, por considerarem inviável. Após o divórcio com a Ford, eles estão bastante fragilizados financeiramente.

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    1. Notícia triste!

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    2. Cada hora a Mazda diz uma coisa sobre o Wankel. É dificil saber se ele fica ou se vai embora para sempre. Tecnologia para sobrepor as barreiras de emissões já foram desenvolvidas, basta ser economicamente viável para a marca.

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  6. estou ansiosamente esperando a opinião do auto entusiasta sobre o fim da obrigatoriedade do airbag e abs em 2014..... vergonha total!!!!!

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  7. OFF TOPIC:Amigos Autoentusiastas alguém pode me informar sobre um carro muito interessante chamado NARDO GT com aparência de um italiano dos anos 50 mas com mecânica Ford Cosworth 4x4, vi em uma revista nos anos 90, agradeço desde já qualquer informação.

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    1. @Anônimo 11/12/13 18h11min:
      Achei que só eu lembrava desse carro. Apesar do nome ele era feito na Alemanha com mecânica inglesa (a que você citou). O carro era quase sob medida, era possível p.ex. escolher o material da carroceria, indo de fibra-de-vidro até alumínio ou fibra-de-carbono.

      Não encontrei qualquer informação atualizada sobre esse carro, que fim levou o fabricante, colecionadores... nada. Primeira vez que li sore ele foi numa Auto Esporte de 1992.

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  8. E os motores de Ciclo Miller, alguma notícia?

    Anônimo do Gueto.

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    1. @Anônimo 11/12/13 18h24min
      Não sei de nenhum modelo Mazda vendido atualmente com tal motor.

      Em 2011a NISSAN lançou uma versão do March/Micra com um motor desses. É um 1,2L tricilindro, compressor e 98cv. A taxa de compressão (nominal) é de 16:1... Mas pelas características descritas pelo próprio fabricante achei meio inadequado classificá-lo como "ciclo miller", está mais para um motor atinkson.

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  9. Governo deve liberar carro sem ABS e airbags em 2014
    Isso deveria ser comentado aqui no blog...
    Entre cortar o IPI e cortar a segurança dos veículos, pro governo é melhor cortar a segurança.

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  10. Vamos comentar depois de esclarecido e quando a decisão for a oficial. O que lhe garanto é que não tocaremos na questão segurança, que consideramos uma bobagem inominável. Nossa posição a respeito já é bem conhecida.

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    1. Mas mesmo assim, Bob, o governo ficar arriando para montadoras é um absurdo. Depois vai lá a presidenta falar grosso com o Obama e esperando ser respeitada. Respeito não se pede, se conquista.

      Entendo que ABS e Airbag são inúteis se não houver todo um projeto de segurança e dirigibilidade do veículo e mesmo o carro mais seguro do mundo é uma arma se dirigido por um imbecil qualquer. Mas parece que não foi lendo o AUTOentusiastas que o governo mudou de opinião, o governo decidiu liberar porque o lobby das montadoras ($) é muito forte ($).

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  11. Não sabia que esse tinha sido o fim do Furai. Esse carro provavelmente foi o conceito mais desejado desses últimos anos, tanto por ser um descendente direto da linhagem esportiva e de competição da marca quanto por ser incrivelmente belo.
    Torço para que esteja sendo reconstruído, nem que seja aos poucos. Ou, caso tenha um criador por trás de tudo isso, um enterro digno, como do primeiro F1 produzido.

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    1. Muito difícil que isto ocorra, o carro custou uma fortuna para ser feito, teve seu papel cumprido, e corporativamente não é viável reconstruí-lo.

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  12. Oá Anônimo11/12/13 15:47! A respeito do programa que vc citou, tem que esclarecer se vc está falando do Top Gear inglês ou americano? O pessoal inglês não tem aparecido na TV a cabo mas podem ser vistos no Youtube. São de outro nível, não se comparam aos americanos, esses sim, uns bobos. O texto acima ainda diz que o pessoal que estava no local da tragédia era da revista e não do programa de tv, ou seja, também não eram os nerds americanos.

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  13. Em geral não gosto muito desses conceitos futuristas, mas o Furai foi uma das belas exceções. As linhas do carro ficaram incríveis, com uma harmonia impressionante. Uma pena que não esteja mais entre nós.

    Mais uma vez parafraseando o grande MAO, pelo menos o Furai terminou seus dias andando forte, em uma enorme bola de fogo, que provavelmente pôde ser vista da estratosfera!

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  14. Fantástico esses carros da Mazda, tenho um modesto Protege 95 da Mazda, mas super satisfeito com o mesmo, pena que a marca deixou o Brasil em 1997 - Abraços!

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  15. Chega a ser poético. O som do vendo, consumido pelas chamas, fazendo jus ao seu elemento.

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  16. Que dó, que dó, que dó, que dó!! ):

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