DUAS POLEGADAS – A HISTÓRIA DAS CAMINHONETES MARTA ROCHA

Picapes Chevrolet 1955 a 1957. Os "Marta Rocha"

Quando lançados ao início de 1955, montadas no Brasil, os novos picapes Chevrolet — e sua linha camional GMC — fizeram impacto. Novidade não vista, motores de seis cilindros em linha, comando no bloco de ferro, válvulas no cabeçote do mesmo material, quase quatro litros de deslocamento e uns 100 cv sobre quatro mancais. Evolução do engenho apresentado em 1929, portavam grande novidade: abandonavam a lubrificação por unhas apostas às capas de biela, por onde recolhiam do cárter o óleo da lubrificação e, em substituição, bomba de óleo.

Maior referência era visual. Eram impositivos, marcavam evolução de estilo, abandonando as formas arredondadas e as soluções herdadas à estética pré-II Guerra Mundial, para adotar a voluptuosidade de linhas assinaladora do meio daquela década. Deixavam a aparência de partes arredondadas, ao elevar os pára-lamas contendo os faróis  circulares, simples, de 7 polegadas — quase 18 cm —, à proximidade do topo do capô e, na caçamba para carga os pára-lamas projetados para fora pareciam esculpidos, expressando volume com elegância e sugerindo dinamismo. Pelo pequeno estribo lateral foram chamadas posteriormente, quando iniciaram ser tratadas como objeto de coleção, como Step Side. Havia versão luxuosa, com caçamba reta, a Cameo — sem o charme do estilo.

Eram bonitas, roliças, mais largas, grande evolução relativamente à linha pós-guerra produzida entre 1948 e 1954 — estas últimas ditas “boca-de-bagre”, pela conformação de sua grade em chapa pintada de amarelo claro.

Carimbo

O mercado carioca, então sede do poder federal, da capacidade de gerar costumes e institucionalizar leis, meca da cultura e do fazer moda, de observadores de costumes e humoristas, tão logo viu o carro, aplicou-lhe o apelido: "Marta Rocha".

Dispensava explicações. Marta (em verdade com "h", Martha)  era a bela baiana eleita Miss Brasil no ano anterior, e daqui saíra levando as esperanças nacionais de conquistar o título mundial da beleza feminina, o Miss Universo. Um concurso bem-vendido mundialmente, espécie de Oscar da beleza.

Martha era de tempo distante, quando as brasileiras ainda não eram louras, famélicas e, no caso específico, sob o ponto de vista plástico ou da engenharia, a candidata brasileira apresentava, digamos, ótima distribuição de massas e volumes. Resumo das elevadas análises em botequim, muito gostosa. Ou, no dizer prático, porém tangencial dos árabes, mulher para encher a cama.

No período, logo após o suicídio do então Presidente Getúlio Vargas, e governo tíbio e fugaz de Café Filho, tutelado pelos militares, estávamos inseguros, em período de baixa estima, e ainda tínhamos dificuldade em digerir a derrota na Copa do Mundo de Futebol para o Uruguai em 1950, ali, inaugurando a monumentalidade do estádio do Maracanã. País da alegria, do colorido, da música, da então inocente malandragem simpática, tornado colônia dos produtos e modas americanas no pós-guerra, perdêramos no futebol, um dos pilares das nossas vantagens e orgulho.

Na bagagem a bela baiana levava nossa expectativa de resgate de alguma auto-estima. À época, diria a sociologia goiana, estávamos mais por baixo que bunda de sapo sentado....

Martha foi-se aos Estados Unidos da América, organizador e sede do concurso na cidade de Long Beach, na Califórnia, levou nossas esperanças e junto, em época de limitada tecnologia de informação, alguns jornalistas para cobrir ao vivo, e mandar textos e fotos por malote aéreo. Dentre estes, o repórter João Martins, enviado especial da carioca revista semanal O Cruzeiro, dos então líderes e portentosos Diários Associados. Para quem não conheceu, um parâmetro: até hoje nenhuma publicação brasileira a igualou na média tiragem x população. Àquela época, quando éramos pouco mais de 50 milhões de brasileiros, a revista tirava 720 mil exemplares. Para exemplificar, hoje, os 190 milhões de brasileiros lêem imaginado 1 milhão de exemplares de Veja, a de maior circulação. Na média, quase 2,8 vezes mais.


Martha Rocha, a própria
A mais  

Mas não ganhou. Perdeu para uma mocinha americana, desmilingüida em presença e formas, conjunto inexpressivo cujo nome o tempo apagou. E foi a reportagem de João Martins a esclarecer e justificar a indigesta derrota: a medida dos quadris de Martha superava a do busto —- 98 x 100 cm . E duas polegadas, 5 cm, mais que a concorrente dos EUA. Difícil engolir a preterição da harmônica sinuosidade da bela baiana pela pouca emoção da ausência de curvas da americana.

A irreverência e o bom humor cariocas logo aplicaram o conceito. Olharam a caminhonete, seus pára-lamas arredondados, mais larga que a anterior, e logo sapecaram: "Marta Rocha".

O nome colou, bem colado, e se mantém até hoje, quase seis décadas passadas, indicando a seriação dos últimos picapes montados pela General Motors do Brasil, antes de iniciar produzir sua sucessora, a Chevrolet Brasil, apresentada como 1958. Esteticamente foi um retrocesso, formada pela cabine descontinuada em 1954 de estampos exumados, a tal boca-de-bagre, com novos pára-lamas ociosamente largos. Sem apelo, graça, retrocesso em estilo e ergonomia relativamente à "Marta Rocha".


Chevrolet Brasil 1958, marcha a ré em estilo e ergonomia
E agora?

Hábil pesquisador, pena ilustrada, o jornalista Ruy Castro resgatou a história da derrota de Martha na Folha de S. Paulo, 24.setembro.2011. Escreveu, João Martins, com ágil espírito jornalístico, ante a inesperada derrota, e com a responsabilidade de dar cor e emoção ao resultado, como cobrariam os leitores, combinou com os colegas reunidos para a cobertura, e criaram a história das duas-polegadas-a-mais, nunca existente no critério de julgamento do júri. Na realidade a derrota não se deu por razões estéticas, mas meramente de estratégia-política-negocial, pois o concurso, espraiando-se mundialmente, perdia interesse nos EUA, e a conquista pela representante americana poderia reacender o interesse — e patrocínios, e faturamento.

Na vida real do mundo antigomobilista, o esclarecimento servirá como adição ao folclore permeando cada um dos exemplares sobreviventes, mesmo aos desconhecedores de nossa sempre miss ou a razão do nome. E se a Martha, original, hoje com 77 anos, não perdeu pelas duas polegadas a mais, aqui o apelido (sem "h") continua identificativo, válido, verdadeiro: as caminhonetes Chevrolet entre 1955 e 1957 são os mais belos exemplares do segmento até hoje construídos. (E as GMC, idênticas e diferenciadas por detalhes? Não as vejo assim. Diria, com liberdade comparativa, se equivale à diferença entre o barroco alemão e o praticado nas igrejas de Minas Gerais. As nossas são mais bonitas por conterem menos rococós. Como no caso da Marta Rocha, bonita por si só, desnecessários badulaques e penduricalhos do GMC).


GMC Marta Rocha. Mais é menos
RN

27 comentários :

  1. É mesmo linda a danada (camionete), linda demais. Também acho que são as mais belas do segmento. A outra (miss), também devia ser, mas essa, não vi quando de seus áureos tempos. Carro dá para preservar como 0km, mas gente, infelizmente, não: não há Ivo Pitanguy, nem academia de ginástica, nem cosmético, que possa deter uma desgraça chamada tempo.

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    1. Ricardo - Vitória ES25/12/13 14:28

      Uma desgraça particular, do individuo, mas é a graça da vida.

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    2. Eu não vejo graça nenhuma. Aliás um dos temos mais idiotas cunhados pela praga do "politicamente correto", é "melhor idade". Tecnicamente nem estou lá, estou na tal da "meia-idade", mas já topava trocar pela volta da "m*rda" dos meus 20 anos. Ah, se topava! "A vida seria infinitamente mais feliz se nascêssemos com 80 anos, e fossemos lentamente atingindo os 18". Não tenho certeza agora se esta frase é do escritor Samuel Langhorne Clemens (Mark Twain) ou de outro grande pensador, mas assino embaixo e reconheço firma.

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    3. Hipoteticamente, se eu pudesse retornar aos meus dezoito anos mesmo sem ter nada... Nu com a mão no bolso, eu não pensaria duas vezes.

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    4. CCN 1410
      Penso como você, mas só se eu com 18 anos existisse computador, telefone celular e GPS...

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    5. Bob, você tem setenta e qualquer coisinha, não? Então, nos seus 18 meu caro, não tinha computador, celular, GPS, nem um monte de outras traquitanas eletrônicas, mas... tinha MILHARES de barcas norte-americanas dos 50 novinhas em folha de tudo quanto é marca e modelo rodando nas ruas. Só por isso (e digo "só", pois há outras coisas também), eu já abria mão de todos esses brinquedinhos. Invejo profundamente quem viveu sua mocidade nos 50, tenho absoluto fascínio por eles. Você já deve ter ouvido a expressão "saudade daquilo que não viveu". É exatamente o que sinto: uma grande, imensa, gigantesca saudade daqueles anos que não vivi.
      Abraço.

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    6. Mr. Car
      Tenho 71 anos, completados em novembro. Como eu disse, adoraria voltar a 1960, com 18 anos (e não 1950, ainda não tinha noção do mundo com 8 anos), mas para mim é impensável a vida sem os recursos de comunicação atuais. Para você ter idéia, eu já era sócio de concessionária Vemag em 1967 e para falar com a fábrica em São Paulo (lembro do número, 63-1111) tinha que pedir ligação à telefonista da Companhia Telephonica Brasileira, e a demora nunca era inferior a 2 horas. Para falar de São Lourenço, onde a família tinha uma propriedade na qual passávamos as férias grandes, uma ligação para o Rio levava 12 horas! Correspondência, só carta ou telegrama. Para chegar a um lugar desconhecido, só guia de ruas ou mapa. Claro, predominavam os carros americanos, mas desde os anos 1950 havia bastante carros europeus (alemães, franceses, ingleses e italianos). Inclusive, aprendi a dirigir num Citroën 11 L. O problema de hoje é haver gente demais, carros demais, patrulhamento de velocidade grande demais, que tiram todo o prazer de sair por aí. Me lembro de sair da Gávea e ir a Ipanema fazer um lanche no Bob's e parar o carro na porta. Era outra vida.

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    7. Eu também fui fã das barcaças americanas no meu tempo de criança, mas hoje sou adepto dos small cars. Se o nosso país não se preparou para ter carros maiores, agora fica muito dispendioso voltar atrás.

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    8. CCN,aão deixo de gostar dos small cars de hoje, principalmente dos small mesmo, como o primeiro Ka, e o Fiat 500, entre outros. Inclusive, apesar da paixão absoluta por grandalhões, detestaria transitar com um deles, nos grandes centros. E não estou falando nem dos grandalhões dos anos 50, e sim dos grandes de hoje, e muitos nem são tão grandes quanto aqueles.

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    9. Compartilho da mesma linha de pensamento do CCN... eu já estou na neura de achar meu 307 hatch grande demais.

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  2. Traseira "Marta Rocha", frente "Dragmar" estilo "garrafa de coca-cola", que também faz referência a uma mulher (especificamente, Mae West) são todos temas que relacionam os carros às mulheres. Uma pena que, nessa época de politicamente correto, admirar as formas de um belo carro ou de uma bela mulher acabaram por tornar-se atitudes anacrônicas, até mesmo condenáveis em alguns círculos!

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    1. "Dagmar" (e não "Dragmar") é o apelido jocoso com que os norteamericanos se referem aquelas protrusões em forma de obus da grade dianteira, muito características do Cadillac nos anos 50 e 60. Na televisão da década de 50 havia uma atriz com esse nome, cujos peitos avantajados destacavam-se especialmente devido ao tipo de sutiã da época, em formato piramidal.

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    2. Sinceramente, sempre falei errado, então. Que sejam "Dagmars". Agora, lembrei da nossa querida Dolly (a ovelha, não o guaraná), que também tem o nome em homenagem a outra mulher, digamos, voluptuosa. Talvez essa mania não esteja morta, apenas afastada da área do desenho automotivo.

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  3. A década de 50 representa, para mim, a mais criativa, com veículos tão díspares em estilo, mas cada um com sua beleza e personalidade.

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  4. Como autoentusiasta e fanático por picapes antigas, dono de uma Studebaker 1952, a Marta Rocha é simplesmente a mais bonita de todas. Fosse ela a marca que fosse, Chevy, Dodge, Ford, etc.... ela sempre seria a Marta Rocha e sempre a mais bonita.

    Ainda terei uma em minha garagem.

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    1. nicolas,
      foi a studebaker, com o traço do raymond loewy - autor da citada garrafa de coca cola -, a virar a esquina do estilo no pós guerra, tanto com os automóveis quanto com os picapes. Estes studebaker iniciaram os novos conceitos. destes, gosto muito e se souber de algum finalizado no brasil e em situação "bbb", avise. nasser

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    2. Havia uma em Campanha MG, desde zero na mesma familia.

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  5. Matha e bonita, mas ainda acho mais bonita as Ford 55/56 e seus paralamas traseiros abaulados

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  6. Parabens pelo post, linda caminhonete e linda baiana. Aqui aonde moro um abonado industrial possui uma (caminhonete) com motor corvette. Gostaria de pedir um post sobre o GT Tormento, será que ninguém sabe nada sobre esse carro Abraço a todos e Feliz Natal nesse dia abençoado.

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  7. Nasser dá cor e sabor pra qualquer história.

    Quando se trata de um acontecimento por si só interessante, dispensa adjetivos.

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  8. Rafael Ribeiro25/12/13 23:20

    Aqui em Petrópolis, um conhecido dono de oficina, especializada em importados há décadas, está restaurando cuidadosamente uma Marta Rocha, montando-a a partir de um chassi comprado de um dono, e uma cabine comprada de outro. O trabalho é meticuloso, o carro está mais novo do que quando saiu da fábrica, faltando detalhes mínimos de tapeçaria para terminar. Para completar, ela tem aquele tom de verde claro esmeralda, típico dos anos 50, com detalhes em branco. Simplesmente a pick up mais linda que já vi, juntamente com uma "irmã" Cameo que estava no Forte de Copacabana em 2012.

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    1. Rapaz, essa do Forte eu também vi: que coisa mais absolutamente ESPETACULAR!!!
      Para mim, foi "o" carro da exposição, aquele ano.

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    2. Caro Rafael Ribeiro, esta Cameo que estava no encontro de 7 de Setembro, no Forte Copa, era linda. Azul clara e branco, com uma "miniatura" dela na parte interna do painel. Achei-a muito bonita. Não conhecia o modelo e tirei dezenas de fotos dela.


      Abç!

      Leo-RJ

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    3. Fiquei curioso pra saber a reação da Martha Rocha a essa homenagem...

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  9. Velho rabujento26/12/13 15:03

    Se houvesse um kit réplica dessa jóia, certamente o compraria para ir montando aos poucos, alegrando dessa forma muitos fins-de-semana ociosos, que passariam a ser alimentados pela expectativa de ver a camioneta tomando forma e graça, qual criança em crescimento, ficando sabidinha e bem formada, até resultar nessa graça estupenda e voluptuosa, verdadeira Martha Rocha, sem dúvida alguma, a mais bonita entre todas.

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  10. Conheço um cara que tem mais de 30 dessas numa garagem em Minas Gerais...

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  11. Tenho uma marta rocha GMC 1957, acho que os "penduricalhos" dão um charme a mais para esta que já é linda. A minha está em fase final de restauração, vejam:

    http://www.topclassic.com.br/viewtopic.php?f=24&t=24972

    abç

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