CONVERSA DE PISTA


Futuro de Brawn intriga F-1

Após confirmar saída da Mercedes, engenheiro faz suspense sobre seus planos. Eleição da FIA pode resolver enigma.





Ross Brawn deixa a Mercedes no dia 31: seu futuro agita a F-1 (foto Mercedes AMG Petronas)

Nome mais cobiçado do mercado de trabalho da F-1, Ross Brawn foi anunciado nos últimos dias como o mais novo contratado da Ferrari, FIA (Federação Internacional do Automóvel) e Williams. Estrategista de fama consolidada por 17 títulos mundiais conquistados desde 1991, Brown pode-se dar ao luxo de escolher onde e se vai trabalhar em 2014, mas certamente não tem o dom de confirmar todas três previsões. Se a decisão de deixar a equipe Mercedes tem muito a ver com o triunvirato formado por Niki Lauda, Paddy Lowe e Toto Wolff, o seu destino passa, principalmente, pelo que acontecerá nos mares agitados de disputas políticas e comerciais que marcam o atual momento da F-1: a eleição da FIA e os processos que Bernie Ecclestone enfrenta na Inglaterra e na Alemanha.


Lowe (esq) e Wolff (dir) ganham ou perdem sem Brown? (Foto Mercedes AMG Petronas)


Pode parecer estranho ligar o futuro de um engenheiro renomado por sua atuação técnica ao ambiente político da categoria, afinal, poucos engenheiros podem se orgulhar de ter obtido tantos títulos mundiais. Ross James Brawn, engenheiro honoris causa pelas universidades de Brunel e Heriot-Watt, nasceu aos 23 de novembro de 1954 em Ashton-under-Lyne, cidade de 40 mil habitantes na região metropolitana de Manchester, uma das maiores urbanizações da moderna Inglaterra. Nos últimos 22 anos ele venceu o Campeonato Mundial de Carros Esporte (1991, Jaguar), o de Construtores de F-1 (1995, Benetton; 1999 a 2004, Ferrari; 2009, Brown) e esteve ao lado de Michael Schumacher e Jenson Button quando o alemão e o inglês conquistaram o Campeonato Mundial de Pilotos em 1994/95/2000/01/02/03/04 e 2009, respectivamente.

Se poucos conseguiram tantas glórias, mais raros ainda são os que o fizeram sem se se deixar envolver por situações desgastantes ou constrangedoras. Não que elas não existam: em 1994, quando ele era diretor técnico da Benetton, o carro do holandês Jos Verstappen sofreu um incêndio durante o reabastecimento durante o GP da Alemanha e Michael Schumacher foi desclassificado no GP da Bélgica por irregularidades no assoalho do monoposto. Ambos os casos ainda geram debates: no primeiro o sistema de reabastecimento teria sido modificado irregularmente para permitir maior vazão de combustível e, no segundo, o chassi estaria mais baixo que o permitido pelo regulamento. Além disso, a equipe Benetton também foi envolta no uso ilegal de controle de tração, mas nunca o nome de Brown foi destacado nesses episódios.

Hamilton e Rosberg no GP da Malásia deste ano (Foto Mercedes AMG Petronas)

O que sempre se destacou em Ross Brown foi a postura fleugmática com impõe suas decisões. Quem acompanhou o GP da Malásia deste ano certamente se recorda com sua firmeza em manter Nico Rosberg atrás de Lewis Hamilton mesmo após seguidas súplicas do piloto alemão. Em um mundinho onde os egos extrapolam até os mais altos salários — e a F-1 paga salários altíssimos para seus eleitos —, essa tarefa não é fácil. Exatamente por isto vislumbraria aqui um dos seus possíveis destinos: nos últimos dias o atual diretor técnico da Scuderia, Stefano Domenicali, declarou que se for para o bem e felicidade geral da Ferrari ele não teria nenhum problema em renunciar ao posto para facilitar a volta de Ross.

Do mesmo CEP modenense exala outro possível destino: Luca Cordero di Montezemolo, atual presidente da Ferrari e outrora nome indicado para comandar a FIA, cobrou mudanças para o segundo mandato de Jean Todt, o candidato único nas eleições que se realizam no dia 6. As mudanças cobradas por Montezemolo, mais do que políticas, envolvem as áreas técnica e desportiva, algo que pode ser uma tarefa que o francês, que tem fama de mandão, delegar a alguém de extrema confiança. Todt e Brawn trabalharam juntos na última época de ouro da Ferrari na F-1…

A reforçar esta possibilidade Todt segue sendo bombardeado por David Ward, que sem apoio suficiente preferiu abortar sua candidatura na eleição desta semana. Ward cobra mais transparência nos métodos de governança da FIA, particularmente no aspecto financeiro: atualmente a entidade não divulga seus resultados e tampouco os salários pagos aos seus principais dirigentes e funcionários. Posto que Ward é um nome bastante ligado a Max Mosley (que ocupou a presidência da FIA antes de Todt),  nome muito ligado a Bernie Ecclestone, é factível vislumbrar um futuro de intranqüilidade para a FIA.


Bernie Ecclestone (esq) e Jean Todt: vivem semanas movimentadas (Foto Telegraph)

Ecclstone é processado na Inglaterra e na Alemanha por causa de negociações duvidosas envolvendo a comercialização dos direitos da F-1, bem intangível e valioso adquirido da FIA. Embora pessoas que convivam com Ross Brawn admitam que seu espírito empreendedor o afasta de um cargo político, certamente sua capacidade de resolver situações complicadas — lembremos o que ele fez ao dominar a temporada de 2009 com uma equipe que esteve à beira da falência —, pode ser muito útil na situação atual. Ao ocupar-se da principal fonte de renda da FIA ele deixaria Todt livre para cuidar de outras áreas, em particular a campanha da Fórmula E, categoria de carros elétricos que estréia em 2014.

O terceiro empregador de Brawn seria o império de um dos últimos representantes da era moderna da F-1, o espaço de tempo no qual os garagistas ingleses deixaram de ser negociantes de carros de corrida de segunda mão e se transformaram em construtores. Frank Williams é, ao lado de Ecclestone, um dos últimos remanescentes de uma época onde Bruce McLaren, Colin Chapman e Jack Brabham começavam a despontar no então aristocrático clube da categoria. Empreendedor apaixonado pelo esporte, Williams precisa reviver os áureos tempos de sua equipe, que há anos vive à sombra do pódio, exceção feita à vitória de Pastor Maldonado no GP da Espanha de 2012.  

Williams sempre foi um dos maiores negociantes dos paddocks da F-1 e foi por seu intermédio que várias empresas chegaram e se estabeleceram na categoria, notadamente a TAG, hoje uma das acionistas da McLaren. Após o acidente que o deixou tetraplégico, em março de 1986, Frank manteve-se à frente da equipe mas pouco a pouco foi delegando poderes. Quando o sócio Patrick Head decidiu dedicar-se com menor intensidade à F-1, os escolhidos de Frank não conseguiram os resultados esperados e os triunfos passaram a ocorrer com menor intensidade. O perfil de Ross se encaixa como uma luva para levantar a equipe.


Frank e  sua filha Claire podem levar Brawn de volta à Williams (Foto Williams GPE/LAT)

Brawn já trabalhou com Frank Williams em dois períodos: 1976 e de 1978 a 1984, quando deixou a equipe para construir o Beatrice-Lola. Como ambos gostam do automobilismo em sua essência, este elo pode fazer com que Ross se anime a reviver a experiência de ser dono de equipe: sua ida para essa equipe certamente implicaria na compra de ações, provavelmente as que ainda estão nas mãos de Toto Wolff. Em um passado não muito distante, Adrian Newey esteve perto de assumir esta situação mas como Williams não aceitou essa condição, o mago da aerodinâmica foi trabalhar em outras bandas. A dúvida agora é saber de Frank vai repetir o erro caso seja esta a condição para reforçar a equipe onde Felipe Massa vai correr no ano que vem.

WG


A coluna "Conversa de Pista" é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


4 comentários :

  1. Ross Brawn merecer ser cobiçado pelas diversas equipes de Fórmula 1.
    Deixando a patriotada de lado (lembremos que ele era chefe da Ferrari na época de Rubens Barrichelo), bem ou mal atingiu resultados e resgatou um time que não ganhava um campeonato desde 1978. Uma ida para Williams talvez fosse muito mais interessante para a F-1 como esporte, pois tendo as ferramentas certas e prazo coerente para obter os resultados expressivos, tenho certeza que ele faria um bom trabalho.
    Só não entendi porque a Mercedes está abrindo mão desse grande profissional. Qual seria exatamente a divergência entre ele e o trio encabeçado por Nikki Lauda? Porque convenhamos, depois que Lauda se aposentou, não o vi fazendo nenhum grande trabalho. Só o vi cornetar bastante alguns pilotos da categoria.

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    1. Ele saiu da Mercedes basicamente por um motivo: muito cacique pra pouco índio.

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  2. Fábio Vicente,
    você perguntou e respondeu.

    O Niki Lauda é uma das causas. A outra, embora todos neguem é que de repente a tribo alemã passou a ter mais caciques do que índios. Lauda, Toto Wolff, e Paddy Lowe.

    Até hoje Lowe sempre desempenhou, e bem, funções que não o colocavam na frente do box, ou seja, ele não se expunha. Agora vai trabalhar na linha de frente e terá que coordenar uma equipe composta por engenheiros que alguns dizem ter mais experiência e capacidade que ele.

    Em outras palavras, espere notícias interessantes desta equipe. Brawn, que sempre teve poder de decisão quase absoluto ou respondia a apenas uma pessoa, não se sente bem nesse clima e preferiu sair. Hoje circularam notícias que ele poderá tirar férias prolongadas. Eu acredito que a história ainda está longe do fim.
    Abraço,

    Wagner

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    1. Wagner, sei não mas acho que isso tem tudo pra ir pro vinagre.
      Veja, um chefe de equipe com pouco experiência na linha de frente, um "diretor" cuja mentalidade parece não ter evoluído após a década de 70 somado a um terceiro que não se sabe se irá somar ou subtrair na equipe.
      Misture a um piloto temperamental (Hamilton) e um piloto que caminha a passos largos rumo a insatisfação (Roseberg). E tudo isso com um novo regulamento... Tomara que eu esteja errado em minha conclusão. Seria uma pena a Mercedes penar em 2014 por conta de atritos internos.

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