UM PACE CAR NA FAMÍLIA


Meu pai me ensinou muitas coisas na minha vida, e por causa dele apreendi a apreciar várias outras coisas também. Ele sempre dizia que inspiração é tão importante quanto transpiração, na vida é importante fazer tudo muito: trabalhar muito, estudar muito, se divertir muito e descansar muito. Naturalmente, eu não entendia como dava para fazer tudo isso muito ao mesmo tempo até ter começado a estudar engenharia e apreender na prática o conceito de densidade de massa.


"Ah, sim filho: sempre sonhe alto. Você vai ficar surpreso com o que pode conseguir." Se você leu tudo isso e se indentificou até agora, acertou: Sim sou filho de imigrantes e, agora, um imigrante também. A arte de saber tirar leite de pedra é um dos talentos naturais além de obrigação de um bom imigrante.


A aventura do meu pai no Brasil já tinha começado interessante. Chegou ao Rio de Janeiro a bordo de um Lockheed Super Constellation da Panair. O que era interessante é que inicialmente era para ter chegado no vôo da Lufthansa proveniente de Hamburgo, porém ele perdeu o avião que acabou batendo ao se aproximar do Galeão e todas as 36 pessoas a bordo não sobreviveram. Já o aparelho da Panair estava perfeito e chegou sem nenhum problema técnico. Ter chegado ao Rio já foi uma vitória.


O Connie da Panair que trouxe meu pai ao Rio de Janeiro em 1959.

Depois de alguns anos no Brasil, chegou a hora do meu pai comprar seu primeiro carro. Na época ele era gerente de projetos de uma empresa de cabos de telecomunicações. Morava na rua Augusta, nos Jardins (em São Paulo) e saiu de casa em busca do seu primeiro carro tendo um Jeep Willys usado como objetivo porém o que ele trouxe para casa foi algo completamente diferente.


Na loja de carros, onde ele pretendia comprar o Jeep, tinha um enorme conversível ao melhor estilo Elvis Presley parado ao lado. O carro tinha sido trazido ao Brasil por algum diplomata e se tratava de um DeSoto 1956 Fireflite Pacesetter réplica. Nem meu pai sabia ao certo a importância desse carro mas ele sabia três coisas: tinha um V-8, era conversível e ele gostava. O dono da loja foi muito bacana com meu pai. Disse a ele que o DeSoto era mais caro que o Jeep porém ele poderia parcelar o carro.Naturalmente, nos anos 60 no Brasil com a inflação e parcelas fixas, o carro acabou saindo muito barato dessa forma.


Desnecessário dizer que meu pai me contou tudo isso como uma inspiração, mais de uma de suas lições para me ajudar com a minha formação. Passei vários anos pesquisando sobre esse carro, que é praticamente não documentado. Juntei tudo que podia, livros, declarações de colecionadores, pesquisei em leilões, em bibliotecas etc. Pouco é conhecido sobre o pacesetter da Indy 500 de 1956, as informações a seguir eu juntei com os anos e conversando com meu pai e agora vou dividir com vocês.


Em 1956 a DeSoto superou pela primeira vez a Chrysler em vendas e para comemorar um ano que seria mágico eles contruiram uma versão conversível especial do Fireflite para a Indy 500 daquele ano. Doug Dressler, especialista em DeSotos diz que foram construídos pouco mais de 300 Pacesetter réplicas.

O detalhe do relógio na coluna de direção do DeSoto.

Nem a Chrysler tem registro certo disso. Em torno de pouco mais de 30 exemplares ainda existem. Todos os Pacesetters réplicas de 1956 eram conversíveis e todos eram pintados em branco e dourado. Sim, há outros DeSoto Fireflite conversíveis em outras cores porém não eram o carro que foi o Pace Car de Indianápolis, até eram esteticamente ligeiramente diferentes.


O carro do meu pai, como os demais Pacesetters, tinha calotas em forma de turbina, interior em vinil dourado com detalhes metálicos em preto e marron nos bancos. Um volante de direção branco e dourado e costuras de lã dourada nos carpetes pretos. Vinha também com escapamento duplo e uma suspensão mais firme que os Fireflites convencionais. Uma outra coisa bastante peculiar sobre os carros da Chrysler da época como os DeSoto, Plymouth Fury, Chrysler 300B e Dodge era que o câmbio automático não tinha alavanca, no lugar haviam 4 botões do lado esquerdo : R, N, D e L. Nào havia a posicão Park, o câmbio era eletrônico e o freio de estacionamente uma necessidade.


O motor dos réplicas era um V-8 HEMI de 330,4 pol³ (5,4 litros) com 255 cv e o câmbio Powerflite automático de duas velocidades. Porém o carro que andou em Indianápolis tinha um motor do DeSoto Adventurer 341 (ou 5,6 litros) com 320 cv e transmissão do Adventurer também. Foi um carro que trabalhou muito, já que a corrida de 1956 teve 1 hora de bandeira amarela.


O carro foi cronometrado entrando nos boxes a 160 km/h em várias ocasiões. O pacesetter foi guiado por Irving Woolson na corrida. Woolson era o presidente da DeSoto na época. Quando terminou a corrida, como manda a tradição, foi presenteado a Pat Flaherty, o vencedor da prova. Flaherty ganhou a corrida com 22 segundos de vantagem para o segundo colocado, pilotando um Watson Offenhauser Special e também tinha cravado a pole position com a velocidade média de 145,596 milhas por hora (232,953 km/h).


Atualmente, o pacesetter de 1956 é de propriedade da coleção de W.T. Gerard e foi mostrado pela última vez ao publico no evento Ocean Reef Vintage weekend que aconteceu de 3 a 6 de dezembro 2009 em Key Largo, Flórida.


Havia 3 linhas de DeSoto na época: Firedome, Fireflite e Adventurer. Em 1956 a DeSoto produziu os seguintes carros nas respectivas quantidades:


Firedome com motor FIREDOME V-8 de 330,4 pol³ desenvolvendo 230 cv, compressão de 8,5:1 e carburador de corpo duplo.
- 44.909 Sedan de 6 lugares, custo de 2.800 dólares
- 19.136 Seville hardtop 2 portas e 6 lugares, custo de 2.680 dólares.
- 4.030 Seville Hardtop 4 portas e 6 lugares, custo de 2.833 dólares.
- 4.589 Sportsman 2 portas e 6 lugares, custo de 2.783 dólares.
- 1.645 Sportsman 4 portas e 6 lugares, custo de 2.964 dólares.
- 2.950 Station Wagon 4 portas e 6 lugares custando 3.321 dólares.
- 646 Conversível 2 portas e 6 lugares oferecido a 3.032 dólares.

Um Firedome de 1956

Fireflite com motor V-8 de 330,4 pol³ desenvolvendo 255 cv com taxa de compressão de 8,5:1 e 4 carburadores.
- 18.207 Sedan de 6 lugares por 3.029 dólares.
- 7.479 Sportsman 2 portas e 6 lugares por 3.256 dólares.
- 3.350 Sportsman 4 portas e 6 lugares por 3.341 dólares.
- 1.485 Conversíveis (total incluindo os Pace Car) 2 portas e 6 lugares por 3.454 dólares o básico, e 3.565 dólares para o pacesetter réplica.


O Fireflite 1956 conversível convencional que apareceu no filme "La vie à deux", de 1958

Adventurer com motor V-8 de 341,4 pol³ (também usado no pacesetter original) com 320 cv, taxa de compressão de 9,25:1 e 4 carburadores.
- 996 Hardtop coupe (2 portas) e 6 lugares custando 3.678 dólares.

O Adventurer de 1956, que tinha o maior motor.

Obs: Sedan (sempre) 4 portas, Coupe 2 portas, Conversível 2 portas e Hardtop ou Sporstman podiam ter 2 ou 4 portas.
Meu pai sempre me contou algumas estórias do carro durante os anos mas sempre em doses homeopáticas, uma mistura de saudosismo e entusiasmo. Ele é uma pessoa de poucas palavras quando os assuntos são de cunho pessoal.


Carros sempre foram símbolo de status e poder, e claro, como consequência atuam muitas vezes como penas de um pavão. Alguns carros tem uma qualidade que denominamos chick magnet (one aid on getting laid) aqui na América.



A rua Augusta, na época, seria equivalente a um Shopping Center melhor como o Iguatemy em São Paulo hoje em dia. Era um lugar de encontro, desfile, shopping e tinha também alguns apartamentos. Como meu pai morava em um apartamento, muitas vezes estacionava o carro na rua em frente do edifício onde morava. Numa ocasião, saindo de casa viu um sujeito encostado na porta do motorista do DeSoto conversando com uma menina. Meu pai deu 5 minutos para observar o que estava acontecendo e concluiu que o sujeito estava usando o carro para convencer a menina descer a rua e tomar sorvete com ele. Nào teve dúvidas, chegou perto do carro, pediu licença aos dois, passou uma das pernas pela porta, deslizou pelo banco, deu a partida e foi embora frustando todo o trabalho que o sujeito tinha feito até então em convencer a menina a ficar com ele. Coisas dos anos 60.


Depois de adulto achei um modelo diecast do carro do meu pai na escala 1:43 após muito procurar. Fiquei surpreso por o ter achado. Comprei o carrinho e presentei-o ao meu pai. Ele tem até hoje no seu escritório. Uns anos atrás, achei num leilão um catálogo oficial da linha DeSoto de 1956. Estava impecável e tinha sido encontrado no sotão da casa de um senhor na costa leste. Uma time capsule de mais de 50 anos. Comprei o catálogo e ofereci ao meu pai pelo seu aniversário.


O modelo do Pace car de 1956 em 1:43 que dei ao meu pai.
Como tudo na vida, uma hora é chega o momento de virar a página. Meu pai precisava de um veículo mais prático, mais de acordo com as condições viárias brasileiras da época e que o permitisse ir livremente aos lugares sem se preocupar com o tamanho ou peso do carro. Vendeu o carro para um gerente do Banco do Brasil por uma quantia equivalente a dois Karmann-Ghia na época. Claro, ele pegou um que era vermelho e tinha o teto branco. Um pouco de preparação, pneus melhores, trabalho na suspensão deixaram o carrinho ao gosto. Com o Karmann-Ghia meu pai conheceu minha mãe e assim estou agora aqui escrevendo sobre tudo isso.


Um Karmann-Ghia vermelho com teto branco como o do meu pai
Quando tinha por volta de dois anos, já sem seu Karmann-Ghia fazia tempo, meu pai aparece em casa com livro de todos os carros americanos para 1974. Bem novinho, vendo e revendo cada carro com atenção me deparei com uma página sobre o Corvette e uma foto de um coupe split bumper (que só teve em 1974). Perguntei ao meu pai que carro era aquele. Pronto, começou ali o gosto pelo Corvette. Determinei, baseado nos ensinamentos do meu pai, que um dia teria um Corvette. Vários anos depois, veio inesperadamente a oportunidade de ter um, presente da minha esposa. Depois vieram mais 3. Talvez tenha apreendido a lição, em especial a parte de "sempre sonhe alto".

Em 2005 no evento da NCRS e o C4 1992
Ah, sim. E que fim deu no Pacesetter de 1956? Quando meu pai vendeu o carro para o gerente do Banco do Brasil, logo no dia seguinte, o sujeito perdeu o controle e enfiou o DeSoto debaixo de um viaduto em São Paulo. A companhia de seguro deu perda total no carro. Pelo o que eu sei, a frente do carro ficou completamente destruída. Não sabemos o que fizeram com os restos do carro: se foram sucateados ou se estão em algum lugar comprado por alguém. Mas o que posso concluir é que o DeSoto Fireflite 1956 Pace car réplica do meu pai é definitivamente mais um unicórnio da história do automóvel no Brasil.
Imagens em vídeo do Pace car da Indy 500 de 1956

video

13 comentários :

  1. Carlos, obrigado por esse belissimo post. Ele mescla, de maneira muito autoral e com todo o clima da época, a história de vida de duas gerações com as histórias de um modelo incomum nos EUA e mais ainda no Brasil. Parabéns a você, e também ao seu pai!

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  2. Absolutamente maravilhoso, o De Soto. estou babando aos litros!

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  3. Sr.Corvette esse texto seu é simplesmente maravilhoso! Todo dia acesso o blog esperando ler algo seu sobre Corvettes e sempre me surpreendo.

    Essa história é belíssima. Gosto do seu estilo de falar de automóveis mas colocar a parte humana.

    Bonito ler o seu amor pelo seu pai. Você é inspirador.

    Gostaria de agradecer ao Autoentusiastas pela equipe, pelos textos e pelo Sr.Corvette.

    Mandou muito com essa bela história. Desoto deve ser um belíssimo automóvel de uma época que não volta mais.

    Seu pai é um grande professor, sucesso é algo que se passa de pai para filho realmente.

    Sandro.

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  4. Mister Fórmula Finesse12/01/10 14:39

    Excelente post, bela história familiar também...me deu até saudades do único carro genuinamente americano que eu tive na década passada. Lindo o Corvette!

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  5. ótimo texto!
    e parabéns pelo vette.

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  6. Obrigado a todos. Graças a um heads-up que recebi de um colega aqui do Blog, o CZ, corrigi a informação da chegada ao Brasil. Liguei para meu Pai e ele me deu o relato correto e depois, com dados que recebi de um amigo, deu para esclarecer o que faltava. Então está corrigido os dados sobre o vôo e aparelho usado bem como o que aconteceu na época.

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  7. Ola Carlos

    tudo bem

    Parabens pelo seu post. Muito bom !

    Sou do De Gennaro Motors (www.degennaromotors.blogspot.com)

    Estou voltando das ferias agora.

    Forte abraço, Fernando

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  8. CF, Tu é um poeta cara! Viu porque te chamei de Mr. Corvette? Muito merecido! Sensacional o post!

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  9. Jonas Torres12/01/10 23:02

    Estes carros com caixa automática com comando por botões deveriam ter permanecido nos carros de luxo ou sem pretensão esportiva.

    Esta é uma prova de que o consumidor não está sempre certo, e chegamos ao ponto de "borboletas" no volante nestes tipos de carros... Meu Deus!!

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  10. Engraçado que eu ia perdir justamente para o AE fazer alguns posts com conteúdo puramente histórico.

    Parabéns Scheidecker! Mande mais detalhes da história automotiva do seu pai.

    Falando nisso, voce poderia também fazer um post da sua própria história, isto é, o que fez no .br, como foi sua mudança para os USA e como começou a vida aí?

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  11. CMF, esse Powerflite tem comando de botões pro cabos até a caixa.Elétrico era o do volante do EDSEL, que não funcionava.
    os carburadores eram de quatro bocas, duas de baixa e duas de alta.
    Mas o texto transpira emoção, e é muito bom, mesmo com estas tecnicalidades insignificantes

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  12. Olá.... adorei a historia, sou pirado nessa marca... show de bola!!! parabnes

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  13. Meu filho!
    Parabens,voce escreve muito bem.Se quem nao viveu isso se emocionou,imagina como me senti ao ler tudo isso e relembrar esses momentos.Confirmei tudo com a sua mae e nos sentimos felizes por toda essa historia.
    Meu muito obrigado,seu pai e grande amigo.

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