LAMBORGHINI ISLERO, O GT ESQUECIDO


Roger Moore vivendo Harold Pelham ao volante de seu Islero S 1969
Quando era adolescente, uma de minhas diversões (além de colecionar livros de carros, dirigir tudo que pudesse colocar minhas mãos e andar de moto) era assistir filmes que envolvessem algum automóvel exótico ou alguma máquina extrema que excedesse o aceitável em performance ou que explodisse majestosamente.
Na época (década de 80), a grande maioria dos filmes disponíveis nas poucas locadoras que existiam eram cópias piratas (devidamente apresentadas com o logo da locadora) e em uma visita à uma locadora, por falta de opção, escolhi um filme do Roger Moore (pré-007) de 1971 chamado “The man who haunted himself”.Traduzindo seria, o Homem que assombrava a si mesmo. Bem, não havia o título em português e o filme nem legendado era: perfeito! Eu mal sabia que iria ser apresentado para um dos Grand Tourers mais bonitos que vi até hoje: O Lamborghini Islero. No filme, Moore dirige um belo exemplar na cor prata e interior cinza claro, versão exportação inglesa com volante de direção ao lado direito. As cenas do filme me deixaram com água na boca, apesar da parte em que ele brinca de chicken em cima de uma ponte ter seus defeitos. O Islero é um perfeito exemplo da filosofia : Menos é mais.

Traseira do Islero S de Moore. Notem os faróis Alfa Romeo e os slots do S nos para-lamas dianteiros.
Ferruccio Lamborghini era um magnata industrial, apaixonado por mecânica, rebelde, sangue quente e italiano. Precisa dizer mais? Começou a fabricar tratores e equipamentos agrícolas em 1948, época do Plano Marshal (uma iniciativa americana de ajudar a Europa Industrial pós-guerra). Uma curiosidade, dos fabricantes italianos a única empresa que nao recebeu nenhum auxílio americano foi a Lancia. Qual o motivo? Bem, Vicenzo Lancia era um sujeito de ideias socialistas e, por ser também italiano e ter sangue quente, acabou metendo bala no próprio pé, aborrecendo os americanos que não lhe deram nenhum tostão. Mas isso é motivo para outro texto.

Ferrari 1958 250GT Lusso desenhada por Pininfarina e de propriedade de Ferruccio Lamborghini.
Voltando ao Ferruccio, esse adorava carros e possuia um belíssimo Ferrari 250GT Lusso 1958 desenhado por Pininfarina. Porém, seu 250GT tinha problemas crônicos de embreagem, algo não muito difícil de consertar mas que enfureceu Ferruccio, que disse a Enzo Ferrari que seus carros eram barulhentos (já que quase não tinham acabamento interno, como um carro de corrida), ruins e inpróprios para se dirigir nas ruas. Essa briga resultou nos clássicos GTs e super-carros que Lamborghini iria construir. Já pensaram se o Ferrari de Ferruccio tivesse uma embreagem perfeita ou revestimento para diminuir ruídos? O mundo nunca teria o Islero ou o Miura, Countach, Diablo, Murciélago, para citar alguns. O raciocínio de Ferruccio era: Se Ferrari não pode construir um carro para o meu gosto, construo eu então.

Protótipo do primeiro Lamborghini: O 350GTV.
Mas retomando o assunto Islero: Lamborghini estava querendo fazer um sucessor para o 400GT que assim, como o 350GTV, tinha um design de gosto duvidoso.Em particular, o 400GT parecia um Morgan que foi tratado à base de esteróides. Apesar disso, o interior dos 350GT e 400GT eram muito superiores ao dos Ferrari. Ao mesmo tempo, queria que o novo carro fosse um carro usável no dia a dia e também fosse o entry level, ou seja o carro mais acessível da marca. Tanto o 350GT quanto o 400GT de Lamborghini não impolgaram muito com seu desenho duvidoso e viraram gozação por parte de Enzo. Ainda Ferruccio queria aproveitar o que de bom o 400GT tinha, praticamente alterando seu design e fazendo alguns melhoramentos técnicos. Era uma boa época para Lamborghini, dois anos antes com o lançamento do Miura, os pedidos não paravam de chegar de todo o tipo de playboy, novo rico, artista ou celebridades como Dean Martin e Frank Sinatra querendo um Miura.

O Islero 400GT série 1. Notem as diferenças na carroceira para o Islero S de Moore.
Para desenhar e construir chassis e carroceria do novo carro, Carrozzeria Touring seria a escolha natural, já que tinham trabalhado no primeiro Lamborghini, o 350GTV (protótipo) 350GT (carro de série) e 400GT versão melhorada. Porém, devido à falência da empresa, Ferruccio empregou Carrozzeria Marazzi que era uma nova empresa fundada por Mario Marazzi, um antigo funcionário da Touring. Marazzi deu um desenho moderno, simples e ,ao mesmo tempo, agressivo ao novo carro: fez escola.

O painel e interior puro do Islero série 1
Os carros eram entregues, chassis mais carroceria pintada, por Marazzi para as instalações da Lamborghini em Sant’Agata Bolognese. Lá, eram instalados motor, câmbio, suspensão, interior, parte elétrica etc. Com o objetivo de economizar recursos, o novo carro seria basicamente uma nova interpretação do 400GT com nova carroceria mais atraente porém com maior largura para acomodar pneus maiores e mais modernos.

Painel do Islero S, maior e com botões como no E-Type III series.
Dentro da tradição Lamborghini (iniciada com o Miura e o Espada) um feroz touro iria batizar o carro. O nome escolhido foi Islero, um touro feroz e mortífero. Islero foi o touro que matou o Jim Clark de todos os matadores: Manuel Rodriguez em 1947. O interessante era a raça do Islero: um Miura. Manolete, como Rodriguez era chamado, criou uma nova técnica de tourada. Basicamente, ficava parado e enganava o touro que passava a centímetros do seu corpo por quatro ou cinco vezes sem se mexer do lugar utlizando um pano vermelho para enganar o bicho. Porém, Islero era mais esperto e aprendeu já na segunda passada onde direcionar seu chifre. A pancada foi tão forte que Manolete morreu imediatamente com uma chifrada fatal. Manolete é retratado no cinema pelo ganhador do Oscar, Adrien Brody no filme de 2007 de Menno Meyjes.

Motor do Islero S. O V-12 que equipava Miura e Espada.
Para o Islero, Marazzi deu uma frente em cunha, com faróis escamoteáveis como no protótipo 350GTV, pequenos para-choques cromados, e uma área envridaçada enorme com pequena colunas A, algo impensável para os padrões atuais de segurança mas de extrema elegância e perfeitas proporções. Por ser o automóvel entry level da marca, alguns itens seriam aproveitados de automóveis de série com o objetivo de economizar custos. Para os mais atentos fãs da Alfa Romeo, as lanternas traseiras, elegantemente posicionadas abaixo dos pequenos para-choques, eram lanternas Alfa montadas ao contrário. O trinco das portas também foram emprestados da Fiat. No interior, um volante de madeira de bom gosto foi empregado, a alavanca do freio de estacionamento era posicionada embaixo do banco do lado do túnel da transmissão sendo à direita para carros com direção à esquerda e à esquerda para os carros direcionados ao mercado inglês. Claro, couro de alta qualidade em todo lugar possível e uma ergonomia bem funcional, apesar da simplicidade do interior que, talvez por isso mesmo, tenha contribuido para torná-lo tão elegante e prazeroso aos olhos. Claro, o interior era muito confortável e espaçoso e por isso o Islero se tornou o carro preferido de uso de Ferruccio além do seu preferido.

Foram feitas duas versões do Islero, a 400GT, que foi de 1968 a 1969, e a 400GTS (também conhecido como Islero S) que somente foi produzida em 1969 em pouquíssimos 100 exemplares. No total, foram produzidos 225 carros entre Islero e Islero S. A primeira vez que o Islero foi apresentado ao público foi durante o Salão de Genebra em 1968. O carro foi mostrado discretamente entre o Miura e o Espada, o último que seria um best seller com quase seis vezes mais vendas que o Islero. A casa Lamborghini estava sendo representada por três carros no salão: o Miura (primeiro supercarro do mundo), o Espada, que era o seu flagship GT e o Islero seu entry level GT.
A pureza do Islero 400GT.
Em termos mecânicos, o Islero não fazia feio. Vinha equipado com um V-12 de 3.929 cm³ (mesmo bloco do Miura e Espada), daí o nome 400, com câmbio todo sincronizado de 5 marchas, como no Miura. O carro era montado em cima de um chassis de aço com panéis de alumínio rebitados para compôr a carroceria. Aliás, o único problema do carro era justamente com o alinhamento dos painéis, que hoje é uma das grandes dores de cabeça também dos colecionadores. Não é incomum ver painéis desalinhados dos Isleros em fotos atuais. Porém, uma grande coisa para o carro foram os esforços de dimunir os ruídos internos do feroz V-12 que tornaram o carro um Grand Tourer bem mais confortável e amigável que o Espada ou o seu predecessor 400GT do qual emprestava o chassis com pequenas modificações.

A performance do Islero também não fazia feio. O carro pesava apenas 1.315 kg a seco e tinha 325 cv de potência para a primeira série, sendo aumentado para 350 cv na GTS. O Islero fazia 260 km/h fácil e tinha uma vantagem com relação ao Miura: não tinha a tendência de levantar a frente como o Miura fazia em alta velocidade. O proprietário de um Islero tinha um ótimo GT e também um carro de alta performance totalmente previsível a um custo bem inferior comparado ao do Miura.

Na minha opinião, o Islero 400GT tem a carroceria mais pura e bonita. É facil diferenciar um Islero de primeira geração para o Islero S. No S há um slot de ar nos para-lamas, uma entrada de ar discreta atrás da janela traseira, a abertura de ar do motor abaixo do para-choque é maior, os arcos das rodas são mais arqueados em relação ao 400GT, há vidros mais escuros e também desembaçador traseiro que nao existia na série 1. Em termos de interior, a posição dos mostradores foi rearranjada, um aplique de madeira foi usado no painel (que era maior) e os botões do painel foram mordenizados e eram semelhantes ao Jaguar E-Type series III. Além disso, o Islero S foi beneficiado de uma suspensão traseira melhorada baseada no Espada. O carro de Moore era um Islero S, o que é fácil de perceber pelo abertura lateral nos para-lamas. O interessante é que era um carro 1969 num filme de 1971 e mesmo assim poucas pessoas sabiam que carro era aquele, cujo papel coadjuvante foi muito significante, para a personalidade dark de Harold Pelham vivida por Moore com autoridade.

Hoje é possível comprar um Islero entre $ 60.000 a $ 180.000 dependendo do carro e condição (graças aos colecionadores). Existe muita desinformação com relação aos anos em que os Isleros foram produzidos. No que se diz respeito a Carrozeria Marazzi, os últimos chassis do 400GT foram entregues à Sant’Agata em 1968, sendo que os Islero S teriam sido entregues antes de novembro de 1969. Porém devido à natureza artesanal da Lamborghini, a demanda pelo Miura e, em especial, pelo Espada, o último Islero saiu da fábrica em 8 de janeiro de 1970. Porém em 1970 já estavam em rigor algumas leis anti-emissões e de segurança (que o Islero não passaria) e alguns de seus proprietários deram um jeito de registrar os últimos carros como sendo de 1969. Isso tornou a vida de alguns colecionadores e estudiosos da marca difícil.

Os últimos Islero S foam vendidos em 1970 por 10.000 dólares americanos o que, feita a devida conversão inflacionária em 40 anos, seria o equivamente a mais de 150.000 dólares hoje. Para a época, muito caro. Como comparação, um Jaguar E-Type custava 7.000 dólares. O Islero morreu não por ser um carro ruim, mas por ter sido desprezado em relação ao Miura e ao Espada (que vendeu 1.200 exemplares de 1968 a 1978 e era o GT mais luxuoso da marca). A maioria dos clientes Lamborghini não entendeu que o Islero captava a essência de carro GT perfeito que Ferruccio tanto perseguiu no 350GT e 400GT sem êxito.

A Lamborghini criou outros modelos entry level com o passar dos anos, mas nenhum modelo sequer foi tão harmonioso em termos de design e funcionalidade prática como o Islero foi. A citar, Jarama, o Urraco (concorrente do Dino) e o Jalpa (que aparece no filme Rocky III dirigido por Sylvester Stallone). Em geral, carros com participações importantes em filmes se tornam imortais, mas o Islero talvez seja exceção à regra. Talvez dentro de poucos anos receba o devido reconhecimento que merece, já que agora o filme de Moore, que era considerado ruim, tem uma diferente percepção, sendo elevado à categoria cult. Para quem não assistiu “The man who haunted himself”, fica a dica. Com certeza uma das melhores performances de Roger Moore como ator e, sem dúvida,o Islero é uma das melhores obras de arte da Lamborghini.


Vídeo da fábrica de Sant'Agata em 1968


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Cenas do filme "The man who haunted himself" com Moore e o Islero.


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Nota: Esse texto foi concluído em 14 de dezembro de 2009. Devido às festas de final de ano e vários compromissos não foi possível postar antes.

6 comentários :

  1. Esse conhecia só de nome.
    OS GT's anteriores ao Islero eu não vejo graça alguma, assim como váeios GT's italianos dessa época pra trás.

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  2. Interessante o video de epoca na fabrica da Lamborghini...
    Parabens pela reportagem
    Guto

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  3. Islero, o segundo Lamborghini mais belo, depois do Miura, claro.

    Não vi o filme, mas me parece que o Manolete foi levado a um hospital, e tem uma história que ele teria morrido em razão de uma transfusão sanguínea feita com o sangue errado, de tipagem diferente.

    McQueen

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  4. Francisco Neto05/01/10 17:19

    Islero. Mais um pra aumentar minha paixão pela Lamborghini.

    Belo post!

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  5. Os Islero são simplesmente maravilhosos, com um desenho de carroceria muito bem resolvido. Fora a visão dos seis carburadores duplos ao se abrir o capô... São o máximo!

    Vou ver se encontro o filme para assistir. Pelo trecho do filme postado no blog, dá para ver e ouvir o Islero em detalhes.

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  6. Realmente quando falam de Lambo só lembra de Miura, Countach e Diablo. Esquecem dos modelos pré-Miura e carros de segunda linha como a Jalpa.

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