CARTA NA MANGA


Tive um Uno 1.6R 1991, comprado em 1993, que me deixou boas lembranças. Em 1989, se não me falha a memória, faltou álcool nos postos de abastecimento, e a partir daí o abastecimento com esse combustível começou a ser olhado com desconfiança, mudando de uma hora para outra o mix de produção de nossa indústria. Acho que até o episódio, uns 90% dos carros nacionais 0-km eram movidos a álcool, dois anos depois a coisa se inverteu, com o carro movido a álcool praticamente morrendo. Só me lembro de ter faltado álcool essa vez, mas nunca mais o carro a álcool atingiu volumes significativos. Uma pena, pois agora nos empurram goela abaixo os carros flex e nenhum aproveita para valer as vantagens do combustível de cana.

Só que o tal Unozinho, apesar de 1991, era a álcool. Quando vi ele entrando num concessionário Fiat, dado como troca por um 0-km, fui logo querer saber dele. Era meu número. Branco, a álcool, já com o sistema de ar-condicionado Denso, muito melhor do que o usado anteriormente. Me virei em grana e fechei negócio naquela tarde mesmo. Esse carrinho foi meu companheiro de lenhas memoráveis, ainda mais porque na irracionalidade dos meus 23 anos, me achava quase invencível com ele.

Nessa época tive uma namorada em Minas, e por conta disso, quase todos meus fins de semana eram a bordo do carrinho, na ótima BR-040, trecho entre Petrópolis (RJ) e Juiz de Fora (MG). Numa dessas viagens, próximo a Areal, aparece outro Uno 1.6R, já com faróis mais largos e baixos, e ainda com piscas nos para-lamas dianteiros, provavelmente do mesmo ano que o meu. Era vermelho o oponente, e na mesma hora aumentamos o ritmo. Começamos a andar forte, forte mesmo. Aí reparei que a coisa não estava tão parelha como poderíamos supor. Passei a deixar o "companheiro de armas" emparelhar antes de acelerarmos com vontade e era nítido como, a partir de um certo ponto, o branquinho começava a abrir. Fiz isso pelo menos uma meia dúzia de vezes, para desespero do dono do Uno vermelho. O mais legal é que eram carros aparentemente idênticos, não se tratava de nenhum veneno radical, pois se assim fosse, a despachada seria imediata. Credito essa diferença, sem ter certeza, ao fato do meu carro ser a álcool e o dele, a gasolina. E teve todo o gostinho de carta na manga, porque meu carro era absolutamente original, mas na hora da verdade, os cavalinhos a mais escondidos na ficha técnica provaram fazer a diferença.

12 comentários :

  1. Jonas Torres22/12/09 14:02

    ... e hoje a maioria da frota brasileira usando álcool sem ganhar nada ou muito pouco em desempenho perante a gasolina. Realmente é o fim da picada essa onda flex.

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  2. Mister Fórmula Finesse22/12/09 14:28

    E pode ter certeza que essa diferença está no tipo de combustível Alexandre. Tenho dois amigos que em meados dos anos 90 tinha cada um deles um Uno da variante esportiva R. O modelo mais velho, Uno 1,5 R 1991 à álcool era nitidamente mais esperto lá no final da escala do contagiros, era um pouco mais áspero, mais barulhento mas tinha uma personalidade mais irriquieta ajudado por uma caixa de marchas um pouco menos civilizada nos engates rápidos principalmente em terceira...

    O outro uno, era um belo modelo vinho à gasolina 1994 1.6 R. Um acabamento de primeira dentro, painel multi colorido e mais cuidado na espuma e nos tecidos escolhidos dentro do carro...todo ele era mais silencioso, mais filtrado em relação ao ambiente exterior, melhor acabado e com uma caixa de marchas que era um deleite nas passagens rápidas ou comportadas, um mini hatch de luxo na época apesar da vestimenta vermelha.

    Um carrinho gostoso em suma mas um tanto apático em toda a gama de rotações, tanto que com meu Tempra Ouro 1991 da época - carro que apesar de veloz com bastante espaço disponível era moroso nas retomadas e arrancadas - era possível com extra dedicação arrancar e se manter com pequena diferença na frente do pequeno esportivo, isso apenas mudava quando um amigo menos piedoso com o carro alheio (Uno)tomava a direção e invertia a situação como era de se esperar.

    O Uno 1.6 R a gasolina enfim perdeu um tanto da sua esportividade com a gasolina apesar de ainda fazer valer a sua aerodinâmica para enfrentar carros mais potentes, mas o mesmo aconteceu com o Gol Gts da mesma época e com os demais esportivos que andavam bem com álcool, o próprio gts a gasolina virou presa fácil para saveiro 1.8 e até para alguns gols gl com o motor ap1800 a gasolina que pareciam representar aqueles 5% da produção otimizada...realmente nessa época, muitos valores passaram a ser relativizados de outro modo apenas pelo advento - ou a volta - da gasolina, isso e é claro, também com a adoção dos famosos catalisadores.

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  3. AC
    Em verdade, o matou o carro a álcool foram dois fatores. Um, o preço internacional do petróleo despencando logo em seguida à Guerra do Golfo, em 1991. Outro, a chegada dos carros 1000, começando como Uno Mille em setembro de 1990 e o Gol 1000 em março de 1992, seguidos do resto. As "montadouras" não quiseram produzir carro 1-litro a álcool. Dados da Anfavea mostram que em 1989 foram licenciados 346.000 carros a álcool, que caiu para 70.000 em 1990. Mas em 1991 já eram 130.000, em 1992, 165.000 e em 1993, 227.000. Isso mostra que a confiança no álcool não foi abalada. Mas a partir daí caindo, pelos motivos apontados, atingindo 924 unidades (isso mesmo, menos de 1.000) em 1997. A recuparação do álcool começou ainda em 1999, com 10.000 carros, chegou a 47.000 em 2002. quando em 2003 chega o flex. A partir daí foram produzidos cada vez menos carros a álcool e a gasolina, passando ao flex. Hoje apenas 8% dos carros licenciados são a gasolina, contra 87% de flex e 5% a diesel.

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  4. Eu tive um Uno 1.5R 1989 preto Alcool e a/c quando voltei ao Brasil. Adorei esse carro, era rapido e confiavel. Fiquei com ele ate 1995 quando sai do Brasil denovo.

    Ate hoje sinto falta do carrinho. O acabamento interno era otimo e o motor era forte. Todo original, a unica reclamacao que tinha era uma borracha que ficava em volta dos farois de milha que estragou e custava carissimo para trocar.

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  5. Olha só que interessante. Vou extrair os dados de um Ford Verona 1.8 GLX 91:

    Potência efetiva bruta máxima:
    gasolina 92CV@5600rpm
    álcool 105CV@5600rpm

    Momento de força efetivo bruto máximo:
    gasolina 16,1kgfm@2800rpm
    álcool 17,0kgfm@2800rpm

    Avanço inicial do motor - APMS:
    gasolina 15 graus @ 1000rpm
    álcool 9 graus @ 1000rpm

    Poxa, são 5,6% a mais de torque e 14% a mais de potência!!! Claramente não é pouca coisa.

    Existem outros motores nos quais praticamente não existe diferenças de torque e potência entre as versões a álcool e a gasolina. Por exemplo, eu posso extrair os dados de um Ford Verona 1.6 LX 91. O que acontece é que o modelo a álcool usa um carburador com venturis menores. MAS PRA QUE??? O motor que podia render mais é mais estrangulado de fábrica. Que coisa tosca!

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  6. Bussoranga, há uma explicação pra essa diferença.

    Veja o meu caso.
    Eu tenho uma perua Ipanema 2.0 á álcool original de fábrica.
    Pelo manual dela, os Kadett/Ipanema com motor 1.8/2.0 gasolina e álcool e 2.0 gasolina usavam avanço de ponto de 10 graus APMS. Mas a minha, com motor à álcool, tinha avanço de apenas 7 graus APMS.

    Como o álcool tem poder antidetonante maior que a gasolina, não há razão para o menor avanço no motor à álcool. Uso o avanço em 10 graus há vários anos e o motor não tem o menor sinal de detonação.

    Então , porque os 7 graus?

    Na época, entre os Kadett, apenas o modelo GSi saia de fábrica com motor de 2 litros, com injeção multiponto, mas analógica.
    A perua Ipanema recebeu o motor de 2 litros como concessão para o maior peso e pelo fato de naturalmente carregar mais carga queo modelo hatch. Mas ela veio com a mesma injeção monoponto digital que equipava o Monza.
    Porém, ela não poderia apresentar um desempenho compatível com o do esportivo de luxo da linha, sob pena de criar um concorrente mais barato dentro da própria linha. Como os equipamentos eram padrão, foi indicado um menor avanço de ignição e um câmbio longo.

    O avanço de ponto é fácil de de corrigir, já que a injeção EFI usa um distribuidor com avanço ajustável. O câmbio mais longo beneficia o uso do carro na estrada.
    O GSi, por sua vez, usa câmbio de relação muito curta para manter o comportamento esportivo.

    Lado a lado, o GSi acelera na frente até 120 km/h, quando "acaba" o motor, enquanto a perua está apenas começando a usar a última marcha. Com o avanço certo, a diferença entre ambos fica bem pequena.

    O caso do Kadett/Ipanema não é isolado.
    Aconteceu o mesmo antes, quando a Ford lançou o Corcel GT com motor XP de 1,4 litros, e usou o mesmo motor na Belina.
    Pelo que me lembro, a diferença de motores estava no carburador, algo muito simples de se resolver numa visita à concessionária.

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  7. Hoje com os flex dá para "brincar" de sentir a diferença com E100, E025 e suas misturas.

    Meu Kazinho mil bem taxadinho 12.8:1 perde bastante na gasolina, mesmo na podium. Ao ponto se conseguir subir ladeiras leves em terceira com E100 e segunda chorando com Podium E025.

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  8. Leonardo,

    me parece que os RoCam são praticamente motores feitos para E100 que aceitam andar com gasolina. É uma saída nesses tempos 'flexíveis', acerta o carro para o combustível X, permitindo andar também com o Y, mas com perda de rendimento.

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  9. meu primeiro carro foi um 1.5R 88/89 preto alcool, é realmente um carro apaixonande... até seus defeitos são amorosos (é praticamente um hobby). Apesar de sempre pocurar por carros maiores com mais potência só vendi ele pra comprar meu segundo carro um 1.6Rmpi 94 com câmbio italiano painel modelo novo e os mesmos acabamentos do uno turmo, é nitida a diferença entre os 87cv do 1.5R carburado contra os 92cv do 1.6 injetado.

    Adoro desfilar com ele encerado, mas quando esta sujo eu gosto mesmo de deixar carros 2.0 pra tráz no semáforo hohoho!

    é impresionante como as pessoas não dão o devido valor a esses carros que marcaram épocas e até mesmo suas juventudes, fico desepicionado que o povo só dá valor ao gol gti, e ficam largados ao tempo xr3 / gts / R / gt / formula / ss / entre tantos outros que daqui uns anos quem tiver um desses não vai vender ou se vender vai pedir o preço de um carro 0km sem personalidade!

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  10. Háaaa, Belos carros!!!

    Sou possuidor de um 1.6R 1990, a gasolina. Sou obrigado a discordar, por mais incrível que possa parecer, mas eu acho que o motor Sevel, rende mais na gasolina do que no álcool.

    Lá no Clube do Uno Brasil (sou seu Administrador/Criador) temos vários modelos R, e os a gasolina sempre apresentam um desempenho mais linear.

    Sim, o carro é apaixonante, tenho o meu a quase 6 anos e não vendo, não troco, não dou.

    Para quem quiser dar uma espiada, segue um vídeo ele, com participações em pista : http://vimeo.com/5021967?pg=transcoded_embed&sec=5021967

    Forte Abraço!!!

    Digo Garcia
    Administrador -ClubedoUnoBrasil.com.br

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  11. Ponto inicial de ignição é bem variável,num mesmo motor podemos ter 9,12,15 graus de ponto (peguem uma tabela completa do AP 1.8 E100), o que define isso é a curva de avanço e taxa de compressão/comando/carburação/se tem ou não KAT , mas a grosso modo um e100 trabalha com avanço máximo entre 28 e 32 graus e um gasolina 36 a 39 graus.......Qto aos dufusores menores,os alcoolatras trabalham com misturas mais ricas ,precisam de mais arraste da mistura,é claro que se redimensionar vc melhora a alta,mas os níveis de consumos ficariam inviáveis para transito urbano e para os Não Entusiastas,heheheh....

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