POR MUITO POUCO

Aproveitando o gancho do post do Alexandre Cruvinel "Quase Morri!", e estando a cidade serrana fluminense Teresópolis vivendo um drama que ainda não foi de todo aquilatado, dadas sua gravidade e extensão, num cenário típico de bombardeio aéreo, gostaria de compartilhar com os leitores uma experiência que vivi quando tinha apenas nove anos, juntamente com meu irmão Rony, de 11 e nosso primo Billy, de 14. Por muito pouco não morremos os três.

A cena da foto acima é um deslizamento de morro em Teresópolis. Foi no verão de 1952 e se vê que atingiu a estação ferroviária do centro da cidade, a Várzea. Eis a história toda.

Teresópolis passou a município em 6 de junho de 1891,  por decreto do governo do Estado do Rio de Janeiro. Anos depois, no dia 7 de setembro de 1908, foi inaugurado o trecho ferroviário da Serra dos Órgãos, chegando ao Alto de Teresópolis. Mas para entender melhor é preciso retroceder no tempo. 

A primeira parte do ramal começou a operar em 1896 e funcionava  a partir do Cais da Piedade, nos fundos da Baía da Guanabara, que era alcançado pelas barcas que saíam do Cais Pharoux (hoje parte da Praça 15 de Novembro), no Rio de Janeiro, e dali a linha seguia até distrito de Guapimirim, passando pelo centro de Magé. Os vagões de madeira eram tracionados por locomotiva a vapor.

Até 1901, a estação de Guapimirim foi final de linha, quando se iniciaram obras na Serra dos Órgãos, a subida até Teresópolis. A expansão foi gradativa e, como vimos, em 1908 a linha férrea chegou ao Alto.

Para a íngreme subida eram utlizadas locomotivas especiais Baldwin, americanas, dotadas de pinhão no eixo  de tração que se engrenava com uma cremalheira entre os trilhos, sistema chamado Riggenbach.

A locomotiva Badwin, própria para montanha
O sistema Riggenbach de tração por pinhão e cremalheira

Note como a locomotiva, no plano, era inclinada para frente, para na subida ficar aproximadamente horizontal, para melhor funcionamento da caldeira. As rodas acionadas por cada motor a vapor transmitiam  torque para o pinhão. Ao atingir o topo da serra, numa ponto chamado Soberbo, onde havia  um pátio de manobras, essa locomotiva era trocada por uma convencional e dali a composição chegava à estação do Alto de Teresópolis.

Passando sobre a cascata Sloper vindo do Alto rumo ao Soberbo (foto: autor)
Em 1919 a Estrada de Ferro Teresópolis foi encampada pela Central do Brasil, as partidas passaram a sair da Estação Barão de Mauá (antiga estação da Leopoldina Railway) e o ramal foi estendido até o centro da cidade, a Várzea, onde em 1929 foi concluída a nova estação terminal. Atrás da estação ficava o Morro  do Muqui, que foi cortado para abrir espaço para manobras e estacionamento de locomotivas e vagões.

Teresópolis sempre foi uma bucólica cidade serrana, para onde muitos acorriam em busca de sossego em tempo de férias, ao mesmo tempo fugindo do calor infernal do Rio de Janeiro no verão. O acesso rodoviário unicamente era via Petrópolis e Itaipava, pegando depois a BR-495, um primor de estrada de serra pavimentada em concreto.

Depois da passarmos o verão de 1950 em Teresópolis numa casa alugada, meus pais acabaram comprando uma casa lá em 1951. O verão de 1952 era o nosso primeiro na casa própria. Ficávamos com mamãe e papai passava a semana no Rio trabalhando, juntando-se a nós nos fins de semana. Suibia na sexta e voltava no domingo. A viagem levava duas horas e meia.

O primo Billy estava conosco naquelas férias e nossa diversão predileta era andar de bicicleta pela cidade toda, o dia inteiro, só parando para almoçar em casa.

Num desses dias de andanças por toda parte, fomos mais uma vez à estação de trem na Várzea - trens naquela época eram muito atraentes para os garotos e nós adorávamos vê-los, sentir os odores das locomotivas., seu calor, ouvir aqueles sons, íamos sempre íamos lá.

Na estação, sempre íamos para a parte de trás dela, ver de perto locomotivas, vagões, entrando, saindo, diversão pura. Mas, como sempre, ih, hora do almoço, toca para casa, à toda. Coisa de três quilômetros.

Depois do almoço um de nós sugeriu voltarmos à estação, e lá fomos nós. Mas ao chegar perto, gente para todo lado, confusão, sirenes de ambulâncias, e quando chegamos lá, não acreditamos. O Morro do Muqui, na parte que havia sido cortada para abrir espaço para o pátio, desabara inteiro, chegando a atingir a estação, com mostra a primeira foto. Cena de horror total.

Volume assustador de pedras e terra
Acho que, na verdade, os três garotos, naquele momento, não tiveram consciência do que lhes poderia ter acontecido. Mas o fato é que, sem nenhum exagero, por muito pouco não morremos. Coisa de uma hora ou uma hora e meia. Eu não estaria aqui lhes escrevendo...Houve várias mortes, que não sei precisar quantas, de pessoas que trabalhavam ou estavam por ali.

A linha férrea para Teresópolis funcionou por mais cinco anos, encerrando operações em 1957. Na época já estava em construção o trecho rodoviário de serra, que em mais alguns anos ficaria pronto. A incrível estrada BR-495, Itaipava-Teresópolis, ficou relegada ao esquecimento e foi palco de muito "treino" por mim e pelo meu irmão nos verões seguintes. Só que em vez de bicicletas, o Fusca lá de casa.

Nessa tragédia  de 4 de janeiro, consta que essa bela estrada foi severamente danificada por barreiras e deslizamentos. Mas seu piso outrora fabuloso já havia se deteriorado fazia anos, em completo abandono.

Na década de 1960 a estação da Várzea foi demolida e no terreno foram erigidos os prédios do Colégio Estadual Edmundo Bittencourt e o Fórum da cidade.
A Estação da Várzea após o deslizamento
 Por isso, assim que eu soube da tragédia em Teresópolis, foi impossível não lembrar do deslizamento do Morro do Muqui, em que três garotos poderiam ter perdido a vida do mesmo modo que as mais de 400 pessoas em Teresópolis até o momento.

De novo, foi por muito pouco que não morremos.

BS

Fonte de referência e fotos: site Trolleymania, link para a Estrada de Ferro Teresópolis.

13 comentários :

  1. Ótimo relato da história...estamos todos chateados com os acontecimentos da serra, mas a maioria não tem consciência da gravidade do problema....vai passar como tantas outras desgraças aqui no nosso país, só se lembraram de Angra pq aconteceu este na Serra...as chuvas lá no nordeste destruiram cidades e quase ninguem se lembra mais....

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  2. Bob,

    Passei por algo parecido na infância. Certa vez, um caminhão sem freios invadiu o pátio do prédio em que eu morava. A sorte é que isso aconteceu também no horário de almoço, assim nenhum dos meus colegas foram atingidos. Foi um enorme susto.

    Pior: Eu queria assistir a remoção do caminhão, mas tinha que ir à festa junina da escola logo após o horário do almoço. Já estava todo caracterizado para a dança. Me lembro de ter implorado meus pais para faltar e ver o caminhão sendo retirado do pátio. Hehehe.

    Esse post me deixa triste pelo fato do país ter abandonado o transporte ferroviário. Para transporte de cargas me parece ser o ideal.

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  3. Raphael Hagi
    Que sorte você e os coleguinhas deram!
    Trens: já pensou se existissem até hoje, puxados por locomotivas elétricas ou diesel-elétricos serra cima, que rapidez seria?

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  4. Caio Cavalcante17/01/11 12:59

    Bob,

    Passei o último reveillon em Lumiar, Nova Friburgo. Aproveitei para fazer o caminho pela serra toda: subi a Rio-Petrópolis BR 040, em Itaipava peguei a BR 495 e em Teresópolis a RJ 130. Estradas belíssimas, e a BR 495 continua, para sorte sorte dos autoentusiastas, esquecida: contei nos dedos de uma mão quantos carros passaram por mim. A boa notícia é que estavam refazendo o piso de concreto, o sentido Itaipava-Teresópolis estava quase todo recapeado.
    Muito triste o que aconteceu na serra. Agora é torcer para que se recuperem logo e ajudar com doações.

    Francisco,
    Realmente brasileiro tem memória muito curta. No primeiro dia após as chuvas, ouvi um comentarista de TV dizer que havia muito tempo não se via uma tragédia como a da serra, esquecendo completamente o que aconteceu ano passado em Angra e também em Niteroi. Enquanto isso, a BR 101 ainda tem trechos em uma pista só, muita terra e pedras em várias partes do acostamento e soluções como jogar grama em cima para ver se os detritos "vingam" ao invés de removerem o que desmoronou...

    Um grande abraço para todos

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  5. Caio Cavalcanti
    Grande notícia, essa da recuperação do piso de concreto da BR-495. Mas temo pela destruição da estrada em vários pontos, conforme noticiado.

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  6. A minha situação "Foi Por Muito Pouco" a conteceu recentemente. Foi na queda do viaduto do Rodoanel sobre a Regis Bittencourt.
    Moro na grande São Paulo e alí é passagem frequente minha.
    Voltando para casa passei por baixo da ponte, ainda em obras, acho que uns dez minutos antes do desabamento.
    Minha esposa, que voltava de outro lugar, esteve ainda mais perto da tragédia. Quando o trânsito parou a cerca de 300 metros da tragédia. Ela ainda viu a poeira no ar das enormes vigas de mais de 40T que desabaram, mas só foi entender mesmo o que havia ocorrido a hora que passou ao lado daqueles montes de ferro e concreto retorcidos.

    Até hoje acho que o viaduto caiu "na hora certa" sem gerar nenhuma vítima fatal. Porquê pelo volume de tráfego alí, inclusive de ônibus, o desastre poderia ter uma proporção muito maior se ocorresse alguns segundos antes ou depois. Só sei que às vezes o acaso pode te pegar e ficamos completamete impotentes diante deles.

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  7. Arruda,
    Que coisa, por pouco mesmo! Você e sua esposa!

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  8. Realmente o país não tem memória. Não vi a imprensa citar a tragédia de 1967 na serra das araras, que vitimou muito mais gente que agora no verão de 2011.
    http://diariodovale.uol.com.br/noticias/4,34343.html#mais

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  9. Lccnunez, ótimo link.
    Ainda ontem meu pai comentou comigo sobre essa tragédia na Serra das Araras, que eu também desconhecia.

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  10. Lccnunez
    Eu estava viajando de São Paulo para o Rio nessa noite. Antes de Araras a estrada já estava fechada e tive que ir por Piraí. Cheguei em casa morto. No dia seguinte foi que eu soube da extensão da tragédia.

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  11. Meu "foi por pouco " aconteceu no verão de 67 para 68 ou 68 para 69 não tenho certeza.
    Estávamos em férias em Ubatuba num janeiro particularmente chuvoso como o deste 2011. Para abreviar o sofrimento, pois praia e chuva como todos sabem não combinam, meus pais resolveram subir para São Paulo. No dia seguinte a serra veio abaixo em Caraguatatuba, arrastando partes da estrada que no dia anterior utilizamos. Muita gente morreu ou perdeu parentes.
    Uma tragédia.
    AAM.

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  12. AAM
    Essa foi outra, me lembro. Que sorte a de vocês!

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  13. Bom relato. A história da Estrada de Ferro Therezopolis é sempre interessante e esse episódio da barreira da estação realmente é chocante.

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