O QUE AS BORBOLETAS DIZEM

Por Arnaldo Keller

O post anterior é do Bob Sharp, A Alavanca Sumiu, onde ele discorre sobre a falta que lhe faz pilotar tendo a boa e velha alavanca de câmbio para mudar as marchas. Esta semana pilotamos um Ferrari F430 em Interlagos, devidamente borboleteada para a troca de marchas, e foi daí que surgiram estes comentários.

O melhor seria ler o dele primeiro para depois ler este aqui.

Ontem, sábado, fui à casa de um amigo que coleciona carros. Bom-gosto o dele, tem dois Maserati, um Bora e um Ghibli, um Ferrari 308 GTB e mais dois ou três bons carros. Falta eu guiar esse Bora, motor V-8 central-traseiro, praticamente o mesmo V-8 do Ghibli; os outros já guiei.

Fui com outro amigo, que não conhecia esse outro e sua refinada pequena coleção - essas é que são as boas, pois os carros são devidamente tratados e todos ficam em cima, prontos para serem ligados e saírem em viagem; nas grandes coleções raramente se acha um que esteja nos trinques - e toca a abrir capô, olhar motor, posição do motor, olhar os carros por baixo pra ver suspensão, olhar detalhes de design, aerodinâmica, olhar isto e aquilo.

Mas aí é que vem o momento de princípio de clímax, que é quando o sujeito se senta pela primeira vez no banco do motorista de um carro. Fiquei observando. O carro era o 308 GTB, motor desligado. Esse meu amigo ajeitou-se no banco, esticou um pouco os braços para empunhar o volante e, em seguida, claro, buscou a alavanca de câmbio. Olhou para o dono do carro e perguntou: "Posso?" - esse 'posso', claro, era manejá-la, sentir o engate das marchas, fazê-la correr pela grelha. "Mas, claro!" - foi a resposta. Sentar no banco é uma coisa; já, mexer na alavanca, é outra, é preciso uma autorização mais liberal.

Esse meu amigo embreou "Nossa! que pedal pesado!", exclamou, e em seguida olhou para a alavanca. "A primeira é pra trás, é?", comentou ao ver os números na grelha. "É, sim. É pra deixar a 4a e a 5a no mesmo canal da grelha. Numa corrida praticamente só se usa a 1a pra arrancar, enquanto que estamos sempre trocando entre 4a e 5a", respondeu o dono.

E o meu amigo estreante, embreando, começou a engatar as marchas. Ré, 1a, 2a, 3a, 4a, 5a, e ali, naquele momento, mesmo com o V-8 desligado, ele já começou a sentir uma faceta importante do que era guiar aquele carro. Ficou um tempo nisso, sentindo, achando o caminho certo daquele trambulador, sentindo o seu peso, o seu som de cláks

A alavanca diz muito sobre o carro, e o modo como a manejam diz muito sobre o motorista.

Pedir ao dono do carro, perguntando-lhe se poderia "cambiar", foi como pedir "Posso conhecer algumas intimidades do seu carro?"

E se fosse nas borboletas? O que elas dizem?

Nada.

O Ronaldo, o dono do F430 que pilotamos, me quebrou um outro galho, outro dia. Eu precisava de alguém que guiasse por uma manhã um Porsche 911 antigo, década de 60, e, claro, o sujeito não poderia ser qualquer um, o sujeito tinha que ser macaco-velho, ter mãos-de-veludo. Daí que foi ele quem chamei.

Foi gozado, pois ele parou seu Ferrari novo ao lado do Porsche antigo e eu pensei de bobeira comigo "Cara, será que ele esqueceu como é que se guia no old-fashion-way?"

Ele sentou no banco do carona e eu saí guiando, para mostrar-lhe as manhas, já que ele já teve Porsche novo mas nunca havia guiado um antigo.

Não havia nenhum defeito no carro; só haviam as manhas de nascença do carro, principalmente o trambulador, que é meio tinhosinho, meio molinho, de movimentos longos e imprecisos (defeito dos 911, que, se não me engano, só foi sanado a partir de 1993). A 1a marcha é pra trás, também, como a do 308, junto à nossa perna. Para levar da 1a para a 2a só tem um caminhozinho estreito e sensível, que nos obriga a sentir os seus reflexos tanto com a base do dedão que empurra a alavanca, quanto com a palma e base dos outros dedos e a lateral do dedão, que limitam os movimentos laterais da alavanca.

E, interessante, principalmente neste caso de trambulador impreciso do 911, o pomo da alavanca tem que ser exatamente daquele formato e tamanho ali. Se ele for maior ou menor, não rola, perdemos a precisão. Se trocarmos o pomo por um, por exemplo, de Fusquinha 1200, ferrou, a alavanca nos escapará da mão, não dará para sentir direito a coisa, ferrou. Um maior, ferra também, além de pesar mais.

Dei as dicas ao Ronaldo, trocamos de banco, e ele, com tranquilidade, engatou a 1a, que também é meio tinhosinha pra engatar, e saiu. E logo levou certinho a alavanca para a 2a, num movimento que sua mão parecia já conhecer de longa data. Daí pra frente as outras trocas são muito mais fáceis, e aí as marchas foram subindo.

Veio uma curva, punta-tacco perfeito, no tempo exato, marchas sendo reduzidas com suavidade, sem tranco algum - eles, além de tudo, desestabilizam uma freada forte - daí que, confesso, fiquei emocionado. Soa ridículo, não é, ficar emocionado com uma besteira dessas? Mas fiquei. Presenciei ali a diferença que faz um sujeito ter nascido pra coisa, um sujeito que tem o dom de sentir a máquina e interagir harmoniosamente com ela, e esse sujeito é amigo do peito meu, fiquei orgulhoso.

Pois ele pilotou o Porsche com maestria, como era de se esperar, bastando ter visto essas cambiadas classudas.

Caramba! O que as borboletas dizem?

Dizem só que a Ferrari sabe fazer perfeitamente bem um câmbio que troca marchas rápida e perfeitamente bem, mas não me dizem nada sobre quem está guiando o carro que me leva.

AK

23 comentários :

  1. Barbaridade! Isto é entusiasmo, meu caro! Que texto verdadeiro, desgarrado de lógica. Pura vibração!

    Empolgante o relato, AK!

    ResponderExcluir
  2. Acho que os Autoentusiastas que aqui batem ponto te entendem perfeitamente, AK.
    Se eu já curto passar as marchas do meu Cliozinho, imagine a emoção que é fazer o mesmo num 911 dos velhos tempos! Marcha após marcha, o ronco subindo pedindo mais, curva chegando, reduzida, ronco forte do motor, acerta a direção, acelera, subindo as marchas novamente.
    Isso cura qualquer tristeza.
    Parabéns pelo texto.

    ResponderExcluir
  3. Arnaldo, ótimo post!
    A Ferrari tem de seguir esse caminho mesmo. A faixa etária dos seus consumidores está subindo consideravelmente, e esses consumidores não têm mais o seu perfil ou o do Bob: são grandes empresários ou sheiks que usam o carro como objeto de ostentação. Qualquer indício de "nervosismo", qualquer indício de "cuidado que o carro pode ser demais para você" significa a perda de vendas em potencial.
    Muitos têm criticado a Porsche por fabricar o Cayenne e o Panamera, mas creio que eles o fazem para atender esse público que quer a "griffe" Porsche mas não tem braço para um GT3 ou um Turbo.
    Pessoalmente acho mais aceitável a idéia de um SUV Porsche que uma Ferrari sem opção de troca de marchas por alavanca - isso dito por alguém que é fã da marca Ferrari desde tenra idade. Quem sabe se a Rossa de Maranello não fizesse um SUV também, não teríamos essa aberração chamada 458 Italia (a.k.a. Ferrari Nero, uma brasa, mora?).

    ResponderExcluir
  4. Bianchini, os "Porsches" civis são exatamente os reservas das garagens de 911 ou Ferraris...fazem o trabalho direitinho com mais conforto, sem deixar de serem rápidos.Uma vez eu estava na Castelo de 600 cc a 200 e poucos e uma Cayenne com suas 2 toneladas me passou a uns 250 km/h.

    Quando a 458, é fogo mesmo esse carro...hehehhehee

    Meu pai teve uma 911 S 1971, com o cambio "dog-leg" com a primeira para trás.O véio reclamava do carro, falava que tinha problema no cambio, mas andava de Monza Classic 0km...imagina.Por isso que um monte reclamava do carro, mas eu com meus 16 anos na época, adorava...aquilo sim era preciso, para quem gosta, é fantástico.
    Com as pontas dos dedos, se engatava segunda MUITO rápido, pois a trava da ré jogava a alavanca naturalmente para a marcha certa.
    Em 72, a Porsche lançou o 2.4 e o cambio ficou convencional.

    ResponderExcluir
  5. Bianchini,

    Acho o 458 espetacular, isso sim. Só lamento a falta da alavanca, mas, segundo a Ferrari, parece que só coisa de 3% dos 430 saíram assim, então cortaram, infelizmente.

    911 turbo,

    Acabaram com o dog-leg porque quando davam as chaves para o motorista do estacionamento, o cara engatava 2a marcha pensando que era 1a e queimava embreagem.
    E eu daria minhas chaves de 911 pra um manobrista? Má nunca!

    ResponderExcluir
  6. Realmente um cambio de borboletas no volante, pode ser legal, moderno, eficiente, preciso, etc.
    Mas um cambio "tinhosinho", como voce diz, com as imprecisões "originais" de um 911 dos anos 60 por exemplo, fazem a alegria de um verdadeiro autoEntusiasta.
    Pegar a "manha" dsaquela alavanca, a rigidez daquela embreagem, a posição certa da marcha engatada, não tem preço`.
    É aí que aparece a cumplicidade entre motorista e carro.
    Quantas vezes na minha adolescencia vi alguns amigos trocarem de carro para dar uma volta e depois comentarem: Pô, com voce esse carro anda tanto, comigo parece uma tartaruga.
    Quem como eu, começou a andar de Dauphine 63 com "poderosos" 31 HPs, e tres marchas, contra os "emocionantes" Fuscas 1.200 sabe do que eu estou falando.
    Romeu.

    ResponderExcluir
  7. belissimo e gostoso texto... eu tenho um tesao enorme pelas 911 ate 75..... alem de serem as mais lindas, sao as mais "mecanicas" .

    ResponderExcluir
  8. AK, sinto que os esportivos de hoje, na sua esmagadora maioria, são mais objetos de exposição, também dedicados àqueles que desejam demonstrar riqueza.. mas não necessariamente possuem habilidade... basta ver as notícias de "ferraris" batidas dos últimos anos e o perfil dos seus condutores.

    Encontrar alguém que domine a máquina, dirija com cautela e ao mesmo tempo esportivamente, um verdadeiro motorista, é artigo raro hoje, e tende a ficar cada dia mais raro.

    Dê os parabéns, por mim, ao seu amigo, ele merece.

    ResponderExcluir
  9. Eu já curto muito (desculpem a comparação algo chula) um câmbio de 147, Fusca, ou Kombi manhoso de engatar, imagina um do primo rico...
    Dirigi um Audi A3 Tiptronic e já torcí o nariz para o ótimo sequencial no chão. Acho que eu demoraria a me adaptar às borboletas.
    No fim, como bem diz o Bob, acho que com o tempo descobriria as vantagens de um desses ou automatizado. Questão de tempo e adaptação.
    Mas que vou SEMPRE curtir um câmbio tinhoso, vou!

    ResponderExcluir
  10. Lawrence Jorge,

    É isso aí! Eu pra presidento! Ferrari e Porsche pra todo mundo e gasolina de graça!

    ResponderExcluir
  11. Mais um belo texto AK!

    Só senti falta de uma foto da alavanca de cambio desse 911...

    ResponderExcluir
  12. Arnaldo, muito bom!
    Não lembro quem disse, mas "borboleta qualquer um aperta, alavanca nem todos engatam."
    abs,

    ResponderExcluir
  13. Eu ficaria feliz se o câmbio do GTS tivesse a primeira para trás, me facilitaria muito a vida.
    Algum tempo atrás dirigi um Scénic com transmissão automática, uma experiência diferente e nem um pouco agradável. Apesar daquele volante com uma inclinação excessiva o carro é agradável, principalmente por causa do motor de funcionamento suave e que pede para girar. O que poderia ter sido uma experiência diferente - dirigir um monovolume ao meu modo, mesmo que andando normalmente - virou algo frustrante. Há pouco tempo foi a mesma coisa com um Corolla, que além de fraco tinha uma transmissão um tanto quanto rebelde, que reduzia o quanto queria e quando queria, enquanto eu ficava xingando o carro em meus pensamentos. Ao mesmo tempo ficava lembrando do Daewoo da família, que mesmo com um câmbio de engates longos, pedal de freio muito baixo, suspensão muito macia, grande e pesado (além de ser um projeto do fim dos anos 80), consegue ser muito mais prazeroso de guiar que esses dois.
    E voltando ao GTS, mesmo com um câmbio que aguenta tanto torque quanto um vaso de porcelana, ele é um dos melhores para guiar, com engates curtos, secos e precisos, de uma época que a Volks sabia o que fazia. Pena os espaço para os pés ser minúsculo e um punta-tacco em uma frenagem mais forte nunca sair da forma correta.

    ResponderExcluir
  14. Excelente AK!
    Passei de 1ª pra 2ª aqui na cadeira do escritório... kkkkk
    Um adendo, o pessoal desce o sarrafo nas brabuletas, mas pra mim brabuletas ou automatizado com alavanca no console dá na mesma.
    O lance todo que vc descreveu só existi no câmbio manual mesmo.
    Como já citaram até a Komboza dá prazer no sentido de ter um câmbio tinhoso, agora quem aqui já dirigiu caminhão com câmbio seco (termo utilizado para câmbios sem sincronizadores)? Eu curti bastante, não há conexão maior com a máquina, em relação aos engates.
    Ahhh, sobre o "punta-taco", eu ainda não aprendi a fazer o procedimento corretamente, quando tento, ao acelerar com o calcanhar, acabo pressionando demais o freio, o que desestabiliza ainda mais o carro na curva, então prefiro reduzir um pouco antes, aumentando o giro sem o pé no freio. Alguma dica, AK? Hoje só uso o punta-taco para saída em rampa com carro fraco em baixa rotação.

    Abs

    ResponderExcluir
  15. Fabio,

    Olha, o punta-taco, como toda manobra mais sensível, requer treino e só treino. Com os pedais dos carros modernos, mais juntos, na verdade se faz um "punta-lateral". Taco, calcanhar, era pra carro atigo com muita distância entre eles.
    Vá treinando que é o jeito, até pegar o jeito. Ache um lugar tranquilo e faça sem estar correndo, na boa. Vai firme que dá e na hora da lenha faz diferença. Sempre suave, na manha.

    ResponderExcluir
  16. Em Gol Quadrado (meu caso) punta-tacco só sai com a lateral do pé mesmo, tirando toda sensibilidade no pedal de freio e a modulaçao de força no mesmo. Meu velho tênis ajuda a contornar esse problema, pena que o que sobrou dele não vá durar muito e eu me recuso a comprar algo de mais de R$ 200,00 que só é útil para dirigir e nem pode ser colocado no barro. E para piorar essa situação, calço 44.

    E apenas um comentário. Algumas caminhonetes como as D20 e F1000 tem a primeira para trás e junto da perna, o que é bem útil para brincar em estradas de terra.

    ResponderExcluir
  17. Paulo Franco13/01/11 02:30

    Putz, que texto perfeito!!
    O seu amigo "sentindo" a potencia de um carro desligado ao tocar na alavanca de cambio.
    Quantas vezes eu já fiz isso...desde moleque.
    É só olhar nos Salões de Automovel em todo o mundo, sempre tem alguem fazenda a mesma coisa.
    A arte de um punta tacco perfeitamente executado é um momento de felicidade imensa para quem pilota.
    Todos os engenheiros mecanicos deveriam levar isso em conta quando projetam e regulam os pedais de um carro.
    Parabens!!

    ResponderExcluir
  18. Paulo Franco,

    Pois é. Agora é sentar e dar uma puxadinha nas brabuletas com o motor desligado.
    Que coisa mais sem graça.
    Mas fique sussa que os esportivos serão cada vez melhores e mais prazerosos. Se não for de uma fábrica, será de outra.
    Legal que gostou das historinhas.

    ResponderExcluir
  19. Marcos,
    Também calço 44, com a lateral do pé e um tenis mais justo (tipo aqueles Adidas de couro, que parecem uma chuteira) fica mais fácil de conseguir alguma coisa.

    Paulo Franco,
    Realmente, a maioria dos carros não facilitam este recurso.

    Sds

    ResponderExcluir
  20. o que vcs dizem de um câmbio CVT então? é a antesala do inferno?

    ResponderExcluir
  21. Nessas horas que eu sinto saudades da minha Velhaneio 71 com câmbio na coluna e raiva do Gol G4 1.0 com o pior trambulador que já operei...

    ResponderExcluir

Pedimos desculpas mas os comentários deste site estão desativados.
Por favor consulte www.autoentusiastas.com.br ou clique na aba contato da barra superior deste site.
Atenciosamente, Autoentusiastas.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.