ENERGIA: O GELO QUE QUEIMA



Antes da crise econômica de 2008, o petróleo chegou a ser cotado próximo a US$ 150,00/barril, mas depois dela a economia mundial arrefeceu, o consumo diminuiu e os preços caíram. Com a retomada do crescimento, agora impulsionado pelos chamados “países emergentes”, liderados por China, Índia. Rússia e Brasil, lentamente os preços do petróleo voltam a subir, puxados principalmente pelo aumento da demanda e pela queda na oferta.

Os analistas concordam que não há um patamar confiável de teto para o preço futuro do petróleo. Sequer um valor tão alto quanto US$ 250,00/barril é uma aposta segura, segundo suas palavras.

Quanto maior a incerteza sobre os preços futuros do petróleo, maior a procura por fontes alternativas de energia. Biocombustíveis, energia eólica, solar, geotérmica, enfim, todas as possibilidades vem sendo estudadas e, se possível, sendo aproveitadas, porém nenhuma delas vem se mostrando tão universal quanto o petróleo.

Há também todo um ciclo social, econômico, político e técnico em torno do petróleo que precisa ser reformulado antes de substituí-lo por outras fontes. Este processo de transformação só ocorrerá à custa de muito tempo e muito sacrifício.

Diante deste quadro, uma inesperada e polêmica fonte de energia vem sendo largamente discutida como alternativa. Trata-se do hidrato de metano (também conhecido como gelo de metano ou gelo de gás), um composto instável, formado pela incrustração de moléculas de metano no meio da estrutura cristalina de gelo de água.

Embora pareça gelo, o hidrato de metano é uma combinação entre água e metano, não havendo uma reação química entre os dois. Cada unidade de volume de hidrato possui em média 160 unidades de volume de gás.

A estabilidade dos blocos de hidrato de metano depende das altas pressões e baixas temperaturas encontradas no fundo do oceano. Fora destas condições, o gelo de metano rapidamente se converte em água e metano gasoso, num comportamento semelhante ao de uma pastilha efervescente.

O hidrato de metano formou-se ao longo de milhões de anos através de duas fontes: a biogênica e a termogênica.

O hidrato biogênico originava-se da decomposição de material orgânico pela ação de bactérias decompositoras, que o excretavam o metano, que fica dissolvido na água, e este fica preso na precipitação da estrutura cristalina do gelo formado sob alta pressão e baixa temperatura. Este tipo de hidrato representa mais de 99% das reservas conhecidas.

Outra parte do metano gerado por estes microorganismos fica preso na forma de bolhas em meio ao lodo que recobre os depósitos de hidratos.

O metano de origem termogênica se forma da deterioração de material orgânico a grandes profundidades, associada com o calor vindo do interior do planeta. Ao emergir para o oceano, fica preso na forma de hidrato.

Em geral, as reservas de hidrato encontram-se sob uma grossa camada de sedimentos rica em material orgânico. O único local conhecido onde depósitos de hidratos ficam descobertos no fundo do oceano é no Golfo do México.


Além do hidrato oceânico, existem reservas também abaixo do permafrost em regiões próximas ao Círculo Polar Ártico, porém ao invés da formação de grandes blocos, o gelo de metano se forma no espaço entre grãos de uma areia grossa.


Por se encontrar numa zona do planeta de difícil acesso à ciência, o hidrato de metano foi completamente ignorado até os anos 1970, quando pequenos submarinos como o Alvin passaram a descer a profundidades abissais. Lá, além de uma fauna e uma flora completamente exóticas onde antes se pensava que haveria uma zona morta, encontraram grandes formações de hidrato de metano.



Apesar de desconhecido até bem pouco tempo, estima-se que as reservas de hidrato de metano concentrem mais carbono que todo o existente na biosfera e na crosta terrestre, incluindo o carbono contido nos seres vivos e nas jazidas de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão).

Os depósitos de hidrato de metano são sensíveis às condições ambientais da mesma forma que as geleiras na superfície.

Numa geleira, seu limite é determinado fisicamente pela temperatura. Abaixo da geleira a temperatura está acima de zero graus Celsius, enquanto no alto dela a temperatura estará abaixo dessa marca. Entre o pé da geleira e seu topo, há uma fronteira precisa onde em média a temperatura é de zero graus, abaixo da qual, todo gelo derrete.

Como a temperatura média sobe no verão e diminui no inverno, as geleiras recuam no clima mais quente e tornam a avançar quando o clima esfria, de acordo com o avanço e o recuo da fronteira de zero graus Celsius.

Algo semelhante ocorre com os bancos de hidrato de metano. Muitos depósitos desse material ficam muito próximos dos limites de estabilidade, e alterações de pressão e temperatura da água podem retirar o metano da estabilidade, criando imensas plumas (torres de bolhas ascendentes) que sobem até a superfície.

Essas alterações podem ocorrer pelo desvio momentâneo de correntes marinhas mais quentes e com menor salinidade, que passam sobre os depósitos de hidrato de metano.


Este fenômeno pode ser uma explicação científica plausível para vários naufrágios estranhos no chamado Triângulo das Bermudas.

Nos diários de Colombo consta que certa vez, navegando nas águas do Triângulo, o mar se encheu de bolhas como se fervesse, embora a água não estivesse quente, e à noite, luzes fantasmagóricas dançavam pelos céus.
Descrições semelhantes às de Colombo foram feitas várias vezes nessa região, algumas associadas a naufrágios inexplicáveis.

A verdade é que algumas plumas de metano vindos do fundo podem ser intensas o suficiente para comprometer a flutuabilidade dos navios, e estes afundariam mais rapidamente nestas condições do que seria de se esperar num naufrágio comum.

Também é verdade que já foram encontrados extensos depósitos de hidrato de metano no leito oceânico do Triângulo.

Associada à grande profundidade e pressão, a alta instabilidade do hidrato de metano, quando trazido para a superfície, cria uma situação de grande dificuldade para uma exploração segura e econômica destes depósitos. Além de contornar estas dificuldades, a exploração do hidrato de metano precisa respeitar a frágil biologia vizinha aos depósitos. Estas dificuldades irão impor um custo elevado para a exploração destas reservas.

Entretanto, a quantidade de energia disponível nestes depósitos, diante da escassez do petróleo, capaz de barrar o crescimento econômico de vários países, pode estimular a corrida tecnológica necessária para esta exploração. A partida para esta corrida já foi dada, mas por hora ela vem se desenrolando lentamente.

Em 2002, numa experiência de teste para produção feita no delta do rio Mackenzie, no Canadá, foi verificada a viabilidade de exploração do hidrato em terra firme. A extração do metano foi testada tanto aquecendo, como descomprimindo o substrato de solo rico em hidrato, assim como métodos combinados. Todos os testes foram bem sucedidos. A iniciativa contou com empresas e entidades do Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Japão e Índia.

Segundo levantamenos do U.S. Geological Survey (USGS), há uma reserva de 600 trilhões de metros cúbicos de gás só em águas territoriais americanas, com energia suficiente para suprir as necessidades americanas pelos próximos 200 anos.

Enquanto no Ocidente o hidrato de metano ainda esteja no estágio de curiosidade científica, China, Japão, Coreia do Sul e Índia vêm investindo para o desenvolvimento de sistemas de exploração. No Japão foi contruído o Chikiu, o maior navio de pesquisa sobre hidrocarbonetos marinhos já feito, com a missão específica para estudar a viabilidade de exploração das reservas de hidrato.



O hidrato de metano e sua exploração são assuntos polêmicos sob vários sentidos. A formação dos depósitos de hidratos de metano seguiram um caminho paralelo ao do petróleo e do carvão, de segregação de vasta quantidade de carbono do ciclo biológico, sendo que seu papel no ciclo vital do carbono é quase que inteiramente desconhecido.

O metano contido nos depósitos de hidrato é quase que exclusivamente constituído por carbono-12, possuindo uma concentração ínfima de outros isotópos em relação à distribuição de isótopos de carbono contidos nos seres vivos e na crosta terrestre.

O metabolismo dos microorganismos que criaram os depósitos é especialmente seletivo a esta variedade de carbono, mas por qual razão a evolução destes microorganismos foi tão radical nesta seletividade ainda é algo completamente desconhecido, assim como seu papel para o resto da biosfera.

A ausência de carbono-14 é quase total, dificultando a datação direta dos depósitos, que é feita indiretamente pela idade do terrenos vizinhos.

Em zonas extremamente profundas, onde a crosta terrestre é mais fina, o esmagamento e o aquecimento de hidratos enriquecem de metano a água quente subterrânea expelida por “chaminés”, rica em outras substâncias, como gás sulfídrico (H2S) e amônia (NH3), que, combinados na presença de gás carbônico oferecem suporte à vida de vários seres abissais, como os grandes vermes tubulares que vivem nas proximidades destas “chaminés”.

Este processo bioquímico de respiração sem oxigênio, importante para o estudo de possibilidade de vida fora da Terra, ainda está longe de ser compreendido. Mas é evidente o papel dos hidratos próximos a estes seres vivos para sua sobrevivência.


Metano é um poderoso gás de efeito estufa, sendo cerca de vinte vezes mais potente que o gás carbônico em capacidade de retenção de calor, e é considerado o terceiro gás mais importante na formação deste efeito em nossa atmosfera.

Entretanto, metano não é um gás estável em uma atmosfera rica em oxigênio como a nossa, e sua concentração depende da constante emissão vinda de processos biológicos e geológicos. Apesar de sua maior capacidade de concentração de calor que o gás carbônico, seu ciclo na atmosfera é mais curto, limitando o efeito que ele é capaz de causar.

Um dos temores dos cientistas adeptos da teoria do aquecimento global é que o contínuo aquecimento do planeta afete a estabilidade dos depósitos de hidrato, liberando quantidades maciças de metano para a atmosfera, que iria aumentar a temperatura ainda mais, num processo de realimentação positiva.

Por outro lado, no Instituto de Pesquisa Marinha (Geomar), no porto de Kiel, norte da Alemanha, desenvolveu um interessante processo de exploração do metano conjunta à captura do gás carbônico atmosférico. Ao injetar o gás carbônico sob pressão num depósito de hidrato de metano, o gás carbônico desaloja o metano enquanto fica preso na estrutura do gelo em seu lugar. Para cada molécula de metano expulsa, cinco moléculas de gás carbônico ficam presas.

O processo permite retirar o metano de forma aproveitável, ao mesmo tempo que consegue prender gás carbônico, com saldo positivo de captura de carbono no processo.

Outra polêmica no qual o hidrato de metano está envolvido refere-se à discussão sobre como a crise energética precisa ser enfrentada. Há vários especialistas que defendem que o petróleo, cada vez mais raro no mercado mundial, é uma matéria-prima nobre demais para ser meramente queimada para a geração de energia. Vários subprodutos importantes para a vida moderna dependem diretamente do petróleo, como os remédios e os materiais plásticos. Isso leva estas indústrias para uma competição direta com as empresas distribuidoras de combustíveis, elevando os preços de todos os produtos envolvidos.

Em alguns países, a escassez do petróleo e a dependência direta de indústrias de vários setores tem levado à planos de construção de usinas termelétricas nucleares ou movidas a carvão, com todo impacto de segurança e ambiental que elas geram. Alguns especialistas especulam que o metano vindo dos depósitos de hidratos ofereceria energia suficiente através de uma queima muito mais limpa que a do petróleo e do carvão, sendo muito mais seguro que uma usina nuclear.

Em termos ambientais, construir usinas que queimassem o metano no lugar de uma usina movida a petróleo ou a carvão emitiria tanto carbono quanto elas, mas sem os malefícios de outros subprodutos nocivos da sua combustão.

O gás natural é um combustível cada vez mais utilizado na indústria, na geração de energia elétrica e nos automóveis (GNV). Isto tem criado toda uma rede de transporte, estocagem, distribuição e utilização.

Sendo um gás constituído em mais de 70% por metano, boa parte da infraestrutura já existente para sua utilização poderia ser convertida e ampliada facilmente para uso do metano puro vindo do hidrato. Assim, a utilização do hidrato de metano contornaria a principal dificuldade dos combustíveis alternativos, que é o processo de construção e conversão desta estrutura.

Também a grande dispersão do hidrato pelos oceanos e sua ocorrência em grandes quantidades oferecem aos países uma fonte de energia disponível em alta escala dentro de sua área territorial, e aliviando a tensão política e econômica causada pela dependência de combustíveis que são disputados gota a gota no mercado internacional.

Isto explica o grande interesse dos países do Oriente na sua exploração.

Enquanto ouve-se falar muito em fontes renováveis e limpas de energia, muitos estudiosos acreditam que a fonte de energia do século XXI será o hidrato de metano. 

As alternativas são muitas, mas só o tempo dirá quais delas irão reinar.

AAD

23 comentários :

  1. Parabéns pelo artigo, eu não conhecia o hidrato de metano ainda. O que me preocupa mais nesse caso é a degradação das regiões oceânicas onde ele será explorado, com certeza são regiões biologicamente ricas, não gostaria de ver elas "sumirem".

    []s

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  2. Existe uma teoria que, uma dessas dissociações de hidratos tenha se desprendido durante um processo de perfuração de poços de petróleo, que gera calor, sendo este o responsável pelo recem acidente no Golfo do México. Apenas uma teoria...

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  3. E ficamos aqui a matutar de como melhorar o desempenho de nossas máquinas com o uso do alcool e/ou petroleo.
    Isso me lembra um grande pensador do século XIX (cujo nome me escapa) que afirmou categóricamente que nada mais havia para ser descoberto. O bicho homem tem uma tendência a soberba e, cada vez mais a natureza demonstra que, apesar de gigantesca biblioteca de conhecimento acumulada, somos uns "manés" com ainda muito feijão a consumir pela frente. Com 6.3 no lombo e uma expectativa de, com sorte, mais uns 30 anos pela frente, só lamento não estar aqui quando novas descobertas começarem a pipocar modificando, certamente, o modo de vida de todos.
    Em um exercício de futurologia, tento imaginar, daqui uns 300 anos os visitantes de um museu qualquer, provavelmente utilizando mascaras para purificação do ar, observando as maluquices que fazemos hoje, e o que pensarão da irresponsabilidade daqueles ancestrais que queimavam, com a maior alegria materiais altamente poluentes.
    Ótimo post. Bem premonitório.

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  4. AAD,

    O hidrato de metano é a maior desgraça da humanidade para gasodutos submarinos!

    O gas sendo escoado, contendo uma umidade mínima, ao encontrar as temperaturas do fundo do mar (4 graus C) e pressões de escoamento altíssimas (250 bar), tem chance de formar esse gelo e bloquear o escoamento.

    É um desastre! Há meios de se esquivar deste problema, mas sempre existe. Por isso, esse negócio de transmitir energia via escoamento de metano é temerário (caro, complicado, e sujeito a várias interrupções).

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  5. Afora que, no método de injeção de c02 para a extração do metano, há a enorme probabilidade de acidificação da água dos oceanos, algo que em ambientes marinhos é fatal para as espécies.

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  6. O homem conhece muito pouco ainda sobre o fundo do mar. Existem teorias do que poderia acontecer. Mas não há conclusões. Seria pagar para ver, e as vezes esse "pagar" pode sair muito caro!

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  7. Buzz Lightyear, no Toy Story (1) perguntou se ainda usávamos combustível fóssil ou se tínhamos descoberto a fusão do cristal... seria o cristal de gelo???

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  8. O interessante disso tudo é que a exploração do gás é tratada da mesma forma como era tratada a inevitável e perigosíssima exploração do petróleo em meados do sec. XX. Algo quase como uma exploração extraterrestre.
    Qualquer que seja a fonte de energia estaremos degradando o planeta, extinguindo espécies e nos matando aos poucos com a poluição resultante da queima e/ou da reação química de qualquer combustível.
    Infelizmente é um processo imparável, até sermos extintos...

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  9. Acho que ao invés de estuprar mais ainda as entranhas do nosso querido planeta deveríamos aproveitar melhor o que já existe.
    Sinceramente DUVIDO que tenhamos chegado ao limite do desenvolvimento dos motores a explosão. E nem precisa de petróleo, temos álcool e biodiesel. É o caso da indústria ser menos gananciosa e desenvolver meios de reduzir consumo, logo, as emissões.

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  10. Gayeski,

    No motores ciclo Otto e ciclo Diesel não há muito mais o que fazer.

    Considerando que os motores Wankel são uma porcaria por natureza própria (engana-se quem faz as contas e conclui que a eficiência volumétrica é alta, pois ele dá 3 explosões por volta por rotor, enquanto o Otto dá 1 explosão por 2 voltas por cilindro), o único caminho é o desenvolvimento de um motor de combustão interna totalmente novo, sem rotores de vedação tangencial nem sistemas biela-manivela.

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  11. Bussoranga,

    Eu ia citar o Wankel mesmo como opção, mas como não sou engenheiro e sim um curioso, fiquei intrigado quanto a sua afirmação de que este motor é uma porcaria.

    Para mim ele só não é mais utilizado devido ao custo de produção e não por problemas inerentes ao projeto.

    Poderia me explicar?

    Valeu!

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  12. Pessoal, novamente estou grato pelos comentários.

    Quando fui pesquisar sobre esse assunto me deparei com algo inesperado.

    Estou acostumado a assuntos obscuros, como no caso dos hólons, em que as informações estão restritas a um círculo fechado de especialistas, e onde eu tenho que traduzir um linguajar altamente técnico em um assunto agradável de ser lido e onde a beleza do assunto seja observado.

    Não foi o caso do hidrato de metano.
    Quando fui pesquisar, descobri muita coisa a respeito, e há muito dinheiro, especialmente no Oriente, voltado pra sua exploração.
    No entanto, este é um assunto praticamente desconhecido entre nós.

    Esta ignorância me assusta. Mostra o quanto o país está fora de sintonia com o mundo. E nós queremos chegar a ser do primeiro mundo...

    Em segundo lugar, é preocupante dois fatos coligados.
    Conhecemos mais sobre Marte e Vênus do que sobre o que existe nos nossos próprios oceanos.
    O fato dos depósitos de hidrato de metano ser constituído quase totalmente de carbono-12 mostra que o processo evolutivo escolheu segregar esse tipo de carbono por algum motivo muito específico e forte, mas o desconhecemos completamente.
    Apesar disso, muitos países pensam em começar a explorar essas reservas.

    Em pequena escala, não tem problema, mas em larga escala, não temos a mínima ideia do que exatamente estamos mexendo.

    Isso é pra se preocupar e ir devagar com o andor que esse santo é de barro.

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  13. Para todos:

    Motores de combustão interna são uma área da mecânica largamente explorada.
    Hoje as pessoas reconhecem apenas os motores a pistão e as turbinas, mais o Wankel, porque são os tipos mais eficientes.
    Mas só o Wankel pertence a uma família muito numerosa de motores epicicloidais, quase inteiramente desconhecida.
    Há famílias inteiras de motores a combustão que são quase desconhecidas.

    O que poderíamos tirar dessas máquinas já tiramos. Resta apenas aparar as arestas.

    Mesmo nos motores convencionais a pistão, a coisa está feia.

    O processo de downsizing (reduzir a cilindrada do motor e instalar um turbo em substituição de um motor aspirado maior) é um sinal de esgotamento da tecnologia dos motores pra atender níveis de emissões cada vez mais rigorosos.

    O que era barato, o que era fácil e o que poderia ser feito, já foram feitos.
    Qualquer coisa agora no sentido de melhorar os motores vai custar caro, vai exigir cada vez mais complexidade, e a melhora de rendimento vai ser pequena perto do esforço.
    Ninguém vai fazer um carro comum fazer 50 km/l usando um motor a combustão de 1 litro e que renda 200 cv. Toda tecnologia tem um limite, e estamos próximos dele nos motores térmicos.

    Todos os motores térmicos ficam presos entre a cruz e a espada, entre o Ciclo de Carnot e os limites fisico-químicos dos combustíveis.
    Isso é incontornável.

    Hoje, se houvesse uma saída mágica, todos já teriam migrado pra ela. Mas ela não é real.

    Num exercício de pura especulação de futurologia, eu acredito que o futuro seja uma célula a combustível que, através de partículas catalizadoras nanométricas, quebrem combustíveis químicos como o álcool, o metano, etc., e transformem a energia de ligação molecular diretamente em corrente elétrica para ser aproveitada num motor de tração elétrica.

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  14. Alex, o Wankel merece um artigo especial só dele.

    O Bussoranga está certo sobre os problemas do Wankel. É um motor que oferece mais problemas do que vantagens.
    Se fosse tão bom, já teria substituído os motores a pistão há muitos anos.
    Mas não consegue.

    Esse motor é o queridinho dos grupos de discussão, que enfatizam sempre as qualidades, mas poucos conhecem os problemas desse motor.

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  15. Alex,

    Apenas para detalhar um pouco mais a resposta do AAD, o grave problema do Wankel até hoje foi minimamene melhorado, mas nunca resolvido. Trata-se da vedação dos cantos do rotor. Por ser um rotor "mais ou menos" triangular, as áreas de vedação são pequenas e se desgastam muito rápido. Por ser excêntrico o balanceamento é ruim e isso produz desgaste rápido. Portanto é um motor de baixa durabilidade (e tanto é que nunca vi um motor Wankel da Mazda que tenha durado mais de 60 mil km sem começar a fazer fumaceiro). Esse pessoal que tem os Wankel da década de 90 certamente não passa na inspeção de SP.

    O motor biela-manivela-pistão (seja ciclo Otto ou ciclo Diesel) possui uma vedação feita via conjunto de anéis que, até certo ponto, são auto-regenerativos, pois são molas circulares complementares, isto é, vedam ao longo de uma circunferência com um pequeno gap. Então, conforme os anéis se desgastam esse gap aumenta, mas ele representa uma fração bem pequena da área total vedada (área lateral do anel). Além disso, tal gap é bem coberto pelo anel que estiver logo acima ou logo abaixo, isto é, pelo anel complementar. Essa é uma das características que resulta na boa durabilidade de tais motores.

    Wankel não conseguiu, não consegue nem nunca conseguirá tal feito.

    Quanto aos motores de combustão em geral, o AAD sintetizou muito bem o que está acontecendo: um bando de burocratas está dando canetadas para impor menores emissões, mas não conhece as consequências, que são encarecimento extremo do motor (e consequentemente dos carros) em prol de um benefício ínfimo. Pois é, diante dos níveis de poluição obtidos pelos motores atuais, qualquer ganho futuro é ínfimo, ou seja, eles já atingiram um nível de "limpeza" que era inimaginavel até poucos anos atrás.

    Daqui a pouco, como o AAD já havia dito noutro post, os carros passarão a ser limpadores da atmosfera, isto é, o gas expelido por eles será mais limpo do que o aspirado, mas isso com certeza absoluta terá uma consequência funesta: redução drástica da durabilidade dos catalisadores. Afinal, se alguma sujeira é removida do ar, ela é acumulada em algum lugar, podendo chegar até ao entupimento. O CO é transformado em CO2, mas o SOx e o NOx faz-se o que? NOx poderia até, em caso extremo, ser reduzido a N2, mas contra o SOx não há o que fazer.

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. Bussoranga, não é só o problema de vedação que o Wankel apresenta.

    Ele tem um formato muito alongado de câmara de combustão, com turbulência insuficiente e caminho de frente de chama muito longo. Por causa disso é um motor que tem emissões muito altas.

    No começo da década de 90 a Mercedes pensou em lançar um carro com um conceito interessante de Wankel. Cada "bolacha" de Wankel era um motor completo por si mesmo, e o carro viria com 3 "bolachas" empilhadas, podendo ir empilhando mais 1, 2 ou no máximo 3 delas (totalizando 6), o que permitiria um upgrade de potência do carro ao longo do tempo.
    O plano foi engavetado porque a Mercedes não iria contornar as normas de emissões daquela época.

    O comentário que se faz é que os Mazda RX-7 e RX-8 com motor Wankel são sobre-catalizados pra poderem passar nos testes de emissões, mas o custo dos catalizadores é estratosférico.

    Uma velha briga que eu tenho há muito tempo é que muita gente acha que os Mazda RX são a porta de entrada para a popularização dos Wankel. Não são.

    Esses carros são esportivos da marca, e que usam o diferencial do motor pra aparecer e deixar sua marca na cabeça das pessoas.
    A Mazda poderia equipar os RX com bons motores convencionais, mas aí os RX seriam apenas mais um na multidão de modelos esportivos no mercado.

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  18. AAD,

    Suas considerações sobre formato e efiiência de combustão dos Wankel vieram em muito boa hora.

    Há uns 10 anos eu havia feito as contas reais de eficiência volumétrica e potência específica (hp/l), e havia concluído que, considerando que a cada volta dele temos 6 vezes a cilindrada (supondo 2 rotores) aspirada, ele é bem pior que o motor Otto. Essa é a conta que os marketeiros escondem.

    Agora voce explicou porque a potência específica (hp/l real) dele é bem pior. Queima muito ruim!

    Voltando aos motores Otto e Diesel,
    mesmo sendo um pouco mais caro, não seria possível complicarmos um pouco o sistema biela-manivela a fim de obtermos eficiências térmicas melhores?

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  19. AAD e Bussoranga,

    Obrigado pelas explicações! Eu ne não manjo nada dessa área, mas com boas informações que vcs passaram, deu pra clarear um pouco mais sobre o Wankel. Confesso que sempre tive vontade de ter ou ver um destes funcionando, mas pelo visto isso pq fui vítima do depto de mkt. rsrs

    Obrigado novamente e espero que vc possa fazer um post especial sobre o Wankel.

    Abs

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  20. Bussoranga, turbinas que queimam diretamente mistura ar/combustível tem rendimento muito baixo. Entretanto, com recuperação e regeneração de calor é possível obter rendimentos consideráveis.

    Infelizmente, até hoje não inventaram nada equivalente para motores a pistão.
    Estes estão completamente abandonados aos limites impostos pelo ciclo de Carnot.

    Das poucas coisas que sobraram das tentativas de recuperação de calor, está a válvula EGR de redução de emissões.
    Ela permite que parte dos gases quentes queimados sejam readmitidos e re-queimados.
    Ela ajuda na melhoria de rendimento térmico do motor em regimes intermediários ao introduzir gases inertes e aumentando a pressão no interior da câmara de combustão, mas existe um limite pro que ela pode fazer.

    Toda tecnologia morre quando ela deixa de atender os requisitos exigidos dela.
    Com normas de emissões cada vez mais apertadas, estará tecnicamente impossível atendê-las em breve apenas com motores de combustão. É por isso que os fabricantes andam atrás de ciclos combinados, o que nos conduzem aos híbridos.

    Não é só o cenário automobilístico que anda sofrendo esse tipo de crise. Outros setores também vem passando apuros, o que vai fazer o quadro tecnológico e até sócio-econômico estar completamente mudado dentro de 20 anos.

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  21. Bussoranga, turbinas que queimam diretamente mistura ar/combustível tem rendimento muito baixo. Entretanto, com recuperação e regeneração de calor é possível obter rendimentos consideráveis.

    Infelizmente, até hoje não inventaram nada equivalente para motores a pistão.
    Estes estão completamente abandonados aos limites impostos pelo ciclo de Carnot.

    Das poucas coisas que sobraram das tentativas de recuperação de calor, está a válvula EGR de redução de emissões.
    Ela permite que parte dos gases quentes queimados sejam readmitidos e re-queimados.
    Ela ajuda na melhoria de rendimento térmico do motor em regimes intermediários ao introduzir gases inertes e aumentando a pressão no interior da câmara de combustão, mas existe um limite pro que ela pode fazer.

    Toda tecnologia morre quando ela deixa de atender os requisitos exigidos dela.
    Com normas de emissões cada vez mais apertadas, estará tecnicamente impossível atendê-las em breve apenas com motores de combustão. É por isso que os fabricantes andam atrás de ciclos combinados, o que nos conduzem aos híbridos.

    Não é só o cenário automobilístico que anda sofrendo esse tipo de crise. Outros setores também vem passando apuros, o que vai fazer o quadro tecnológico e até sócio-econômico estar completamente mudado dentro de 20 anos.

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  22. Alex, foi um prazer explicar.

    Wankel está na minha lista de artigos há algum tempo em pelo menos dois assuntos.

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