PREPARAÇÃO AO ACASO


O primeiro carro de meu pai foi um DKW perua, de cor bege, ano 1964, a querida Vemaguet. Pequeno que era, eu adorava viajar no porta-malas. Claro que cinto de segurança era algo não utilizado, e eu ficava todo feliz, solto lá atrás. O espaço era enorme para mim.

Meu pai gostava muito do carro, pela agilidade e espaço interno, além de ter sido comprado usado, bem barato.
Certa vez, em viagem ao Guarujá para uma pescaria com um amigo, o motor subitamente perdeu potência após escutarem um barulho metálico forte, que parecia ser proveniente do escapamento.
Por sorte, havia uma oficina mecânica bem próximo, e para lá ele foi. O mecânico, após rápida avaliação, informou que o problema era anel de pistão quebrado. Meu pai teve a certeza que voltaria para casa em um guincho, mas o profissional rapidamente retirou as três velas de ignição, uma de cada cilindro, e munido de uma pinça comprida, foi retirando os pedaços de anéis. Explicou que o mais comum seria os pedaços saírem pelo escapamento, o que deve ter ocorrido com alguns fragmentos, daí o barulho que ele ouvira.
Após concluído o trabalho, uma volta rápida para constar se ainda havia problema, e o carro até parecia mais rápido em rotações altas.

Motores dois tempos não possuem anel raspador de óleo, já que o óleo misturado ao combustível é o responsável pela lubrificação, e se houver anel que raspe esse óleo, o motor irá se desgastar muito rápido. Há uma menor vedação, que favorece a potência em altas rotações, apesar de perder em baixa.
O Bob Sharp me explicou que os DKW de corrida utilizavam pistões especiais, com canaletas para apenas dois anéis. Nos carros de rua eram três.
Dessa forma, meu pai ficou com um Vemaguet "preparado" por acaso, e utilizou o carro por mais de um ano, até que o vendeu para um amigo. Este, notório por abastecer o carro com gasolina e a si próprio com combustíveis destilados do malte e da cana-de-açúcar, utilizou o carro por um certo tempo, até que numa noite fez uma incursão a uma obra do Metrô paulista, no bairro de Vila Mariana, onde hoje é a estação Ana Rosa.
Após esse fora-de-estrada involuntário, não ouvimos mais falar de nosso ex-primeiro carro.
Mas aquele porta-malas e o ruído ardido são inesquecíveis.
JJ

10 comentários :

  1. Não sabia que nos motores DKW de competição era retirado um dos anéis de compressão. Aliás, quanto mais leio o AUTOentusiastas, mais me convenço que conheço cada vez menos de carros...

    Por isso que vivo "com o nariz enfiado" neste blog! Como disse o mestre Mahar, já me fizeram a pergunta: "Mas é só por carro que você se interessa?". Não, claro que não. Também gosto de aviões, foguetes, trens... hahaha!

    Mas isso que era interessante nos motores antigos. Mesmo mais rudimentares, muitas vezes com baixa eficiência, aceitavam, porém, muito mais "desaforos" que motores modernos.

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  2. Road Runner,
    é isso mesmo. Quanto mais lemos e conversamos, mais aprendemos. Eu também nunca imaginaria que um anel a menos era uma receita de preparação para esses motores. Graças ao Bob aprendi mais uma.

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  3. Foi o meu primeiro carro em 1979,uma Vemaguete 62 bem surrada, eu a usava para ir na Escola Técnica todos os dias..ou quase , como era relação curta ( O Bob pode confirmar,cambio longo só as 59 e as 67) e juntando com o meu pezinho, uma vez por mes eu engripava o motor dela , sempre tinha um motor de reserva em casa, trocava-o em menos de 2 horas sozinho,depois que eu enriqueci a mistura gasolina- óleo (era 40x1 e passei a usar 35x1) e aprendi a regular a mistura do Solex CB40 (deixava muito " fino" o ajuste), o motorzinho começou a suportar melhor o pé na tabaca,hehehehe.Como era divertido dirigir aquele carro, tinha uma curva de alta de 180 graus na saída da Ilha do Governador apelidada " curva da Pan Am (aonde ficava o galpão da companhia) que eu tomava de quarta,espetava a terceira e a fazia de pé embaixo, com a traseira da perua apontada para o lado externo e os Spalla de Sicurezza chiando igual mulher de malandro pega no flagra,hehehehe, tenho saudades da peidorreira, se achar uma boa vai pro acervo....

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  4. JJ,

    Essa retirada de um anel de somente um cilindro não seria prejudicial ao balanceamento do motor?

    Maluhy,

    Coitado do veículo com um apelido desses.

    Porém imagino os porquês do apelido, com uma mistura de 35:1. Hehe... Até o pessoal de Pirassununga deviam competir com ela. :)

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Belo post!

    Abraços!

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  7. Mario Henrique06/09/09 23:46

    Na minha infância, uma tia tinha uma destas, na qual muito passeamos.
    Naquele porta-malas, cujo vidro abria separadamente da tampa, nos divertíamos.
    E foi lá que descobrí o meu presente de Natal daquele ano, um Forte Apache!
    Incrível como naquela época, já havia modernidade em vários ítens, com banco bi-partidos, trava nas portas, etc.
    Ô Saudade!

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  8. JJ,

    Grande história!

    Dois tios meus tinham vemaguets também, tenho várias histórias com elas.

    E outro tio tinha um Fissore!!!

    MAO

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  9. Imaginem mandar um carro inteiro desse para o C4C , esses americanos tem mais é que tomar aonde as galinhas tomam.....

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  10. Prezado JJ e amigos.
    Só mais uma pitada de saudosismo. Essa Vemaguet 64 1001 aí da primeira foto é o primeiro carro do meu pai, comprado em julho/64 e pertence a mim, atualmente. A foto foi tirada na cidade de Virgínia (MG), pelo Flávio Gomes, em passeio de DKWs que fizemos entre Pouso Alto e Virgínia, em 2007. Já a segunda foto é do interior de outro carro, certamente uma Vemaguet também, porém de modelo mais antigo. Caso o JJ queira recordar da Vemaguet de sua infância, tenho fotos do interior da minha, estão à disposição.
    Abraços
    Augusto Freire - Brasília (DF)

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