CAMINHO DO MAR (E DO AUTOMÓVEL)

Rua Marechal Deodoro, 1895

Acordei cedo hoje: são exatamente 2 horas da manhã. Há um silêncio sepulcral no centro de São Bernardo do Campo, a capital brasileira do automóvel. Cai uma chuva fina e não há sequer um carro na rua fazendo aquele barulho típico de rolagem em asfalto molhado. Tenho mais duas ou três horas de sossego absoluto, até que os primeiros pássaros e ônibus comecem sua cantoria.

Para mim, é a melhor hora do dia para se trabalhar: as ideias fluem, o raciocínio é rápido e a criatividade surge, aguçada por uma caneca de café acompanhada do primeiro cigarro do dia. Ótimo momento para refletir sobre o papel do automóvel no desenvolvimento desta cidade.

A poucos metros daqui está a rua principal, Marechal Deodoro, que faz parte do antigo Caminho do Mar, rota que começava nas imediações da Avenida Paulista, cortava a Vila Mariana, o Ipiranga e a Vila das Mercês. Chegava em São Bernardo (que ainda não era "do Campo") no bairro dos Meninos. Dali descia para o centro da cidade (onde hoje é a Marechal Deodoro), cruzava o planalto nos rios Grande, Pequeno e das Pedras e aí então começava o trecho de serra até Santos.

Foto: Alfredo Gastone Tisi Neto

Caminho do Mar, 1910

O Caminho do Mar foi principal rota entre a capital e o porto de Santos até 1867, data de inauguração da estrada de ferro São Paulo Railway. Mesmo com os esforços de Nicolau José de Campos Vergueiro (filho do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro), o Caminho do Mar logo caiu em desgraça, ficando praticamente abandonado até o início do século XX. São Bernardo do Campo viveu então um período de estagnação que durou décadas, ao contrário da vizinha Santo André, que fazia parte da nova rota ferroviária.

Conta a história que no começo do século XX o Dr. Arthur Rudge Ramos, então delegado de polícia na capital, retornou de uma viagem à Argentina, acompanhado de visitantes do referido país. Desembarcando no porto de Santos, estes fizeram questão de conhecer a capital, mas não puderam fazê-lo, pois o trem já havia partido e não existia outra rota de acesso, situação que deixou o Dr. Rudge Ramos um tanto constrangido.

Proprietário de uma extensa área na Vila dos Meninos (bairro hoje conhecido como Rudge Ramos), o então delegado tomou a iniciativa de restaurar o Caminho do Mar. Tirou dinheiro do próprio bolso, pediu ajuda a diversos amigos e arregaçou as mangas na difícil empreitada.

Foto: Alfredo Gastone Tisi Neto

Caminho do Mar, 1910

Entre os anos de 1913 a 1916, a então "Estrada do Vergueiro" (em reconhecimento aos esforços de Nicolau José Vergueiro) foi devidamente limpa e teve seu solo estabilizado, com a implantação de um pavimento de macadame com sistema de drenagem. Surgia ali o embrião da SP-148, hoje carinhosamente chamada de "Estrada Velha de Santos". Agora já era possível ir de Santos até a capital em um automóvel, sobre uma estrada moderna e eficiente.

Em virtude dos serviços prestados, o Dr. Rudge Ramos tornou-se Diretor do Serviço de Trânsito de São Paulo. Casado com Orlandina Calogia Rudge Ramos, teve uma filha, Lavínia Rudge Ramos, que posteriormente seria esposa de Lauro Gomes de Almeida, então diretor do departamento jurídico de um frigorífico em São Paulo. Em sua homenagem, a Faculdade de Engenharia Industrial batizou o protótipo esportivo X-3 de Lavínia, em 1970.

A capital do automóvel

A rua Marechal Deodoro continou a fazer parte da rota Santos-São Paulo até 1947, data em que foi inaugurada a primeira pista da Via Anchieta. Tornou-se, da noite para o dia, em uma rua pacata, quase sem movimento. O fantasma da estagnação econômica causada pela São Paulo Railway em 1867 voltou a assolar a cidade, já que os paulistanos não passavam mais pelo centro de São Bernardo em seu caminho para o litoral.

Para complicar ainda mais as coisas, São Bernardo agora era "do Campo", graças à sua emancipação em 1944, liderada pela influência do banqueiro Wallace Simonsen junto ao governo federal. Em represália à emancipação, Santo André retirou de São Bernardo praticamente tudo o que pôde carregar: carros oficiais, tratores, máquinas e até mesmo móveis das repartições públicas. A pequena São Bernardo (agora "do Campo") vivia um momento político agitado no final da década de 40.

Foi nesse momento político que o Dr. Rudge Ramos indicou seu genro, Lauro Gomes de Almeida, para a candidatura à prefeitura da cidade. Lauro Gomes estava na França, em uma viagem de negócios e só chegaria à cidade duas semanas antes do pleito. Homem elegante, de compleição física avantajada, chegou à cidade em seu Dodge Kingsway, acompanhado do inseparável charuto. Trouxe consigo carisma suficiente para vencer as eleições e tomou posse em 1951.

Administrador competente, foi o responsável não apenas pela reurbanização de São Bernardo como também pela ampliação de seu parque fabril. Na data de sua posse já estavam em São Bernardo do Campo a Varam Motores (que montava caminhões Nash e automóveis Fiat) e a Brasmotor (responsável pelos primeiros Volkswagens montados no Brasil).

Varam Motores, 1948

Lauro Gomes trouxe o que faltava: Volkswagen, Willys-Overland, Mercedes-Benz, Karmann, Toyota, Simca e Scania-Vabis. Quando os investidores estangeiros vieram conhecer São Bernardo, a ordem do prefeito era bem clara: todos os funcionários públicos da cidade que tivessem um automóvel deveriam subir e descer a rua Marechal Deodoro, para impressionar os executivos da indústria automobilística. A gasolina ficava por conta do prefeito (e não da prefeitura, como costuma ocorrer hoje).

Aos olhos de Lauro Gomes, São Bernardo deveria parecer moderna, agitada, pronta para atrair investimentos e se tornar a capital nacional do automóvel. Batalhou pela criação da Escola Técnica Industrial (hoje Escola Técnica Estadual) que leva seu nome e doou um terreno ao Serviço Nacional da Indústria (Senai), escolas indispensáveis na formação de mão de obra qualificada para a indústria automobilística. O fantasma da estagnação econômica de 1867 não voltaria a assolar a cidade tão cedo.

O desenvolvimento da indústria automobilística em São Bernardo tornou Lauro Gomes um político respeitável: elegeu-se deputado federal em 1954, voltou à prefeitura de São Bernardo do Campo em 1960 e conquistou a prefeitura de Santo André em 1963. Falece em 20 de maio de 1964, impopular e temendo ter seus direitos políticos cassados, longe da capital do automóvel que ajudou a criar.

Foto: Beltran Asencio

Rua Marechal Deodoro, década de 50

Ouvindo o ruído dos carros na Via Anchieta, fico feliz em compartilhar essas histórias com vocês. Foi pelo antigo Caminho do Mar que se fez São Paulo e se tornou grande o Brasil: com pneus correndo sobre a primeira estrada asfaltada da América Latina, passando pela capital da indústria que motorizou os brasileiros.

FB

18 comentários :

  1. Bitu,

    Que belo texto! A história é muito importante para entendermos os fatos atuais e a "bravura" de pessoas que fizeram a diferença.
    abraço

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  2. Bob e Thiago

    Dá pra imaginar que a rua Vergueiro, que começa na Liberdade e termina na Anchieta, faz parte do antigo Caminho do Mar?

    Em São Bernardo do Campo houve uma confusão na década de 60 e creditaram a manutenção da estrada ao pai de José Vergueiro, o Senador Vergueiro, nome desta avenida até a presente data.

    Na rua Marechal Deodoro, em frente à praça Lauro Gomes resta um dos marcos do traçado original, feitos em pedra, que indicava a distância (20 Km) até a praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo.

    FB

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  3. Que texto bacana! Gosto muito de saber um pouco da história por detrás das coisas. E bons tempos aqueles, em que havia várias pessoas bem intencionadas na política, visando o bem de todos.

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  4. FB,

    Sensacional, parabéns. Muito, mas muito legal mesmo seu relato histórico. Nota 10.

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  5. Belíssimo texto, FB!

    Esta região entre Santos, Cubatão e ABCD paulista, possui bastante história sobre transporte no país.

    Para as pessoas que não conhecem, fica a dica de visitarem o Parque Caminhos do Mar. Uma descida a pé de aproximadamente 4 km, até o pé da serra (atrás dos tanques da Petrobrás), já quase na praia... Muitíssimo bacana o passeio, principalmente porquê ali, como disse FB no texto, passou os primórdios da história automotiva tupiniquim.

    Mais uma vez, parabéns pelo texto, Bitu!

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  6. Fale ressaltar, que a família Rudge Ramos, teve vital importância na Fundação Educacional Inaciana (FEI), pois se não me engano, eles doaram parte do terreno aos Padres Jesuítas que fundaram a Instituição, naquele fim de mundo do São Bernardo...

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  7. Que beleza,FB, maravilha de texto e fotos,ano passado teve a comemoração dos 10 anos da primeira viagem de carro, fizeram um passeio do RJ até Santos e desceram pela Estrada Velha, eu fui de S90 Cabriolet até o Clube dos 500 , se vc pesquisar no site a foto no 500 mais engraçada é a minha, vamos ver se vc acha,hehehehe,mas tem várias fotos do passeio completo ( http://www.autoclassic.com.br/centenario_automovelclube_cobertura.asp), parabéns pelo post!

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  8. FB,
    bem bacana a história. A Rua Vergueiro é realmente uma incógnita para quem não conhece tudo o que você escreveu. Muito bacana entender melhor porque existem lugares pelos quais passamos na correria.
    Que legal ! parabéns.

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  9. FB, parabpen pelo belo texto.

    Nada como uma boa madrugada pra servir de inspiração! A melhor hora do dia!

    Muito bom saber sobre a história de São Bernardo, lugares que vira e mexe to lá. Só que quase nunca a gente para pra pensar em cada rua, seu nome, seu significado, sua importância...

    E os prédios da FEI, além da designação por letras, convencional, tem como nome dos prédios Lavinia Rudge Ramos e Lauro Gomes nos blocos principais onde são as aulas.

    Abraços

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  10. Felipe Bitu, parabens cara, muito bom esse seu texto. Muito bom saber mais sobre a cidade em que estudo e passo 2/3 dos meus dia úteis e inuteis tambem.

    Lendo o texto assim como o "VamoDoido" me identifiquei e lembrei dos nomes citados, muitos batizam os prédios da FEI.

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  11. Arnaldo Keller24/09/09 23:31

    Parabéns, Bitu!

    Valeu ter ficado acordado pela madrugada.
    Como é bom ter momentos sem que nos encham o saco, nos peçam algo.
    Sua escrita pareceram pinceladas de mestre, Parabéns!
    A Varam era do meu tio-avô, o Varan Keltenedjian, armênio.
    Milionário, os filhos, uma porrada de filhos, nunca trabalharam na vida e são ricos até hoje.

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  12. Felipe, parabens pelo texto.

    Gostaria de dar uma sugestão:Porque você não coloca no Google Maps o traçado original da Vergueiro / Caminho do Mar ? Seria muito interessante.

    Novamente parabéns pelo texto

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  13. Caríssimos, muito obrigado!

    Quanto à FEI, já faz um bom tempo que estou desligado da instituição e não me ative a este detalhe.

    Anônimo: não creio que seja possível refazer o trajeto original, graças à conurbação entre os municípios. Mas posso pesquisar.

    FB

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  14. Impressionante a quantidade de FEIanos que nos lêem nesse blog.
    Muito legal.

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  15. Felipe, excelente história! Eu como um morador de SBC ("batateiro"), que morou anos em Rudge Ramos e na FEIano, não conhecia a história neste nível de detalhes. Aliás, linda foto da fachada da Varam / Nash motors que vc postou (faz tempo que procuro fotos das fachadas das indústrias daqui nos anos 50 e 60).
    Parabéns!

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  16. Parabéns pelo belísssimo texto, Bitu! Uma boa e bem elaborada aula sobre as origens, ou melhor, sobre o "renascimento" de nosso município.

    Grande abraço!

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  17. Ótima matéria. Seria , na última foto, a esquerda, a igreja de Santa Filomena? Alguém saberia me dizer?

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