ADAC 24 HORAS RENNEN NÜRBURGRING – A CORRIDA MAIS DIFÍCIL DO MUNDO


Entre os dias 19 e 20 de maio, o circuito de Nürburgring recebeu mais de 170 carros. Todos estes aventureiros estavam inscritos no evento oficial mais esperado do ano na Alemanha, s 24 Horas de Nürburgring. O nome oficial da prova é ADAC 24Hs Rennen Nürburgring, onde ADAC (Allgemeiner Deutscher Automobil-Club) representa o autoclube europeu de maior importância, e organizador da prova.

Este ano, quem levou o troféu para casa foi um Mercedes-Benz SLS AMG, similar aos modelos da GT3 que correm aqui no Brasil. Por incrível que pareça, esta foi a primeira vitória de um Mercedes no evento que carrega anos de tradição.

Provas de longa duração não são novidade alguma, este próprio evento alemão tem sua história, mas podemos dizer que é um caso à parte, diferente de todas as outras corridas similares.
 
O Mercedes-Benz vencedor de 2013


Le Mans é a mais tradicional prova de endurance (longa duração) do mundo, não há dúvida, mas o desafio em Nürburgring é muito maior. Por quê? Pelo simples fato do circuito ter nada menos que 20 km de extensão. Imaginem disputar uma corrida de 24 horas de duração onde se completam apenas 150 voltas, aproximadamente. Para comparação, a edição de 2012 foi concluída com 155 voltas, enquanto que Le Mans terminou com 378 voltas no mesmo ano.

Esta incrível corrida foi criada em 1970, e sempre foi dominada pelos nativos germânicos. Desde a primeira edição, quando o BMW 2002 Ti de Hans-Joachim Stuck e Clemens Schickentanz venceram, pilotos e carros da Alemanha se destacam. A tradição de ser uma pista aberta ao público, nos dias de hoje, facilita bastante o conhecimento do traçado.
 
Alfas na primeira edição da corrida, em 1970
Quem já andou em um autódromo sabe quem decorar todos os pontos de trajetória, marcha ideal e ponto de retomada não é uma tarefa simples. Mais de cem curvas, todas parecidas e praticamente sem referências visuais ao redor da pista não ajudam em nada, mesmo para pilotos profissionais.

Jackie Stewart deu o apelido de Inferno Verde ao Trecho Norte (Nordschleife) do autódromo, ou seja, ao trecho da pista antiga que completa os mais de 20 km do traçado, juntamente com o trecho moderno que é usado na F-1, tamanha era a dificuldade da prova.

Um pequeno Peugeot no meio de grandes GTs
 
O Rali Dakar provavelmente é mais perigoso, mas é um outro estilo de corrida, em terreno aberto e ambiente não controlado. Para não misturar muito as coisas, vamos ficar com as corridas “on-road”.

Um fato curioso sobre esta corrida é que a organização assumidamente favorece os pilotos semi-profissionais, para não chamar de amadores. Como a pista é grande, aproximadamente 180 carros participam da prova. Cento e oitenta carros, é a mesma coisa que cinco vezes e meia o grid que larga em Indianápolis.
 
O belo Aston Martin 007, um dos favoritos da corrida


Apenas carros do tipo GT (grã-turismo) e sedãs são permitidos na prova, nada de protótipos como em Le Mans. Isto favorece muito a inscrição dos semiprofissionais, pois não é qualquer um que consegue comprar um protótipo, mas a grande maioria consegue preparar um carro de rua para a corrida.

Dentre estes mais de cem inscritos, diversas categorias abrangem um grande número de carros, variando entre tipo de carroceria, motor, combustível etc. Poucos eventos permitem tamanha abertura aos pilotos como este. Como falamos, o vencedor deste ano pela primeira vez na história, foi um Mercedes-Benz. O carro número 9 conduzido pelo experiente piloto de turismo Bernd Schneider e seus companheiros (Jeroen Bleekemolen, Sean Edwards e Nicki Thiim) é um modelo SLS AMG GT3.
 
O Audi R8 LMS GT dominou boa parte da corrida, mas não conseguiu superar a regularidade dos SLS
Ao longo dos treinos e da qualificação, os Audi R8 LMS ultra (R8 igual aos de rua e da nossa GT3, não confundir com o antigo protótipo de Le Mans, apesar do nome) eram favoritos. Lideraram por boa parte da prova, mas as dificuldades colocaram os Mercedes e BMW na frente.

Os germânicos são os primeiros no ranking de vencedores. A BMW lidera a tabela com 19 vitórias, seguida pela Porsche com 11. A terceira marca é a Ford, com cinco vitórias, nem metade do que a Porsche já ganhou.

O famoso pulo de Nürburgring, em alta velocidade
Falando em dificuldades, a corrida deste ano foi interrompida por quase nove horas devido à forte chuva que caiu durante a madrugada. Correr em um autódromo com chuva já é complicado, no Inferno Verde e ainda no escuro, não é para qualquer um. Veja o vídeo abaixo de uma volta a bordo de um 911 RSR, com a câmera montada no capacete do piloto. Dá para entender bem porque pararam a prova por causa da chuva.


A pista é estreita, em alguns trechos não passam três carros lado a lado. Os carros mais rápidos freqüentemente encontram os retardatários e precisam achar uma brecha para passar com segurança. Como a pista praticamente é uma enorme seqüência de curvas com poucas retas, passar com segurança geralmente não é uma opção.

Não quero nem pensar no dia em que o pessoal da FIA resolva dar uma espiada nesta corrida. Vão querer modificar todas as curvas, colocar área de escape, brita, grama e muros especiais revestidos com travesseiros de pena de ganso. Hoje o circuito de Nürburgring é o que é pelo fato nunca ter sido penalizado em prol de segurança. O máximo que fizeram foi colocar as proteções ARMCO, ou os nossos conhecidos guard-rails, pois antes se você errasse a curva, caía no meio do mato ou batia em uma árvore.
 
BMW Z4, segundo colocado na classificação geral
O trecho moderno da pista, que é usado para F-1, é um exemplo de modernidade e segurança, mas nem por isso alteraram o antigo traçado. Quem anda lá sabe do risco que corre, e corre porque quer. É mais ou menos como o Tourist Trophy da Ilha de Man, no motociclismo. É perigoso ao extremos, o número de inscritos é alto e o público maior ainda. Ao longo de todo o traçado, sempre vemos uma cabaninha ou um aglomerado de espectadores.

A 24 Horas de Nürburgring podem ser uma das últimas provas do automobilismo em que o espírito de uma corrida de carro fala mais alto que qualquer burocracia ou politicagem. Obviamente, não somos a favor de carnificina em corridas. O mínimo de segurança é necessário, para os pilotos, equipes e para o público. Mas automobilismo é um esporte de risco, e o fato de não tentarem tesourar a esportividade em prol da segurança conta muito.  Os carros de hoje em dia também são bem mais seguros que os de alguns anos atrás, e a chance de um acidente com conseqúências graves acontecer é bem menor.

Falando em carros modernos, alguns fabricantes utilizam esta corrida como laboratório de testes. Veja o carro número 100, é um Aston Martin. Até ai, nada demais, mas é um Aston Martin Rapide, o sedã de luxo da marca que concorre com o Maserati Quattroporte. Mas ainda é um Aston Martin Rapide S Hybrid, com tecnologia de motorização híbrida ainda em desenvolvimento.
 
O Aston Martin Rapide híbrido, pilotado pelo presidente da Aston Martin
Devido ao grande esforço que um carro sofre nesta pista, com tantas condições diferentes de uso, isto fornece dados importantes para os engenheiros. Detalhe interessante: um dos pilotos deste Aston chama-se Dr. Ulrich Bez, também conhecido como presidente excecutivo da Aston Martin. Sim! O chefão da empresa está correndo com o carro de testes!

Novamente, poucas corridas no mundo permitem tamanha diversidade. De Audis e BMWs de última geração, passando por carros de teste de fábrica com alto executivo pilotando, até modelos mais antigos participam da prova, como um belo 190E Evo, provavelmente um antigo carro de DTM adaptado para a corrida de longa duração.
 
O veterano 190E Evo
Já tivemos dois brasileiros vencendo esta corrida, o Augusto Farfus em 2010 de BMW M3 GT2 e o Antônio Hermann em 1993 com um Porsche 911 Carrera da Konrad Motorsport.

Enquanto esta corrida sobreviver, existe um fio de esperança de que nem tudo no mundo será burocratizado e regulamentado com regras incompreensíveis e complicadas, que aos poucos acabam com a graça do esporte a motor. Isto é automobilismo do mais puro teor em um lugar mítico.

Just drive all day and night as fast as you can”, como diria um chefe de equipe para seus pilotos, simples assim.
 



MB

Fotos: Speedhunters, ADAC, supercars.net

25 comentários :

  1. Corsário Viajante28/05/13 12:06

    Obrigado pelo post, alegrou meu dia...
    E este chefão da Aston hein... Capturou bem o espírito da coisa, pelo jeito.

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  2. Incrível post, obrigado!

    E o piloto teve que trabalhar pra manter o Porsche na pista hein... Pilotou muito.

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  3. Engenharia germânica na dianteira só pra variar...

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  4. Eu já vi algumas reportagens sobre as 24 horas de Nürburgring, mas não sabia de certos detalhes da organização.
    E quanto ao Dr. Bez, ele tem todo o meu respeito. As grandes corporações precisam de um entusiasta como ele no comando.

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  5. Engenharia automobilística germânica - quase uma redundância.

    É a típica corrida que para 90% dos inscritos pouco importa sua posição de largada ou de chegada. A simples participação é o que conta.

    Obrigado pelo post Bob, excelente.

    E que trabalho pra manter o Porsche na pista...

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    1. Marcelo28/05/13 15:36" É a típica corrida que para 90% dos inscritos pouco importa sua posição de largada ou de chegada. A simples participação é o que conta."
      Então não é mais corrida...

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  6. Que corrida. Que corrida !!!!!!

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  7. STR - Save the Ring.
    Maravilhoso circuito e super ameaçado de desaparecer, quem puder de uma olhada no site, http://savethering.org/
    Lá tem explicação para o problema e links para quem apoia a causa em prol da manutenção do anel.
    Tenho amigos na Alemanha que me convenceram que aquilo lá também é meu, é de todos que gostam do esporte a motor, cada apoio dado, cada clique "gostei" esta sendo usado para convencer de que não somos tão poucos assim.
    SAVE THE RING
    Acosta

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  8. Já ia me esquecendo.

    Neste endereço (http://savethering.org/)também tem uma "petição" para ser assinada, tem somente pouco mais de 27 mil "assinaturas", muito pouco, muito pouco mesmo.
    Acosta

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  9. Sem cansar de repetir: "Deustchland über alles", não descrimino ninguém, mas quando estes caras gostam e querem fazer uma coisa bem feita, eles o fazem....

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  10. Texto delicioso de se ler! Vida longa para Nürburgring Nordschleife, a mais pura expressão do termo "Onde os fracos não têm vez!", coisa para entusiasta de verdade, para quem gosta mesmo de automóveis e automobilismo.

    Se durante o dia já não é fácil andar forte pelo desafiador traçado, imagine então à noite e com chuva, tendo ainda que dividir espaço com outros 179 carros no local!

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  11. Daniel San28/05/13 19:35

    Só fico imaginando como seria se ainda tivéssemos o Circuito da Gávea,que,mal comparando tinha lá suas semelhanças com Nurburgring. Dá água na boca de vontade de andar num circuito desses!

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    1. Daniel,
      O circuito, traçado do Circuito da Gávea estão intactos. Teoricamente poderia ser feita uma corrida lá. Teoricamente, porque a favela tomou conta de toda a serra.

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  12. Claudio Fischgold28/05/13 19:53

    O que mais impressiona é a quantidade de referências para tomada de curva. O asfalto embaixo e o céu em cima (tomara !!!).

    Claro, save the ring.

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  13. Bom mesmo seria se ainda existissem a variante Sul de Nurburgring (Sudchleife) ou o circuito antigo de Interlagos. Aliás, no caso do circuito paulista, foi um verdadeiro crime destruir o antigo traçado, que poderia tranquilamente coexistir com o atual.

    Agora, 23 km de circuito são decoráveis. Jackie Ickx foi considerado um dos 'reis' de Nurburgring por memorizar bem as várias curvas do traçado. Mas se vc anda frequentemente, vc consegue decorar. Consigo reproduzir todas as curvas e retas dos 283 km entre o Rio e Campos dos Goytacazes, na BR-101. E antigamente podíamos fazer esse percurso sem frear uma vez sequer...

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  14. Milton Beli, somente queria tirar uma dúvida aqui...
    Então na sua concepção a curva Tamborelo não deveria ter área de escape, caixa de brita entre outras coisas pois seria "frescura" e coisa de "anti entusiasta"?
    Antes os cartolas tivessem sido "frouxos" e tivessem mudado e talvez teríamos ainda o Airton Senna e Ratzenberger vivos...
    Se não mudar o trajeto creio que a dificuldade continua a mesma, afinal de contas a corrida é disputada dentro da faixa de asfalto e não no seu exterior, acho que o fato do piloto sair do trajeto já é "morte" e penalidade suficiente para ele, não precisa chegar a vias de fato.
    Agora se dizer que na formula 1 (ou qualquer outra prova de automobilismo) carro sem cambio mecanico e alguns gremlins é frufru daí então tem meu total apoio!
    Belo post, tirando essa divergência de opinião.
    abs
    Felipe

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    1. Felipe,
      Se fossem adequar todos os pontos de risco do circuito, seria mais fácil destruir tudo e fazer de novo. Nürburgring não permite isso, o terreno não permite.

      Em outros circuitos do mundo, como Imola, fizeram alterações depois que o problema aconteceu, assim como a chicane que colocaram em Interlagos depois do acidente da Stock Car. É remendo, não solução.
      Se for para modificar todas as curvas em que se pode ter um acidente grave, é mais fácil fazer tudo de novo.

      O risco existe em todo lugar. Ronnie Peterson morreu na reta, não dá para mudar uma reta para ela ficar mais segura. O fato é que o risco está ai, diante de todos, e todos estão cientes do que estão fazendo. Como eu disse, eu sou contra criar riscos desnecessários, mas deixar uma pista menos desafiadora por conta disso, é de se pensar caso a caso.

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    2. Milton Belli29/05/13 12:58 Concordo ,Ronnie Peterson faleceu por causa de um juiz de prova aloprado.

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    3. O risco faz parte do esporte a motor. E da vida também. Automobilismo sem risco é enfadonho...

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  15. http://www.youtube.com/watch?v=2o96xcZtaVI

    falando em nurb um vídeo do augusto Farfus e sua mulher no inferno verde

    Reparem na tranquilidade da tocada do cidadão

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    1. "NINHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO"

      Esse vídeo é muito bom hahahahha

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  16. Junior Antonini29/05/13 10:13

    Se Ayrton e Ratzenberger desejassem ficar livres do risco de morrer na F1, nem teriam entrado. Cada uma...

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    1. Junior Antonini29/05/13 10:13 Concordo com você,Nelson Piquet disse uma vez :"quer uma carnificina maior do que o transito brasileiro",goste dele ou não é verdade o que ele disse.

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  17. Falando de compromisso da marca com o esporte, mesmo que amador. Aqui em Brasília a FIAT tem pago 50% do valor de inscrição nos eventos de track day para quem anda de FIAT ou Alfa. Pode ser até de 147 que está valendo. Achei muito legal o apoio além de uma boa estratégia de marketing, pois o pessoal que está andando de fiat no autódromo estará influenciando toda a família e amigos nas escolhas de carros e ainda tem a cobertura do evento que acaba clicando vários FIATs e espalhando suas fotos pelos blogs. Tudo a um custo muito baixo.
    Estão de parabéns pelo apoio. Tem até camiseta com propaganda da marca para os inscritos e pessoal do clube.

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    Respostas
    1. que bacana hein Giovanni, parabéns a FIAT pela iniciativa.
      www.V8nFUN.blogspot.com

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