Recriação de um recordista. Impressionante! |
Pouco se conhecia sobre redução de peso e melhoria da aerodinâmica quase um século atrás. Mesmo nas tentativas de quebras de recordes de velocidade era assim. Havia de sobra o elemento mais importante de todos, a vontade humana, mas o conhecimento técnico estava ainda muito restrito. Não era farto o material a ser copiado, então, tudo era tentado e criado. Em português simples, se atirava para todo lado.
Compensava-se a necessidade
de mais velocidade com mais motor, basicamente. E isso significava motores
maiores, maiores e maiores. Esses carros
tinham cofres enormes, com capôs compridos, já que o motor com cilindros em "V"
ainda era de difícil construção, principalmente pela tecnologia de fundição existente e pelas máquinas de usinagem e medição de precisão. Nos
motores com configuração em "V", normalmente os cilindros eram peças separadas do
bloco principal, o que de cara já limitava a taxa de compressão.
Na França e em outros
países, os carros grandes tinham normalmente motores em linha, mais simples
para o processo produtivo. O maior carro
da Renault, o 40CV, não fugia a essa regra. No início, em 1911, tinha motor de
seis cilindros em linha de 7.541 cm³, com válvulas laterais e bloco de
alumínio, alimentado por três carburadores de corpo duplo de fabricação da
própria Renault. As suspensões eram as primitivas de eixo rígido na dianteira e
traseira, com feixes de molas semi-elípticas.
Esse modelo era o CG. Consistia apenas
do chassis com a mecânica, condição na qual era quase sempre liberado para o
comprador, que se encarregava de levá-lo a um fabricante de carrocerias. Pesava
1.750 kg, com um entreeixos de 3.743 mm.
O câmbio de quatro marchas
também mostrava que a Renault se importava com tecnologia, pois duas ou três
marchas era o normal em quase todos os carros, notadamente os de motores
grandes, onde a potência era abundante mesmo em baixas rotações, não fazendo
obrigatório o uso de muitas marchas para um bom desempenho.
O motor ficava à frente do
radiador, daí as aletas na parte posterior da cobertura do motor. A comparação com bons carros da época dá a
medida. O carro tinha 140 cv, enquanto um Dodge de seis cilindros de 53 cv era considerado como suficientemente potente. O
nome 40CV refere-se à potência fiscal, prática também usada em outros países, cada um
com suas fórmulas, umas diferentes das outras. A potência fiscal francesa tem regras
que foram mudando ao longo do tempo, e consideraram diâmetro dos cilindros e curso de
pistões, quando era mais fácil de relacionar potência fiscal com potência real,
embora apenas proporcionalmente, depois passando a considerar rotação máxima de
motor, e mais recentemente, como não poderia deixar de ser, o nível de emissão
de poluentes. O objetivo é apenas taxar de forma proporcional
aos parâmetros relevantes para cada fase da história. Me parece mais justo que o sistema brasileiro de cilindrada apenas, com pequeno ajuste para o combustível, gasolina ou álcool, flex inclusive.
Desde o começo o 40CV foi
veloz, com a versão inicial podendo atingir algo próximo de 140 km/h, numa época em que só
marcas do calibre de um Duesenberg, Isotta-Fraschini, Hispano-Suiza e Bugatti eram capazes de alcançar essa velocidade.
A propaganda enaltecia velocidade |
Nesse tempo as exigências
dos clientes eram menores, e até carros que precisavam muita manutenção era
algo aceito pelo cliente, já que a novidade automóvel era encarada como uma máquina a ser celebrada. Muito diferente
de hoje, quando a maioria nem sabe abrir um capô. Uma vergonha da modernidade,
que acha que um carro não deve ser mais trabalhoso que um liquidificador, mas compreensível, já que a humanidade de uma maneira geral, está perdendo a graça.
Depois da Primeira Guerra
Mundial, o 40CV teve o motor aumentado para 9.120 cm³, e a isso se somou a introdução dos freios nas
rodas dianteiras, quando ainda muita gente do ramo ainda acreditava que freios só
deveriam existir na traseira.
Escapamento individual, nada de silenciadores |
Radiador escondido atrás do motor, note o diâmetro do tubo de saída d'água sobre o motor |
Para quem reclama de ergonomia de carros atuais... |
No começo de 1925, um
40CV de sete litros venceu o rali de Monte Carlo, uma grande façanha para um carro grande e pesado.
A propaganda usando corridas
estava a pleno, e para atingir velocidades dignas de registros na imprensa a
fábrica resolveu utilizar o 40CV para tentar recordes mundiais. Utilizar um carro original era uma bela estratégia, para que não se
fizesse nada muito diferente do que o cliente abonado pudesse comprar.
Em junho do mesmo ano, um 40CV sem nenhuma modificação bateu o
recorde de velocidade de 24 horas no autódromo de Montlhéry, com 141,003 km/h de média,
percorrendo 3.386 km. Os pilotos eram ambos engenheiros mecânicos, o francês
Robert Plessier e o americano J.A. Garfield. Isso despertou, no bom sentido, a ira da Bentley,
que vivia um momento de glória máxima com a vitória em Le Mans no ano anterior. Os britânicos conseguiram logo em seguida 153 km/h de média em 24 horas.
Louis Renault (1877–1944), ordenou a Plessier comandar uma
equipe de 14 pessoas e retomar o recorde dos ingleses, dessa vez com um modelo
NM de 9 litros. Dedicando-se muito ao
treinamento da equipe responsável pela manutenção, ganharam bastante tempo nas
paradas, conseguindo fazer a básica de abastecimento e troca de pneus em 45 a 50
segundos.
Foram dois carros preparados
incluindo a carroceria de Weymann, com um só lugar, pela pequena largura. Um
pouco de economia de massa era o capô em alumínio sem pintura.
Cobertura do motor em alumínio sem pintura, como bateu o recorde |
O outro carro preparado, com pintura |
Os 40CV eram entregues assim aos encarroçadores e clientes |
Simplesmente o carro acabou
com o recorde do Bentley. Os pilotos conseguiram cobrir 4.167 km a uma média de
173,949 km/h. Mais incrível ainda foram os 190,013 km/h numa distância de 50
milhas sob o comando de J.A Garfield, algo estupefaciente.
Infelizmente o tempo dos
monstros estava por acabar, com vários exemplos de carros rápidos e muito menores e mais leves. Talvez o maior
exemplo seja o Bugatti Type 35.
Só existem hoje dois
exemplares reais do 40CV. O carro azul das fotos é uma reprodução do detentor dos recordes de 1926, feita a partir
de um terceiro 40CV.
Andando num dos eventos de Goodwood |
JJ
Fotos: Globalcarbrands.com; enrenaulthistorique.com; picsearch.com; antiqbrocdelatour.com
Fotos: Globalcarbrands.com; enrenaulthistorique.com; picsearch.com; antiqbrocdelatour.com
190 km/h de média numa distância de 80 km nessa cadeira elétrica!!! Insano!
ResponderExcluirPensei exatamente a mesma coisa, 190 km/h nesse Renault 40 cv de briga, não era para qualquer um! Notável também esses carros conseguirem manter 24 horas de pauleira braba, com a tecnologia daquela época.
ExcluirAcho mais insano 4.167 km a uma média de 173,949 km/h. Será que isto está correto? Hoje já é difícil...
ExcluirJuvenal, acho mais justo cobrar imposto sobre deslocamento do que sobre potência. Isso estimula obter motores menores e mais eficientes, acredito.
ResponderExcluirBela história, desse carro. Curioso que a Renault já aplicava o conceito de identidade visual nessa época. Os modelos mais mundanos também tinham essa frente em cunha com curvatura característica. Exemplo emblemático é o Ranault que aparece no filme Titanic (aquele mesmo, dos vidros embaçados).
Marcos Alvarenga, pense que nem sempre o menor deslocamento é mais eficiente. Algumas boas soluções poderiam ser descartadas só por causa dos impostos. Que tal se a tributação levasse em conta apenas a eficiência?
ExcluirQue história incrível, não conhecia o 40cv "de briga", realmente eram tempos memoráveis com tais bestas motorizadas combatendo pelos recordes.
ResponderExcluirMFF
Mas nao havia a mínima segurança
ExcluirMuitos morreram em vão nessas "empreitadas"
"Bagulho-zuado"........
ResponderExcluirGostei !
Jorjão
O Juvenal sempre aparece com esses carros mais raros e exóticos, e eu curto muito.
ResponderExcluirAchei esse Renault muito bonito, imagino como ele deve ser arisco, um carro dessa época com tanta potência, a 190 km/h deveria estar no fio da navalha. Legal os engenheiros estarem o pilotando, a realização deles é algo incrível, participar do projeto de um carro de corrida, o pilotar e ganhar.
Animal o Renault de nove litros, JJ
ResponderExcluirGrande post!
MAO
Interessante a posição de destaque da buzina, impávida lá na frente do motor...
ResponderExcluirPoxa vida!
ResponderExcluirSe esse 40CV atingia 190km/h, meu fusca com 36CV atingiria 171Km/h!
E meu Chevette? 68CV a incrível marca de 323Km/h!!! Uau!
Vou comprar um Logan 1.0 16V. Com certeza matemática ele passará dos 350Km/h!
Oswald de Souza
Exatamente
ExcluirO Mr. Car tem um Logan e ele disse que passa fácil dos 300km/h
Mas nao sei se atinge 350km/h , eu acho que nao chega nisso tudo, nao....
40 cv é potência fiscal,sabe ler não?!
ExcluirLogan mal chega a 200....
ExcluirO cara e louco de dizer que chega a 300 e voce muito mais louco em acreditar nisso
E cada uma, que eu preferia ser cego a ler isso!
Oswald de Souza,.
ExcluirLendo seu comentário despertei para o fato de que o post é um forte argumento para encerrar uma velha discussão. Veja só...
O motor tinha apenas 40 cv, ou seja, aproximadamente a metade da potência dos carros 1000 cc atuais, e mesmo o carro pesando praticamente o dobro em comparação com os ditos populares de agora, a velocidade era bem maior. Por outro lado, considerando o tamanho do motor, estimo que o torque dos velhos Renault de 40 cv devia atingir mais de 25 kgfm, então não não é de se estranhar a velocidade dessa cadeira elétrica. Por fim a conclusão, para mim esse post põe fim na discussão de o que é que vale mais a potência ou o torque. Claro que é o torque. Alguém ainda duvida?
Não sei se vocês estão zoando, sendo irônicos ou falando sério, pois tá foda, viu...
ExcluirO cavalo referido, e que dava nome a um monte de carros da Renault, é o "Cavalo fiscal" que não equivale em nada a velocidade final, ou mesmo a potencia bruta ou liquida na saida do virabrequim. O resultado se dá por uma conta maluca que envolve numero de cilindros, deslocamento e... quer saber, melhor citar direto do texto:
"O carro tinha 140 cv, [...]. O nome 40CV refere-se à potência fiscal, prática também usada em outros países, cada um com suas fórmulas, umas diferentes das outras. A potência fiscal francesa tem regras que foram mudando ao longo do tempo, e consideraram diâmetro dos cilindros e curso de pistões, quando era mais fácil de relacionar potência fiscal com potência real, embora apenas proporcionalmente, depois passando a considerar rotação máxima de motor, e mais recentemente, como não poderia deixar de ser, o nível de emissão de poluentes. O objetivo é apenas taxar de forma proporcional aos parâmetros relevantes para cada fase da história."
É isso. Essa jabirca não possui apenas 40Cv assim como 2Cv apesar de ser lerdo como uma lesma (menos nas mãos de James Bond), também não possui 2Cv. É apenas uma variável usado pra cobrar imposto.
A cada dia mais gente comentando sem ler direito. E sempre com sarcasmo besta! Me desculpe Oswald de Souza, entendo que todo mundo cometa erros, mas seu comentário não trouxe nada de positivo. Santa paciência do amigo acima que explicou OUTRA VEZ (além do autor do post, Juvenal) o significado da potência fiscal. Só para ter certeza que todo mundo entendeu: o carro tinha CENTO E QUARENTA cavalos de potência. Coisa estupenda para a época em que foi fabricado. Tenho dito.
ExcluirJuvenal, muito bacana essas insanidades acima citadas!
ResponderExcluirUma dúvida que eu fiquei foi para que valor foi a potência quando houve o aumento para 9120cm³. Você tem esse dado?
Abração
Márcio Santos
Belíssimo post, daqueles de ir degustando acompanhado de uma xícara de café.
ResponderExcluirJJ,
ResponderExcluirBelo post, esses carros especiais fazem valer o passado de cada marca!
Tenho verdadeira paixão por esses carros mastodônticos, dos primórdios da história dos automóveis, justamente porque a tecnologia naquele momento era muito limitada. As coisas saíam na raça, na base da força bruta mesmo. Não que eu não aprecie motores eficientes, mas tem um quê de romantismo nesses primeiros carros especialmente desenvolvidos para quebra de recordes.
ResponderExcluirBem que o Schumacher disse certa vez que o que aquele pessoal fazia era algo insano,e que nem ele teria coragem de tirar o desempenho que aqueles caras faziam nesses carros. Quase 200 por hora num carro só com freios traseiros... Eu tenho que fazer uma reverência pra aqueles caras!
ResponderExcluir"PERFEITO" 40CV batendo 190 km/h , vi pessoas aqui falando mal, que anda a 180 km/h com fusca , Os caras chegaram a 190 km/h há 90 anos quando seu "vô" nem existia ainda, isso sem contar que ele devia pesar umas 2 toneladas, "Pena que o país em que moramos não se possa ter um carro V6/V8/V12. Para ter um tem que ser dono de posto, país de bosta cheio de imposto!
ResponderExcluirAmigos,
ResponderExcluiratenção. O carro não tinha potência de 40 cv no motor. Isso é potência fiscal, está explicado no texto.