CONVERSA DA PISTA

Pirelli vê sinal amarelo na F-1

Sem contrato garantido, o fabricante de pneus trabalha sem saber se continua na F-1 em 2014.

No México, cresce o interesse pela edição da Carrera Panamericana deste ano.




Horizonte da Pirelli na F-1 está aberto (foto Pirelli Media Gallery)


Silêncio da FIA cria situação bizarra, diz Hembery, da Pirelli


Paul Hembery é otimista, mas... (foto Pirelli Media Gallery)

A situação é tão simples quanto preocupante: a Pirelli segue costurando e fechando acordos com equipes e promotores mesmo sem ter garantias que continuará como fornecedor de pneus para F-1. A palavra que melhor descreve esse quadro é "bizarro" e foi exatamente essa a referência usada por Paul Hembery, o homem forte dos borracheiros italianos para a categoria, para comentar o assunto.

Segundo ele, quem está emperrando o andar da carruagem é a Federação Internacional do Automóvel (FIA), sem mencionar um detalhe tão sutil quanto importante: na primeira semana de dezembro realiz-se a eleição para um novo mandato de quatro anos. Sem citar nomes, ficou claro que a demora tem a ver com a possibilidade do atual presidente Jean Todt enfrentar uma chapa de oposição liderada por David Ward, atual líder da Fundação FIA e – tchatcham-tchaam-tchaaam – aliado de Max Mosley, presidente derrotado por Todt nas eleições de 2009.

David Ward admite lançar chapa de oposição (foto FIA Foundation)

Longe de praticar as regras básicas e rudimentares da teoria da conspiração, a vingança pode estar mais perto do que parece e a Pirelli pode se ver envolta em uma luta de egos, algo longe do inédito na F-1.


Jean Todt, atual presidente da FIA (foto FIA.COM)

Todt não é o tipo de parceiro que agrada a Bernie Ecclestone: os dois fazem o gênero “get things done” e a principal diferença entre eles é que o francês faz o gênero mandão e o inglês é direto sem ser indelicado, algo que digo por ter convivido e trabalhado com ambos, em particular o último. Além disso, Ecclestone é muito mais próximo de Max Mosley, cuja ligação com o automobilismo atualmente é o cargo de presidente mundial da NCAP, entidade que pesquisa e trabalha pela segurança dos automóveis.

Quem vota na presidência da FIA são os líderes das entidades por ela reconhecidas, lista que inclui três representantes brasileiros: Confederação Brasileira de Automobilismo, Car Club do Brasil e Associação Automobilística do Brasil, entidades comandadas, respectivamente, por Cleyton Pinteiro, Joaquim Cardoso de Mello e Tamas Rohony.  Caso Ward realmente saia com uma chapa de oposição, o fiel da balança brasileira seria Mello: Pinteiro votará seguramente em Todt por questões que transcendem o automobilismo e tocam na origem dos antepassados de ambos e Rohony certamente votará em Ward por suas ligações com Ecclestone e, conseqüentemente, Mosley.

E a Pirelli com isso? A F-1 é a principal fonte de receita da FIA e, ironicamente, a que tem maior autonomia frente naquela que Chicão – o simpático locutor de várias provas de automobilismo brasileiro - chamaria de “entidade mater do automobilismo mundial”. Aos borracheiros de La Bicocca interessa estar bem com quem manda na F-1, mas como várias categorias mundiais menos conhecidas usam seus produtos, não é astuto ir contra o status quo. Nunca é demais lembrar que os italianos são de longa data associados a Ecclestone, que em seus tempos de dono da Brabham abriu mão da competitividade da equipe para permitir o desenvolvimento desses borrachudos e... e vários outros produtos italianos.

Os “se” e “mas” são inúmeros nesta batalha até agora travada nos bastidores, mas o desabafo de Hembery tem muito a ver com a demora em definir um contrato que afeta a principal categoria do automobilismo mundial.

“É uma situação das mais bizarras. Temos um acordo com a maioria das pessoas envolvidas, já acertamos com equipes e promotores e estamos trabalhando para 2014... mas o processo (de renovação) ainda não está claramente definido.”

Enquanto isso na sala ao lado...


Valencia não terá mais F-1 (Pirelli/Andrew Ferraro)

A cidade de Valencia, que nos últimos anos recebeu a F-1 em um circuito de rua de fazer tremer muita gente no Principado de Mônaco, está fora do calendário de 2014 da F-1. A recessão européia, que chegou ao país ibérico com a intensidade da febre espanhola, é a principal causa disso. Não bastasse perder o GP para a Catalunha – a corrida espanhola vai acontecer novamente em Barcelona –, a prefeitura local agora deve arcar com a multa de € 33 milhões por romper o contrato, valor que os políticos locais tentam negociar com Bernie Ecclestone. Por esse acordo, Valencia e Barcelona promoveriam o GP da Espanha em anos alternados.

Não desliga nunca


De Ferran, embaixador da Formula E na América do Norte (foto Indycar.com)

Afastado das pistas enquanto piloto, Gil de Ferran jamais largou o osso: desde que pendurou o capacete após a vitória na 500 Milhas de Indianápolis de 2003, Ferran ocupou cargos e cargos em várias categorias do automobilismo, lista que agora ganha ares de aristocracia. O brasileiro acaba de ser nomeado Embaixador da Fórmula E, a categoria de monopostos movidos a motores elétricos que estréia em 2014; sua atuação será centrada na América do Norte.

Carrera Panamericana já tem 80 inscritos


Studebaker de Pérez e Rodriguez, vencedor em 2012 (foto LaCarreraPanamericana.Com)

Faltando cerca de mês e meio para o encerramento das inscrições, a edição 2013 da Carrera Panamericana já conta com a presença garantida de 80 duplas de 13 países da Austrália, América do Norte e Europa. A competição é aberta para automóveis classificados nas categorias Turismo (Mayor e Menor), Sport (Mayor e Menor), Histórica (A, A Plus, B e C), Originais e Exibição. As categorias Turismo Mayor e Histórica C são as que reúnem o maior número de concorrentes, 13 e 24, respectivamente e cujos concorrentes conquistaram nove dos primeiros lugares da prova de 2012, vencida por Gabriel Pérez e Ignácio Rodriguez, com um Studebaker super-preparado.

O Mercedes-Benz 300 SL de Hartogs e Bilton (foto LacarreraPanamericana.com)

A competição é uma versão moderna e competitiva das provas de estrada dos anos 1950 e que perdurou até 1973, quando foi disputada a última edição da Targa Florio, na Sicília. A Carrera Panamericana sobrevive misturando deslocamentos e trechos contra o relógio, como nos ralis atuais, porém conservando uma aura de paixão e amadorismo que raros eventos conseguem manter.



Este Ford 1951 está pronto para a prova e não tem piloto (foto LacarreraPanamericana,Com) 

A “Pana”, como a corrida é tratada por seus admiradores, movimenta um mercado próprio e que explora a proximidade com os Estados Unidos. Como os carros históricos, aqueles que participaram das provas de 1950 a 1954, são cada vez mais raros, os organizadores incentivam o uso de velhos sedãs e cupês americanos com preparação digna das grandes carreteras sul-americanas. É o caso deste Ford 1951, equipado com mecânica que emprega vários itens desenvolvidos por preparadores da Nascar. Como seu piloto e proprietário Alexandro Santamaria faleceu, sua família decidiu vender o carro como forma de homenagear sua memória.

WG

A coluna "Conversa de pista" é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

6 comentários :

  1. Não me surpreende a situação da Pirelli, visto que não adianta planejar uma temporada quando há eleições a vista , e em qualquer entidade.
    Independente de quem será o novo presidente e do contrato de renovação, espero que tecnicamente os pneus melhores, pois essa temporada está uma porcaria, justamente por conta dos pneus. Não sei de quem foi a excelente idéia de piorar o composto dos pneus para dar mais emoção ao circo.

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    1. Fábio,

      O produto apresentado pela Pirelli certamente atendeu às demandas dos responsáveis pela F1, cuja receita depende mais do entretenimento dos lucros gerados pelas receitas de direitos) do que dos investimentos tecnológicos.

      Abraços,

      Wagner

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  2. Considero arriscada a posição da FIA em demorar a definir um contrato com a Pirelli para fornecimento de pneus para a Fórmula 1. Dependendo do que acontecer pela frente, se a Pirelli resolver não mais fornecer pneus para 2014, a situação vai ficar braba...

    Tomara que o Ford 1951 "encontre" um piloto antes do fim das inscrições da Carrera Panamericana 2013, afinal um carro com esse pedigree merece participar dessa histórica competição (apesar de que eu preferiria um veneno de época, mesmo que vários potrinhos fossem suprimidos...)

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    1. Road Runner,

      Os carros de ponta da Carrera Panamericana são todos com pedigree do Ford 1951. E os que bichos papões são os Studebakers. Com relação ao contrato da Pirelli com a F1, "taí" um prato cheio para discussões, análises e principalmente apostas...

      Abraços,

      Wagner

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  3. Lucas dos Santos15/08/13 00:53

    Olá Wagner,

    Em sua muito bem escrita coluna, você afirmara que Max Mosley fora "derrotado" por Todt nas eleições de 2009. A palavra correta não seria "sucedido"? Pois até onde eu me lembro, Mosley não se candidatou à reeleição, não havendo concorrência direta com Todt. Na ocasião, a disputa ficou entre Jean Todt e Ari Vatanen, este sim derrotado pelo ex-dirigente da Ferrari.

    Quanto à Pirelli, eu diria que a situação chega a ser constrangedora, ainda mais por ter a sua imagem negativamente afetada no momento - mais pelo regulamento atual da F1 do que por uma suposta falta de competência. De qualquer forma, uma possível retirada da Fórmula 1 não excluiria a fornecedora italiana do esporte a motor, visto que ela já está confirmada na WRC para 2014, uma categoria tão importante quanto a F1.

    Por falar nisso, você tem acompanhado esta temporada da WRC? Em caso positivo, gostaria de saber a sua opinião sobre o primeiro ano "pós-Loeb", a estreia da VW Motorsport, a brilhante atuação do Sebastien Ogier, a má fase da Citroën etc. Acho que isto até renderia assunto para uma próxima coluna!

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  4. Lucas,

    Obrigado por sua leitura e, principalmente, pelo esclarecimento referente à sucessão de Max Mosley.

    Efetivamente o fato aconteceu como você descreve: Mosley não se candidatou e a briga, muito acirrada, aconteceu entre Todt e Vatanen. Dito isso, eu entendo que Mosley não se candidatou por uma outra razão: ele buscava um cargo na União Européia, algo semelhante ao que ocupa atualmente na NCAP e sofria um desgaste político muito grande até mesmo junto às equipes britânicas.

    No que toca à Pirelli, realmente eu não gostaria de estar na pele do Paul Hembery nesta altura, literalmente, do campeonato...

    Sobre o WRC não acompanho tanto quanto gostaria, mas certamente a ausência de Loeb dará novos ares e proporcionará novos desafios ao circo da categoria.

    Um abraço e até breve,

    Wagner

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