RESPEITANDO A MÁQUINA

Imagem: www.nctimes.com

Semana passada eu estava guiando pelas ruas da zona norte de São Paulo, acompanhado de um entrevistado. O trânsito fluía livremente e as trocas de marchas eram constantes, situação rara na capital paulista. Após observar o meu comportamento ao volante, o entrevistado fez uma observação curiosa:

"Felipe, reparei que você troca as marchas com os dedos! Como você consegue?"

A princípio, não entendi a pergunta, pois para mim trocar marchas constitui um hábito natural, que já faz parte do automatismo do meu corpo. Nunca parei para prestar atenção no modo como efetuava as mudanças, apenas sei que devo despender apenas o esforço necessário para o correto engate de cada marcha.

Ainda mais hoje, em que a maioria das caixas manuais atingiu um grau tão elevado de desenvolvimento que permitem mudanças com leves toques dos dedos. Foi-se o tempo em que era preciso "brigar" com a alavanca de mudanças para acertar o engate de uma marcha.

Exemplo de comando de câmbio antigo, de varetas externas e alavanca no assoalho
O cuidado no manejo da alavanca de mudanças era muito comum antigamente, com a alavanca  na coluna de direção, comandando três, quatro ou mesmo cinco marchas, como no FNM 2000 JK. Qualquer esforço anormal empregado nessas alavancas costumava resultar em uma marcha encavalada, exigindo a parada do automóvel e um pouco de habilidade para colocar o mecanismo novamente no prumo.

Hoje, tirando uma ou outra excentricidade, a alavanca na coluna de direção foi praticamente extinta. Qualquer carro equipado com câmbio manual terá sua alavanca localizada no assoalho, geralmente comandando leves e precisos cabos de aço. O acionamento a varão também ficou para a história na maioria dos casos, mas até mesmo o moderno sistema de cabos tende a ser substituído por comandos eletrônicos, como os que são vistos hoje nas caixas robotizadas.

Afinal de contas, qual é a necessidade de se empregar força demais? Ainda que o engate das marchas não seja fácil, é preciso sempre respeitar a máquina. A vida ensina que força demasiada apenas danifica qualquer mecanismo. Nada que um pouco de jeito não seja capaz de resolver.

A tendência atual é que os comandos fiquem cada vez mais leves, para cansar cada vez menos o motorista. Na minha singela opinião, em carros sem pretensão esportiva o comando de seleção das marchas deveria migrar novamente do assoalho para a coluna, como ocorria nos Cord 812 da década de 30 e seu famoso câmbio pré-seletivo.

A pequana alavanca do câmbio pré-seletivo do Cord 812
Legal e divertido? Sem dúvida. Fica inviável apenas pelo sucesso das famigeradas borboletinhas atrás do volante, além de acreditar que hoje poucos gostariam de selecionar canais em "H" numa alavanca,  por melhor que fosse o mecanismo. Até mesmo uma alavanquinha como essa do Cord.

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32 comentários :

  1. Felipe, vc troca as marchas c/ os dedos...como vc consegue?

    Simples...

    Os dedos dele são do tamanho da minha mão!

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  2. Eu também dirijo assim, outro dia estava mostrando a minha esposa que não precisava de força para cambiar e troca as marchas do Sandero fiz isso usando apenas dois dedos. Ela estava usando força demasiada. Ela colocava a primeira como se estivesse engatando a reduzida numa Toyota Bandeirates e isso me irritava.

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  3. Tem cara que parece que vai sair com a alavanca na mão de tão "cavalo" que é pra trocar as marchas.

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  4. Pedro Navalha09/04/11 17:31

    Só pela maneira como se troca as marchas, já dá para saber se o (a) motorista respeita a máquina ou se é um troglodita.

    Outras maneiras de saber se o condutor é um ogro são:

    A maneira como ele abre/fecha as portas e o capô;

    A posição como segura o volante;

    O manejo daqueles botõezinhos do ar condicionado, vidros, travas e tampa do cinzeiro. O verdadeiro troglodita quase os arranca para fora;

    Socar a porta do seu carro quando estaciona do seu lado. Todo condomínio tem um ogro assim;

    Buzinar que nem um louco. O veradeiro homem das cavernas não sabe que a buzina não reduz a velocidade e muito menos afasta os outros carros da frente...

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  5. Bitu,

    podemos ver como aqueles antigos motoristas que guiavam jipes Willis da decada de 50 entre outros carro com cambio sem sincronismo de marchas tinham naturalidade e delicadeza em operar um sistema tao rudimentar como era.

    Salvo engano, o Tucker Torpedo utilizava o mesmo cambio pré seletivo dos Cord 810 e 812.

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  6. Bitu, tente passar marcha com os dedos numa caixa Lenko.

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  7. Num Corsa geração C, meu carro atual, precisa de alguma força para trocar as marchas. No C3 da minha mãe, a alavanca parece até surreal de tão fácil de cambiar.

    Uma sensação interessante ao trocar de marcha é empurrar a alavanca e sentir que ela vai pra posição certa sem precisar continuar empurrando.

    Quem nunca notou isso, quando estiver quase parando o carro, tente engrenar a primeira marcha, mas sem fazer esforço para ela entrar. Em algum momento, dá impressão que ela é atraída pra posição.

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  8. Vai ver que o entrevistado tem um Fiat 147.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Na casa de meus pais, algumas torneiras têm quase 50 anos e nunca quebraram. Mas de vez em quando alguma visita vai ao banheiro e aperta a torneira como quem aperta parafuso de roda de caminhão! Que raiva quando a gente lida com algo com tanto cuidado e vem outro e judia desse jeito! Na casa dessas pessoas certamente as torneiras não duram mais que 1 ano.

    Enfim, apenas mencionei isso pra dizer que tem gente que é "mão-pesada" mesmo, não tem jeito.

    Bater a porta do carro com violência ao fechar, ou pior, bater a porta do carro (em outro carro, ou na parede, etc) ao abrir, são outras demonstrações de rudez ao lidar com os equipamentos.

    Esses maus-tratos são um motivo de eu não gostar de emprestar o carro, nem para manobrista estacionar. Muitas vezes eu ia pegar o carro e o freio de mão estava até difícil de soltar de tão forte que o cara tinha puxado!

    E o pior de tudo isso: A MÁQUINA "SENTE". Ou seja:
    - Uma porta que é sempre batida com força, com o tempo passa a realmente precisar de força para fechar.
    - Um freio de mão puxado com muita força, com o tempo só vai funcionar se puxar com muita força.
    - Uma torneira apertada com muita força, antes de quebrar vai precisar de cada vez mais força para fechar.
    - Etc.........

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  11. É bem por aí Alexandre. Também não gosto de emprestar meu carro nem deixar que outro dirija, tanto que nem sei como é andar no banco do carona. Este negócio do freio de mão de vez enquando alguém pára do lado e puxa que só pelo barulho parece que vai sair com a alavanca na mão.

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  12. No caso das alavancas na coluna de direção, um macete é sempre pegar pela lateral da alavanca, evitando fazer esforço do topo de alavanca contra sua base.
    A própria posição da alavanca, que é de lado, acaba praticamente obrigando a pessoa a pegá-la pela lateral, uma vez que é a posição mais ergonômica de uma já ergonômica solução.

    Eu dirigi muito carro com esse tipo de alavanca e acabei de certa forma transferindo esse hábito também para as alavancas no assoalho, ainda que nesse caso eu tenha força mais do que suficiente para passar as marchas apenas encostando dois dedos na alavanca (só mesmo a primeira e a segunda é que seguro mais a alavanca, sempre pela lateral).
    Sobre a substituição do trambulador por cabo de aço, também seria importante apontar algo que é subaproveitado nessa solução: a possibilidade de montar a alavanca de marchas em qualquer lugar do veículo. Teoricamente daria até para montá-la tão concentricamente à coluna de direção quanto se fazia em um Galaxie ou um Opala. Por questão de costume das gerações que nunca se depararam com uma alavanca na coluna, acabam por fazer essa montagem no centro do painel.

    E a montagem da alavanca no painel, como bem sabemos, permite uma série de vantagens, como liberar espaço para as pernas (lembro-me de ver uma reportagem da Car&Driver americana sobre o Fiat 500 novo em que um cara de 1,98 m relatava mais espaço para o motorista naquele carrinho do que em um CTS) e facilitar uma configuração especialmente agradável e explorada por algumas minivans: seis passageiros em duas fileiras, permitindo que se leve meia dúzia de adultos e suas bagagens sem que se sacrifique uma ou outra característica (como bem sabemos, terceira fileira de minivan média, além de roubar espaço de bagagem, só permite que crianças as usem).

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  13. Em todo caso, a troca de marchas "digital" também é termômetro importante da qualidade dos componentes de uma transmissão. Nos Corsas B e seu conhecido problema no sincronizador da segunda marcha, não é tão fácil assim subir ou reduzir para essa velocidade. Em Clios, há o lance de a última marcha ter um engate meio tenso.
    Já em Fords com duplo sincronizador nas três primeiras marchas e Hondas em geral, é possível não apenas engatar todas as marchas com os dedos como também fazer "troca de marcha de maneta", usando a base do pulso.

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  14. Daniel San09/04/11 20:45

    Aprendi a dirigir em um VW Brasília,e o câmbio dela era tão bom que tornava-se quase obrigatório trocar as marchas assim suavemente - porque não era preciso usar força - Automaticamente,passei a usar este modo de cambiar nos outros carros que passaram pela minha mão,e isso se estende ao modo geral de tratar a máquina. É tragicômico ver que tem gente que pensa que tratar carro como um tanque de guerra é coisa de macho!

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  15. Admirável o que o Alexandre disse no final do seu comentário.

    Renan Veronezzi

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  16. Quanto ao freio de mão, acho que vale o "nem tanto céu, nem tanto mar". Aqui alguns membros da família têm o costume de puxar o freio de mão com delicadeza para não fazer o típico barulho (apertando o botão antes e soltando depois) e com tempo aparece uma folga que faz o carro sempre descer um pouco.

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  17. Caio Cavalcante09/04/11 21:42

    Anônimo das 20:22,

    Uma manopla ótima que tinha uma empunhadura perfeita para se pegar pela lateral é a do primeiro Focus.


    Também faço de tudo para não deixar carro com manobrista. Quem anda comigo sabe que até deixo na porta, mas vou estacionar o carro e depois volto. Sempre procuro vagas próximas a paredes e colunas e de preferência longe de mais carros para evitar as temidas batidinhas de porta e para-choque.

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  18. Eu consegui passar ileso no meu último carro, um Polo, e vendi sem nenhuma marca de batida na lataria. Também sempre procuro estacionar longe dos outros, próximo a paredes, pilares e nunca ao lado de camionetes ou carros com aparência de desleixo. Pra saber se o cara cuida ao abrir a porta é só olhar como está a pintura na borda da porta...se estiver descascada é sinal que o teu carro vai estar em risco.

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  19. Oskrmarinho10/04/11 10:15

    É incrível como a grande maioria das pessoas usa um veiculo sem conhecê-lo um mínimo que seja; assim, não checam agua, óleo e pneus quase nunca, tratam os botões e alavancas de comando com "raiva", fecham portas, porta-malas e capô como se estivessem dando coices, mantêm o pé descansando no pedal de embreagem, trocam de marchas como se quizessem arrancar a alavanca e forçam a direção hidráulica no fim do curso, entre outras inúmeras grosserias; a ausência de habilidade é consequência da falta de vontade de aprender para entender como usar, e, sem machismo algum, só pela constatação, noto esse comportamento também entre mulheres, tão ternas em quase tudo que fazem.

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  20. Antônio Martins10/04/11 11:44

    Alavanca boa de usar é a do Fiesta nacional. Na mão, perto do volante. No Eco também é assim. Mas ultimamente eu ando dando pau de automático mesmo.

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  21. Se for comparar os carros que já diriji os melhores pra fazer o câmbio foram Variant I, Doblò, os dois Polo e o Aircross. Já os piores foram uma F75 com câmbio na coluna e um F600 do exército com caixa seca: era necessário dar o tempo "de ouvido" pra poder engatar a marcha seguinte.

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  22. Meu Deus...que importância tem fazer a marcha com os dedos ou com a mão? Tá demais....

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  23. Tem carro que não dá para ser muito suave... A 1ª marcha do câmbio Isuzu dos Monza/Kadett/Vectra/Astra nem sempre entra com suavidade. De 2ª até 5ª, beleza, mas aquela primeira...

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  24. Também tenho o hábito da leveza com o carro inteiro.

    Guilherme J, a suavidade ao engatar a primeira com o carro quase parando é porque está praticamente no tempo exato de engate, e a alavanca é praticamente puxada pra posição certa mesmo. vc pode até fazer esse engate sem embreagem, que será suave da mesma forma, justamente por estar no tempo certo.

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  25. Tenho alguns hábitos: antes de ligar o carro empurro a alavanca para a direita para ver se está enm ponto morto; é possível colocar em ponto morto vindo de terceira ou quarta, por exemplo, sem usar a embreagem. Basta esperar a rotação cair até a marcha lenta, pouco abaixo de 1.000rpm; Também uso os dedos com suavidade; para reduzir de segunda para primeira com o carro não totalmente parado dou sempre uma aceleradinha para igualar a rotação do motor com a do o eixo secundário: a marcha sempre entra mais fácil. Tem também a questão da embreagem: nunca descansar o pé, soltar devagar nas saídas e com rotação mínima pra não apagar o carro (um pouco mais difícil nos 1.0).

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  26. Há uma expressão na língua inglesa que comunica perfeitamente a idéia desse respeito pela máquina: "mechanical sympathy". No caso, "sympathy" é fiel à origem grega da palavra: sentir (pathos) junto (sym).

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  27. Tenhoum opala '73,câmbio "varetado" muito similar ao da foto! Coisa deliciosa é trocar as marchas nele "clec, clec, clec..." metade do meu prazer em guiar ele é sentir os engates! E tudo isso com muita suavidade pra não maltratar o sistema! Coisa fina quando não se tem folgas, prazer puro! O palio do meu pai é tão macio que troca quase sozinho, tal a leveza do sistema de cabos.

    GiovanniF

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  28. Um mundo caminha para o "by wire" ou até mesmo wireless. Acionamentos mecãnicos estão fadados a acabar. Não é só na industria automobilística. Vejam as mídias que interagem com um computador. O Drive (com motores, leitore, etc.) foi substituído pelo Pen drive. DVD e outras midias semelhantes estão fadados a morrer. Andei em um ônibus aqui no RJ (do Metrô) onde os acionamentos entre a estação de trabalho do motorista e o conjunto mecânico traseiro eram eletrônicos. Isto em um veículo que vai rodar 1.000.000 de Km fácil, fácil. Agora, no futuro, como charme "vintage" alguns carros poderão simular o acionamento "clec" das alavancas de marchas...

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  29. TINHAM UNS DOIDOS QUE SEMPRE RECLAMAVAM DE NOSSOS CARROS COM CAMBIO NA COLUNA, DIZIAM QUE "ENCAVALA" ETC..

    POIS A VERDADE É QUE SÓ ENCAVALA MARCHA NA MÃO DE CAVALO QUE NÃO SABE USAR A ALAVANCA E MANTER AS BUCHAS DAS VARETAS EM ORDEM , OU SEJA , O ANIMAL DEIXAVA A ALAVANCA COM TANTA FOLGA QUE VOCÊ TINHA QUE "PROCURAR " AS MARCHAS..

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  30. TINHAM UNS DOIDOS QUE SEMPRE RECLAMAVAM DE NOSSOS CARROS COM CAMBIO NA COLUNA, DIZIAM QUE "ENCAVALA" ETC..

    POIS A VERDADE É QUE SÓ ENCAVALA MARCHA NA MÃO DE CAVALO QUE NÃO SABE USAR A ALAVANCA E MANTER AS BUCHAS DAS VARETAS EM ORDEM , OU SEJA , O ANIMAL DEIXAVA A ALAVANCA COM TANTA FOLGA QUE VOCÊ TINHA QUE "PROCURAR " AS MARCHAS..

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  31. O que dá dó mesmo é ver manobrista usando o câmbio, automático ou manual. Quanto ao freio de mão, por mais de uma vez minha mulher precisou chamar o ogro para soltar o do Focus, que eles puxam mesmo. Não sei porque, basta uma puxadinha e já trava. Nem em meu Fusca, bem mais duro para tudo, é preciso fazer isso.

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  32. Guilherme J.

    É verdade. No Corsa (carro da minha esposa) os engates são mais difíceis e exigem alguma força adicional. Na Meriva (carro que uso no dia-a-dia) obviamente não é diferente. Tudo muito chato.
    Já no meu carro de final de semana (um Fusca 1967) eu troco as marchas com a ponta do dedo. Um projeto genial de 80 anos de idade e ainda hoje divertidíssimo de se dirigir.
    E ainda tem gente que prefere câmbio automatizado...

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