RABO DE PEIXE?



Dia desses, no post Clones do Corvair, o colega MAO disse que “rabos de peixe” eram horrendos.

Não é fácil deglutir um adjetivo desse tipo quando se cresceu escutando os parentes e amigos falando sobre os carros “rabo-de-peixe” dos anos 50.

Como interessado em aviões desde uns seis anos de idade, para mim aquele enfeite na traseira dos carros sempre foi uma parte de avião, nunca a cauda de um peixe. E me perguntava qual a relação entre uma coisa e outra. Como poderiam os americanos batizar algo tão belo com um nome tão feio?

A resposta veio depois de muito tempo, quando descobri que o termo para esses detalhes de estilo não tinham nada a ver com peixes na língua original, e sim, com aletas (fin), e que haviam aparecido em uma época que deve ter sido a mais rica e criativa quando se trata de aviões, foguetes e automóveis, os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial e a década de 50.

Seguramente, os tail fins, ou aletas de cauda, são uma das marcas registradas dos carros americanos, conhecida no mundo todo, e admirados por muita gente que nem tem ideia se um Bel Air era da GM ou da Ford.

Gosto é sempre algo pessoal, e pouco ou nada se consegue fazer para convencer uma pessoa do que nos parece ser melhor ou pior. Mas podemos contar de onde vieram as aletas que ornaram muitos carros na década de 1950.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os americanos utilizaram um avião de caça de fuselagem dupla, o Lockheed P-38 Lightning (relâmpago). As duas fuselagens terminavam lá atrás em duas caudas. Esse avião foi decisivo em algumas batalhas que os aliados enfrentaram, notadamente no Pacífico, contra os japoneses. Antes disso, ele foi também utilizado na Europa e os alemães o apelidaram de Gabelschwanz Teufel. (demônio com cauda de garfo, ou mais livremente, de duas caudas). Um belo apelido para um avião rápido e mortifero.


O Lockheed P-38 Lightning

Com o final da guerra, os americanos mantiveram um enorme programa de desenvolvimento de aviões, buscando o “mais” em tudo, afinal, boa parte da responsabilidade da supremacia alemã no início da Segunda Guerra Mundial fora responsabilidade de uma força aérea poderosa, a Luftwaffe. Os EUA não poderiam mais ficar parados, ou trabalhando devagar.

Mais rápido, mais alto, maior, levar mais bombas, voar mais longe, esses eram os objetivos finais de todas as fábricas de aviões.

Chegou-se ao rompimento da barreira do som em 1947, por um avião de asas retas, mas nariz afilado, pontudo. Era o Bell X-1. Estava alimentada de vez a fascinação do povo americano pela aviação.

Bell X-1, o primeiro avião a romper a barreira do som

Como o elemento mais óbvio de um avião, as asas, atrapalhariam o trânsito, os estilistas começaram a adotar os tail fins, ou aletas de cauda, começando com o Cadillac Sixty Special, em 1948, criado sob a coordenação de Harley Earl, um gênio do desenho automobilístico.



Mas o fato pouco sabido é que houve aletas em carros dos anos 30. Era um tempo em que o estilo comandava quase tudo nas fábricas americanas, e na pessoa de Harley Earl a GM tinha um diretor de Estilo fortíssimo, que conseguia impor muitas ideias até à produção. Esse homem era tão poderoso que tinha autorização da General Motors para trabalhar fora da empresa, criando modificações para carros de personalidades, principalmente atores e atrizes de Hollywood.

Sabiamente, essas mesmas personalidades, por apreço e, claro, buscando mais notoriedade, faziam aparições em eventos da GM, sem ao menos cobrarem por isso. Era um marketing de mão dupla, todo mundo ganhava. Ao menos o carro modificado para o ator Buck Jones, em 1936, ficou registrado em fotos, como vemos abaixo.

As evoluções continuaram, e aviões de todos os tipos brotavam das fábricas e eram testados pela USAF, pela NACA (antecessora da NASA) e pela Marinha, a maioria deles na Base Aérea Edwards, em um lago seco pré-histórico, na Califórnia.

Com a divulgação constante de ideias sobre viajar no espaço, aviação militar cada vez mais poderosa e o advento da aviação a jato para passageiros, pelo Boeing 707, formou-se o caldo para que o automóvel, acessível para a maioria, incorporasse em muitos modelos um símbolo de poder nacional.

 As aletas se tornaram elementos relativamente comuns.



Era como se o cidadão civil, que não pegava em armas para garantir a defesa de sua Nação, ostentasse as aletas na traseira de seu carro, como símbolo de poder, a representação de um foguete ou míssil que desfilava um modo de vida confortável e recheado de dinheiro. Sem dúvida anos incríveis.

A GM estava na vanguarda absoluta em estilo nessa época e inovava com facilidade, sem medo de prejuízos, já que novidades mantinham a empresa em uma liderança folgada no mercado americano. Um carro que não vendesse bem não era problema, pois outros modelos garantiam os lucros.

Foi natural, então, serem apresentados os dream cars (carros de sonho) Firebird I ou XP-21, de 1954, Firebird II em 1956 e III em 1958, de aparência totalmente aeronáutica, fortemente inspirados pelos aviões e foguetes.

Na foto abaixo, Harley Earl aparece com os três carros, uma imagem futurista. Imaginem isso em 1958!


Vejam essa imagem do leme de direção do Convair B-58 Hustler e comparem com o tail fin do Cadillac 59.




Muitas marcas fizeram suas incursões nesse tema de estilo, até mesmo os italianos, considerados a elite do desenho de automóveis, apesar dessa opinião não ser unânime.

Ferrari, com 410 Superamerica e Alfa Romeo, com Super Flow I, ambos de 1956, eram modelos muito interessantes, e a gigante Fiat mostrou o modelo 8001 a turbina, idem. Um dos mais absurdos e espetaculares foi o Simca Fulgur de 1958, um conceito de carro que se auto-dirige, e que não foi realizado funcionalmente.




Simca Fulgur



O Fiat movido a turbina

A Porsche utilizou-as apenas para competição, buscando melhor estabilidade direcional, no RSK 1500, que correu na Targa Florio de 1958. A Mercedes-Benz adotou aletas no 190, no início dos anos 60, com a explicação técnica de que eram auxilios visuais para o motorista enxergar os cantos traseiros dos carros. Tem lá sua lógica alemã, já que eles fizeram até mesmo pequenos pinos no Classe S que levantavam ao se engatar a ré, para essa finalidade.




Até 1963, vários carros tiveram as aletas em sua carroceria,.Um dos últimos a usá-las foi o Mercury Monterey, aqui já bastante discretas.

Como tudo na vida vem em ciclos, as aletas começaram a cansar, e somado a alguns processos judiciais que ocorreram, retratando ferimentos causados pelas pontas das aletas, em 1964 não havia mais carros de grande produção com esses enfeites.

Deixaram saudades, e provavelmente nunca mais serão vistas com tanta glória.

Apenas em 2010, a Cadillac - novamente ela! - mostrou uma nova versão de tail fin, dessa vez formada apenas pelas lanternas traseiras, no facelift do SRX, um utilitário esporte que eles chamam de crossover, daqueles que nunca foram pensados para quem anda longe do asfalto.



Tem lá seu charme, e presta uma pequena homenagem aos carros que mudaram a vida de muitas pessoas.

JJ

18 comentários :

  1. Belíssimas imagens...
    Não tem como não sentir uma ponta de inveja daquela geração...haviam novidades brotando de tudo quanto é canto.
    Carros fantásticos, aviões cada vez mais ousados ( alguém já ouviu falar no Valkyrie?), competições para determinar os primeiros a chegar ao espaço...isto pra citar somente as mais notáveis.

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  2. jackie chan07/04/11 16:54

    Essa lanterna traseira do Cadillac SRX tem função aerodinâmica, de descolar o fluxo de ar, que vem pela lateral, da tampa traseira. Função similar à do aerofólio acima do vidro traseiro. O resultado prático é menos "vácuo puxando o veículo para trás" quando em alta velocidade. Vários outros carros modernos possuem esse detalhe, alguns na lanterna, embora não tão acentuados quanto neste Cadillac, outros nas laterias do parachoque traseiro. Já o "rabo de peixe"...

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  3. Acho muito bonitos e ousados os carros dessa época!

    Além de "aleta", "fin" também é a palavra usada para a barbatana do tubarão (shark fin). Talvez aí que o peixe tenha entrado no meio da história, dando origem ao termo "rabo de peixe" (já que "cauda de barbatana" ia ficar muito estranho). Bom, é apenas uma teoria.

    Outro resultado de forte inspiração aeroespacial foram os elementos em forma de ogiva, que iam desde lanternas traseiras até botões de buzina. Fica até como sugestão para um futuro post.

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  4. Juvenal

    Gostei muito da análise, parabéns!

    Ao que parece, durante a Segunda Guerra Mundial o Harley Earl teria levado membros de sua equipe a uma base da USAF para buscar inspiração para os designs da GM no pós guerra. Não sei se a história procede, mas me parece bem plausível.

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  5. Outros elementos aeronáuticos apareceram , nessa época, por exemplo o "nariz" do Studebaker 1949, salvo engano.
    Grande post!

    AAM

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  6. Por falar em rabo de peixe, algum entusiasta estaria interessado em restaurar um Cadillac Fleetwood 1962? Sei de um que está jogado em completo abandono, implorando por um restauro.

    Abraços!

    Yuri leite.

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  7. Os carros desta época eram lindos e estes então nem se fala.

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  8. Johnconnor(old rocker)07/04/11 21:28

    Galo cego!
    Valkyrie não era aquele bombardeiro supersonico mach 3???

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  9. Johnconnor, pelo que me recordo( eu não sou especialista, apenas um admirador não muito bem informado ), o Valkyrie foi um prótótipo ousadíssimo que lembrava um pouco o concorde.
    Era uma aeronave fantástica, com asas em delta, canards ( profundores ficavam na frente, perto da cabine), motores gigantescos e trens de pouso cujo acionamento daria inveja a qualquer "transformer de hoje em dia.
    Esta maravilha mecânica ficou muito famosa por causa de um desastre durante um ensaio em vôo. Ela voava ao lado de dois Phantons ( caças da época ), quando, se não me engano, um deles foi sugado por sua esterira de arrasto e acabaram colidindo, matando tripulantes e destruindo as aeronaves.
    Bom, acho que o programa de desenvolvimento foi paralisado tempos depois, mas não sei se foi por causa do acidente, ou porque os custos haviam encarecido demais o projeto.
    Abraços. ( caso eu tenha me enganado em algo escrito aqui, peço que me perdoem, por favor...)

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  10. Genial Juvenal, genial!!!

    Ótimo post, particularmente, gosto muito desses exageros da década de 50!

    Mister Fórmula Finesse

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  11. Galocego,

    um resumo da história do XB-70 está aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/North_American_XB-70_Valkyrie

    Ele foi cancelado pelo Secretário de Defesa Robert McNamara, que trabalhou na Ford também. Segundo estudos direcionados por ele, os mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) eram muito mais eficientes, e não havia verba para ambos os programas.

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  12. Obrigado a todos que gostaram e comentaram.

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  13. Pra mim o mais bonito dessa época era o Plymouth Fury ,ainda mais na versão duas portas...

    JONES

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  14. Obrigado pelos esclarecimentos e pelo link, caro Juvenal.

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  15. Legal o post, não conhecia em detalhes a origem dos "rabos de peixe".

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  16. Incrível como após sua explicação, JJ, a origem dos emblemáticos "rabos-de-peixe" (também acho o termo pouco elegante) se tornou tão óbvia!
    Obrigado por esse excelente esclarecimento, sanando uma dúvida de anos, mesmo que o significado sempre estivesse tão aparente e mesmo assim não sendo identificado por mim...
    Abraço!

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