OPEL MUDA



Durante os anos 60 e 70, uma quantidade incrível de talentos convergiu para uma das empresas mais tradicionais da Europa, a Adam Opel AG. A fábrica de Rüsselsheim, na Alemanha, que tinha sido fundada como fabricante de máquinas de costura em 1862, nunca tinha sido uma empresa notável até ali. Seu maior sucesso foi uma cópia deslavada do Citroën 5CV, o Opel tipo 4/12PS “Laubfrosch” de 1924 (Laubfrosch era uma espécie de rã verde que vivia em árvores), o primeiro carro alemão fabricado em grande série. André Citroën chegou a processar a empresa por causa desta cópia não autorizada, mas sem sucesso. A Opel virou filial da General Motors americana já em 1929, e depois da guerra se limitava a produzir cópias reduzidas e mais lentas de Chevrolets para os alemães.

Mas o fato é que, fruto de todo esse sangue novo na Opel, nos anos 60 isso começaria a mudar, numa sequência de carros memoráveis, começando no novo Kadett de 1962, mas realmente ficando interessante a partir do Kadett B de 1965, e no Rekord C de 1966 (foto que abre o post). O Rekord e sua versão luxuosa Commodore eram carros de desenho moderno, e com eles nascia uma nova e excelente família de motores OHC de quatro e seis cilindros em linha, destinada a ter vida longa. Inicialmente, os motores tinham entre 1,7 e 1,9 litro no Rekord (quatro cilindros), e 2,2 e 2,5 litros no Commodore (seis cilindros). Viemos a conhecer este motor em 1993, no lançamento do Omega nacional, que usava uma versão de três litros e injeção eletrônica multiponto do seis em linha. O motor pode ter vindo em 1993, mas o Rekord veio bem antes e é velho conhecido nosso: com motores Chevrolet americanos OHV também de quatro e seis cilindros em linha, é o carro que conhecemos como Chevrolet Opala.

Um dos núcleos de novos talentos que iriam mudar a Opel estava no departamento de design. Sob a chefia do americano Clare McKichan estava Anatole “Tony” Lapine, um designer que também era um engenheiro de mão cheia, e no futuro seria o chefe do departamento de estilo da Porsche. Lapine e alguns amigos da engenharia e design resolvem então fazer algo para mostrar ao mundo fora dos portões da fábrica que a Opel estava mudando. E nada melhor que competições para mostrar isso. Até então, falar de Opel em competições era piada.


Pegaram um Rekord sedã duas portas (acima), uma versão que não existiu no Opala, mas que era o melhor compromisso entre rigidez e peso, e colocaram portas e tampa de porta-malas em alumínio, e um santantônio completo. A suspensão foi calibrada para competição, mas usando peças originais Opel. O motor era um quatro em linha de 1,9 litro, preparado pelo recém-contratado “preparador oficial” de carros da empresa, o sueco Ragnar “Ragge” Eklund, que fez o motor girar até 6.500 rpm com segurança, produzindo nada menos que 155 cv.

Pintado num sinistro e escuro preto, o carro ganhou o apelido de “Viúva Negra”, e foi inscrito em provas do grupo 2 (turismo melhorado, atual grupo A) no fim de 1968. Em Hockenheim ele foi o mais veloz da categoria até dois litros, batendo o recorde da pista na classificação. Na prova (abaixo), bateu vários Porsche 911, para delírio do público, e liderava a prova quando um acidente acabou com a brincadeira.


O carro nunca mais entraria em competições, mas seu objetivo fora alcançado: provou que a Opel podia ganhar corridas. Logo, empresas como a Steinmetz e a Irmscher começaram a competir com os novos Opel (abaixo), e logo também vendiam kits de preparação para carros de rua. A Opel ganhava outra imagem.


Depois do Rekord a Opel lançaria uma série de carros memoráveis para o entusiastas: o Ascona, o Opel GT, o Manta. O Kadett C (abaixo) se mostrou um dos mais sensacionais carros esportes disfarçados de carro barato, e fez a alegria de uma geração inteira de entusiastas menos abonados, inclusive este que vos fala, um cara que teve nada menos que cinco Chevettes, a versão brasileira do Kadett. C. E sinto saudade de todos eles!



O piloto do Viúva Negra em Hockenheim foi Erich Bitter, um piloto de rali que seria pivô de outra história interessantíssima desses anos intensos da Opel. Essa história, que envolve Bitter, o então chefe de Design da Opel, Chuck Jordan, o onipresente Bob Lutz, o último trabalho do grande Franco Scaglione, e o maior maluco beleza que já produziu um carro, Frank Reisner e sua Intermeccanica, fica para próxima sexta-feira.
Até lá!

MAO

28 comentários :

  1. MAO, também gosto muito do Chevette. Existem, inclusive, preparações para ele que superam os Chepalas 250-S, que não agradam ao meu gosto. Falei algo a respeito há anos;

    http://antigomoveis.blogspot.com/2008/12/choque-cultural.html

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  2. Que barato essa versão duas portas; fator novidade - sei lá - mas ele me encantou mais do que a outra (e elegante) conhecida versão com a mesma configuração.

    Ficou matador na versão de pista, que coisa mais linda!

    Muito legal o post MAO!

    mister fórmula finesse

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  3. Roberto Dallabarba04/04/11 10:30

    Sou apaixonado pelo Maverick, embora ele fosse uma versão barata do Mustang.
    Mas viro o pescoço por um Opalão. O belo Opel Rekord, com mecânica Impala, tem genes mais dignos. Embora, na minha opnião, menos estiloso.
    Mas creio que é melhor e/se perpetuar do que morrer e tornar-se lenda.
    Abraços, maravilhosa surpresa foi encontrar esse espaço com mentes tão brilhantes como estas daqui.
    Roberto Dallabarba.

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  4. Roberto Dallabarba04/04/11 10:39

    Mao, por favor escreva contando algo de outro carro que admiro: WV Santana, que também tem uma história de longevidade.
    Obrigado desde já.
    Roberto Dallabarba.

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  5. Esse Rekord sedan 2 portas bem que poderia ter sido fabricado aqui, ainda mais se considerarmos que, de 85 em diante, o Opala Coupe perdeu muito mercado, saindo de linha em 87, bem antes do 4 portas (92).

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  6. Pois é; a GMB está substiuindo a Opel pela Daewoo como fonte de projetos...vamos ver no que dá...

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  7. Coisa linda o Negão saindo de traseira hein?

    E hj temos q ver akelas bolhas andando tão certinhas nas pistas..

    Viva o Canal Speed e as provas de Turismo Carretera argentinas!

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  8. Ah....outra coisa.

    Falando do Chevette, conheço um lá do RS c/ motor 1.7 aspirado + kbçote do Monza.

    O famoso Mixto Kente.

    Motorzinho original do modelo c/ assombrosos 189 CV !!

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  9. Taí algo da Opel que eu não conhecia... o.o*

    Agora fiquei curioso pra saber a "tal" história do Erich Bitter nesses anos intensos da Opel.

    Abraços
    ass
    Kiko Molinari

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  10. sinceramente nao vejo nenhum valor na opel.nada que justifique a sua permanencia.devia ter ido junto com a pontiac. tirando o omega e o vectra2 so produziu estilo bizarro como nosso kadett e corsa "kinder ovo".alem de copias "broxas" de chevy americano.antes que digam sobre o opala e bom lembrar que a mecanica era americana

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  11. Anonimo das 11:32:
    O Opala cuê foi fabricado até 89, e não há hoje substituto para esse nicho (carro médio-grande com 2 portas) no mercado brasileiro. Foi mais uma economia de escala que uma real vontado de público, uma vez que o produto não estava sozinho no mercado, e concorrentes como Monza, Santana etc. sobreviveram até meados da década seguinte.
    Eram carros que passava uma certa aura de jovialidade, voltados a um público que só usaria o banco traseiro eventualmenteque e não queria carros que parecessem táxis nem viaturas de frota, mas por isso mesmo, não eram bons carros de frota, nem táxis, bons mercados consumidores que foram priorizados.

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  12. Matérias como essa nos lembram porque o DNA da Opel fará tanta falta nos futuros lançamentos da GM brasileira, agora que ela "se divorciou" dos projetos da empresa alemã.

    Ao invés de Astra J, Chevy Cruze...
    Ao invés de Agila, Spark...
    Ao invés do Insignia, Chevy Malibu...

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  13. Da Opel anos 90, continuaremos com Monstrile e Prismerd*

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  14. Roberto Dallabarba,

    O Felipe Bitu tem vários posts sobre o VW Santana.

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  15. MAO, eu não tenho saudade do Chevette por um único motivo: nunca me desfiz do meu... hehehe.

    Mas tenho, sim, saudade de um Opel Manta 1971 que tive nos EUA. O motor, um 1.9, não era nada de especial. Mas em matéria de chassi e câmbio, o carro era páreo para BMW.

    Aliás, essa época (começo dos anos 70) deve ter sido uma das melhores na história da Opel, tanto é que a marca chegou a desalojar a VW da liderança no mercado alemão.

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  16. Até o Franco Scaglione?? Onde ele entra nessa?? O "maior maluco beleza que já produziu um carro"?
    Não sabia deste lado Maluco Beleza dele, mas que ele fez alguns dos carros mais sensacionais que eu conheço, isto ele fez...

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  17. Não sei porque essa babação de ovo do Opala e do Chevette. O primeiro só fez sucesso aqui pela mecânica robusta da GM americana. A maioria se lembra mais do motor 4100 do que dos próprios dotes do carro, que teve a sorte de que praticamente não teve adversários diretos no mercado.
    Quanto ao chevete, era um carro de qualidade construtiva ruim, com um motor tão ruim que em nenhum outor lugar do mundo onde foi fabricado ele foi utilizado, só mesmo por aqui.

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  18. Esse anônimo das 9:42, 5/4/11, tá parecendo que éo Roberto Zullino.

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  19. O Opala e o Chevette são cultuados e admirados até hoje por serem os legítimos representantes de uma escola que deixou saudades: A tração traseira.
    No seu tempo eram melhorzinhos que a concorrência.

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  20. Meu pai teve opala, meus amigos tem e eu gostaria de ter um, gosto do Opala pela força e pela comodidade de um chevrolet, quanto ao Chevette, meu pai teve um também, é um baita carro também! tem uma ótima estabilidade e um conforto ímpar perto dos carros da mesma época, na minha opinião, só perdia pro corcel 1, (disputando na mesma categoria), mas sou suspeito pra falar, me amarro em corcel e minha mulher tem um.
    Belo post, bela história da Opel

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  21. Gostaria de corrigir um erro factual no comentário do anônimo das 9:42: o motor do Chevette brasileiro era essencialmente igual ao dos Chevettes fabricados nos EUA.

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  22. Bons tempos aqueles... Do Chevette não sinto saudades, pois ainda há um na família, conosco já a 13 anos. E pensar que só o comprei porque, na época, tinha preço bem camarada e estava em estado impecável de conservação. Bastou conhecer melhor o carrinho para apaixonar de vez! Do Opala ficou a saudade, desde que tive que vender meu Caravan por precisar de carro menor. Mas ainda tenho planos de ter meu Opala SS-8.

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  23. Destaque que tem de ser dado ao Rekord C, e por extensão ao Opala, é o tanto de espaço interno que conseguiram de dimensões contidas (4,59 m de comprimento no Rekord, 4,57 m nos primeiros Opalas, com os 4,7 m de 1980 em diante devidos a estampos não estruturais, 1,76 m de largura e 2,67 m de entre-eixos). Quando se vê que um Opala ou uma Caravan para seis passageiros leva seis adultos com espaço e conforto, nota-se que o projeto da carroceria foi bem pensado não só na estética como também no que é prático, não sendo à toa que teve bala na agulha para durar mais de duas décadas no Brasil.

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  24. juntou as qualidades do Opala com os tempos de ditadura militar e industria sucateada

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  26. Este comentário foi removido pelo autor.

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  27. Excelente texto. Aguardo a segunda parte!

    Discordo do "ary" ao falar que a Opel não tem criatividade. Nos anos 90, especialmente, houve criações muito interessantes! Mesmo os Kadett e os Corsa A são muito simpáticos (para muitas pessoas). O Kadett é muito dinâmico, é um bom carro. Todos os carros da Opel são interessantes. Se não me engano, a Opel produziu o Astra "Belga" GSI, o Calibra (um dos automóveis mais bonitos já fabricados, nas versões c20xe, c20xe 4x4, c25xe (v6), c20let 4x4, Calibra dtm, calibra Rosberguer Rosberg... ), os Kadett Gsi c20xe, Astra coupê, ômega (muitas versões), vectra (c20xe, c20let 4x4...), e o saudoso monza (saudoso pela confiabilidade, durabilidade...era o "Corolla" de antigamente). Todos têm uma mecânica confiável, boa suspensão (forte), conforto, motores com potencial, boa aerodinâmica, designe bonito,enfim, ótimo conjunto o destes carros. abs

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  28. Quanta porcaria a GM trouxe ao Brasil ... Meu Deus! Como sobrevivemos a isso?

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