A MORTE VISITA




Me desculpem pelo tema mórbido, mas nada pode explicar melhor esta semana do que o título acima. Graças a Deus que ela está acabando, e como tenho para mim como uma saudável crença particular de que toda onda de coisas ruins é seguida por outra de boas, tenho fé que as coisas vão melhorar daqui para frente.

Mas o fato é que, logo na segunda recebi a notícia da morte do famoso escriba automobilístico americano David E. Davis Jr (acima), de complicações decorrentes de um câncer na bexiga. Eu passei minha adolescência lendo a revista que Davis editava na época, a Car and Driver americana, que começava sempre com uma coluna dele, e digo que fiquei chateado, quase que como com a morte de um amigo. O que não sabia é que logo em seguida, perderia também um amigo de verdade.

No mesmo dia em que os noticiários anunciavam a morte do valente ex-vice presidente José de Alencar, recebi a notícia da morte do Christian. Fazia mais de dez anos que não via ou falava com ele, mas mesmo assim foi um baque. Meu amigo era apenas dois meses mais velho que eu, e portanto tinha apenas 41 anos, mas em apenas 3 meses do diagnóstico inicial, sucumbiu a um raro e fulminante câncer no estômago. A morte de alguém tão parecido com nós mesmos tem o efeito de fazer-nos encarar nossa própria mortalidade de uma forma avassaladora. É como uma visita íntima da morte.

Mas o que sempre devemos lembrar nessas horas não é tristeza da falta que as pessoas que foram nos farão. Para honrá-los de verdade temos que lembrar o que foram em vida, e erguer um brinde a sua memória. E é isso que pretendo fazer.

Peguemos o exemplo de David E. Davis Jr. É uma figura controversa, uma pessoa que foi odiada na mesma medida que foi idolatrada. Eu mesmo sempre tive algumas restrições a sua filosofia jornalística, principalmente quando deixou a Car and Driver para fundar a Automobile Magazine em 1986 (financiado por Rupert Murdoch). Na Automobile, Davis declarava que na revista “não falamos sobre carros chatos”, e ainda por cima abandonou testes instrumentados, restringindo-se a publicar os dados do fabricante. Eu achei primeiro pedante, porque quem define o que é chato? E como assim chato? E nem vou falar nada sobre publicar o que dizem os fabricantes... Nunca gostei da revista como gostava da sua Car and Driver.

Mas nada disso importa, porque o sujeito sabia realmente escrever. Tinha um estilo franco que fez escola, e refletia sua filosofia de encarar a vida sem medo algum. Praticamente criou uma imagem de um novo tipo de jornalista automobilístico, e foi imensamente bem sucedido. Depois de uma carreira de sucesso em propaganda na famosa empresa Campbell-Edward, onde criou a famosa campanha "Baseball, hot dogs, apple pie and Chevrolet" ( e onde tinha como companheiro o futuro novelista Elmore Leonard) , foi editor da Car and Driver de 1977 a 1986, período onde ela se tornou a publicação sobre automóveis mais popular do mundo. Voltaria a ela somente muito tempo depois, em sua aposentadoria, em uulho de 2009, o que me fez voltar a assiná-la. Vou sentir sua falta...

Em 1985, eu estudava no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) Celso Suckow da Fonseca, ao lado do Maracanã, no Rio. Para voltar para casa em Niterói eu pegava um metrô até a Cinelândia, onde passava em uma banca que recebia todo mês a Car and Driver americana. O dia que chegava uma nova edição era uma felicidade inesquecível, e a longa viagem do ônibus 999 até a praia de São Francisco, onde morava, ficava muito mais interessante. Aquela revista era um conforto, uma válvula de escape de uma realidade desagradável, de ônibus cheio, de adolescência tímida, de aulas de soldagem com roupa de couro em um calor inimaginável. Quando lia ela, me transportava para um mundo diferente, cheio de carros interessantes e pessoas mais ainda, e o calor fétido e úmido do 999 desaparecia como passe de mágica. Acho que devo aquela pequena mas regular felicidade a ele. Obrigado!

Davis encarava a vida de uma forma interessantíssima, algo que pode ser exemplificado pela sua famosa sala na Car and Driver. Nela ele mantinha uma cópia do famoso cartaz de recrutamento de Ernest Shackleton para uma de suas expedições à Antártica:

Men wanted for hazardous journey. Small wages. Bitter cold. Long months of complete darkness. Constant danger. Safe return doubtful. Honour and recognition in case of success." 
(“Precisa-se de homens para expedição perigosa. Salário baixo. Frio extremo. Longos meses de completa escuridão. Perigo constante. Retorno em segurança duvidoso. Honra e reconhecimento no caso de sucesso” )

Do lado de fora, um outro cartaz pendurado dizia: "Protest Against the Rising Tide of Conformity." (Proteste contra a crescente maré de conformidade).

Mas a grande lição que tiro da vida de Davis é o que ele considerava o motivo do seu sucesso profissional. Quando era mais jovem, ele tentara ganhar a vida como piloto de corrida. Mas em 1955, aos 25 anos, capotou seu MG em uma prova na cidade de Sacramento, na Califórnia. O acidente foi terrível: Davis praticamente perdeu metade da face. Todos os dentes e o céu da boca, toda a cartilagem do nariz, uma pálpebra. Anos de recuperação e de cirurgias plásticas foram necessários, e mesmo assim ele passou a usar barba e bigode para disfarçar um pouco. Mas segundo ele, esse evento mudou sua vida para melhor. Disse certa vez:

De súbito entendi de uma forma absurdamente clara que nada, mas nada mesmo – exceto a própria morte em si – poderia me matar. Nenhuma reunião poderia ser tão ruim. Nenhum cliente poderia ficar tão bravo. Nenhum erro profissional poderia me levar a uma situação que chegasse sequer perto da que eu já tinha sofrido e superado.”



Faz a gente pensar no que realmente importa, não? Ainda mais em uma semana como essa...

MAO

9 comentários :

  1. Para estar sujeito a morrer, basta estar vivo. Mas por mais obvio que seja assim, nunca nos conformamos com a perda de imediato. O tempo será o melhor remédio.

    Meus sentimentos, MAO.

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  2. Meus sentimentos MAO;

    Acredito que a morte seja uma espécie de mudança de frequência, de inevitável estado físico ou do abandono de uma antiga morada.

    Mesmo essa serena crença, não é o suficiente para mitigar a saudade dos que foram, pois existe sempre a eterna dúvida do reencontro - se houver - e se o que vamos voltar a visitar continua com as mesmas características que nos seduziram em afinidade.

    É complicado, mas ainda somos demasiadamente humanos para entender...

    Sobre seu amigo "mais de longe", também concordo que o conceito de carro chato é mais uma sombra de coração do que uma verdade absoluta, talvez seja algo desejável a imparcialidade de um jornalista automotivo...sei lá! Sou doente demais para considerar um carro que seja, uma máquina chata. Ele pode ser feio, lento, ruim de dirigir; mas um organismo mecânico, feito para suplantar distâncias e encher suas horas de movimento e liberdade, não pode ser considerada chato.

    Medições by fábrica é outro porém que tenho real horror; se fosse desse modo em todas as revistas, a Volks agora estaria no mesmo feudo de desempenho da Ferrari!

    Mas não dá para negar que esse sujeito era um predestinado, um lutador e um gerador de idéias e movimentos. Não por acaso - talvez - sua fisionomia é parecida com a de Nasser, verdadeiro panteão nacional cultural e automotivo.

    Grande post, meus sentimentos novamente, e volante mirado para a estrada, pois o sol vai nascer para mais uma jornada.

    Mister Fórmula Finesse

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  3. Eurico Jr.01/04/11 11:15

    Lamento o passamento de David. Era seu leitor desde 1990, quando comprei o meu primeiro exemplar da Automobile Magazine numa banca perto de casa. Depois, tornei-me assinante da revista. Atualmente, acompanhava-o na Car and Driver, sempre com suas opiniões sinceras e saborosas reminiscências. E as indefectíveis cartas, descendo-lhe a lenha ou elogiando-o. Que descanse em paz!

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  4. Francisco V.G.01/04/11 12:12

    MAO
    Meus sentimentos. Sei bem como é isso pois passei pela mesma situação à sua há uns cinco anos e a sensação é exatamente como você descreveu. Esse meu amigo também era entusiasta, mesma idade à minha e também se foi por uma doença raríssima no pâncreas. Comerciante, possuía uma loja de pneus e tinha as "manhas" como ninguém para fazer um alinhamento de direção, mesmo usando um equipamento arcaico, coisa de quem sabe e gosta do que faz. Peço desculpas por usar este espaço para expressar uma coisa pessoal e tão íntima, mas não pude evitar após ler esse seu post.

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  5. Meus sentimentos MAO, e como disse Antoine de Saint-Exupèry, "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós".
    Abs

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  6. Todos passamos por isso, cedo ou tarde e, alguns, mais de uma vez. O problema é quando chega A NOSSA vez... Por isso CARPE DIEM!!!
    MAO, o que vc fez no CEFET? Eu entrei em 87 e me formei em Edificações. Bons tempos.

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  7. Ué!!

    Para matar o tédio,

    Ligue numa rádio e escute a música da Rita Lee - "Agora só falta você"

    Ié ié!!!!

    Falou!

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  8. Meus sentimentos MAO.

    Sei que não é fácil perder quem a gente gosta, mas como dito no texto mesmo "brindemos tudo de bom que essa pessoa fez em vida"

    Infelizmente o trecho é longo e não podemos parar!

    Abração
    ass
    Kiko Molinari

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  9. Junior-Big02/04/11 22:23

    Meus sentimentos MAO

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