GUMBALL 3000 E SEU PASSADO




Gumball. Todos os entusiastas por carros devem conhecer este nome, ou ter ouvido falar pelo menos uma vez. Não conhece? Quem sabe pela descrição, um rali em vias públicas repleto de supercarros de todos os tipos, passando por diversos países a alta velocidade.

O nome oficial deste evento é Gumball 3000, uma corrida que começou em 1999 e teve algumas edições desde então. Milionários de todos os cantos do mundo participam de um verdadeiro desfile de luxo sobre rodas, com carros modificados e edições limitadas de tudo o que se pode imaginar. Para se ter uma idéia de quanto o evento é restrito aos ricos, a taxa de inscrição é de quase R$ 100.000.

Obviamente, em muitas edições não deu muito certo. Carros andando a mais de 200 km/h em vias comuns e cidades habitadas não costumam combinar. Um acidente fatal entre um Porsche TechArt e um Golf de passeio em 2007 condenou o Gumball na Itália e em diversos outros lugares.

Ferrari 458 Italia com a temática camuflada, a cada ano a temática muda

O evento continua a ocorrer anualmente, cada vez em uma rota. É um tipo de “me engana que eu gosto”, pois é sabido que os participantes não vão andar devagar e 99% deles não têm habilidades de piloto. Quando aparece polícia ou fiscalização, tiram o pé e passeiam. Envolve muito dinheiro, gente influente e mídia, então os organizadores dão um jeitinho. Particularmente, não acho interessante. Como um encontro de carros caros, sim, mas como um rali ou corrida, nem um pouco.

As raízes do Gumball são distantes. Em 1971, o editor da revista Car and Driver, Steve Smith, e o escritor/piloto Brock Yates tiveram a iniciativa de fazer um rali cross-country pelos Estados Unidos, de Nova York até Los Angeles. A idéia veio como uma forma de protesto contra o novo limite de velocidade imposto pelo governo, que passaria a ser de 55 mph (88 km/h) nas autoestradas e também uma homenagem ao sistema viário americano, ligando as duas costas do país e diversos outros pontos realmente distantes. Também o fator diversão e publicações na mídia não podiam ser ignorados.

O primeiro rali foi batizado de Cannonball Baker Sea-To-Shining-Sea Memorial Trophy Dash (algo como Troféu Memorial Baker “Bala de Canhão” Mar ao Mar Brilhante), ou simplesmente Cannonball Run. O nome foi uma homenagem a Erwin “Cannon Ball” Baker, um piloto de motos e carros nascido em Indiana do começo do século 20, que era famoso por estabelecer recordes de velocidade em distâncias fechadas, geralmente com o trajeto entre duas cidades. Em 1933, Erwin fez a travessia dos Estados Unidos de costa a costa com um Graham-Paige em 53 horas e 30 minutos, uma média de mais de 80 km/h. Esta marca perdurou por mais de quarenta anos! Nosso amigo Juvenal Jorge já falou sobre ele aqui no Ae.

Erwin "Cannon Ball" Baker (1882-1960)

Steve Smith, Brock Yates, seu filho Yates Jr. e Jim Williams completaram a travessia dos Estados Unidos em maio de 1971. Para o feito, utilizaram um Dodge Custom Sportsman apelidado de "Moon Trash II". Após 40 horas, os quatro chegaram a Los Angeles. As publicações na Car and Driver levaram até Yates diversos pilotos do mundo todo, interessados em participar da segunda edição que ainda nem existia.

Yates e Gurney com o Ferrari Daytona recordista de 1971

Ainda em 1971, a segunda edição do Cannonball Run, agora com mais de um veículo participante, foi marcada pela presença de ninguém menos que o grande piloto Dan Gurney, que dividiu com Brock Yates o volante de um Ferrari Daytona azul. Venceram a prova com o tempo de 35 horas e 54 minutos. Gurney ainda afirmou que “não excemos 175 mph (280 km/h) em momento algum”. Mais outras três edições foram feitas. 1972, 1975 e 1979, ano este que teve o recorde de 32 horas e 51 minutos feito por Dave Heinz e Dave Yarborough em um Jaguar XJS. Nesta época as autoridades já não estavam muito contentes com o evento, pois não é algo seguro de se fazer.

Estas corridas foram inspiração para muitos filmes, como o próprio Cannonball Run, de 1981, com Burt Reynods e Roger Moore, e o Gumball Rally de 1976, com Raul Julia interpretando o italiano Franco Bertollini, piloto do Ferrari Daytona, e dono de uma das melhores frases de filmes autoentusiastas. Ao entrar no Daytona, ele arranca o retrovisor central e joga no banco de trás, olhando para seu co-piloto e dizendo “o que está atrás de mim não é importante” com um cômico sotaque italiano.
 
Mercedes-Benz SLR Moss Edition no Gumball 3000

Depois da edição de 1979, estas corridas foram mal vistas e cessaram, com um ou outro evento menor acontecendo pelo mundo, tanto nos Estados Unidos como na Europa. O Gumball 3000 moderno veio desta leva.

Curiosamente, vendo um site com as fotos do evento do ano passado, que tinha muitos carros bacanas, apareceu um link na internet mostrando dois participantes pouco normais. Isso chamou muito a atenção, pois não eram só carrões com pinturas de ouro e preços absurdos.

Um sueco meio maluco chamado Jon Olsson preparou um carro que foi chamado de Rebellion R2K. Olhando para ele, dá para entender que o sujeito é bem doido. Ele modificou um Ultima GTR para parecer um Audi R18 e-tron de Le Mans. O Ultima GTR é um modelo vendido no mercado britânico para ser um carro de track day, muito similar a um Radical, com aparência de protótipo de corrida. Com nada menos que 600 cv e uma tonelada, deve ser muito rápido.
 
Rebellion R2K do sueco Jon Olsson, V-10 Lamborghini

A transformação feita por Olsson e Lief Tufvesson, ex-engenheiro chefe da Koenigsegg, conta com nova carroceria e motor V-10 de Lamborghini Gallardo. Como Jon é piloto de ski de neve motorizado, fez um video com o Rebellion em uma pista de neve.

O Rebellion foi licenciado para rodar em vias públicas, uma vez que o Ultima original também pôde ser homologado.
 
Interior do R2K, espartano como um carro de corrida

Outros sujeitos ainda mais malucos fizeram algo bem improvável. Uma equipe da Arábia Saudita chamada Galag Team desenvolveu uma réplica do Batmóvel dos últimos filmes da série do Homem-Morcego. Sim, um Batmóvel, o chamado Tumbler.

Como bons árabes cheios da grana, imagino que devem ter tentado comprar um dos originais mas sem sucesso, e partiram para fabricar seu próprio Batmóvel. Não conseguiram comprar os desenhos originais, mas encontraram uma empresa de customização na Flórida chamada Parker Brothers Concepts que topou criar o monstrengo de 2,5 toneladas empurrada por um V-8 6-litros de mais de 400 cv.
 
Tumbler em fabricação pela Parker Brothers Concepts

Com eixo traseiro de caminhão, pneus de trator na traseira e pneus Hoosier na dianteira, o Tumbler da Galag é uma tremenda engenhoca. Parece que em 2013 o carro deu problema por entrar muita água dentro durante o primeiro dia, que teve chuva forte. Se tivesse passado pelo crivo do Mr. Fox isto não teria acontecido.

São duas idéias geniais. Por que não fazer um carro igual a um Audi de corrida? Por que não fazer um carro igual ao do Batman? Pensando fora da caixa, nada de Ferraris ou Bugattis com pinturas especiais de milhares de dólares ou Rolls-Royce com rodas gigantes que deixam o carro com cara de um HotWheels. Duas belas idéias que atraem de novo a atenção para este evento até então sem graça. Este ano o Gumball 3000 vai sair de Miami e seguirá até Ibiza, passando por Nova York, Londres, Paris e Barcelona, e começará no dia 4 de junho.

Hoje em dia o Gumball 3000 é chamado de rali, mas em teoria é para ser só um passeio entre as cidades da rota, mas é inevitável que os pilotos andem dentro dos limites de velocidade. O tempo de andar rápido em vias públicas acabou, é extremamente mal visto e não pode mais ocorrer. Velocidade só em locais controlados.
 
Lamborghini com a temática camuflada, só carros de alto nível e muitas vezes gosto duvidoso

Não é mais viável nem pensar em uma corrida do estilo do Cannonball original de Erwin Baker ou mesmo de Yates. O risco é alto demais, tanto é que a Car and Driver se desligou do nome e criou o One Lap of America, um evento anual em circuito fechado que garante uma das suas publicações anuais, com grandes carros em um local seguro.

A reunião de supercarros extremamente seletos e raros é legal, não nego, mas juntar isso com muita ostentação e chamar de corrida cross-country é demais. Como diz nosso amigo MAO, o Gumball morreu há anos e esqueceram de enterrar. Hoje em dia não passa de uma grande balada intercontinental. Não sobrou nada do espírito original de Brock Yates e sua Moon Trash II, mas estes dois carros acenderam uma pequena chama. Conseguiram ao menos atrair a atenção.

 




MB

Fotos: gtspirit.com, gumball3000.com, Car and Driver, Team Galag, Jon Olsson.



14 comentários :

  1. Imagine uma corrida dessas aqui em Pindorama(o país, não a cidade). Os carros se acabariam em buracos, atolariam na lama ou seriam roubados( ou tudo isso junto). Em SP, gastariam mais em pedágio do que em combustível e, ao pararem para qualquer fim, os participantes seriam vítimas de sequestro-relâmpago.No Rio, cafezinho pro "otoridade" a cada 500m. No norte pegariam malária enquanto esperavam por algum trator para desatolar o carro. E assim por diante...

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    1. Pois é... E pensando nestas características do nosso país, lembrei da taça da Copa do Mundo.
      Imagine só o risco que 5 quilos de ouro dando sopa por aí estão correndo.
      A Jules Rimet já levaram, e se levarem esta, o vexame nacional vai ser total.

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    2. Adicione aí a caixinha do flanelinha sob pena de "sumir" os retrovisores, lavadores de parabrisa nos semáforos, motores engasgando por conta de combustível adulterado, etc etc etc...

      Sobre o andar no limite de velocidade, não é bem assim não. Tem diversos vídeos no youtube com o pessoal baixando a bota. Em alguns, a polícia vai atrás.

      Tem bastante carro legal, mas tem muita coisa também que demonstra que ter dinheiro não significa ter bom gosto.


      Marco

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  2. LeandroL64123/04/14 13:01

    Não sou a favor de corridas de rua (fica feio assumir isso), mas pera aí, qual é a graça de se inscrever em um evento pra passear por algumas cidades em velocidades civilizadas com pessoas que só querem mostrar que tem mais dinheiro que você?
    Se querem fazer um evento morno regado a leite com pêra, pelo menos tinham que ter a decência de criar um nome novo e preservar a memória.
    Como seriam as histórias de Woodstock se fizessem um novo festival com esse nome nos padrões modernos de segurança e politicamente correto? Se não é viável fazer, pra que estragar as lembranças?

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    1. Exatamente, não há ligação alguma com o passado do evento. Acho pouco provável que alguns poucos participantes conheçam o que aconteceu no passado, ou mesmo saibam o porquê do evento que eles imitam.

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  3. Milton,
    muito boas explicações, gostei bastante.

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  4. Caros,
    Poderíamos inventar um Gumball Brasil? Um negócio acessível?
    Atenciosamente,

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    1. Muito difícil, nem há condições de estradas para andar a 60 km/h na sua maioria....

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  5. Hoje em dia é apenas um colorido e caro desfile de carros guiadas por gente deslumbrada, cegas pelo próprio "poder" econômico....

    Agrada aos olhos dos passantes, mas é como uma "balada" (como odeio o termo) em um iate, o povão até olha de longe, se diverte com as cores e a excentricidade, mas no fundo....é algo vazio.

    Melhor seriam esses carros em circuito fechado, em provas de gentleman drivers, ou meras demonstrações de potência. O foco como está não é o amor pelos carros, pelas máquinas exóticas, mas sim pela celebridade, pela "aventura", pelos holofotes e pelo reconhecimento da mídia e das pessoas que servirão de trampolim social e psicológico.

    MFF

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    1. Exatamente o que eu acho que matou o espírito por trás do nome. Não passa de uma balada ou rave com carros caros.

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  6. Rolêzinho de bilionários... :-)

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    1. Kantynho
      Sem dúvida, com a vantagem de não perturbar a vida dos shopping centers!

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    2. Estava em NYC em 2012 e vi a saída do Gumball. Pode até ter perdido um pouco do espírito mas é um programa imperdivel. Em plena Times Square aquelas máquinas (carros e garotas) além das figuras que vão desde árabes até latinos... Valeu a pena demais!

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    3. Por ver carros diferentes como o SLR Moss Edition da foto ou mesmo o batmovel, OK, mas fora isso, acho que a falta de ligação com o passado mata qualquer outra vontade de assistir.

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