OS CÂMBIOS EM RITMO DE RETROSPECTIVA

Fotos: Selma Lazareti, arquivo pessoal e autor.
Esta é uma postagem em ritmo de retrospectiva, um ano cheio de mudanças e que terminou cheio de automóveis

O ano de 2013 representou um período de mudanças em minha vida. Comparando com um câmbio, seria como se eu estivesse numa caixa de mudanças seqüencial, com infinitas embreagens e igualmente infinitas marchas. No quesito de continuamente variável, poderia até ser um CVT, mas fato é que em algumas dessas passagens houve alguns trancos, porém quando notei estava num overdrive que proporcionava uma velocidade acima do que conseguiria controlar, por sorte o escalonamento não me deixou sair de giro.

O ano de 2013 foi de muita correria e diversas mudanças, me senti numa caixa de câmbio

Tudo foi tão corrido que mal tive finais de semana, consegui ter alguns dias livres no início de dezembro, notei que assumi tantos compromissos e responsabilidades profissionais que acabei por me isolar de muitas pessoas, incluindo familiares e diversos amigos, a estes últimos fiquei devendo visitas. Ao sair para o recesso das festas me dei conta de que na correria do dia a dia não havia programado nada para o final de ano. Por sorte, notei que muitos dos meus amigos também não.

A Galaxata, assim como outros assuntos das postagens do AUTOentusiastas, foram das poucas oportunidades que tive de ir a eventos, que em outros anos freqüentei muito mais


Percebi que muitos amigos estariam em suas casas durante as festas, preferiram deixar as viagens para 2014, assim pegariam o contra-fluxo da esmagadora maioria e poderiam continuar em suas cidades aproveitando os carros antigos, nas ruas praticamente desertas. Então decidi rapidamente que viajaria para reencontrar os amigos a quem devia visitas, o cenário era perfeito, tinha companhia, uma máquina fotográfica e automóveis para dirigir, o que mais eu poderia querer?

Oportunidade de andar por ruas e estradas tranqüilas e com carros antigos, uma excelente combinação
Muito bom saber que com poucas pessoas nas ruas os antigos podem dominar o cenário

A partida seria logo após o Natal, essa data — até para mim — é sagrada, mas não por motivos religiosos e sim porque nesse dia reunimos a família inteira numa chácara de uns primos, uma tradição que existe desde sempre. Vamos para a noite da véspera de Natal, fazemos a ceia, bebemos — muito — e no almoço de Natal fazemos uma leitoa, essa é a tradição que os homens de nossa família preserva e todos adoram — com exceção da minha irmã, que é vegetariana.

Por mim a comemoração poderia ser qualquer uma, o Natal só tem graça porque reunimos toda a família...
... e no almoço de domingo nós — os homens da família — fazemos uma leitoa.

Estava com um Fiat Punto Sporting, emprestado pela fábrica, um carro legal, honesto e muito completo. Bom de estrada, mesmo com o câmbio Dualogic Plus, que não está entre meus preferidos, mas confesso que para estrada — mesmo na opção mais pacata e nas mudanças "de maneira automática" — o carro tem excelente velocidade final, consegui manter média de velocidade bem elevada na estrada que liga as cidades de Arthur Nogueira e Cosmópolis, no interior de São Paulo. Era véspera de Natal, estrada vazia e eu me diverti muito, dessa vez até minha irmã, que era a única passageira do carro, gostou!

O câmbio Dualogic Plus, mesmo na opção mais "mansa" permitiu uma boa velocidade de cruzeiro

Para a primeira parte da viagem estava com um Fiat Punto Sporting, cor vermelho Modena, igual ao da foto

Teria de voltar a São Paulo, aproveitei para pegar um outro carro que estava comigo, também de fabricante, um Volkswagen Gol Rallye, também com câmbio robotizado, a versão I-Motion, mais uma vez aquela não era minha opção favorita, mas era uma oportunidade de andar com um carro de teste fora do caminho "casa-trabalho-casa" que foi a constante de 2013. Meus destinos eram as cidades de Capivari e Rafard, onde moram os amigos Quibao (que tem o Karmann-Ghia na sala) e a Sílvia Cristina Farias (que faz seus quadros em pop art). Assim que postei matérias com eles aqui no AUTOentusiastas veio o pedido "venha me visitar, faz tempo que não nos vemos", aquela cobrança boa que só um amigo pode fazer a outro grande amigo.

Gol Rallye, um visual que pretende inspirar a aventuras em meio a natureza, mas preferi usa-lo para visitar amigos e coleções

Conduzi o carro para a cidade onde está instalado o Museu IFA Trabant, também no interior de São Paulo

Ao chegar na casa do Luiz Quibao Júnior, fez questão de nos levar para um passeio, tínhamos a oportunidade de andar em seu Landau modelo 1983, o amigo fez questão "Vá dirigindo". Foi o que fiz, sem cerimônias me apoderei do lugar do condutor, liguei o admirável V-8 com suas 302 polegadas cúbicas, os 198 cv de potência bruta e com o câmbio que mais admiro na linha Galaxie, o automático C-4 de três marchas. A alavanca na coluna de direção faz com que com poucos movimentos o Drive seja engrenado, consigo fazer isso com a palma da mão direita no volante e movimentando apenas as pontas dos dedos médio e indicador, isso somado a um banco inteiriço faz do carro ideal para dirigir abraçado a uma bela mulher, como estava bem acompanhado aproveitei a situação e não deixei escapar a oportunidade, claro.

O "Azulão", o Landau 1982/1983 do amigo Luiz Quibao Júnior, com ele fomos de Rafard e Capivari para visitar a Sílvia C. Farias.

Seguimos rumo de Rafard a Capivari para encontrar com a Sílvia Cristina Farias, que já havia me confessado ter uma tela a minha espera. Confesso que minha vontade era rever a amiga que não encontrava há alguns anos. Foram apenas 3 km separando uma cidade da outra, procurei ir devagar para passar mais tempo a bordo do Landau, ao chegar e ser recebido com abraços, suco de melão direto da fruta, muitas conversas e risadas. Percebi que um Landau idêntico àquele que cheguei dirigindo estava retratado na obra da Sílvia, meu Landau, junto ao carro — na pintura — os personagens de John Belushi e Dan Ayrkroyd, os "Irmãos Cara-de-pau", personagens principais de um dos filmes que mais gosto ( e também foi citado em postagem de 2013).

A belíssima arte de Sílvia Cristina Farias juntou dois elementos que gosto muito, meu Landau e os atores/músicos The Blues Brothers

O ano já estava perfeito, seria impossível ficar melhor. Pegamos o Gol amarelo e a estrada, no dia seguinte, rumo a cidade de São Miguel Arcanjo, teríamos um dia sem qualquer contato com automóveis, nossa meta era curtir o parque ecológico, as cachoeiras, a mata... a natureza. Mas sabe como é né... a minha natureza não é dada a esse tipo de aventura radical, visitei o parque inteiro de carro — acelerei pelos 36 km de estrada. Pude brincar um pouco com as opções do câmbio I Motion que não era nenhuma novidade, mas já que estava curtindo, então vamos ver todas as possibilidades em subidas, descidas, curvas, terra e cascalhos.

Parque Ecológico Carlos Botelho, entre São Miguel Arcanjo e Sete Barras, no interior de São Paulo

Andar de carro pelo parque estava bom, mas estávamos entediados, seguimos para nosso próximo destino, visitar o curador do Museu IFA Trabant, que também foi motivo de postagem em 2013 e que há tempos também me chamava para uma visita. Estava no último dia do ano, iríamos passear e nem poderia imaginar que antes do Réveillon ainda dirigia mais carros com câmbios pitorescos. Primeiro um Fusca Pé-de-boi, o Volkswagen de 1965 com toda sua simplicidade e diferenças de painel, nada de marcados de combustível, nem tela de alto-falante e muito menos cinzeiro, onde nos anos 1970 era possível notar na linha VW o diagrama das marchas, item obrigatório pelo Contran. Por incrível que pareça, o câmbio é idêntico ao de qualquer outro Fusca, com sua típica marcha a ré ao lado da segunda.

Painel do Fusca Pé-de-boi, um painel despojado de tudo o que não fosse obrigatório em 1965...
... na segunda fase do ano de 1970 o cinzeiro ganhou uma tampa com o desenho do diagrama das marchas

Na mesma tarde, andamos ainda no Dart SE, esse sim, um bocado diferente na hora de engrenar. Por ser uma versão despojada do automóvel V-8 de entrada da linha Chrysler, o câmbio era o de três marchas, só que a alavanca de câmbio passou da coluna de direção para o assoalho e assim agradar aos jovens. No entanto, essa mudança trouxe um engate atípico, a primeira ficou para a posição de trás, a segunda para frente e a terceira para trás novamente, como nos Fordinhos, automóveis 44 anos mais antigos que o "Dojão Pelado".

Diagrama do H mostrado na manopla da alavanca de câmbio do Dart SE...
... para acompanhar o visual jovem do "Dojão Despojado" o acionamento do câmbio passou da coluna de direção para o assoalho, entre os bancos dianteiros.

Parecia que agora era só aguardar a passagem com muita risada, diversão e as esperanças de um novo período nas vidas, mal poderia esperar, mas ainda naquele ano, no finalzinho da tarde, ainda andaria com mais um carro de acionamento de marcha interessante, o carro título do museu, um Trabant 1971. Enquanto o dono da coleção andaria com um dos Trabant 1963 da coleção, eu iria no modelo mais moderno. Os poucos pedestres da pequena cidade onde circulamos apontavam para os veículos em tom de curiosidade, algo tão inusitado quanto a alavanca de câmbio do carro.

Eu ao volante do Trabant 1971 e perseguindo o Trabant 1963, uma cena no mínimo insólita...
... ainda mais se lembrarmos que estamos no interior do estado de São Paulo, ou seja, longe da ex-Alemanha Oriental

São quatro marchas, acionadas por uma alavanca que vem paralela a coluna de direção e fica embaixo do painel, lembra muito o acionamento dos Citroën 2CV, mas as marchas ficam muito mais próximas, somente a ré exige uma atenção especial no aprendizado, mas depois de pegar a manha, conduzir o pequeno automóvel está entre as coisas mais interessantes do universo automobilístico.
Esquema de acionamento das marchas, adesivo original de um Trabant...
Note a localização da alavanca de câmbio, abaixo do painel e paralela à coluna de direção

Andei muito, encontrei amigos, andei com automóveis, o melhor de tudo é que não fiz isso sozinho, estava sempre com a melhor das companhias. Mesmo tendo aproveitado para rodar — e muito — não paguei todas as minhas promessas de visitas, uma especial ficou para trás, mas vou resolver de imediato: minha próxima ida será à casa do mestre e amigo Bob Sharp — grande Bob passarei aí, em breve e vou com algum carro para que renda uma postagem aqui para o AUTOentusiastas!

PT



10 comentários :

  1. Não consegui entender o acionamento das marchas do Trabant.

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    1. Marcelo R.
      O curso de seleção de canais das marchas é deslocando a alavanca axialmente, puxando-a em sua direção ou empurrando-a. O engate das marchas é girando-a. Eram assim o DKW Front de 1932, o Citroën 2CV de 1948, o DKW F5 de 1949 e o Renault 4 de 1961.

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    2. Para engatar a 1ª e a 3ª se gira a alavanca para baixo, e para a 2ª e a 4ª se gira para cima? E a ré se puxa a alavanca até o fim do curso (em direção ao volante) e se gira para baixo? É isso mesmo?

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    3. Isso mesmo, Marcelo. É bem fácil.

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  2. Da série "Meu passado me condena": tive uma dessas manoplas da Shutt, mais especificamente a toda preta com o desenhos das marchas em prata, no meu S16.
    A melhor, em termos de empunhadura e ergonomia, foi uma da Picasso 2005 em diante, com parte do corpo em metal (dizia a fábrica que era pro peso facilitar os engates, vai saber).

    Quanto a amigos, estou na mesma tocada do Portuga, correndo atrás do tempo que o trabalho, os compromissos e a preguiça (por que não?) nos fazem perder.
    Recentemente estive na casa de amigos muito queridos e já combinamos uma viagem para Juquiá no Carnaval... bom passar o tempo com gente querida.

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  3. velho rabujento23/01/14 19:38

    Os primeiros opalas, C-14, veraneios e até mavericks 06 cilindros também tinham as alavancas de troca de marchas ao lado da coluna de direção; também as picapes Willys e o aerowillys e voltando mais no tempo, a maioria dos automóveis importados antes da fabricação nacional do fusca; isso mostra a inteligência desse projetos mais antigos, que privilegiavam a facilidade de condução e o conforto a bordo, sem a inconveniência de uma barra de ferro entre os bancos, como virou moda depois do fusca; hoje, mais modernos, há automóveis que nem sequer de alavancas fazem uso, apenas de um botão, para esse mister;e uma coisa puxa outra e me lembrei que os antigos tinham botão de partida separada da chave e todo mundo achava feio e hoje esse sistema voltou a ser usado em automóveis mais caros; vá entender essa humanidade. E, Portuga, no final você teve um 2013 encerrado com chave (ou botão ) de ouro, que causa inveja a nós da plebe, não só pelo carros dirigidos, mas também pela leitoa digerida na boa companhia de amigos e familiares, isso , cada vez mais díficil, como os carros que tivestes o prazer de desfrutar!

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  4. Belo texto Portuga! Parabéns.

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  5. Ola, gostei muito da reportagem, estava lendo sobre cambios, gostaria de transformar o cambio do meu golf 2010 flex, com diferencial bem curto 4,533 para abaixo de 4 se possível...cambio mq200 em uma 4 +e, ou mesmo se for mais simples, apenas reduzir o diferencial... Me da umas dicas bob? meu e-mail alencarsouza.adm@gmail.com

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    1. Alencar Souza
      Consultada, a VW esclareceu que é possível trocar apenas o pinhão e coroa, bem como a 3ª, a 4ª e a 5ª individualmente. Só na 1ª e 2ª é que há restrição, não são separáveis. Assim, para passar o câmbio MQ200 do seu Golf a um verdadeiro 4+E, mande trocar o pinhão e coroa e as três ultimas marchas pelas do Fox Bluemotion. Você terá uma quinta que deixará o motor a 2.520 rpm a 120 km/h em 5ª e terá a velocidade máxima (185 km/h) em 4ª com motor a 5.100 rpm, apenas 150 rpm abaixo da rotação de potência máxima, o que lhe permitirá embalar numa descidona em 4ª mesmo, sem se preocupar com rotação excessiva do motor. Levando-o a 6.000 rpm nas acelerações o carro atingirá 47 km/h em 1ª, 84 km/h em 2ª r 138 em 3ª. Ficará ótimo. No Fox BlueMotion a 1ª e a 2ª são as mesmas do seu Golf.
      Bom proveito!

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  6. Alencar Souza
    Certamente que lhe dou as dicas. Só preciso descobrir junto à VW se há intercambialidade de pinhões e coroas de diferentes relações sem mexer no resto e se marchas podem ser trocadas nas árvores livremente. Por exemplo, os câmbios 013 (longitudinais) é possível, não tenho certeza se no MQ200 é. Aguarde-me.

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