MEU TIO INESQUECÍVEL

Tive seis tios, todos homens, quatro do lado paterno e dois, do materno. Todos, menos um, foram grandes tios, amigos, em muitos casos companheiros. O tio Paulo, do lado materno, foi o mais amigão deles e foi quem me introduziu ao mundo do automóvel sentado no banco do motorista de seu Citroën 11 L 1947. Eu tinha apenas 10 anos e mal enxergava por cima do grande volante. Com toda a paciência do mundo me ensinou os fundamentos dessa arte-técnica, que uso até hoje. Mas teve um, o tio Sidney, que era mesmo incrível. Na foto ele tinha cerca de 35 anos.  

Dentista, automobilista, era metido a inventor e gostava tanto de mecânica que fechou o consultório por um tempo e foi fazer um curso de mecânica de automóveis em Saint Louis, estado do Missouri, nos EUA, já que pretendia abrir uma oficina mecânica "de alto nível" no Rio, onde morávamos todos.

Na volta, depois de quase um ano fora, contou-nos suas experiências no tal curso. Uma foi logo nos primeiros dias do curso, o instrutor, ou professor, ter-lhe mandado varrer a sala de aula no fim do dia, ao que o tio retrucou: "Mas eu sou um doutor, um cirurgião-dentista, não é próprio eu fazer esse tipo de trabalho", no que ouviu simplesmente, "Right, doctor, but do what I am telling you to do, please" (certo, doutor, mas faça o que estou lhe dizendo para fazer, por favor). Não teve saída senão pegar a vassoura.

Ele trouxe muitos livros, alguns equipamentos, como um conjunto multiteste, e muitas ferramentas, entre elas um torquímetro Snap-On, que anos depois me deu — nunca abriu a tal oficina — e usei-o durante anos na minha concessionária Volkswagen. O problema é que era em libras-força·pé, mas uma tabela de conversão para kgf·m dada a cada mecânico resolveu. Um dos livros que trouxe tenho-o comigo, "Automatic Transmissions", editado em 1950.

Mas notável mesmo era seu lado inventor. Comprou um Volkswagen 1954, dos primeiros com motor 1200 no Brasil e ainda dos montados pela Brasmotor, e sua namorada começou a reclamar que não tinha onde apoiar os pés — não existia a prancha para esse fim que sai do assoalho e vai até o anteparo dianteiro. Um tubo para apoio dos pés deu o conforto reclamado pela namorada Yvonne. Alguns anos depois a fábrica passou a dotar os VW da tal prancha.

Naquele tempo roubavam-se muito calotas de Volkswagen. Como ele havia trazido dos EUA um gravador de metal, bolou o seguinte negócio: gravar nas calotas de um mesmo carro os dizeres, em letras bem miúdas, "Esta calota foi roubada do carro de placas xx-yy-zz" (placas eram numéricas de seis dígitos). Colocou anúncio no Jornal do Brasil de domingo oferecendo a novidade e dizendo que só aceitaria os primeiros quarenta clientes...Não apareceu nenhum! Será que ele achou que pessoas "fiscalizariam" as calotas para saber se eram mesmo daquele carro?

Ele notou que os taxistas nas filas costumavam avançar os carros à medida que a fila fosse andando empurrando-os, não gostavam de ligar o motor toda hora, que era mesmo prejudicial em tempo de baterias de 6 volts e dínamos em vez de alternadores. Idealizou então um intrincado sistema de pedal e catraca para, em seu posto, o motorista movimentar ligeiramente o carro. Só que o sistema nunca saiu da fase dos esboços, mas o fato é que hoje os carros híbridos ou elétricos têm exatamente essa capacidade! Motoristas de Toyota Prius e Nissan Leaf que o digam.

Naquele tempo os ônibus elétricos eram amplamente utilizados por toda a cidade. Pois o tio Sidney pensou em colocar um motor elétrico no carro e fazer sabem o quê? Rodar sob a rede elétrica e captar a energia por indução, sem gastar um centavo sequer com energia! Ficou só na idéia, é claro, mas não é que hoje se pensa em carro elétrico alimentado exatamente por indução para andar?

Ele tinha um jeito todo dele, que nos fazia rir muito. No consultório, para acalmar as crianças  na cadeira de dentista, mostrava uma caveira...Nem é preciso dizer o resultado. Num período de poucos pacientes, teve a idéia de de preencher o livro de agendamento de consultas com clientes hipotéticos, para não ficar chato o livro quase vazio, e quando contratou uma assistente temporária enquanto a titular estava de férias não a informou sobre o "truque". Resultado: muitas consultas recusadas por "agenda cheia"...

Havia um paciente que lhe devia um bom dinheiro, ele sempre cobrando e, nada, apesar de continuar atendendo-o. Um dia, numa consulta, esse paciente lhe disse que pagaria tudo de uma vez e ao final pegou o talão de cheques, do qual restava só uma folha. Ao preencher o cheque, o paciente o fez nominativo e em vez de escrever 'Sidney' escreveu 'Sidene'...Não sei quando o tio recebeu o que lhe era devido, aquela vez é que não foi.

Uma de suas idéias mais mirabolantes foi o "Sumo Rodoviário". Tratava-se de mapear todas as estradas do Brasil e para isso compraria uma Rural Willys, que começara a ser fabricada no Brasil, e sairia rodando país afora, com a namorada Yvonne secretariando-o, escrevendo tudo numa máquina de escrever e ele fotografando. Chegou a conseguir uma Rural, difícil naquele tempo, era preciso "pistolão", que um irmão dele, o tio Jeff, havia conseguindo com um paciente influente. Mas não chegou a concretizar sua impraticável idéia e tampouco a comprar a Rural.

Era um tipo curioso. Tinha mania de ter tudo dobrado. Dois consultórios, morava em dois apartamentos, tinha dois acordeões, dois carros, duas namoradas (a Yvonne e a Teresinha). Com esta última se casou, tarde, mas a união durou pouco, ela tinha problemas psicológicos que ele desconhecia, configurou-se erro fundamental sobre a pessoa e ele obteve anulação do casamento.

Um ataque cardíaco fulminante tirou-lhe a vida quando tinha apenas 55 anos. Foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro – mas num túmulo errado, tendo sido necessário desenterrá-lo alguns dias depois.

O tio Sidney teve dois túmulos!

BS







32 comentários :

  1. Bob,

    Muito legal este seu relato. Certamente, é muito legal um garoto ter um tio assim, com quem se identifica e aprende tanta coisa — um cara boa-gente.

    Em vários casos, ele teve as ideias certas, embora, infelizmente, não no momento mais própicio para que vingassem.

    De fato, um tio inesquecível.

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  2. Adoro as crônicas do Bob, ainda mais vindas de um tempo mágico e romântico que eu não vivi.

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  3. O Bob, esqueceu de mencionar sobre a ideia de mapear tudo na Rural com fotos e anotações e hoje o Google Maps com os seus Captivas!
    Ele nasceu no tempo correto, as pessoas em volta que não... (risos)

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  4. Que figuraça esse Sidney! Do "arco da velha"...rs.

    MFF

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  5. Esse tipo de texto na minha opinião é o divisor entre o AE e outras publicações por aí. Fantástico o relato, Bob. O desfecho do texto foi sensacional!

    Partilho da opinião do colega Márcio acima, tempo errado na mosca!

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  6. Bob, podemos dizer então que o tio Sidney foi sua maior inspiração?
    E a título de curiosidade: ele chegou a ter contato com algum dos seus amigos "feras" do automobilismo, por exemplo, o Antonio Carlos Avallone e o Luiz Antonio Grecco, que você cita na história do Opala que correu as 25 horas de Interlagos?

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    1. Fábio Vicente
      O meu lado mecânico, sem nenhuma dúvida, ele mesmo. Não teve contato com os feras.

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  7. Bacana a sua crônica, Bob. Esse tipo de diversificação é que imprime qualidade ao blog.
    E quem sabe o Tio Sidney e sua Rural poderiam ter sido os precursores do Street View e suas Captivas.
    Também tive um tio paterno, Valdomiro, que não cheguei a conhecer pessoalmente, pois morreu aos 35 anos, que fazia de tudo: desde telhados até retífica de motores de moto, e também comprou ferramentas mas nunca chegou a abrir uma oficina. Acho que (quase) todas as famílias têm um tio inventor. O outro, por parte de mãe, o Tio Marino, dizem que nos anos 1940 inventou uma máquina para produzir moedas falsas. E que, no início da ditadura, a enterrou no terreno onde até hoje reside parte da família.
    Qualquer dia vamos escavar o terreno...

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  8. Toda família tem um parente que se destaca - de um jeito ou de outro - e vive nas nossas lembranças para sempre.

    Meu tio inesquecível se chamava Venício Nalepinski, mais conhecido como "Padrinho"... visto que a esposa dele era, ao mesmo tempo, irmã e madrinha de minha mãe, nada mais justo que estender-lhe a honraria.
    Homem cultíssimo, eletricista de mão cheia, leitor ávido da Seleções... uma de suas invenções perdura até hoje, um pequeno ventilador apelidado "14-Bis", montado há mais de 20 anos. Já ocupou seu lugar no céu há um bom par de anos mas sempre é lembrado na família.

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  9. "Tive seis tios, todos homens..."
    Já comecei o texto rindo, afinal, hoje a coisa esta tão distorcida que temos que deixar claro, já que hoje é possivel ter tios que não são homens.
    (afinal, eu escreveria tive 3 tios homens e 3 tias mulheres, por exemplo, sei que o tios é generico nesse caso, mas a que se lembrar que tambem é generico pra se afirmar que se teve 6 tios, todos homens, de forma generica e analoga tambem seria possivel pensar que tinha 3 tios casados com 3 outros tios!!! hehehe)

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  10. Muito legal, Bob. Excelente relato! Esse seu tio deve ter sido "O Cara"!

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  11. Desculpe Bob, embora o final tenha sido trágico, não teve como não rir, este seu tio era uma "figura", kkk

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    1. Passarini,
      Não tem por que se desculpar, é para rir mesmo. Figuraço mesmo. Uma vez estava com as duas namoradas na Kombi, as duas começaram a brigar e ele, solenemente, disse "Não briguem, meninas."...

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    2. Eu conheço um cara que estava acidentado, todo quebrado e sentado no sofá com uma de um lado e a outra do outro lado...
      Ele passou mal com problema de pressão e as duas vendo quem socorria o pobrezinho!
      Eu que não queria estar na pele dele...

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    3. "Não briguem, meninas..." é o supra-sumo de um cara figura!

      Bela história.

      Abç!

      Leo-RJ

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  12. Essa do jazigo dá um tom engraçado até para a morte. Muito legal!

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  13. Já meus tios infelizmente sempre foram zeros à esquerda na minha vida. Na verdade, nem devem mais lembrar que algum dia eu nasci, justamente por isso eu não sinto falta desse lado familiar, que na minha família, inexiste, mas entendo e admiro pessoas iguais seu tio que tanto fizeram e marcaram a família.

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  14. Também tenho um tio Paulo, Bob, só que é um chato (chato meeeeeesmo) de um comunista, he, he! Bela homenagem ao seu tio. A figura poderia estar naquela página "Meu tipo inesquecível", da revista "Seleções do Reader's Digest". E morreu como eu acho que os justos e bons devem morrer: de um ataque fulminante do coração. Nada de definhar numa cama de hospital, nada de longos períodos de sofrimento, nada de ficar dependente de terceiros para tudo...Meu "tio" mais legal nem era meu tio, mas um cunhado de um dos meus tios de sangue. Morreu assim também, como ele mesmo sempre desejou. Esse, gostava de carros, de mecânica, era um autoentusiasta. Uma das boas recordações que tenho ao lado dele, foi o dia que o levei para conhecer o Museu do Automóvel de Brasília.

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  15. Não sei porque lembrei-me do Rosamundo, personagem do Stanislaw Ponte Preta, criador do inesquecível FEBEAPÁ, Festival de Besteiras que Assola o País. Ou algum personagem do Luis Fernando Veríssimo. Figuraças...

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    1. Não é por acaso, não. O texto tem um "quê" de Stanislaw Ponte Preta. Esse tio também deixou saudade, faz falta hoje, com farto material para o FEBEAPÁ...

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  16. Desnecessário dizer que o texto ficou muito bacana, daqueles que gente relê logo em seguida, só para pegar todos os detalhes e ter certeza que nada escapou! Meus grandes inspiradores e, de certa forma, mentores em minha iniciação na arte mecânica foram meu pai e um tio também. Mas para aprender de vez a mecânica de automóveis e motocicletas, tive um "tio" postiço, um grande amigo que, quando eu tinha 11 anos apenas, já me ensinou como a montar o motor e câmbio completo de uma moto Honda 125.

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    1. Road Runner,
      Acho essas coisas admiráveis, esses ensinamentos que nos são passados de maneira desinteressada.

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  17. Bob!

    Definitivamente seu tio era a pessoa com a vis ão certa mas no tempo (e no país) errado!

    Este texto de hoje me foi saudoso...me trouxe a mente meu tio (materno) e padrinho José Roberto. Falecido a menos de um ano de câncer no pulmão. Aprendi muita coisa com ele. Inclusive a gostar de certos carros como Kombi e Variant (ele tinha uma, verde pampa, 1980)

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    1. Daniel
      Como é bom aprender as coisas com os parentes queridos, não?

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  18. desculpa, mas eu rachei de rir quando vc escreveu que ele dois tumulos...rssss

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    1. Não precisa se desculpar, a família toda também fez o mesmo!

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  19. Também foi meu tio que me fez gostar de carros e automobilismo. Assistindo corridas na época do Piquet e Senna. Grande tio Manso!

    Hj em dia ele tá meio turrao com algumas coisas do dia a dia, mas continua sendo um parceirao. :)

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  20. Bob, em um mesmo dia li essa história de seu tio e vi na TV o filme Quincas Berro D'Água. Acabei aqui em minha mente traçando uns paralelos interessantes entre a ficção e a realidade.

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  21. Sempre desejei ter um tio assim, mas como não tive, espero pelo menos ser um tipo assim para o meu sobrinho.

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  22. Quando alguém nos inspira, deve ser lembrado mesmo. E quando tem histórias engraçadas, é melhor ainda de contá-las... hehe

    Fiquei na dúvida se agradecia ou elogiava, o justo são os dois!

    Também me lembro com felicidade de quem me orientou e ensinou muito, e foi quem realmente me deu mais motivos para ser quem hoje sou.

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  23. Depois que o casamento com a Teresinha foi para o brejo, ele voltou para a Yvonne?

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