SYD MEAD, CARROS SEM LIMITES

O Oldsmobile já existia, mas flutuante, apenas na cabeça de Mead

Sydney Jay  Mead é um artista do futuro. Os cinéfilos atentos podem saber que ele idealizou boa parte  dos cenários e veículos de Blade Runner, Tron, Star Trek (longas de cinema), Aliens, Missão Impossível  3, entre outros filmes. Mas antes disso os carros foram objeto de atenção e criatividade desse americano de Minnesota, que desde bem pequeno desenhava as máquinas que tanto gostamos.

Sua curiosidade pelo futuro veio de forma muito simples, com seu pai, um pastor protestante, que lia ficção científica dos anos 1920 e 30 para o pequeno Sydney. Histórias como Flash Gordon, Buck Rogers e as novelas de Jules Verne eram freqüente leitura na casa dos Mead. Não poderia dar em outra, Sydney se viu fascinado pelo que viria e existir, e se pôs a desenhar com afinco.
Seus carros são sempre impressionantes, e como artista muito completo, estão quase sempre inseridos em cenários relacionados à missão do veículo. O impacto visual de suas ilustrações reside nesses dois pilares, o veículo e o contexto, incluindo as pessoas e animais que freqüentemente aparecem juntos.
Aos 80 anos de idade, ele ainda é ativo, tendo aderido ao desenho eletrônico com o passar dos anos, após, claro, ter feito muita coisa à mão, em guache, uma técnica que dificilmente desaparecerá para muita gente dessa área da criação visual, mesmo com todos os recursos eletrônicos atuais.


Esse foi feito em 1958, na faculdade: dom nato

De sua formação na maior escola americana de desenho de estilo, o atual Art Center College of Design, Mead saiu para apenas dois anos de trabalho em fábrica, na Ford, no final da década 1950. Em um  departamento comandado na época por Elwood Engel, tinha como trabalho influenciar o estilo, não ser apenas mais um estilista. Fez alguns trabalhos que chamaram muito a atenção.

Um exemplo é o Lincoln Continental de quatro portas conversível, mundialmente conhecido por ter sido o carro onde o presidente John F. Kennedy foi assassinado, que tem várias idéias de Mead. 

Picape esportiva desenhada na Ford

Protótipo funcional feito a partir da idéia conceitual

Rapidamente sua habilidade foi aparecendo e seus trabalhos começaram a atrair atenções fora do mundo automóvel e, percebendo que poderia diversificar seus campos de atuação, foi buscar posições em empresas onde essa criatividade era mais utilizada  de forma geral, não apenas em carros. Depois de alguns anos de muitas ilustrações, finalmente em 1970 houve a chance de abandonar o trabalho de crachá e holerite e abrir sua empresa.

Muito interessante é saber que pouco antes dessa fase de independência definitiva dos fabricantes, foi convidado e negou uma proposta da Chrysler de ser contratado como o chefe de estilo para o Brasil, de forma a influenciar o que seria feito aqui. Quem sabe o que poderia ter acontecido com os nossos Dodges?
A U.S. Steel,  maior siderúrgica americana, viu em Mead a chance de criar carros grandes e com muito aço, em visões de futuro para atiçar a vontade das pessoas em possuir automóveis  chamativos e no típico gosto americano (e meu também) onde grandes quantidades do metal fosse usado, claro, para garantir os negócios da empresa. Um belo exemplo de marketing, direcionado para os sonhos. E o trabalho do artista só ajudava nessa idéia, pois os cenários eram na maioria das vezes pensados para fazer as pessoas se sentirem com grandes esperanças de um futuro agradável. As ilustrações abaixo são todas dessa fase, que inclusive foram publicadas em livro editado para a siderúrgica.
Alpine retreat

Capa do livro da U.S. Steel

Em 1967, um Rolls-Royce do futuro

Joybrick, veículo de lazer para a família, qualquer terreno

Um caminhão pesado transportando bobinas de metal

Perua flutuante, na estrada mais do que futurista

Innovari, carro de 1968

Le Mans Coupé, 1963

Uma das coisas que fez com os rendimentos dessas ilustrações foi comprar um Mercedes 300 SL "asa de gaivota" em 1961, e que ele ainda possui.

Também dentro desse trabalho, desenhou a limusine Sentinel  400, que foi posteriormente  transformada em miniatura da linha Hot Wheels pela empresa Mattel, a convite do presidente da mesma, que ficou maravilhado com o trabalho de Mead.





 
Para reforçar a imagem das miniaturas e atrelá-las à imagem de carros do futuro, um grande trabalho para gerar interesse em crianças e formar novos autoentusiastas, Mead foi também pago para fazer ilustrações com os modelos da linha Hot Wheels, que foram transformados em pôsteres de divulgação. Um deles está abaixo.


Pôster de divulgação da Hot Wheels


Outro trabalho de Syd são veículos para jogos eletrônicos, não apenas carros, mas também naves espaciais, barcos e motos. Estaleiros freqüentemente contratavam sua criatividade para gerar imagens que dessem idéias aos arquitetos de interiores desses veículos comprados sempre por clientes exigentes, que querem exclusividade e extravagância em sua maioria.
Mesma coisa com aviões particulares, tendo feito os interiores de três  Boeing 747 corporativos e o 727 do Sultão de Brunei.
Sydney Mead é um fã confesso dos cromados, segundo ele seu acabamento de superfície preferido, mais do que qualquer cor,  por permitir que a área assim acabada reflita o ambiente ao redor, com suas cores, luzes e sombras, permitindo imagens diferentes para um mesmo carro em condições e lugares diversos.
Sobre materiais do futuro, ele acredita que as pinturas serão apenas filmes aplicados como se faz hoje em lojas de acessórios, com qualidade muito superior, claro, já que isso eliminaria totalmente um processo muito caro dentro das fábricas, apesar de saber que fundos de proteção de metal sejam ainda mandatórios para durabilidade.
Sobre interiores, fibras eletro-elásticas devem passar a aparecer em quantidade, permitindo mudanças de formas em bancos, por exemplo, para acomodar de maneira mais eficiente pessoas de tamanhos e pesos muito diferentes. Seria uma memória não apenas das posições, como já existe hoje, mas também das formas para cada usuário. O comando para essa mudança seria eletrônico. Claro, a eletrônica continuará evoluindo, até chegarmos aos carros autônomos — que se dirigem sozinhos — o que irá mudar muito a indústria, já que apenas um carro poderá, por exemplo, deixar crianças na escola, pais no trabalho e retornar mais tarde, fazendo o caminho inverso e embarcando os familiares. Seria um enorme choque nas capacidades produtivas atuais, que visam atender várias pessoas dentro de uma mesma casa. 

Podemos pensar nisso apenas pelo lado ruim, o de perdermos a capacidade de dirigir. Mas ao vermos ao nosso redor a esmagadora maioria de pessoas que não gosta e não se interessa em melhorar sua habilidade nessa atividade, pode-se pensar que o lado bom existirá. Bastaria apenas aniquilar a bandidagem das grandes cidades, para que os carros não sejam roubados quando estiverem vazios, e que se evite os assaltos que ficariam muito mais fáceis com esses trajetos pré-programados para todos os carros.
Syd Mead tem ao menos dois livros publicados exclusivamente com seus trabalhos, Sentury e Sentury II, este bem recente, de final de 2010. Como passatempo de uma atividade que ele não considera trabalho, dedica-se também ao plastimodelismo.
O segundo livro de Mead., Sentury II, de 2010
Bela coleção de kits plásticos
Um futurista visual que sem dúvida tem grandes idéias, fértil fonte de inspiração para quem se interessa pela criação de automóveis. Para saber mais sobre a vastidão de seu trabalho além dos meios de transporte, o site oficial do artista está aqui.
Mais algumas imagens fantásticas abaixo. Clique para ver em tamanho grande a apreciar os detalhes.
Veículo voador? Terrestre? Os dois?

Um carro de corrida em desenvolvimento

Vidros e teto abrindo juntos, como conceitos ainda hoje, futurísticos

Um fora-de-estrada mais do que radical

Idéia para um carro urbano

Um iate terrestre para a revista Playboy. Note a cama no teto!

Spinner, carro de polícia de Blade Runner

Singer car

Para o Japão, um esportivo sem marca

Criado em 1970, o Le Mans Coupé, sete anos depois do primeiro

Carro irreal e animais irreais

A moto luminosa de Tron

JJ

Imagens: Carstyling.ru; Wikipedia; promotex.ca; shadowlocked.com; SydMead.com

11 comentários :

  1. Engraçado perceber que os carros futuristas do passado são mais futuristas que os carros futuristas de hoje. A galera de hoje em dia é muito pé no chão...

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    1. Guilherme,
      é que o mundo automotivo ficou muito mais chato. Quase nada do pensamento abstrato e livre dos estilistas sai de dentro das salas e estúdios onde eles trabalham. São direcionados a fazer sempre o que pode ser produzido. Muitos poucos tem a chance de "viajar na maionese" de verdade e criar novidades absolutas, ao menos no papel (ou na tela).

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  2. Fantástico!
    É difícil escolher qualquer coisa aqui, sem ser injusto, mas, pelo que representa para mim, a moto de Tron é "o melhor".

    Que bem que ele tenha influenciado e continua influenciando tantos!

    Post muito bom, obrigado JJ!

    _____
    42

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    1. Gostei do Joybrick!
      Jorjao

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    2. André Luis.
      Verdade, tem muita coisa bacana desse artista. Eu não consigo saber o que gosto mais.
      Não precisa agradecer. Eu é que agradeço a leitura e o comentário.

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  3. Gênio superlativo do desenho; um Moebius mais acurado das máquinas - quem leu a Enciclopédia Disney dos anos 70, deve ter reencontrado agora os carros e as paisagens na parte que versava sobre o futuro...tive esse insight agora, vendo essas lindas imagens.

    Genial mesmo, vou perder um tempo viajando nas imagens do site oficial desse grande artista!

    P,s: suas maiores criações para o cinema, lembro de ter visto - chocado e criança - nos cinemas do ínicio dos 80's; Blade Runner (que reunião de talentos hein? Vangelis, Ridley...etc - e o imortal Tron)

    MFF

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  4. Eu conhecia diversas dessas imagens e sou há muito verdadeiramente apaixonado por elas (como por tudo que tenha relação com a ficção científica). Não sabia que eram todas de um mesmo autor. Grande Syd Mead.

    Obrigado por essa belíssima postagem, pessoal do AE!

    Abraços.

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  5. JJ! Obrigado por colorir minha tarde com os sonhos e visões de minha infância, Quando o mercado ( sempre ele! ) não impedia verdadeiras exposições de talento.

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  6. Diria que no passado, as pessoas viam o futuro com mais expectativa, expectativa essa de que coisas maravilhosas e fantásticas surgiriam no horizonte e trariam uma excelente qualidade de vida. Hoje, vemos o futuro como a perdição da humanidade, onde o caos e desordem irão imperar com superpopulação, fome escassez de recursos. O mais engraçado, é que hoje vemos que quem tinha qualidade de vida era o pessoal dos anos 60 e 70, que podiam comer qualquer coisa, andar em carros confortáveis e beberrões e não se preocupar tanto com violência, transito e caos global. O futuro que eles pensavam já existia, e o que almejamos hoje é o passado. Belo texto, e parabéns pelo blog.

    Daniel Libardi

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  7. Chico Bento de Souza06/11/13 09:47

    Uai sô!

    Os carros do futuro de ontem são mais futuristas do que os carros futuristas de hoje!

    Bento

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  8. JJ,

    Que desenhos! Sensacional!
    Como sempre, vc acha assuntos realmente interessantes! Valeu!
    MAO

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