MUNDO BMW - PARTE 2

Como disse no final da parte 1 desse post, o BMW Turbo abriu o caminho para os carros da BMW que mais gostamos. É impressionante o que um carro-conceito, no momento certo, com as pessoas certas, pode fazer para uma empresa. Se aclamado pela mídia e público é uma injeção de entusiasmo na veia que resulta em produtos fantásticos, independente do sucesso comercial. Também ajudam muito a marca se tornar desejável e isso a BMW sabe administrar como ninguém.

Na esteira do BMW Turbo e também sob o comando de Bob Lutz entraram em cena os BMW 3.0 CSL como motor injetado no final de 1972 e o 2002 Turbo em 1973, o primeiro carro europeu de série com motor turbo. Numa passagem muito interessante livro "Icons and Idiots: Straight Talk on Leadership" o próprio Bob Lutz descreve como o seu chefe jogou no colo dele a cobertura negativa desses dois modelos junto à imprensa. O infelicidade de ambos os modelos foi a crise do petróleo da década 1970 com o embargo da Opep em 1973 fazendo com que qualquer carro esportivo fosse inviável, ou imoral, como o Lutz disse. Além disso o ativismo ambiental também começava aflorar na Alemanha e danos às florestas de coníferas cortadas pelas Autobahnen eram atribuídos aos gases emitidos pelos carros. 

Competições

Nessa ala do museu estão alguns carros interessantíssimos. O 3.0 CSL talvez seja um dos mais icônicos. O modelo já nasceu com a missão de carregar a bandeira e faixas da Divisão M (Motorsports) no Campeonato Europeu de Turismo (ETCC) e no famoso DTM, Campeonato Alemão de Turismo, entre outros inclusive nos Estados Unidos. Normalmente o "L" na nomenclatura da BMW indica um modelo longo (lang em alemão). Mas no CSL o L  é de leve (leicth em alemão) e o CS de coupé sport, assim coupé esporte leve.

Sua carroceria fabricada pela Karmann era feita de chapa de aço mais fina, painéis de porta, capô e tampa do porta-malas de alumínio, não possuía uma série de acabamentos internos e nem isolação de ruídos. Ficou conhecido como "Batmóvel" devido ao aerofólio traseiro. Como para ser homologado para competição deveria haver produção de versões de rua, o aerofólio traseiro vinha desmontado e dentro do porta-malas, por não ser permitido pela legislação. Na essência esse é o primeiro M, apesar de não levar o icônico emblema M. O 3.0 CSL ficou no mercado de 1971 a 1976.


Para-lamas mais largos nos modelos de competição para acomodar rodas e pneus maiores

Faixas nas cores da Divisão M, que estão no emblema M dos carros de rua, que chegaram mais tarde ao mercado
Não é difícil encontrar filmes mostrando o 3.0CSL soltando labaredas pelo escape lateral 
Esse esquema de cores talvez seja o mais bonito já existente
Outro carro especialmente importante para nós é o Brabham BT52 com motor BMW turbo dirigido por Nélson Piquet na conquista do seu segundo título do Mundial de Fórmula 1 em 1983. No entanto esse carro não estava na exibição porque estava sendo preparado para ser dirigido em algum evento (provavelmente comemorativo dos 30 anos do título de campeão). No lugar estava o BT54 de 1985 que não foi tão glorioso, levando o Piquet apenas a oitava colocação no campeonato de pilotos

Brabham BT54 de 1985 pilotado pelo Piquet
O motor 1,5-litro de 4 cilindros turbo com potência entre 630 e 790 cv usado nos Brabham de 1981 a 1985 
Brabham BT54

Voltando um pouco no tempo, o BMW 328 Touring Coupé também tem um lugar de destaque no museu. Tendo como base o 328 de 1936 e uma carroceria totalmente nova, Superleggera (superleve), fabricada pela Carrozzeria Touring em estrutura tubular ou em perfis que segue as formas da carroceria onde são fixados painéis de alumínio, dando sua forma final. O 328 Touring Coupé ganhou a Mille Miglia da Itália em 1940 e chegou em quinto (primeiro na categoria 2-litros) na 24 Horas de Le Mans de 1939. Também foram fabricadas versões sem capota.

Uma ideia da construção do museu: lá embaixo o 3.0 CSL, mais acima
 algumas motos, o 328 Touring Coupé e subindo a escada o Brabham BT54
328 Touring Coupé e suas vitórias no painel atrás dele
Esse rins esticados não são um elemento de design propriamente bonito
A vista mais bonita do 328 Touring Coupé com seu perfil aerodinâmico feito a partir de
estudos de Paul Jaray na década 1920 e aprimorados por Wunibald Kamm na década seguinte
Detalhe dos logos Superleggera e da Carrozzeria Touring de Milão dando mais grife ao modelo 
Estrutura superleve em alumínio e magnésio que suporta
 as chapas de alumínio, nada efetiva em caso de impactos

OS MODELOS M

Já tendo falado sobre o BMW Turbo e a Divisão M fica mais fácil falar sobre os modelos mais desejados da BMW, os M. Como qualquer autoentusiasta nato, nós aqui do AE adoramos a "letra mais poderosa d mundo" e já tivemos alguns M aqui no AE (M3 GTS E92M3 E90M3 E30 e M5 E34)


O museu tem uma parte dedicada aos M. Mas apesar do museu ser grande, é impossível exibir todos os carros os mesmo tempo. Por exemplo, o M5 E34 descrito no recente post do MAO e talvez um dos mais desejáveis, não estava lá. Mas como continuação do post do MAO, pretendemos um fazer um teste com um desses. Melhor ainda!

O M1 lançado em 1979, o primeiro M de rua, ironicamente foi concebido para ser um carro de competição, mas devido a mudanças nos regulamentos europeus acabou chegando às pistas de uma maneira diferente. A BMW teve que criar um campeonato específico para ele, o Procar, onde os principais pilotos de diferentes categorias pilotavam os M1 em corridas preliminares das corridas de F-1 do braço europeu. Uma tacada e tanto da BMW, que ajudou muito na construção da imagem dos M com os dois campeonatos (1979 e 1980) ganhos por Niki Lauda e Nélson Piquet. Aliás, uma força de BMW é seu marketing, tão preciso quanto suas máquinas, que contribui para que a BMW seja uma das marcas mais valiosas do mundo. Feito significativo para uma marca independente e pequena em termos de volume.

A Lamborghini foi a escolhida para desenvolver e fabricar o M1, mas seus problemas
financeiros fizeram a BMW assumir o projeto depois de 7 protótipos construídos
 
O design foi feito pelo Giugiaro, apesar de interessante, para mim
é muito parecido com o que se fazia na época
Dois emblemas, herança do BMW Turbo de 1972, esteticamente não fica legal,
eu gostaria mais de duas saídas de escape
Apenas 456 unidades foram fabricadas, incluindo a versão de competição

Na seqüência do 3.0 CSL (E9) nasceu a nova série 6 em 1976 com sua versão M635 CSi lançada na Europa em 1983 com o motor do M1 e em 1987 lançada nos EUA como M6. O M5 veio logo depois, em 1984 na nova série 5 E28 lançada em 1982 também com o motor do M1. Na verdade houve um série 5 M535i E12 em 1980. Essas séries e designações com diferenças entre Europa e Estados Unidos são sempre uma salada. Para resumir, no museu estavam os primeiros série 5 e 6 a usarem os emblemas M6 e M5. E também o famoso série 3 E30 que foi fundamental para disseminação dos M, além do Z3 M Roadster.

O M1 e o coupé M635CSi (M6)
M635 CSi de 1983, sucessor do Batmóvel 3.0 CSL 
Primeiro M5 de 1984
O primeiro M3 E30 lançado em 1986 com seu 4-cilindros de 2,3 litros (mais tarde 2,5-litros)
M Roadster, prefiro o esquisito M Coupé

 A referência

Algo que sempre me irrita bastante são as unanimidades. Quase todo material que vejo falando de sedãs médios nos últimos 20 anos coloca o série 3 num patamar acima dos outros modelos já por definição ou expectativa. Desconfio que muita gente aproveita esse embalo e propaga a lenda. Quase nem tem graça ler comparativos. Praticamente todos dizem a mesma coisa. Equilíbrio, direção, pegada, tudo sublime, como se fosse a expressão máxima da combinação de um carro multiuso (para uso diário) com o máximo prazer possível que ele pudesse oferecer ao seu motorista. Até onde me lembro, tudo isso começou com o série 3 E36 dos anos 1990. Talvez tenha começado antes um pouco com os E21 e se firmado com os E30, mas o E36 foi a pá de cal na concorrência.

Minhas dúvidas quanto a essa unanimidade acabaram recentemente quando pude me divertir dirigindo um E36 (e um M3 E30). Tudo o que havia lido sobre o carro é verdade absoluta. A sensação que senti é difícil de ser expressa em palavras. Mas é muito parecida com a que sinto quando vejo uma imagem maravilhosa em que objeto/paisagem, luz, temperatura, ar, e estado de espírito entram em sintonia. Tento descrever essa sensação para minha esposa como sendo algo próximo ao tato de um veludo perfeito. O E30 M3 também é especial, mas é um carro de alto desempenho com uma pegada bem esportiva. O que é ótimo, mas em termos de satisfação geral para um pai de família executivo o E36 325 é "o" carro.

Quando estava com o E36 1993 de 20 anos de idade por sorte me perdi do grupo e foi quando eu encontrei uma capelinha para agradecer aquele momento especial.

E36, um veludo perfeito

Então não é à toa que o museu tem uma sala exclusiva para a série 3. O primeiro modelo exposto é um 1600 de duas portas, portanto um 1602 de 1966, que serviu de base para o icônico 2002, um 1602 com motor 2-litros, que tinha na esportividade o seu grande apelo. A série 2 (de duas portas) com os 1602 e 2002 durou até 1975 quando entrou em cena a primeira série 3, os E21. A série 5 já havia sido lançada em 1972.

Evolução da espécie
Evolução da espécie
Evolução da espécie
1602 de 1966, nascia uma nova espécie
Ainda com dois faróis, mas com um desenho puro e elegante
Nada de espetacular, mas direto, limpo, e elegante
Primeira geração: 323i, o E21 topo de linha com motor 2,3-litros 6 cilindros em linha
Segunda geração: os E30 foram lançados em 1982, em 1983 ganharam o motor 2.5-litros
A perua, ou touring como é chamada, chegou na geração E30, assim como as versões "x" (4x4)
Terceira geração: os E36 nasceram com motor 2,5 e em 1996 ganharam o 2,8
Um curioso 316g de gás natural veicular, uma aposta européia no início dos anos 2000,
e que não tinha banco traseiro, lugar ocupado pelo cilindro de gás
Quarta geração: evolução constante desbancando todos os concorrentes e consagração como a referência
a ser batida. A quinta geração (E90) e a sexta  e atual (F30) não estão nesse espaço
Que bela coleção de sucessos (tirando esse 316g)
Impossível não "sentir" a esportividade apenas olhando, quanto mais dirigindo
"O padrão de sua classe" já é sinônimo de sedã esportivo

BMW 700

Lá estava ele, no meio de uma sala dedicada as campanhas publicitárias da BMW ao longo dos anos, um carrinho esquisito, uma mistureba de elementos de vários carros europeus e americanos, parecendo um carro grande, mas anão. Fiquei olhando intrigado, mesmo antes de ler a descrição, e pela grade onde deveria ser a tampa do porta-malas percebi que o motor era traseiro. Mais esquisito ainda.

700 LS Coupé com motor no porta-malas...

A série 700 era o novo carro compacto da BMW, com versões sedã e cupê, lançada 1959 depois da tentativa de pouco sucesso do BMW 600 (uma versão alongada e de quatro lugares do Isetta-BMW). O 700 manteve o motor do bicilíndrico boxer de moto com 697 cm³ e foi o primeiro modelo da marca a usar estrutura monobloco. Seu desenho foi feito pelo Michelotti, que também desenhou os 1602/2002, sucessores dos 700 como carros compactos da marca.

Eu realmente não entendi de primeira o porquê do destaque pare esse carro. Mas ele teve um papel importantíssimo na marca e se não fosse o sucesso dele o mundo automobilístico poderia ter sido muito diferente. Em 1959 a BMW, em crise, quase foi vendida para a Daimler, mas os pedidos e as vendas do 700 motivaram a família Quandt a fazer um grande investimento na empresa evitando que ela fosse vendida. Já imaginou o estrago que a Mercedes teria feito? Por conta disso o 700 também entrou nesse post.

Coupé com esse enorme deck traseiro
Frente de VW
Pequenas barbatanas americanas
Também nessa sala estava exposto uma das propagandas mais bacanas da marca, que tira uma onda com a Mercedes.

"Um Mercedes também pode trazer prazer ao dirigir", incontestável

Continua...

PK

11 comentários :

  1. Rafael Ribeiro16/11/13 14:58

    Obrigado pelo segundo post da série PK, já estou ansioso pelo próximo! Por coincidência, hoje nosso E46 está passando por uma revisão, amanhã vou matar a saudade...

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  2. Excelente PK. Ótima cobertura. Que bela homenagem aos M, partindo do CSL e M1. Também notável o carinho que a marca tem com a linhagem da sua série 3, para mim tão emblemática quanto a série 5 e 6.

    Parabenizo-o também por conseguir entender a aura da série 3 e poder ter experimentado ao vivo - seu sortudo! E porque não são todos que conseguem se desvencilhar da notoriedade dos E30 (com o M3) e da classe refinada exibida pela e46 e enxergar a e36 como sendo um marco: o marco do padrão série 3. É a minha série 3 favorita. Até o MAO se rendeu a uma delas, rsrs.

    KzR

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  3. Estou juntando grana e conhecimento pra comprar um E36, uma 325i especificamente. Pretendo aproveitar que uma em excelente estado ainda se encontra com preço acessível e tenho que fazer isso antes que o pessoal que inflaciona o mercado de usados comece a olhar essa bimmer com mais carinho. Uma pergunta: Existe no Brasil E36 sedã com câmbio manual ou só os cupê e algumas Touring?
    Excelente post, como sempre mestre AK! Ri sozinho aqui com a propaganda da BMW arrasando a Mercedes! Parabéns pelo blog!!

    Daniel Libardi

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    1. O Daniel ficou tão encantado com as Bimmers que trocou a autoria do artigo - bateu na trave, foi o primo Paulo!
      Também ri com a propaganda, e pelo visto não ri sozinho...

      Parabéns Paulo. Artigo de suave leitura e belas fotos em ângulos que bem sabes capturar.
      É muito interessante observar a história de uma marca e seus produtos. Alguns realmente possuem personalidade - imputada pela recíproca relação entre fabricante e cliente. E realmente é uma pena quando algumas marcas "passam de mão" e perdem a sua personalidade, por vezes terminando como "zumbis" no mercado. Perdem a sua marca (característica), o seu valor, aquilo que o fazia diferente dos demais, e em situação pós-traumática irreversível, por culmina na morte de todo um legado de produtos.
      É muito importante esta diferença, ainda mais neste tipo de produto - o automóvel, onde a razão geralmente perde a batalha para a emoção na hora de se escolher um exemplar para levar para casa e ter a honra de ser o mais novo membro de uma família. Cada automóvel cativa o ser humano de maneira diferente, e para as diversidades de corações e suas paixões, é sempre bom existir diversidade no mundo do automóvel.
      O museu retrata bem esta relação e termina por fazer parte disto. É um local que emana emoções, sentimentos de diversos tipos. E é neste aperto de mãos que fabricante agradece a preferência, e as pessoas agradecem o retratar daquilo que faz parte de suas vidas.

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  4. Daniel, aqui é o PK, primo do AK!
    Existe sim E36 manual, como a que eu dirigi.
    Abraço

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  5. Sem palavras... Nunca tinha ouvido falar dos BMW Série 700! E a foto do BMW 3.0 CSL visto do alto ficou fantástica!

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    1. Valeu Road Runner. Essa foto, e o carro que você citou, são os meus preferidos. ABraço.

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  6. Belas fotos ,belos carros,e que cores lindas !,por que hoje não pode ser assim ?

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  7. PK,

    Grande passeio esse nosso! A cupê que vc andou está realmente boa, me obrigou a fazer uma obra na minha! aguarde novidades!

    Grande post! Valeu!
    MAO

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    1. Aguarde a parte 3 MAO. Quero andar na sua!!!

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