CONVERSA DE PISTA



Domínio de Vettel não sossega F-1 








Vettel, oito vitórias seguidas e novo recorde (foto GEPA Pictures)
 
Oitava vitória consecutiva do alemão é novo recorde. Mudanças fortalecem escambo entre equipes
Se a mais nova conquista de Sebastian Vettel domingo, em Austin — não surpreendeu absolutamente ninguém, os acertos e negociatas que envolveram pilotos, equipes e engenheiros antes da prova indicaram que o escambo está mais do que vivo na F-1 atual. No capítulo em questão Vettel venceu pela oitava vez consecutiva e registrou um novo recorde para esse quesito, mas os protagonistas do final de semana foram dois finlandeses: Kimi Räikkönen — que ironicamente nem apareceu na capital texana — e Heikki Kovalainen, mais novo inimigo de infância do italiano Davide Valsecchi. Eles três e o alemão Nico Hulkenberg foram os personagens que disputaram o cockpit do Lotus número 7 com diferentes armas. Terça-feira passada eu escrevi que a decisão seria na base do poder econômico e assim foi, embora Kovalainen não tenha entrado com nenhum centavo.

Com salários atrasados, Kimi jogou a toalha (foto Lotus F1 Team/LAT)

A história começou de verdade no ano passado, quando a Lotus atrasou o pagamento de salários de Kimi Räikkönen pela primeira vez. Este ano a situação se repetiu e de forma mais grave. Além de um fixo de € 3 milhões, o campeão mundial de 2007 teria acertado para 2013 um bônus de € 50 mil por ponto. Trocando em graúdos, os rendimentos do Iceman congelam aproximadamente € 12,15 milhões do orçamento da Lotus em 2013. Nada bom para uma equipe que desde o início do ano faz malabarismos e promessas para fechar um pacote de investimentos com a Quantum, empresa multinacional que estaria disposta a salvar o time fundado por Colin Chapman nos anos 1950.
O acordo de bônus por ponto é uma espécie de contrato de risco para piloto e equipe envolvidos e onde o lado bom é que se primeiro conseguir um resultado perfeito, a equipe recupera o investimento com o prêmio final no campeonato dos construtores. Consta que a diferença entre chegar em segundo, terceiro ou quarto lugar — posições que Mercedes, Ferrari e Lotus disputam domingo, em Interlagos —, significa receber US$ 20 milhões a mais ou a menos. Este valor, por si só, paga as dívidas da equipe inglesa com o piloto finlandês: ao câmbio de ontem, o débito em euros entre Kimi e a Lotus equivale a US$ 16,418 milhões...
Na mais pura prática da Lei de Gérson (o “Canhotinha de Ouro” da Copa de 1970 que gostava de levar vantagem em tudo), a luta pela sobrevivência — para muitos a expressão ideal seria prática da ganância —, das equipes de F-1 implica num autêntico vale-tudo e mais um pouco e torna difícil encontrar almas puras no paddock. Quando Kimi assinou contrato com a Ferrari para 2014 já era sabido que ele sofria algumas dores na coluna, mas mesmo assim não tinha deixado de se aplicar e cumprir sua parte no contrato com a Lotus. Como o tempo passava e os salários e bônus combinados não inundavam sua conta bancária, as dores aumentaram e pouco a pouco chegou-se ao inevitável: a operação deveria ser realizada o quanto antes.
O Prof. Dr. Afshin Gangi (foto Flicker)
 
E assim aconteceu: o finlandês foi internado no Hospital da Universidade de Estrasburgo, na França, sob os cuidados do Prof. Dr. Afshin Gangi, nascido em Teerã e formado pela Universidade dessa cidade francesa próxima da fronteira com a Alemanha, onde é presidente do Instituto de Radiologia. A cirurgia foi um sucesso e evidentemente o retorno às pistas deverá esperar sua completa recuperação.

Valsecchi sonhou, sonhou e ficou a pé (foto Lotus F1 Team/LAT)
 
A ausência forçada de Kimi criou um conto de fadas na cabeça de David Valsecchi, piloto-reserva da equipe Lotus e que sonhava ser contemplado com o final feliz. Não foi bem isso que aconteceu: os diretores do time de Enstone jamais esconderam a preferência em assinar com o alemão Nico Hulkenberg para 2014. A ausência forçada de Kimi levou-os a enxergar a chance de adiantar seus planos, pois, afinal, a Sauber, atual equipe de Nico, também estava com os salários atrasados. Só que a bruxa má acabou ganhando ares de protagonista em um papel preenchido por uma strega, como esse mito é conhecido na Itália.
Hulkenberg é reconhecido como um piloto rápido, conhece bem os pneus atuais, mas não foi a Pirelli que pilotou a vassoura da vez. Colocar o alemão no lugar de Räikkönen aumentaria as chances da Lotus no campeonato de construtores, mas ocorre que a ligação da Sauber com a Ferrari vai muito além do fornecimento de motores. Legalmente, Hulkenberg podia alegar quebra de contrato para mudar seu endereço na F-1 de Hinwill para Enstone, onde teria, inclusive, feito uma visita para moldar seu banco. Com a história caminhando para esse final feliz para a equipe inglesa, não exatamente num passo de mágica a Ferrari teria comparecido com os salários atrasados, em torno do milhão de euros. Esta manobra, evidentemente, evitava que a Lotus aumentasse suas chances no mundial de construtores. Pir-lim-pim-pim, abra-cadabra e, de repente, não mais do que de repente, Hulkenberg reata com a equipe suíça e de quebra ainda fez um corridão em Austin. 
Por enquanto, Hulkenberg está feliz na Sauber (foto Sauber Motorsport AG)

Com o alemão fora do jogo, Valsecchi voltou a pensar que ainda tinha uma chance...ledo engano. Tentando capitalizar no fato que Kovalainen conhece alguns engenheiros da Lotus — dos tempos que a equipe ainda era Renault — e correu a temporada de 2012, seu cacife foi considerado mais alto que o do italiano. Só que isso acabou custando caro a Gérard Lopez e Eric Bouiller, o bam-bam-bam e o respectivo vice da estrutura da Lotus. Sucede que Kovalainen era o piloto-reserva da equipe Caterham, que por sua vez já tinha contratado James Crook e Paul Cusdin, dois engenheiros especializados em fluidodinâmica que estavam insatisfeitos com o clima de trabalho em Enstone.
 
Caterham liberou Kovalainen na base do toma-lá-dá-cá (foto Caterham F1) 
 
Existe um certo acordo entre as equipes para controlar as mudanças de técnicos e engenheiros: quem pedir as contas só pode deixar o emprego depois de uma quarentena que varia entre três e seis meses sem trabalhar nem aqui, nem lá. Quando a Lotus quis Kovalainen a Caterham nem pensou duas vezes para botar preço na liberação imediata do seu piloto-reserva. Falando em números, mas em forma de letras, era trocar o finlandês por Crook e Cusdin. E aí Valsecchi, que estava no mato sem cachorro, acordou e teve a certeza que vai terminar a temporada numa abóbora.
 
Kovalainen ainda tem que convencer (foto Lotus F1 Team/LAT)
 
Analisando o que rolou no fim de semana, não dá para dizer que Kovalainen correspondeu às expectativas. Ele até que começou bem os treinos e deixou forte a chama da esperança da Lotus em, pelo menos, diminuir muito a diferença de pontos em relação à Ferrari. 
Segundo lugar de Grosjean confirma evolução (foto Lotus F1 Team/LAT)

O tiro de festim só não foi pior porque Romain Grosjean fez uma apresentação impecável — marcou mais pontos que Fernando Alonso — e Felipe Massa novamente não correspondeu às expectativas e não pontuou. Para quem vai encarar as arquibancadas de Interlagos nesse fim de semana isso ajuda a esperar por alguma emoção na prova final de uma temporada amplamente dominada por Sebastian Vettel e a eficiência de Adrian Newey, projetista da Red Bull. Equipe, que por sinal, já escalou Daniel Ricciardo como substituto de Mark Webber, que se despede da F-1 na corrida de domingo.


A coluna "Conversa de pista" é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


7 comentários :

  1. O autor precisa corrigir o texto e dar a informação correta quanto ao comentário que fez que "o jogador Gerson gostava de levar vantagem em tudo".Na verdade o jogador fez um comercial de cigarros em que defendia determinada marca e concluía que afinal "temos que levar vantagem em tudo certo!" Fora essa informação equivocada seria mais interessante o autor entrar a fundo e tentar explicar como uma categoria de automobilismo sobreviverá com um único piloto ganhando oitos poles e oito vitória seguidas. Este piloto é realmente um gênio que vai bater todos os recordes do esporte ou claramente tem uma máquina que até um engenheiro pilotando vai ganhar todas as corridas, o que é bem mais provável.

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    1. Lauro
      Muito interessante o seu comentário. Como editor-chefe e no dever de ler todos os textos antes de serem postados, pensei em fazer a correção exatamente indo ao encontro do que você diz. Só não o fiz porque o Wagner nunca fumou e achei que isso poderia ofendê-lo. Mas como sou fumante (há 56 anos) e presto atenção nas questões do cigarro, lembro-me com se fosse hoje do comercial de TV do cigarro Vila Rica, com o Gérson dizendo "Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Por isso fumo Vila Rica", e completava dizendo "Leve vantagem você também". O cigarro Vila Rica custava 7 cruzeiros menos que seus concorrentes diretos. Mas para o Gérson dizer que gostava de levar vantagem em tudo é porque devia haver algo do tipo no seu comportamento ou desempenho esportivo que denunciava isso (desconheça, apenas suponho), o que a agência de propaganda sabiamente pensou em aproveitar. Fora o fato de que o Gérson era meio-de-campo, a posição que obriga o jogador a correr mais do que qualquer outra, e ele era fumante.
      Abraço

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  2. Gostaria de saber o que o Sr. Lauro quer que o autor fale com relação a um único piloto estar ganhando tudo é batendo todos os recordes.

    Você tem que questionar o Bernie Ecclistone a trazer de volta o câmbio mecânico... Retirar estas babás eletrônicas dos carros e etc.

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    1. Igor, a F1 não pára de se reinventar. Amanha falo um pouco mais sobre esse tema.
      Abraço,
      Wagner

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  3. Paulo Ferreira22/11/13 10:20

    Bacana a coluna Conversa de Pista. Obrigado por compartilhar as informações internas!
    Abraços.

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    1. Paulo,

      Obrigado pelo prestígio de sua leitura e seu comentário.

      Abraço,

      Wagner

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  4. Mto bom, deixei de acompanhar a F1, mas por aqui pude ficar informado, parabéns e agradeço.

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