TOYOTA TS030 HYBRID, O DESAFIANTE


Os japoneses voltaram com força total este ano para combater os poderosos Audi em Le Mans. A única vitória de um carro oriental foi em 1991 com o Mazda 787B (já contada aqui), mas tentativas não foram poucas. Fora da elite da categoria há mais de dez anos, a Toyota surpreendeu a todos com o bom desempenho do seu novo carro, o modelo TS030.  

Como recordação, a Toyota começou a mostrar força nas 24 Horas ainda na era de ouro dos Grupo C, mais precisamente já no seus anos finais. Participando do campeonato como equipe oficial desde 1983, os japoneses da Toyota perseguiram o sonho de ser a primeira equipe oriental a vencer as 24 Horas de Le Mans. Dentre muitos projetos, desde a era dos modelos CV, o TS010 foi um dos que melhor se apresentaram. Desenvolvido pelo experiente Tony Southgate, ex-Jaguar/TWR, o TS010 aproveitou a mudança de regulamento do começo dos anos 90 para criar um carro com motor de acordo com as novas normas técnicas mas ainda com uma carroceria dotada de efeito-solo, proibida logo depois.

O Toyota TS010, um dos mais rápidos carros esporte de todos os tempos.

O novo motor, um V-10 3,5-litros de aspiração natural, cinco válvulas por cilindro e 630 cv restritos para as provas de longa duração por questões de confiabilidade, foi desenvolvido especialmente para o carro, uma vez que os então atuais V-8 da Toyota não era mais legalizados. Em 1992, o único rival para os Toyota eram os Peugeot, justamente quem lhes tirou a vitória em Le Mans. O melhor TS010 terminou em segundo lugar. 

O motor V-10 do TS010, tecnologia de ponta

Em 1993, com um regulamento bastante estranho para gerar número de participantes, os TS010 terminaram em quarto, quinto, sexto e oitavo. Este ano foi o fim da categoria dos protótipos e o encerramento do programa da Toyota. O TS010, juntamente com os Peugeots 905, foram talvez os carros esporte mais rápidos de todos os tempos, batendo inclusive tempo de volta da F-1 contemporânea em Monza.

A seqüência do programa de Le Mans da Toyota veio com o bem mais famoso GT-One, ou TS020. Este era considerado prioridade na Toyota, com alto investimento financeiro e tecnológico. O protótipo de perfil aerodinâmico bem baixo e alongado, pintado nas cores do Japão, foi um grande passo para a tentativa de conquistar o título das 24 Horas. O motor V-8 biturbo do GT-One gerava aproximadamente 650 cv, capaz de levar o carro a 350 km/h na reta de Mulsanne. Correndo por apenas dois anos, de 1998 a 1999, o programa do GT-One não teve o sucesso esperado em Le Mans.

Os três carros inscritos para a 24 Horas e o carro de rua de homologação

Na prova de 1998, também a primeira corrida que o carro participou, três carros foram inscritos e conseguiram ótimos resultados na classificação, o melhor largando em segundo. Durante a corrida, um dos carros foi destruído em um acidente, enquanto que outro liderou a prova praticamente toda, mas teve uma quebra na transmissão na última hora e abandonou. O carro sobrevivente terminou em nono.

O GT-One em evento de Goodwood

No ano seguinte, novamente os carros foram muito bem na classificação, conseguindo inclusive as duas primeiras posições no grid. Durante a corrida, dois carros tiveram problemas com pneus danificados que ao explodirem, arrancavam parte da carenagem e da suspensão. O terceiro carro ainda conseguiu um segundo lugar, perdendo por uma volta para o protótipo BMW V-12. Curiosamente, este ano de 1999 contou com a presença dos primeiros Audis, o modelo R8R que conseguiu um terceiro e quarto lugares.

Novamente, um segundo lugar para a Toyota com o GT-One

Depois do segundo ano sem a vitória em Le Mans, os executivos da Toyota cancelaram o programa de endurance e direcionaram a verba para a menos bem-sucedida equipe de F-1.

Mais de dez anos depois do GT-One, a Toyota retorna a Le Mans com uma ousada proposta. O TS030 veio como o substituto dos Peugeot 908 no papel de desafiantes dos Audi. Aproveitando-se da retirada dos franceses da 24 Horas, a Toyota fechou parceria com a tradicional equipe Oreca que dava suporte aos 908, para o desenvolvimento do novo carro. Para conseguir superar os Audi, o TS030 também foi concebido com tecnologia híbrida, porém com o motor a combustão alimentado com gasolina e sem sobrealimentação. O carro utiliza um V-8 de 3,4 litros e aproximadamente 600 cv.

A equipe de 2012 com o TS030 Hybrid

Diferente do R18 e-tron quattro, o Toyota tem tração traseira apenas. O sistema híbrido é muito similar ao KERS (kinecti energy recovery system) da F-1, onde o motor elétrico traciona o eixo traseiro juntamente com o motor a combustão. Outra diferença entre o carro japonês e o alemão é a forma de se acumular energia para enviar ao motor elétrico. No R18, a energia acumulada na frenagem é armazenada na forma de energia cinética em um volante com alta rotação, enquanto que no TS030 essa energia é acumulada em um sistema de supercapacitores. Estes supercapacitores funcionam como baterias, mas com uma alta capacidade de descarga e sofrem menos degradação ao longo da corrida. Uma bateria comum é levemente "danificada" cada vez que sofre uma carga e uma descarga rápida, e este contraponto é eliminado com os supercapacitores.

Como o TS030 utiliza a tração do motor elétrico nas rodas traseiras e não nas dianteiras, o que tornaria o carro em um 4x4 como é o caso do Audi, ele não sofre a restrição imposta por regulamento que determina que somente acima de 120 km/h a tração elétrica pode atuar. Em qualquer velocidade o sistema KERS (chamado apenas de ERS) pode ser acionado e mais potência é entregue às rodas motrizes.

Os longos braços de controle e os discos de freio: geometria de suspensão e poência de frenagem

A força do conjunto motriz passa para um compacto transeixo transversal de seis marchas que suporta os componentes da suspensão traseira, uma montagem já convencional. Ainda não sendo um recurso que todos utilizam, o Toyota usa barras de torção no lugar das tradicionais helicoidais

A carroceira fechada do TS030 não fez uso de recursos aerodinâmicos radicais, pelo contrário, seguiu o padrão atual de conceito dos Audi e dos Peugeot. Já possui a barbatana central que vai do topo do habitáculo até a asa traseira, item que ajuda na estabilidade direcional em alta velocidade e teoricamente reduz a chance do carro decolar em urma rodada.

Trabalho dos mecânicos na traseira do carro; a cobertura dourada é de ouro para refletir o calor

Também como os Audi, o Toyota possui pneus dianteiros largos, quase tanto quanto os traseiros. Com a alta pressão aerodinâmica que os atuais carros produzem, a velocidade de contorno de curva é bem elevada e, aliada com os grandes freios, fazem estes carros serem quase tão rápidos quanto um F-1.

Nos testes preliminares, o TS030 mostrou-se bastante competitivo, o que foi comprovado nos treinos de Le Mans. Dois carros foram inscritos na corrida, uma desvantagem numérica frente aos quatro carros da Audi. Na classificação para a formação de largada, os dois primeiros lugares ficaram com carros da Audi (um e-tron e um Ultra), em seguida um TS030, depois o quarto Audi e em quinto, o outro Toyota. O melhor TS030 foi apenas 1,055 segundo mais lento que o primeiro Audi.

A grande disputa de 2012: Audi vs Toyota

 O motor de aspiração natural perderia um pouco em saída de curva para os turbodiesel da Audi, mas como o sistema ERS poderia ser usado a qualquer velocidade, diferente do sistema Audi, o Toyota conseguia recuperar essa diferença. Na classificação, o melhor tempo do Toyota foi 4,8 segundos melhor que o próximo carro com motor a gasolina, no caso o HPD ARX-03a com motor Honda V-8 da mesma categoria dos primeiros colocados. 

O volante do TS030

Ao longo da corrida, os Toyotas mostraram-se rápidos, porém a diferença de rendimento volta a volta fez com que os Audis se distanciassem, e os pilotos dos TS030 tiveram que trabalhar duro para tentar acompanhar. Isso começou a gerar problemas nos carros, até mesmo o incrível acidente com o Ferrari 458 que destruiu um dos carros. O segundo carro manteve-se na corrida por mais algum tempo, mas teve que abandonar pro sérios problemas no motor.

Não foi exatamente o final de corrida que os japoneses esperavam, mas foi suficiente para mostrar que o projeto é competitivo e pode chegar no nível dos Audi. Assim como no passado, a Toyota entrou para brigar pela vitória e mostrou-se capaz, mas o desenrolar da história não teve um final feliz.


Fotos: divulgação, speedhunters.com, lemans.org

MB

13 comentários :

  1. MB,
    muito legal o desempenho de 2012. Mostram que tem um projeto muito bom mesmo. Logo de cara com bom resultado não é comum.

    ResponderExcluir
  2. Caro Sr. Milton,

    É interessante reparar no refino aerodinâmico que os esporte-protótipos receberam em uma década. Acho que impressionante mesmo deve ter sido o Allard J2X de 1993. Lembra-se dele?

    Atenciosamente,

    Mibson Lopes Fuly.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lembro sim.
      http://autoentusiastas.blogspot.com/2009/06/aerodinamica.html

      abs,

      Excluir
  3. Legal a escolha da Toyota em seus Pirus metidos a besta. Na parte eletronica, capacitores são uma escolha muito mais sábia para ciclos de carga e descarga curtos. Já na área termodinâmica, não entendi a escolha por colocar ouro justo na cobertura de partes quentes. É um material denso, que tem condutividade térmica inferior ao cobre e ao alumínio, preço muito alto e baixa resistência mecânica. Seria melhor aproveitado se estivesse cobrindo o isolamento térmico entre a cabine e o motor, como no Mclaren F1...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade esta cobertura é uma manta auto adesiva, exatamente igual a utilizada no McLaren F1 como você mencionou. A idéia é envolver o sistema de admissão do carro para que o calor do cofre não seja absorvido pelo material do coletor e repassado para o ar admitido.
      É uma prática comum hoje em dia.
      abs,

      Excluir
  4. Faltou à Toyota por o carro a prova. Não correu nem Spa, nem em Sebring. Faltou quilometragem para que os carros pudessem mostrar valor em LeMans. Ano que vem espero que venham mais preparados.
    Aqui um vídeo do Toyota em Paul Ricard saindo dos pits, primeiro apenas com o motor elétrico, depois acionando o à gasolina.
    http://www.youtube.com/watch?v=BHyqTUeE4Us&feature=related
    A Audi faz valer o "Racing improves the breed" com seus carros de corrida. Quando a Pegeout estava nessa onda, caiu fora. Faltou comprometimento, duvido que seja só por causa do dinheiro.

    Juan Caesso

    ResponderExcluir
  5. Muito positiva essa volta da Toyota à competição de alto nível. Não seria digno do maior fabricante de autos do mundo se evadir da competição no esporte à motor e ficar só na produção, à la Huyndai.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você diz que a Hyundai não participa de esporte com que embasamento?
      Basta procurar o carro que o Rhys Millen dirigiu em Pikes Peaks em 2011, motor V6 turbo com 750hp, para a tentativa de superar a marca do Monster Tajima na subida da montanha, que na ocasião o próprio Tajima acabou batendo seu recorde.. Ou o Veloster do World RallyCross dirigido tambem pelo Millen.
      A Subaru, Mitsubishi saíram do WRC quando a coisa apertou. A BMW saiu da F1. Essas são marcas de tradição.
      Não confunda a Hyundai com a Caoa. A Hyundai é uma marca em crescimento, que não tem história nas competições a motor, e que faz de tudo agora pra esconder seu passado de carros de baixa qualidade. A Caoa por outro lado importa modelos que são o desejo de consumo da classe média pretensiosa brasileira que pouco se importa com automobilismo. Essa história de correr no domingo para ganhar na segunda só server pra meia dúzia de gatos pingados que não representam nem uma gota do lucro de uma marca como a Hyundai-Caoa. O que o comprador dessa marca quer é um carro bonito, que cause impressão. Você acha mesmo que o cara que vai lá comprar o seu Veloster de 126cv quer saber se o carro é bom mesmo? Extrapolo para o Corolla XRS em avaliação no BCWS.

      Juan Caesso

      Excluir
    2. Como eu disse, competição de alto nível, tal qual as 24 Horas de Le Mans.

      Excluir
    3. Realmente, WRC é competição de fundo de quintal... rs

      Excluir
    4. Thales Sobral, eu não quis dizer que WRC não é de alto nivel, estava me referindo a Pikes Peak e GRC, que obviamente são de outro nível.

      Excluir
    5. Complementando, ainda bem que a Hyundai participa dessas duas competições citadas, que são bastante interessantes, já é um começo. Antes Pikes Peak e GRC que nada.

      Excluir
  6. O modelo da Toyota mostrou que conceitos híbridos diferentes podem ser competitivos. Para quem gosta de corridas de automóveis, só resta torcer para que no próximo ano a equipe venha mais competitiva ainda.

    ResponderExcluir

Pedimos desculpas mas os comentários deste site estão desativados.
Por favor consulte www.autoentusiastas.com.br ou clique na aba contato da barra superior deste site.
Atenciosamente, Autoentusiastas.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.