TANQUE DE CHEVETTE NO PASSAT

A gente vai lendo os posts dos colegas blogueiros e coisas antigas vão sendo lembradas. Caso do Chevette, cujo tanque coloquei num Passat – na verdade, passou a ser o segundo tanque, de maneira a eu ter mais autonomia num dos períodos mais ridículos da nossa história, quando os postos passaram a fechar das 20 às 6 horas e aos sábados e domingos. Não tínhamos que economizar gasolina, mas diesel! 
E tivemos que agüentar anos a gozação do Cid Moreira no "Jornal Nacional", quando ele anunciava, sem conseguir esconder um leve sorriso, "Subiu o preço da gasolina" – isso às 20 horas, quando os postos fechavam. 
Naquela época, 1976, o tanque do Passat era de 45 litros, o mesmo que no Chevette. Se eu colocasse esse no Passat, em acréscimo ao original, eu teria 90 litros. Parti para a modificação. Era fácil, pois eu era sócio de uma pequena concessionária Volkswagen na época. 
Como muitos sabem, o tanque do Chevette ficava "de pé" atrás do encosto do banco traseiro, mas havia a chapa divisória em aço entre habitáculo e porta-malas. Era um local bastante seguro, longe da zona de deformação traseira. Só não era ideal porque ficava em posição mais elevada do nos outros carros, embora a localização praticamente sobre o eixo traseiro compensasse a altura por deixar o comportamento do carro menos sensível à quantidade combustível no tanque.
No Passat, coloquei dois pequenos "L" no porta-chapéu, aparafusados, que ficavam ocultos sob o revestimento dali, para neles aparafusar o tanque pelas suas orelhas originais. Como havia inclinação do tanque para trás (acompanhando o ângulo do encosto do banco traseiro) não foi preciso fixá-lo na parte inferior. Bastava em cima. Como o tubo de reabastecimento do tanque do Chevette ficava na parte superior (o bocal ficava na coluna traseira direita, lembram-se?), foi fácil modificá-lo ligeiramente para que o bocal ficasse voltado para dentro do porta-malas do Passat, bem alto e no lado direito.
Para quem tem boa memória, o bocal de reabastecimento era no mesmo ponto, só que no compartimento do motor, no Dauphine/Gordini/1093/Interlagos. Era abrir a tampa do porta-malas do Passat e lá estava o bocal. Agora vem a parte mais interessante. Para levar gasolina do tanque para a dianteira, arranjei uma bomba elétrica que se conectava a um "T" depois da bomba original mecânica. Na linha, logo antes do "T", coloquei um regulador de pressão, que era ajustável e deixada ligeiramente acima da da bomba mecânica.
O que acontecia, então, era que a bomba mecânica tinha na saída uma pressão ligeiramente superior à sua. Era como se fosse a situação de cuba de carburador cheia, em que o mecanismo da bomba mecânica a faz parar por breves instantes. Enquanto houvesse gasolina no tanque superior, a do tanque inferior não era consumida. Quando acabasse a gasolina "de cima", a bomba mecânica automaticamente começava a bombear, sem interrupção de chegada de gasolina ao carburador. 
Não era possível perceber a mudança de tanque. Bem, mas aí a bomba elétrica ficaria funcionando a esmo, podem vocês pensar. Para evitar isso, instalei no painel um interruptor, o mesmo do pisca-alerta (com o triângulo raspado!), inclusive com a lâmpada original. Antes do "T" instalei um interruptor de pressão de óleo, de modo que quando a pressão zerasse (significava tanque superior vazio), a lâmpada se acendia. Bastava desligar a bomba elétrica pelo interruptor. A bóia do tanque do Chevette tinha as mesmas características elétricas da do Passat.
Assim, coloquei uma chave ligando o fio das duas bóias ao instrumento no painel. Tanque de cima em uso, o medidor de combustível ia mostrando o consumo. Depois de algum tempo marcando nada, a luz do interruptor se acendia, indicando esgotamento do tanque superior. Em dois movimentos: desligava-se a bomba elétrica e acionava-se a tecla de medidor – para o ponteiro subir e indicar cheio novamente. Mais 45 litros à disposição!
Vocês não podem imaginar a satisfação de poder fazer isso, ver o ponteiro marcar cheio novamente! E de rir da cara do general Oziel Almeida da Costa, o presidente do Conselho Nacional do Petróleo, inventor das medidas restritivas de uso do automóvel (que numa suprema gozação chamou-as de "racionalização de uso dos combustíveis"). Autêntico sabor de vitória!
Havia mais um detalhe que quero compartilhar com vocês. A linha do tanque para a dianteira era conectada por um engate rápido de tanque-motor de popa Kiekhaefer Mercury. Para remover o tanque em caso de se precisar de mais espaço no porta-malas, era desengatar o tubo e soltar os dois parafusos de fixação do tanque. Coisa de 2~3 minutos. E, claro, esse segundo tanque era ocultado pelo mesmo papelão preto original do Chevette, deixando um visual limpo do que restou do porta-malas – que ainda ficou muito maior do que se ali houvesse dois cilindros de GNV...
Usei esse arranjo por quase dois anos e só uma vez um frentista, na Via Anhangüera, se recusou a reabastecer o tanque de cima – também obra do maldito general, que proibiu aumentar tanques dos carros (e permitiu nos ônibus e caminhões). O tanque de baixo estava a meio e foi só rodar mais 10 quilômetros para achar outro posto.
BS

7 comentários :

  1. Marlos Dantas22/01/09 21:59

    Bob;
    Simplesmente engenhoso!
    Hoje, mesmo sem a influência governamental, é difícil entender a atitude de alguns fabricantes em relação ao "minúsculo" tanque aplicado em alguns modelos, totalmente incompatível com o motor/consumo e proposta do carro.

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  2. Bob,

    Me lembro bem dessa época, mais uma das medidas cretinas do gobierno de plantão à época. Muito bom o gosto de se rebelar contra algo estupido e vencer.

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  3. Antonio Martins23/01/09 19:51

    Nestes carros flex, o correto era aumentar em 43% o volume do tanque, isso considerando que com álcool se rode 30% a menos.

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  4. Fábio Pinho23/01/09 22:35

    Genial e muito bem executada essa adaptação do tanque do Chevette no Passat. Isso fora o gostinho de "dar um nó" no racionamento cretino que foi a economia de gasolina naquele tempo. A gasolina sobrava mas, mesmo assim, vamos racionar!

    Lembro-me que meu pai comprou dois galões de 20 litros para armazenar gasolina nos finais de semana, quando a idéia era viajar para algum lugar. Justamente porque havia a determinação de não poder aumentar o tanque ou usar galões para estocagem, quando o frentista se recusava a encher os galões, o que meu pai fazia era encher o tanque do carro e, em casa, usando uma daquelas mangueiras com bombinha de borracha, drenava o tanque e ia a outro posto para completar o tanque novamente. Uma chateação, mas funcionava bem. Como diz o AG, simples assim.

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  5. Muito legal Bob. Soluções simples são sempre as melhores. Inspiração aeronáutica, correto ?
    O que eu mais gosto nesse tipo de coisa é a reversibilidade, poder retornar ao estado original quando necessário.
    E eliminar a chateação dos postos fechados deve ter sido o máximo.
    Parabéns.

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  6. Simplesmente genial. Tempos bicudos aqueles...

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  7. É nos tempos mais difíceis que a criatividade humana aflora mais!

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