"CONVERSA DE PISTA" — EXTRA — COM WAGNER GONZALEZ

NÃO SÃO APENAS R$ 0,20

O automobilismo brasileiro vive neste fim de semana um momento que retrata bem a situação do esporte em suas pontas: na categoria mais importante e nas competições de base. Em meio aos preparativos para o GP da Hungria (domingo, 9 horas de Brasília, SporTV1) Felipe Massa já assume publicamente que precisa mostrar serviço para se manter na Ferrari ou para conseguir mudar para uma equipe competitiva, seu único motivo para continuar na categoria.

Em Fortaleza disputa-se esta semana a segunda e última fase do Campeonato Brasileiro de Kart em meio a condições que, além de precárias, mostram o descaso dos dirigentes esportivos nacionais, estaduais e políticos locais com a modalidade. Quando o asfalto da pista desintegrou-se após umas poucas voltas, cancelaram-se dois dias de treinos e o remendou-se o piso mal e "porcamente", com utilização de concreto. A foto abaixo ilustra bem a situação do piso da pista cearense. 

Concreto sobre o asfalto, exemplo de solução porca (foto Erno Drehmer/kartmotor.com.br)

Ante o prejuízo sofrido por quem investiu muitos milhares de reais para viajar até o Ceará, esperava-se uma atitude coletiva por parte de pilotos, pais, equipes e fabricantes que refletisse o espírito que despertou recentemente frente ao aumento das tarifas de ônibus nas grandes cidades do País. Isso não aconteceu e, novamente, ficou a impressão de que não há mais jeito. Quem sabe entre uma e outra mudança na agenda do Papa fosse possível implorar por um milagre ou, no mínimo, uma bênção que fizesse brotar entre os cartolas nacionais o sentimento de simplicidade e objetividade que caracteriza o novo líder católico.

Não prego o catolicismo nem aqui nem acolá, mas que precisamos do foco demonstrado por Jorge Mario Bergoglio é algo já sacramentado nas rodinhas e bate-papos de todos que vivem e praticam automobilismo no País. É comum afirmar que tudo deveria ser como antes, quando o piloto metia a mão na graxa e o esporte era mais diversão do que profissão; digitado isto, ficamos diante daquela imagem do copo de água que pode estar meio cheio ou meio vazio. Tudo se sofistica e se aprimora com o tempo dentro de um processo que demanda maiores especialidades e competências. Não necessariamente deve se tornar mais caro, caso típico de computadores, celulares e tantas outras coisas que não tínhamos e nem sabíamos que iríamos precisar tanto.

Automobilismo, em sua essência, não é algo vital para a continuidade da raça humana, mas nem por isso deve incluí-lo na lista de exterminações propostas pelos Marcos Felicianos de plantão. Trata-se de uma atividade que é praticada por muita gente, gera empregos, paga impostos e é vilipendiada por quem fornece serviços, burocracia e condições para sua prática. Tão ruim quanto isto é o fato de muitos pais aceitarem tudo isso de forma próxima da passividade, alguns cegos pela idéia que seu rebento é o novo Messias do cirquinho do Tio Bernie.

Sem dúvida, para quem gosta de automobilismo é algo entorpecente ver seu Júnior ou sua Princesinha acelerando um kart, digo por experiência própria. Daí a incorrer em loucuras ou queimar fortunas existe a distância entre a emoção e a razão.

Em Fortaleza, a julgar por este vídeo e pelos comentários de meus colegas que presenciaram o que aconteceu esta semana no kartódromo de Euzébio, perdeu-se uma oportunidade de repetir o script do recente “Não são apenas R$ 0,20“.

Veja, sob o ângulo de um kartista como o piloto da categoria Super Sênior Anderson Faita, o que se encontra no traçado do kartódromo Júlio Ventura. Ao aceitar um produto entregue fora das especificações esperadas praticou-se mais um precedente que perpetua a prática de se organizar muitas competições importantes sem a qualidade esperada. Muitos vão alegar que nos regulamentos publicados no site da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) não há nenhuma especificação sobre a qualidade do asfalto de um kartódromo. E como lá há, isto sim, 19 links para “Orientação Anti Doping para Pilotos”; ao visitar esta página da internet desperta-se a curiosidade de saber qual a ordem de importância das coisas.

Já acompanhei bem de perto o processo de escolha e vistoria de alguns kartódromos para serem sede de certames nacionais. Posso afirmar é que os dirigentes locais têm pouco poder de fogo para pleitear fundos ou reformas dos seus circuitos e freqüentemente não há mão de obra formada para preencher vagas importantes como comissários de pista e de box.

Se o presidente da CBA alega que ao levar o campeonato brasileiro para praças distantes vai contribuir para desenvolver o kartismo nesses locais, ele deveria, no mínimo, checar o progresso que houve em praças como Goiânia, Salvador e Imperatriz. Se isto não bastar, que se criem facilidades e se monte uma estrutura adequada para acabar de vez com a idéia que basta promover o campeonato de qualquer jeito que sempre haverá pais, pilotos, equipes e fabricantes que vão aceitar isso. Mais importante é que o presidente da Comissão Nacional de Kart seja firme no propósito de defender os interesses da classe que alimenta financeiramente esse sistema, os pilotos.

Enquanto se aceitam situações como a que ocorreu em Fortaleza esta semana, afasta-se mais o futuro do esporte da proposta de formar pilotos que possam dar continuidade ao que Chico Landi, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna conquistaram para o País. Remenda-se, como se pode ver neste vídeo produzido pelo piloto Anderson Faita, da categoria Super Sênior, o que não foi executado de acordo com as necessidades. Desperdiça-se energia de todos os lados e com isso o sonho de voltarmos a vencer na F-1 nos próximos anos vai-se embora, água abaixo.

Exatamente como aconteceu com o palco montado no Rio de Janeiro para receber o Papa e a multidão de peregrinos que enfrentou chuva, falhas no metrô e dificuldades de todos os gêneros para prestigiar um evento de grandeza mundial. Imagina na Copa...

WG

A coluna "Conversa de pista" é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

11 comentários :

  1. Sinceramente, a revolta é legitima. O esporte a motor esta deixado de lado, assim como outros esportes, e nas olimpiadas, que logo tambem estão por vir, podemos passar vergonha de novo, tivemos tão poucas medalhas na ultima...
    Porem, santificar o papa e crucificar Marco Feliciano tá bem fora do foco, na verdade é melhor manter o foco no automobismo pois incorre em descorrer sobre coisas que não entende. Hoje, li uma frase do papa, e biblicamente esta errada. Ele disse pra carregarmos a cruz junto com Jesus, e na biblia Jesus diz que cada um deve tomar sua propria cruz e o seguir. (apesar de ser um dos poucos 'bola-fora' dele que detectei até agora)
    Já o Marco Feliciano não defende só um ponto de vista biblico e legitimo, como é tambem, natural... Se a biblia condena, a natureza tb mostra que as peças não se encaixam, afinal homem com homem - mulher com mulher funciona da mesma forma que pegar o volante e colocar de roda e a roda no lugar do volante.
    Tambem a q se notar que a igreja romana tb condena, só que 'por boca'.
    O que não adianta nada, não agir é ser conivente com a situação. Talvez o mesmo em relação ao esporte.

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    1. Prezado Anônimo,

      Não tive intenção, e sequer tenho poderes para tal, de santificar o papa, tanto quanto não crucifiquei Marco Feliciano. A forma clara como o primeiro se comunica e a maneira altamente discutível como o segundo prega suas convicções é que justificam a citação de ambos no texto ao qual você se refere.

      Abraço,

      Wagner

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  2. Aléssio Marinho27/07/13 12:21

    Moro no estado do Pará, onde existem 2 kartódromos: um em Castanhal, a 70 km da capital e outro em Marabá, a 550 km.
    O kartódromo mais próximo da capital ficou fechado por muito tempo, se deteriorando, e pra promover o esporte, fizeram uma corrida no estacionamento de um shopping em Belém, no 6º piso. Só fico sabendo que houve corrida depois que acontecem, tamanha falta de divulgação e organização. Parece uma seita super-secreta, onde não se pode saber o que acontece nas entranhas.
    Nem ouço falar em atividades no circuito de Marabá.
    Enquanto isso, hoje começou o único evento promovido pela Fepauto, o Rallye do Sol, organizado por uma TV local.
    Complicado.

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    1. Prezado Aléssio,

      Infelizmente praticar o automobilismo esportivo está se tornando uma atividade cada vez mais prejudicada pela falta de visão daqueles que deveriam trabalhar para trazer mais adeptos.

      Abraços,

      Wagner

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  3. Gostaria de colaborar com o comentário a respeito do concreto sobre asfalto como uma solução possível (não porca) para pavimentos de concreto betuminoso usinado a quente (CBUQ) com patologias. A solução é chamada de whitetopping e quando executada de maneira correta prolonga a vida útil do pavimento ao acrescentar rigidez na camada de rolamento.
    Fabio Barbosa

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    1. Anônimo,

      A utilização de concreto sobre asfalto pode ser uma solução para casos como o que ocorreu no kartódromo de Euzébio (CE) tanto quanto no único GP disputado em Dallas (Texas), em 1984, prova que acompanhei in loco. Ocorre que a técnica do whitetopping só é eficiente se aplicada corretamente, o que não foi o caso do que vimos na segunda etapa do recente Campeonato Brasileiro de Kart.

      Obrigado pelo prestígio da sua leitura e comentários.

      Abraço,

      Wagner

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  4. É uma pena. O kartódromo Julio Ventura tem um traçado bem legal e uma estrutura até que razoável. Andei lá há poucos meses e, fora os remendos na pista, me diverti bastante.

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    1. Gustavo,

      O kartódromo certamente atende às necessidades locais mas o número de competidores e a disputa típicas de um campeonato brasileiro certamente não foram levados em consideração quando da construção e da vistoria do circuito. Uma lástima...

      Abraços e obrigado pelo prestígio de sua leitura.

      Wagner

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  5. Vejam, há duas semanas perdemos a motociclista Vanessa Daya no autódromo de Brasília, que caiu por causa de falhas na pavimentação, e teve a infelicidade de ser atingida pela própria moto. Se o asfalto estivesse perfeito, a queda poderia ter sido evitada, e hoje provavelmente não lamentaríamos a morte da piloto. Enfim, muito mais do que causar inconveniência e dificuldades, a incompetência e o descaso MATAM.

    José

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    1. Prezado Anônimo,

      Infelizmente, trata-se de mais um caso da falta de ação de quem deve lutar pelos interesses do esporte.

      A curva do Café, em Interlagos, já foi foi palco de três acidentes fatais nos últimos anos, muito já se falou em mudanças mas até agora pouco ou nada de fez para corrigir as falhas nesse trecho.

      Abraços,

      Wagner

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  6. Nenhuma surpresa. Esse é o Brasil. País onde o futebol é mais importante que a educação, a saúde e a segurança. Nem mais 500 conserta isso. Infelizmente a tendência é de piora e não de melhora.

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