"CONVERSA DE PISTA", COM WAGNER GONZALEZ

Números e sonhos marcaram o treino de jovens pilotos realizado na semana passada em Silverstone. Sebastian Vettel foi o mais rápido e o espanhol Carlos Sainz Jr. foi a grande surpresa.

Há muito a Fórmula 1 não abria espaço para tantos novatos como na semana passada em Silverstone, quando 31 pilotos de 17 países completaram 2.494 voltas pelo circuito inglês, distância equivalente a quase 48 vezes a distância do GP. Das equipes, apenas a Mercedes não participou, cumprindo suspensão por causa do teste fora das regras realizado em abril, em Barcelona. O melhor de tudo isso é que não foi registrado nenhum acidente ou incidente motivado por pneus estourados, o grande barulho da corrida vencida por Nico Rosberg. E olha que pneu é o que não faltou: a Pirelli informa que levou nada menos de 344 jogos, ou seja, 1.376 borrachudos e a proposta inicial não era nem avaliar compostos.

Pois bem, embora os três dias de testes tenham sido disputados em pista seca e, coisa rara na ilha, sob sol, o evento da semana passada pode muito bem ter sido um divisor de águas na logística da F-1 atual. Verdade que a FIA já anunciou que os assim chamados “testes de pneus”, uma prática comum nos anos 1990, voltarão com regularidade no ano que vem, mas já deu para matar a saudade. Ao contrário do que acontecia no passado, agora essas provas serão realizadas na semana seguinte ao GP e com um dia de intervalo, solução adotada para conter custos dizem os cartolas. 

Vettel e Ricciardo (foto Red Bull Media)

Voltando a Silverstone, os únicos pilotos a baixar da casa de 1m33 foram Sebastian Vettel (1´32”894) e Daniel Ricciardo (1’32”972), cujos tempos dariam meros 19º e 20º lugares no grid. A comparação é meramente ilustrativa pois, como disse Paul Hembery, da Pirelli, “as condições da pista e o setup dos carros eram muito diferentes entre uma e outra ocasião.” A explicação é válida e, como senão bastasse isso, várias equipes andaram com equipamentos típicos de avaliação, algo impossível num treino oficial. É o caso da antena instalada no Ferrari de Felipe Massa, que andou apenas na sexta-feira. 

Antena no Ferrari de Felipe Massa (foto Ferrari Media)
 Equipes como a Sauber, Lotus e Williams dedicaram atenção especial à aerodinâmica.  A Sauber apareceu com uma nova solução nas laterais posteriores, pouco à frente das rodas traseiras, que visava melhorar o fluxo do escapamento em direção ao aerofólio. A Lotus e a Red Bull instalaram após a roda dianteira esquerda um misto de grelha de churrasqueira e antena de TV do século passado onde vários sensores mediam a turbulência gerada pelo pneu; e a Williams apareceu com uma carenagem inferior na base da asa traseira, proposta que visa diminuir o arrasto e, portanto, melhorar a velocidade na reta.

Tecnicismos de lado, o que se falou mesmo em Silverstone foi relativo aos pneus e aos futuros botas da categoria. Uma conclusão curiosa é que Carlos Sainz Júnior e Daniel Ricciardo, que andaram com dois carros diferentes, ainda que da mesma família: o Red Bull Infiniti e o Toro Rosso Ferrari. Curiosamente ambos foram mais velozes com o modelo da equipe satélite, o que indica a facilidade de pilotar desse modelo. Verdade  que Sainz brilhou(1’33”016, 39 voltas) quando usava os novos pneus macios, que usam carcaça de 2012 e compostos de 2013 e Ricciardo com pneus médios e usados, ambos no treino da quinta-feira. 

Isso deixa claro também que as horas de vôo que o australiano tem com o STR 8 falaram mais alto que o pé do espanhol no seu primeiro contato com um carro de F-1. Vale mencionar que Ricciardo marcou seu tempo pela manhã e Sainz Jr. à tarde. Com o carro da RBR o australiano registrou 1’33”187 e 59 voltas e o espanhol, 1’33”546 e 35 voltas.

Sainz, pai e filho (esquerda), espanhóis, e o português Felix da Costa (foto Red Bull Media)
 Deste episódio tira-se conclusões importantes sobre o ano que vem. A primeira é que o australiano aumentou seu cacife para ocupar a vaga de Mark Webber, briga onde Kimi Räikkönen é o grande candidato. A segunda é que o espanhol pode muito bem assumir o seu posto: não bastasse o pé pesado do jovem espanhol, a fornecedora de combustível da Toro Rosso é a Cepsa, empresa espanhola e o sobrenome Sainz fala alto na terra onde Alonso reina. Nessa briga seu adversário é o português Antonio Felix da Costa, que era apontado como o cara que ia detonar as tabelas de tempo. Era: seu melhor tempo com o RB 9 (1’33”821 em um total de 101 voltas em dois dias) foi cerca de oito décimos mais lento que a melhor marca de Ricciardo com o mesmo carro. De qualquer forma o português segue confiante de ter condições de estar na F-1: “Quando saí do carro após minha última volta eu disse a mim mesmo, “é isto que eu quero, estou pronto para este desafio. Mas é importante ter claro que tudo vai depender de como eu termine esta temporada e o que falta por merecer estar na F-1”.

Kevin Magnussen (foto McLaren2)
Se Felix da Costa não correspondeu ao que se esperava, o dinamarquês Kevin Magnussen surpreendeu: afinal, há quanto tempo um McLaren-Mercedes não era o carro mais rápido de um treino como aconteceu na quarta-feira? Mais do que uma volta melhor que todo mundo, Kevin demonstrou segurança ao melhorar suas marcas na medida em que o tanque do seu carro ficava mais vazio, demonstração que não apenas aproveitava a melhor relação peso-potência, como também cuidava bem dos pneus. A análise dos seus tempos mostra marcas consistentes tanto com pneus mais duros quanto com os médios, os usados na sua volta mais rápida. Não será surpresa se o filho de Jan Magnussen for efetivado pela McLaren no ano que vem como reserva ou, caso Jenson Button mude mais uma vez de equipe, como companheiro do errático Sergio Perez.

 
Oliver Turvey (esquerda) e Gary Paffett (foto McLaren Media)
Tanto na McLaren quanto no Território do Touro, outros nomes marcaram presença sem destaques de nota. Fiel à tradição, a casa inglesa convocou Oliver Turvey (15º. tempo, 97 voltas, 1’33”864) e Gary Paffett (22º, 77 voltas, 1’34”924), enquanto o pequeno dinamarquês completou 100 voltas e fez o 11º tempo (1’33”602). No programa de jovens pilotos da fábrica de energéticos Johnny Cecotto Jr. – herdeiro do motociclista que brilhou no Brasil, onde venceu provas e a Taça Centauro e companheiro de Ayrton Senna na equipe Toleman – obteve 1’34”193 na melhor das 75 voltas que deu na quinta-feira. Já Daniil Kyvat mostrou que os valores russos ainda precisam de algum tempo para alcançar melhores resultados: seu cacife foi suficiente para apenas 16 voltas na sexta-feira e seu melhor tempo, 1’35”281, foi apenas o 25º entre as 33 combinações de carros e pilotos que treinaram.

Johnny Cecotto Jr. (esquerda) e Daniil Kyvat (foto Red Bull Media)
A decisão da Lotus de não convocar nem Kimi Räikkönen nem Romain Grosjean provocou comentários dos mais variados acerca dos motivos para tanto, lista onde duas possibilidades foram mais dissecadas: o finlandês não é do tipo que leva trabalho para casa mas, isto sim, leva muito a sério seus dias de folga. Além disso, os rumores de sua possível mudança de endereço no final da temporada não deixam os dirigentes de Enstone muito à vontade. Mais do que isso, porém, o político Alain Prost voltou a trabalhar como embaixador da Renault. Certamente suas intenções passam por dar uma força ao filho Nicolas, que a bem da verdade não decepcionou e marcou o sexto melhor tempo (1’33”256) da jornada em que foi o segundo piloto que mais andou: só perdeu para Davide Rigon, da Ferrari, que fez 193. Como as finanças da Lotus não andam exatamente equilibradas é melhor ter Prost como amigo do que como inimigo, mesmo porque sua capacidade para acertar carros pode ajudar muito. Além disso, Davide Valsecchi (9º, 1’33”554), mostrou que o Lotus E 21 é bem nascido e a escuderia trabalha com seriedade, já que ele completou 91 voltas em um único dia de treino.

Davide Valsecchi (esquerda) e Nicolas Prost (foto Team Lotus-Renault)
A Ferrari poupou Fernando Alonso e escalou Felipe Massa para apenas um dia de treino na sexta-feira, deixando o italiano David Rigon – que disputa provas de GT por uma equipe satélite de Maranello – com a maior carga da missãi. O italiano mostrou-se bem adaptado ao ritmo de trabalho da tradicional escuderia e foi melhorando seu rendimento a cada dia: nono na quarta feira (1’34”874, 76 voltas), oitavo na quinta (1’34”053, 97) e quinto na sexta (1’33”592 na sexta (1’33”592, 20 voltas), dia em que ficou à frente de Felipe Massa (1’33”624, 69 voltas).
 
Davide Rigon (foto Ferrari Media)
Outra equipe que trabalhou com seriedade foi a Force India, cujos três pilotos em ação completam 277 voltas com o VJM 06 Mercedes. O alemão Adrian Sutil foi o destaque do trio ao marcar o segundo tempo (1’33”896, 79 voltas) na sexta-feira, único dia que andou e quando foi superado apenas por Vettel, também usando os novos pneus macios. Paul Ri Resta conseguiu sua marca expressiva logo no primeiro dia de treinos, quando andou com o protótipo do novo pneu de composto duro. Nesse dia o escocês fez 58 voltas – a melhor em 1’33”774 – e na quinta, 1’36”356. O inglês James Calado, kartista que nas últimas temporadas esteve associado ao programa de novos pilotos da Lotus, bandeou-se para a equipe de Vijay Mallia e segue buscando seu lugar na F-1 a exemplo de vários outros abnegados. Seu progresso de quarta-feira (quarto mais rápido, 1’33”986”, 27 voltas), para quinta (6. 1’33”957, 47 voltas) não chegou a impressionar, já que na geral foi o décimo-sexto.
James Calado (esquerda), Adrian Sutil (centro) e Paul Di Resta (Foto Force India2)
Na equipe Williams as coisas continuam na mesma: o FW 35-Renault resiste em responder positivamente às alterações que são feitas no chassi que a partir de agora terá a atenção de Pat Symmonds, um remanescente da geração de técnicos capazes de enxergar e trabalhar em todas as áreas de um projeto. Preparando-se para receber o motor Mercedes a partir de 2014, a equipe não tem por que investir muito no carro atual – apesar de declarações em contrário. A preocupação maior é colocar a casa em ordem na esperança que a experiência com Sttutgart seja bem diferente dos anos que viveu com os alemães de Munique quando da associação com a BMW. Daniel Juncadella, piloto com bons resultados na F-3, foi o melhor dos três nomes escalados para trabalhar em Silverstone com 1’34”098 – mais rápido que Pastor Maldonado por meros 18/100 de segundo. Susie Wolff, esposa de Toto Wolff – não por coincidência o homem forte da Mercedes no esporte a motor – completou 89 voltas na sexta feira quando foi a nona classificada (135’093) entre 16 pilotos que foram à pista.
  
Pastor Maldonado (esquerda), Daniel Juncadella (centro) e Susie Wolff (Foto Williams Media)
Muitos esperavam ver mais um piloto russo a bordo do único C32 levado pela equipe Sauber à Inglaterra, porém apenas o holandês Robin Frijns e o japonês Kimyia Sato. Aparentemente restrições de idade impediram Sergey Sirotkin de ter seu primeiro contato com um F-1. De qualquer forma o acordo com empresas russas continua valendo e detalhes do plano de trabalho entre o time de Hinwill e os soviéticos serão anunciados em breve. Frinjs testou por dois dias (72 voltas na quarta-feira, 1’34”236, sétimo mais rápido, e décimo-sétimo na quinta, 1’34”731. 17 voltas, décimo-segundo) enquanto Sato foi o décimo-terceiro na sexta feira (1’35”642, 57 voltas). Nico Hulkenberg, cada vez menos empolgado com os problemas financeiros que ainda afligem seu atual empregador, treinou apenas na quinta, quando foi marginalmente mais eficiente que o holandês, coisa de centésimos de segundo (1’34”224). 

Nico Hulkenberg (esquerda), Robin Frijns (centro) e Kimya Sato (Foto Sauber Media)
 Para manter uma certa ordem, Caterham e Marussia dividiram os últimos tempos dos testes e abriram espaços para novatos dispostos a bancar algo em torno de U$ 300 mil por dia de treinos, caso do americano Alexander Rossi (décimo na quarta feira, com 1‘35"651 na mais rápida das 68 voltas completadas) e o inglês Will Stevens, que no dia seguinte não baixou de 1’36”082 mas andou 30 voltas a mais (98). Os titulares da casa registram 1’35”155 (Giedo van der Garde, quinta, 65 voltas) e 1’35”576 (Charles Pic, 46).


(Da esq. para a dir.) Alexander Rossi, Will Stevens, van der Garde e Charles Pic (Foto Caterham Media)
Na Marussia, o venezuelano Rodolfo Gonzalez deitou e rolou: andou 116 voltas na quinta e sexta-feira e foi o primeiro dos quatro últimos, com 1’36”339, à frente de Tio Ellinas, cuja maior alegria certamente foi a de se ter tornado o primeiro cipriota a pilotar um F-1 (1’36”676) na quinta-feira. Jules Bianchi (1’36”744) e Max Chilton (1’38”347) repetiram o desempenho conhecido das provas já disputadas este ano.
 
(Da esq. para a dir.) Max Chilton, Jules Bianchi, Tio Ellinas e Rodolfo Gonzalez (Marussi Media)


A coluna "Conversa de Pssta" é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Nota do editor: a coluna "Conversa de Pista" é publicada toda terça-feira às 10h00. A dessa semana o foi excepcionalmente nesta quarta-feira.

8 comentários :

  1. Wagner, excelente post, muito completo. Me divertiu o termo "primeiro dos quatro últimos" sobre o piloto venezuelano da Marussia. Elegante sem deixar de ser engraçado ...

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  2. Wagner
    Voce acha que continuaremos a ter piloto brasileiro na F1 2014?
    Infelizmente Massa tem encontrado muita dificuldade, parece resignado (e bem pago) como segundo piloto do time italiano. Nao acho isso bom para sua carreira.

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  3. Pois é Acyr, não me ocorreu uma definição melhor para essa situação e parece que agradei pelo menos a uma amigo. Abraço.
    Wagner

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  4. Anônimo,

    Há muito que os contratos da F1 deixaram de ser assinados em função de resultados na pista. Certamente o Massa atravessa uma fase, já não passageira, de altos e baixos, o que influi na renovação do seu contrato. Porém, há algo mais no ar do que aviões de carreira e sua continuidade na equipe de Maranello e na F1 depende de muitos interesses comerciais, tais como a lucratividade do GP do Brasil e os interesses da Ferrari (incluindo aqui Fernando Alonso), Fiat, FOA, GP do Brasil, Rede Globo e Shell para mencionar os principais. Sem falar na disponibilidade de pilotos experientes e confiáveis.

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  5. Adorei o post. Resumiu com muita clareza os treinos em Silverstone, e me poupou um baita trabalho de pesquisar como foram essas atividades, as informações nas mídias tradicionais saem muito "picadas" e muito escassas. Parabéns!

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  6. Thales,

    O intuito era esse: informar internautas que curtem a F 1 com clareza e tão completa quanto possível. Obrigado pelo seu prestígio.

    Abraço,

    Wagner

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  7. Bacana, obrigado por resumir e explicar as coisas de forma tão clara e simples, sem ser simplista, suas colunas são ótimas !

    Uma pena não ter nenhum brasileiro novato nos treinos, tem cipriota, português e espanhóis (países que não andam com boa economia), mas infelizmente nem o Nasr e nem o Razia conseguiram patrocínio, reflexo da situação do automobilismo por aqui. =(

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  8. Evandro,

    Bom saber que você você gostou e curtiu a coluna.

    Quanto à ausência do Felipe Nasr, tenho informações que seu empresário Steve Robertson, o mesmo do Kimi Räikkönen, optou por não investir cerca de US$ 300 mil para um teste com uma equipe pequena. É esse o preço para acelerar um F1 para os pilotos que não estão incluídos nos programas de treinamento das grandes equipes. Se isso é uma desvantagem, por outro permite que se negocie com mais escuderias uma vez que o jovem valor em questão não fica ligado unicamente a uma única equipe. Foi por esse motivo que o Ayrton assinou com a Toleman para 1984 e rejeitou a oferta da McLaren.
    Obrigado pelas palavras e pelo prestígio da sua leitura.
    Abraço,
    Wagner

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