BERETTA BBC

O Beretta BBC

A dinastia industrial da família Beretta é a mais antiga do mundo, tendo raízes estabelecidas em 1526, sempre no negócio de armas.

Mas após a Segunda Guerra Mundial poucos se lembram que a fábrica tentou entrar no ramo de automóveis. Projetou e construiu três protótipos de um interessante carro. Isso em 1947. Vindo de uma fase rica para as empresas de armas, uma guerra, Pietro Beretta percebeu que precisaria de outro modo de ganhar dinheiro e que seria bom criar algo que despertasse o desejo de posse, com um produto relacionado ao prazer da paz, de aproveitar os dias mais claros que estavam à frente, deixando no passado a desgraça proveniente da ignorância humana.

O automóvel, como sempre, eterno símbolo de liberdade, foi o escolhido pelos capi italianos.

O interessante é que o modelo, batizado de BBC, era tecnologicamente bastante avançado e, se tivesse dado certo, poderia ter mudado o panorama da motorização italiana.

Fiat 1400 que chegou depois:  o Beretta BBC não estava longe dos padrões da época

Foram feitos três protótipos e na fase de testes a Beretta percebeu que o poço financeiro era muito fundo. Situação normal em um país bastante danificado pelos combates, e com uma boa parte da população bastante pobre, fato que podemos confirmar com qualquer família de origem italiana que aportou no Brasil nessa fase. Faltava até comida, era tudo muito difícil.

Na seqüência, enquanto o carro era ainda uma vontade da administração da empresa, começou o conflito da Coréia, e a decisão foi fácil. A Beretta iria continuar a fazer apenas o que sabia muito bem e que lhe permitiu sobreviver por mais de quatro séculos: armas de fogo.

Um dos três carros ficou guardado com a própria empresa, em Gardone Valtrompia, e veio à luz novamente em 1979, para ser restaurado e colocado em exposição no museu da empresa.

Detalhe das portas que abriam 90°

Os nomes responsáveis pela criação desse curioso carro foram Pietro Beretta, o dono da empresa, o Conde Luigi Castelbarco, um piloto de corrida e um dos avalistas da idéia, ajudado por Giuseppe Benelli, o engenheiro responsável pelas motos que levam o nome de sua família. Os três geraram as idéias básicas do carro: motor e tração dianteiros, carroceria aerodinâmica para compensar o pequeno motor V-2 de 750 cm³ a quatro tempos – de origem, claro, da Benelli.

Do nome deles vêm as três letras que batizaram a criação, e cada um ficou responsável por uma área do carro. Beretta fez o chassis usando seus recursos técnicos na empresa, e uma carroceria de aço era parafusada e este, já que estruturas monobloco eram ainda pouco difundidas, menos ainda na Itália.

Benelli desenvolveu o motor, que chegou a 20 cv a 4.000 rpm. Era refrigerado a ar, com cabeçotes de alumínio, bloco de ferro fundido, válvulas no cabeçote e um câmbio de quatro marchas, número alto para aquele tempo, com alavanca no assoalho.

Motor Benelli V-2 de 750 cm³

Os banco inteiriço dianteiro de um Fiat Topolino foi instalado no carro para ser testado pelo piloto, o Conde Castelbarco, que utilizava as estradas dos Alpes, próximas da fábrica, para suas avaliações e geração de idéias de melhoria para o carro. Essa fase, iniciada em 1949, mostrou que o carro não tinha defeitos notáveis, atingia velocidade máxima ao redor de 110 km/h e a aceleração era muito melhor que a do Fiat Topolino, o carro popular de pós-guerra por excelência, vindo da maior fabricante italiana já com décadas de experiência. Notáveis também a manobrabilidade e freios, já que o carro descia o Passo do Stelvio, uma serra cabulosa, sem apresentar fading.

A agilidade era bastante boa, com as suspensões de eixos oscilantes na traseira e molas helicoidais na dianteira. O quanto era estável ou não, não sabemos.

A carroceria tem um ponto notável e que acreditamos que deveria ser buscada ainda hoje pelas grandes fábricas, para facilidade de manutenção. Todo o capô basculava para frente junto com os pára-lamas, para total e fácil acesso mecânico. Um sonho para quem aprecia uma manutenção básica caseira.

Essa carroceria foi desenhada por Alberto Rosso e fabricada pela sua empresa, a Rosso, de Turim. O problema maior era não ter tampa de porta-malas, sendo o espaço para bagagem atrás do banco traseiro acessado deitando-se o encosto do mesmo e passando as malas pelas portas, uma péssima solução.

Esse ponto é comum com o primeiro modelo de Saab, o 92, que foi lançado em 1949, e um defeito grave no projeto de ambos os carros. No BBC não foi corrigido, pois o carro nunca entrou em produção normal.

Ugo Gusalli Beretta e seu  carro único (amgmodels.blogspot.com)

Abaixo desse compartimento, e acima do pára-choque traseiro, ficava o estepe. O tanque de gasolina é acima e atrás do motor, localizado no dash panel, ou parede de fogo, como no Ford Modelo T e no DKW Front, alimentando o motor por gravidade, sem bomba.

O carro que está no museu tem menos de 7.000 km rodados, quase sempre em testes, para validar as boas idéias de um trio inspirado. Pela qualidade construtiva verificada nesse carro, é fácil imaginar que ele não seria barato para a época, e obviamente seria um perdedor no mercado. Mas também há rumores que a Fiat teria pressionado Pietro Beretta para que ele não produzisse automóveis. Notavelmente, o primeiro Fiat com carroceria monobloco é o modelo 1400, de desenho externo muito parecido com o Beretta. Foi apresentado em 1950, depois que o BBC já tinha morrido.

Ao mesmo tempo, se nota que a Itália e o mundo perderam um bom produto, alguns anos à frente da sabedoria corrente. Foi a arma nunca disparada pela Beretta.

JJ

15 comentários :

  1. Idéias frescas são sempre mais puras e ilimitadas do que aquelas forjadas por anos da limítrofe pragmática, talvez criando resultados práticos até melhores, mas não tão aptos àquele crivo que sempre determina a prosperidade de uma idéia ou produto: o mercado.
    Legal reparar os coletores de escapamento do carrinho, idênticos ao do bicilíndrico da Gurgel, inclusive com cárter e tampas de válvula aletados.

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  2. Se esse projeto tivesse ido adiante possivelmente teria quebrado a Beretta, e hoje não teríamos nem suas maravilhosas armas de caça e competição nem seus carros.

    Melhor ter ficado tudo como estava mesmo.

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  3. Ótimo post, muito legal mesmo! Mas que me chamou mais a atenção foi essa foto do motor do carro.

    Achei estranho esse motor V-2. Os cabeçotes são grandes e o ângulo entre os cilindros parace ser de 120º. Configuração estranha para um 2 cilindros, pois o convencional seria 180º ou 90º, não? Sem falar no bloco em ferro fundido, apesar de arrefecido a ar! Há algo mais de especialmente interessante nesse motor?

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    1. também fiquei muito curioso de mais detalhes técnicos desse motor, vou dar uma pesquisada aqui, espero que ache algo.

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  4. Interessante a história desse carrinho. Não conhecia!
    Pena não ter passado dos protótipos.
    Acho que se entrasse em produção traria a tampa de porta-malas.
    Inconcebível essa falta num três volumes, só aceitável em protótipos.
    O Tata Nano traz essa solução, mas, por ser um dois volumes não deve incomodar tanto.

    Ótimo texto.

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    1. No caso do Nano, a Tata já recebeu várias reclamações devido à ausência de tampa traseira e por ora deve estar quebrando a cabeça para introduzi-la em seu carro.

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  5. Tão interessante quanto saber deste carro, foi saber que a Beretta existe "desde sempre", he, he!

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  6. gostei desse Beretta, JJ, belo texto e parabéns pelo resgate do carro. outro ponto que o une ao Saab 92 é que o sueco também foi fruto de uma empresa que buscava outra atividade depois do final da guerra.

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  7. Interessante notar os Messerschmitt KR no background da última foto.

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  8. Só aqui para eu conhecer carros que eu jamais saberia da existência... mas sem tampa de porta malas? Terrível... acho que o Tata Nano é assim também, né?

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  9. Como Coronel do Exército minha pistola é uma Taurus-Beretta, mas eu prefiro uma Colt 45 Americana ou a Luger Alemã.
    Abraço
    Coronel Anônimo

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    1. A Luger é uma pistola incrível, ainda que se pague o preço desse avanço em outras áreas... Mas como é bela!

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  10. Esse carro não devia ser caro, tinha a receita do pós guerra de carro popular com motor de moto, velocidade baixa e cabine bem simples com vidro corrediço, etc. Uma pena não ter entrado em produção, parece bem melhor que o topolino que foi a única opção dos italianos por muito tempo

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    1. Acho q. quem pesquisar nos lugares certos,vai descobrir q. esse motor Benelli do BBC acabou dando origem ao V2 90graus das motos Guzzi

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  11. Também não conhecia essa história. A Fabrica de Torino engoliu no nascedouro...coisas do capitalismo monopolista.

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