O DAIMLER V-8: HEMI INGLÊS




Quem acompanha o AE bem de pertinho sabe que já falamos aqui sobre o Chrysler Hemi, sobre o Ardun V-8 de Zora Arkus-Duntov, e também sobre o Simca Emi-Sul. Resolvi hoje falar sobre outro V-8 na mesma configuração, ou seja, comando único no bloco, válvulas no cabeçote opostas em seção, e câmara de combustão hemisférica. O V-8 inglês da Daimler (acima).

A Daimler inglesa, apesar de ter a mesma origem da mais conhecida alemã (essa origem sendo os motores de Gottlieb Daimler), tem muito pouco em comum com ela. Desde muito cedo, tomaram rumos diferentes, e em 1910 a empresa inglesa é vendida para a Birmingham Small Arms Co, uma empresa gigantesca que então produzia de tudo um pouco, mas que ficaria famosa pelas motocicletas que levavam suas iniciais: BSA.

A Daimler ficou conhecida por seus carros de alto luxo e limusines, inclusive se mantendo como tradicional fornecedor delas para a família real britânica. Mas nos anos 50 precisava desesperadamente de mais volume e modernização, seus carros gerando muito pouco interesse no público comprador.



Essa modernização veio com a subida de Jack Sangster à presidência da BSA. Sangster viera à BSA quando esta comprara suas fábricas de motocicletas, as não menos famosas Ariel e Triumph. Entra em cena então na história da Daimler um dos maiores engenheiros de motocicletas da Inglaterra: Edward Turner (acima), criador da famosa Ariel Square Four, uma moto com quatro cilindros dispostos em forma de quadrado (abaixo) e também  pai dos famosos bicilíndricos em linha da Triumph. Em 1956, Sangster promove Turner à presidência da Daimler.



Turner faz então o que sabe fazer melhor: começa a desenhar um novo e moderno motor para a empresa. E um novo carro esporte para rejuvenescer a sua imagem velha e cansada.

Tratava-se de um V-8 compacto, bastante superquadrado, leve para a época, e de giro fácil. Ao contrário de todo motor da empresa até ali, o V-8 Hemi era entusiasmado, solto, girador, coisa de um projetista de motocicletas mesmo, algo que falava direto ao coração dos entusiastas. Não foi à toa que Turner resolveu mostrar isso ao mundo lançando-o em um novo carro esporte, o Daimler Dart (SP250 nos EUA para não ofender a Dodge), em 1959 (abaixo).



O V-8 aparecia com cabeçotes de alumínio, e 76 x 70 mm de diâmetro e curso, para um deslocamento de 2.548 cm³. Pesava apenas 190 kg. Com dois carburadores SU HD6, produzia 142 cv a 5.600 rpm, rotação inédita para um Daimler então. O motor era também elástico, com torque máximo de 21 mkgf aparecendo às 3.600 rpm. O pequeno carro com carroceria em plástico termofixo reforçado com fibra de vidro tinha desempenho sensacional para seu tempo, fazendo o 0-100 km/h em menos de 9 segundos, e atingindo 200 km/h de máxima.

Mas o Dart/SP250 fora muito mal desenvolvido, e foi as ruas com vários problemas sérios e insolúveis, inclusive estruturais. Some-se isso a um estilo controverso, e logo era dificílimo vendê-los.

Mas Turner não ficou só nisso. Fez também uma versão “Big Block” de seu V-8 Hemi. Seguindo quase que a mesma configuração do 2,5 litros, o V-8 maior media 95 x 80 mm de diâmetro e curso, para um deslocamento total de 4.561 cm³, ou 280 pol³, para ficar numa medida mais comum aos Hemi. Também com cabeçotes de alumínio e dois SU, pesava 230 kg. Desenvolvia 223 cv a 5.500 rpm e 38,4 mkgf a 3.200 rpm.

O motor foi montado no sedã grande da Daimler, chamado então de Majestic, criando o novo Daimler Majestic Major (abaixo). E que coisa sensacional aquilo ficou...


O Majestic era uma enorme barca inglesa de alto luxo no idioma de Rolls-Royce, ou seja, era opulento, com estilo rebuscado e tradicionalista, macio feito seda japonesa. Mas era também tranqüilo no desempenho, impulsionado por um antigo seis em linha de 3,8 litros. Mas o Major, com o V-8 de Turner, virou uma coisa bem diferente. Um lorde inglês, mas com músculos de corredor!


O Grande sedã de 1.880 kg se movia como um carro esporte. Os números eram praticamente iguais aos do esportivo Dart/SP250: 9 segundos cravados de 0-100 e 200 km/h de final. Em 1959, isso era realmente rápido. E num carro com essa cara de limusine de casamento era surreal. E mais surreal ainda deveria ser na versão limusine de 8 lugares (abaixo)... É interessante notar que o Majestic Major com o V-8 era mais leve que o Majestic com o seis em linha, que pesava 1.950 kg.



O famoso John Bolster disse no teste da Autocar inglesa em 1961: "O Daimler Majestic Major é um grande carro em todos os sentidos da palavra. Eu simplesmente não posso dar nenhuma sugestão de melhora. Ele combina luxo para seis passageiros com estabilidade e dirigibilidade de carro esporte, e desempenho quase de um carro de corrida. Passou por um teste severo conosco, inclusive rodando muito no continente, e se portou de forma absolutamente magnífica.”  
 

Mas mesmo assim, Turner falhou miseravelmente em levantar a marca. Pouca gente notou o Majestic com novo motor, e todo mundo notou que o SP250 era muito malfeito, fossem seus V-8 sensacionais ou não.

Entra em cena então Sir William Lyons, sobre quem andei falando bastante por aqui. Sir William resolvia uma falta de espaço para expansão de sua Jaguar comprando a Daimler em 1960, e com ela sua fábrica de Browns Lane. Herdando estes ótimos motores, Sir William resolve criar uma versão de luxo de seu MkII usando o V-8 de 2,5 litros. Nascia o primeiro Daimler baseado em Jaguar, o Daimler 250 V-8 (abaixo). É interessante notar que o Daimler era bem mais veloz que o Jaguar com a versão de 2,4 litros do seis em linha DOHC da marca, um motor lendário por si só.


Mas este foi apenas o último vestígio da Daimler. Dentro do conglomerado BMC e depois BL, o V-8 Daimler morreria. A marca persistiria ainda como uma grade de radiador diferente nos Jaguar, mas efetivamente morta.

 MAO

10 comentários :

  1. Surreal, o Majestic Major limusine? Sem dúvida.
    Mas a maior prova da loucura britânica eram os carros funerários que usavam o mesmo chassi, ideais para quem não queria chegar atrasado ao próprio enterro...

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  2. Daniel San01/10/11 09:52

    MAO,há alguma relação entre a Triunph e a Brough Superior?
    O que atrapalhou muito o SP-250 foi,além da má construção do carro,que torcia nas curvas,inviabilizando-do para uso em corridas,o que ajudaria muito para levantar a imagem da marca,o fato de o estilo dele ser meio estranho,numa época em que a traseira rabo de peixe iniciava uma decadência,além de nunca ter criado moda de fato na Europa.

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  3. olha o lyons aí de novo!

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  4. Sem dúvida, o Mercedes britânico.
    Mas nessa época a indústria inglesa começou uma derrocada irreversível, mesmo com ótimos produtos, como eram a maioria dos carros ingleses da década de 60.

    McQueen

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  5. Mister Fórmula Finesse01/10/11 17:15

    Um verdadeiro atleta de fraque e cartola a versão limusine...

    Mas que estranho que problemas de qualidade eram tão recorrentes em um carro que queria disputar o topo.

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  6. O SP250 não precisou nem do Prince of Darkness pra ser ruim, uma pena.

    MAO, que tal escrever sobre o motor Jaguar XK-6 qualquer hora dessas?

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  7. Joel Gayeski,

    O XK está na fila, mas deixemos mais para frente um pouco para não nos cansarmos de Jaguar, rsrsrssr

    MAO

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  8. Daniel San,

    Não que eu saiba, mas não sou lá especialista nessas duas empresas não, conheço superficialmente a história de ambas.

    Mas tem dois livros na wish-list para consertar isso em breve...
    MAO

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  9. Alexandre Zamariolli,

    Pois é, existiram vários carros fúnebres "Hemi", o que no mínimo é engraçado...

    MAO

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  10. MAO,

    Seus textos são ótimos. Gosto muito de ler, talvez porque sempre fala de assuntos absurdamente interessantes! Camarada, te peço para fazer um post sobre os incríveis 6 cilindros GM, dos quais sou fã e você inegavelmente também é. Seria muito legal ter com suas palavras, nem que seja um curta metragem, sobre a história desses motores infelizmente extinta das linhas de produção.

    Forte abraço
    GiovanniF.

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