ALGUNS DE MEUS MESTRES

Foto: novoguscar.blogspot.com



— Noossa, vô! de primeira você colocou terceira! Pulou a segunda marcha, vô! – ainda molecote de uns doze anos, exclamei.

— Sossega, amorrrr (era assim que ele me chamava, e com sotaque um pouco arrastado, pois era suiço), esse motorr é forrte e assim no plano a gente pode pularr as marrchas.

Pois é, o Itamaraty tinha um 6-cilindros forte mesmo, motor de jipe; pouco giro, pouco potência máxima, porém já bom torque em baixa – e dava pra fazer isso mesmo, pular marchas quando no plano ou em descidinhas. E o vovô Frederico guiava macio e aquela banheira que era o Itamaraty ia suave que era uma beleza. Também, pudera! Outro modo não haveria dele guiar, pois esse foi um sujeito classudo de verdade, elegante e charmoso por natureza; punha o Clark Gable no chinelo, e punha mesmo. Ele simplesmente ficava desconcertado diante da grosseria. Ele não a entendia. Simplesmente não entendia como outros agiam estupidamente, já que ele simplesmente não tinha o gene da grosseria. Os genes que dela tenho certamente dele não vieram.

E assim ele era e assim ele guiava, como um homem gentil, sempre.

— Parabéns, Naldinho! Você está guiando muito bem! Desviando direitinho dos buracos, guiando suave. Está muito bom! Não chacoalha nada – minha avó Irene, esposa do vovô Frederico, me elogiando, enquanto eu, o mesmo molecote de uns doze ou treze anos, compenetrado guiava a Veraneio cheia de gente por estradas de terra da fazenda. Nunca mais esqueci esse elogio. 

Foi quando me dei conta da importância de proporcionar uma tocada tranqüila e suave para os que eu levava no carro. É uma questão de respeito, coisa que só se pode exigir quando se dá.

— Filho, quando for ultrapassar olhe sempre pra roda da frente do caminhão. Caminhão é um negócio pesadão e lento pra reagir, então o jeito mais rápido de ver pra onde ele vai é olhando pra roda pra ver se ele vai virar pra cima da gente – minha mãe ensinando o mesmo molecote sedento de informações sobre como guiar legal.

— Naldo! Pára de me encher o saco! Não vou passar esse carro e tá acabado! Não dá tempo!.... Putz moleque chato! Cacete! Se eu fosse na tua a gente já tinha batido de frente umas dez vezes! – meu pai, pro mesmo molecote quando viajando só nós dois, "programa e linguajar só pra homem". – E quando a gente parar no posto mande colocar tantos milhões de cruzeiros de gasolina e regule os pneus e dá uma olhada no óleo. E, olha, olha pra mim! nâo se meta a querer ver a água que essa coisa pode jorrar água fervendo na tua cara, já te falei mil vezes. Manda o cara do posto olhar que ele põe um pano molhado lá. 

E não empurre meu banco pra trás enquanto eu vou lá tomar um café, que eu não sou bóizinho. Lave o pára-brisa. Te trago um chiclete Ping-Pong.

Pois é. Todos tivemos nossos mestres quando fomos despertando para o que significa guiar.
Todos? Infelizmente nem todos.

Nem todos tiveram gente da família que fosse razoável ao volante. Já ouvi queixas de amigos, falando das maluquices que seus pais aprontavam, babeiragens irresponsáveis, brigas no trânsito, etc.

E agora tem outra, o progresso, a elevação do poder aquisitivo: muita gente que hoje tem carro, quando jovem não teve o privilégio de ter pais que os tivessem. Isso é bom, claro; todos merecem as comodidades que o automóvel proporciona, mas, pelo que noto, estamos em um período de adaptação. 

Muitos que hoje dirigem não tiveram a oportunidade de aprender com os pais, avós, tios etc. São pequenos detalhes, pequenas e infinitas dicas importantes que vamos absorvendo; questões de atitude também, principalmente.

O que fazer diante disso?

A gente, nada. Nada além de ensinar o jeito certo a quem nos é próximo.

Ao governo, quase tudo. Se um vigésimo do que surrupiam de nossos bolsos com multas sacaninhas fosse investido na educação dos novos motoristas – seja em aulas para as crianças nas escolas, seja em auto-escolas, seja em maior rigor nos exames para a obtenção da CNH, seja em sei lá o quê –, as coisas poderiam melhorar.

Não sei ao certo como, nem tenho a obrigação de saber, já que não me candidatei a nada nem prometi pra ninguém que resolveria nada. O que sei é que tem muita gente aí que está guiando que ignora o quanto ignoram sobre como guiar, e pior, igoram o risco que estão correndo; e esses vão que vão, felizes com a nova aquisição, cercados da tênue bolha colorida da ignorância, tipo Mister Magoo.

AK

26 comentários :

  1. É isso, Arnaldo. Mostra-me como diriges, e eu te direi quem és.

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  2. Muitas lembrancas de pai e vo... Quase chorei me vi na sua pele perguntando e reparando em todos os movimentos e acoes meu ver A meu ver volante dos nossos mestres. E o pior que quem nao teve a oportunidade ou interesse de contato com esta cultura automotiva anda feliz da vida, fazendo besteiras e achando que estao certos. Como ja foi dito aqui a a simples questao de nao reduzir marcha ou nao passar uma quarta quando ja era pra estar em quinta ou subir em quarta na cidade quase dando re e motor rateando pedindo terceira, melhor um automatico mesmo mim fazer para eu fazer esses que nao sao do ramo. Este e so um exemplo tem muitos outros que envolvem a seguranca ... Uma pena, mim fazer para eu fazer tirar a a cnh no minimo uma experiencia de estrada precisava ser obrigatoria, hoje milhares de pessoas financiam seus populares lotam de pessoas e bagagens e ali nestas condicoes tem o primeiro contato com estrada... Um perigo.

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  3. AK

    A-DO-REI! Texto irretocável pois é exatamente o que ocorre nos dias de hoje.

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  4. Alexei Silveira15/10/11 17:22

    Especial eese texto, Arnaldo

    Me trouxe boas lembranças...

    Ensinar filhos e sobrinhos é obrigação e como eles ficam gratos a isso hein.

    Hoje tem poucos cursos de pilotagem ,e muitos querem aprender, quem montar um curso , tiver um local , tem freguesia garantida.

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  5. Victor Gomes15/10/11 17:27

    Não tive, infelizmente, esse prazer de aprender a dirigir com pais e avós. Meu pai só comprou carro agora. E como nasci e cresci em cidade grande, lugar pra andar com o avô, não tinha. Aprendi um pouquinho a dirigir manobrando os carros da oficina onde trabalhei. No trânsito mesmo, só aprendi na auto-escola. Tirei carteira a quase três anos, mas percebo os erros quando alguém dirige de uma maneira em que eu não me sinto confortável como passageiro. Presto atenção para não repetir os mesmos erros. E claro, fico sempre ligado nas dicas daqui. A última q memorizei foi a que o Bob escreveu sobre ficar com a seta ligada durante o semáforo vermelho, pois incomoda quem está atrás. Vivendo e aprendendo com os mais experientes!

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  6. O grande barato deste post, é a lembrança do avô. O meu era muito especial, também. Como morasse em outro estado, não foi meu mestre na direção. Aliás, segundo meu pai (que não era filho, mas genro deste avô, o materno), quando o "Dr.Antônio" se sentava ao volante, Deus se sentava no banco do carona, e por isto nunca nada de mais grave aconteceu he, he! De qualquer forma, mesmo sem ter me ensinado muita coisa ao volante, o vô Antônio tem certa "culpa" no fato de eu estar hoje, participando deste e de muitos outros sites de entusiastas: era dele o grande responsável pela minha paixão por carros, nascida lá pelos meus 5 anos de idade, absolutamente fascinado que era, pelo seu inesquecível e até hoje nítido em minha memória, Simca Chambord branco com interior vermelho. Valeu, vô!

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  7. Muito bom!!
    Eu ja me identifiquei mais ainda, lembrei de meu Avo e sua Caravan verde impecavel levando a familia toda na estrada.
    E de quando era pequeno e perguntava "Vô, que carros existiam antigamente?",
    "Ah, tinha o Simca, o DKW, o Aero Willys"
    E eu que nunca tinha visto um ficava com esse nome na cabeça "Aero Willys. Esse bicho devia voar.."
    Dois anos depois de meu avo ter partido eu comprava meu velho Aero. Voar ele nao voava, mas era um aviao, como meu avo falava.
    E hoje dirijo uma Caravan, como meu velho dirigia, com todo o cuidado do mundo, mas sem deixar de aproveitar o 6 cilindros, que como ele dizia "tem uma força que so vendo"

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  8. Apesar do meu velho fazer suas maluquices de vez em quando, me ensinou muito como se comportar na estrada.

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  9. Eduardo Vieira15/10/11 19:07

    Lindo texto mesmo, Arnaldo! Parabéns... Poderia ser maior, leria por horas...
    Que tal fazer de todos esses ensinamentos um post em partes, assim como está este, com as comparações com o atual?

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  10. Meu Pai de 89 anos continua me ensinando até hoje, impressionante que quanto mais o tempo passa mais ele tem razão, até dos pequenos detalhes ao volante, coisas que eu não concordava, o véio tá sempre certo.
    Também me ensinou com 11 pra 12 anos, já vi meu pai escapando de muitos acidentes na estrada, ganhou de mim na viagem pra caldas novas-go, na ida tive que revezar a direção, na volta ele veio direto, 9h ao volante.

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  11. Caio Cavalcante15/10/11 20:16

    Mas que texto Arnaldo! Quanta emoção trouxe à tona!
    Hoje mesmo sai para almoçar com minha avó, dirigindo o Celta do meu irmão, e quando estávamos quase chegando ao restaurante, ela elogiou o "carro": "que carro macio, quase não dá tranco". Óbvio que fiquei todo orgulhoso, mesmo o carro recebendo os méritos.

    Meu pai nunca gostou muito de carros, e também sempre foi muito caseiro, não gosta de sair por aí e se aventurar. Quando era mais novo se acidentou várias vezes, não por inconsequencia, mas por falta de jeito com a coisa. Tive pouco contato com meu avô paterno e nem cheguei a conhecer meu avô materno, mas pelo que minha mãe conta, puxei a paixão por carros de seu pai. Mas não esqueço uma lição que meu pai me ensinou, mesmo sem saber. Quando era muito pequeno, íamos pela Jardim Botânico, aqui no Rio, ao lado de um caminhão carregado de botijões de gás. Do nada, meu pai começou a frear e tomar distância do pesado. Estranhei aquilo e perguntei o motivo: "tá vendo aquele sinal lá na frente (estávamos a uns 300 metros) ? Esse caminhão está muito rápido, não vai conseguir parar, melhor a gente ficar atrás pra não se envolver". Fiquei observando o que aconteceria e não deu outra: o caminhão não parou, bateu e arrastou dois carros, e vários botijões cairam e rolaram pelo chão, acertando pessoas e outros carros. Aprendi assim que dirigir é prestar atenção em tudo o que ocorre ao redor, levando em conta todas as possibilidades, evitando a menor situação de risco possível.

    Grande abraço!

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  12. Um amigo de meu pai sempre dizia que devemos cuidar mais dos outros, (motoristas, do que de nós mesmos. O importante, acima de tudo, é saber prever os acidentes.

    O meu Aero-Willys preferido era o anterior ao da foto. Aquele com rabo de peixe.

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  13. Caio Cavalcanti,

    Seu pai é como o meu era. Seu pai ensinou tudo nesse cuidado que teve: guiar é prever.

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  14. eu ouvi a vida toda: "Guiar pelos outros"

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  15. É Arnaldo, que privilégio tivemos. Meu pai sempre foi um homem responsável, tanto que antes de me colocar diante de um volante falou sobre os valores da vida e as responsabilidades pelos meus atos. Mesmo sendo jovem, dirijo como um senhor pai de família que transporta sua amável esposa e seus filhos. Conselhos de pais de verdade são valiosos...

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. eu conheço, principalmente mulheres, algumas poucas infelizmente, que não tiveram esse ensinamento de família, e são boas motoristas, extremamente técnicas e cautelosas, nem por isso lentas ou barbeiras, se é que contam com todo apoio da tecnologia. claro que não tem aquele "amor" pelo carro, mas respeitam o veículo e principalmente sabem o que fazer em situações extremas: chamar o serviço que elas pagam e não se meter em confusão, dirigem bem e sem ódio, ZEN. Um dia eu chego no ZEN!

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  18. Arnaldo,

    Eu fico puto com várias coisas... e algumas eu ficava realmente mal e não me conformava, ai eu fingia que não via e tudo bem.


    Tem pouco tempo que descobri o porque de tanta maluquisse nesse país e isso me conformou - não quer dizer que aceitiei -
    Estamos num país em desenvolvimento, quer dizer que vamos pastar muito até chegar num ponto aceitável.

    Como diz o CET de Vitória "educação vem de berço" e tai uma coisa que se perdeu nesse país.

    Gostei do post! Abraços

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  19. Meu avô faleceu poucos meses antes do meu nascimento, logo tive apenas meu pai como mestre, mas foi mais que suficiente!

    Quando pequeno, ele sempre me levava pra oficina que consertava nosso carro, e enquanto faziam o reparo ele me mostrava os outros carros, as peças, problemas que dão, etc... Junto disso o fato dele ter feito assinatura da Quatro Rodas quando aprendi a ler, me tornei um autoentusiasta desde cedo...

    Sempre que andava com ele, ele me mostrava a importância de manter distância dos carros, como prever acontecimentos e possíveis reações de motoristas e pedestres... E principalmente como conduzir o carro de maneira inteligente, suave e economicamente, e como mesmo com pressa, ser rápido, suave e preciso ao mesmo tempo. Se tem alguém que devo minha boa educação como motorista é meu pai e o seu Neimar, instrutor e dono da autoescola que frequentei. Acho que se não fosse por ele, não teria passado tão facilmente (aqui, há uma máfia nos exames, só passa sem pagar se for muito bom mesmo) e não teria uma noção espacial tão boa.

    Hoje meu pai já não dirige bem como antes, está disperso, e devido a problemas na audição mantém o carro sob altos giros sem perceber... Mas resta a lembrança de bons momentos, de velocidades impublicáveis ao volante e uma suavidade e precisão impressionantes em curvas.

    Ótimo post, AK! Abraços!

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  20. Aprendi a dirigir aos 10 anos com meu pai (num Chrysler Regente 68), que era um cara que "levava jeito pra coisa". Instrutor bom + genética boa, sempre "levei jeito" pro volante.

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  21. O pai do AK era o oposto completo do avô dele, pelo jeito.

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  22. Anônimo das 14:55,

    Quanto a carros, sim, meu pai não ligava a mínima pra carros e não entendia porque é que eu gostava deles.
    Mas se existe um cara que foi bem servido de pai, esse cara sou eu. Ele me dava a incumbência de cuidar do carro porque sabia que eu gostava, e ele confiava em mim, e é muito bom sentir isso, que o nosso pai confia na gente, nos dá segurança e responsabilidade. Nota dez pra ele.

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  23. Parabéns pelo excelente post Arnaldo, eu também aprendi com 12anos mas em um Gol 1000 ano 92.
    O que falta ao meu ver na auto-escola é o fundamento e maneira de ensino, todos saem com mais medo do que entraram, não saem com vontade de dirigir, ter noções sobre velocidade, se dá ou não dá tempo de atravessar a via, ou ainda quando entram na sua frente porque existe espaço e tempo, trafegam a 40Km por hora, exigindo que dê uma forte freada como muitas vezes é necessário, fora quando entram na sua frente e param assim que o amarelo aparece, já logo olho para ver se ninguém vai destruir a traseira! Esse excesso de cautela e medo que impedem esses novos motoristas de dirigir!

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  24. AK,

    Isso, falta educação que vem da família hoje. Em tudo, não só nesse caso.

    Mas particularmente, dirigir eu tive que aprender sozinho. Meus pais eram uma lástima nisso, e meus avós não ficavam atrás...

    Pelo menos no resto me deram educação passável para o convívio social mínimo, rsrsrsrs

    MAO

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  25. Excelente post mesmo!
    Levei poucas (e boas) broncas de meu pai, já de meu avô nunca tive o prazer de dirigir com ele pois faleceu antes de eu tirar carta.
    E, sim, faz toda a diferença ter alguém que vc confia te dando os conselhos, pois conselho dos FDP da CET... Faça-me o favor!

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  26. Bom texto, Arnaldo. Me trouxe boas lembranças de meu querido e saudoso pai. Cada saida de carro com ele era uma aula de como bem dirigir e se comportar no transito, reflexo da vida. Aprendi muito. Agora vou tentar fazer o mesmo com meu filho. Obrigado, valeu.

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