VESPA, QUE VEÍCULO FANTÁSTICO!



Uma das grandes experiências do final de minha adolescência e início da fase adulta foi ter uma Vespa. A história desse veículo merece ser lida por quem tem um mínimo de interesse em assuntos de mobilidade.

Mas antes de falar dessa motoneta – sua definição oficial segundo o Código de Trânsito Brasileiro, veículo de duas rodas em que o condutor dirige sentado – ou patinete a motor, a estranha tradução de powered scooter, quero compartilhar com o leitor um fato dos mais incríveis.

Estava procurando uma imagem de Vespa para ilustrar este post quando recebo um e-mail de um grande amigo, o Júlio Carone, com fotos de auto-rádios antigos, da década de 1960. Como eu não estava encontrando a Vespa que queria, pensei em perguntar  ao amigo se ele tinha alguma coisa nesse sentido. O Júlio é o próprio "Homem do Túnel do Tempo", ele acha as coisas mais incríveis na fabulosa rede mundial de computadores.

No que eu estava salvando as imagens – já tinha duas arquivadas –, aviso sonoro de chegada de e-mail. De quem? Dele mesmo, do Júlio, e com o pequeno texto de encaminhamento "Aí vai a Vespa...". Confesso que  na hora fiquei perturbado: Será que pedi a ele e me esqueci tão rápido, denotando falha de memória para fato ultra-recente? Um busca na pasta Itens Enviados do Outlook Express  mostrou que eu nada pedira a ele. Telefonei-lhe e comentei o fato de ele me ter enviado um arquivo que eu estava pensando em pedir e concordamos: há coisas inexplicáveis – por enquanto, pois um dia o Homem dominará isso.

Voltando ao tema, o anúncio acima é da Panauto S.A., do Rio de Janeiro, que fabricou a Vespa aqui. durante alguns anos. Eu tive uma dessas.

Era um veículo incrível. O motor era de apenas 148 cm³ (57 mm de diâmetro por 58 mm de curso) e 6 cv, câmbio de três marchas. O comando de câmbio era por manopla giratória, que levava junto o manete de embreagem, com posições 1-0-2-3, sentido anti-horário. Era apertar o manete e ao mesmo tempo girar a manopla para selecionar a marcha.

A transmissão era exclusivamente por engrenagens cilíndricas de dentes retos, em cascata, portanto sem mudança de direção na transmissão de força como no scooter Lambretta, de motor também transversal, mas que precisava de dois pares angulares por ter transmissão final por cardã (pares angulares absorvem mais potência do que pares de engrenagens cilíndricas).

O mais notável era o comando de câmbio ser a cabo, solução que só chegaria aos automóveis bem no final do século 20.

Motor e câmbio formavam um conjunto não suspenso no lado direito. Por isso a roda dianteira era deslocada 8 mm à esquerda do eixo longitudinal do scooter para lhe conferir estabilidade direcional. Mas devido ao peso na direita a Vespa rodava visivelmente inclinada para a esquerda. Isso não trazia problema maior, desde que o veículo não saltasse obstáculos, com veremos adiante.

A Vespa tinha estrutura monobloco, fato também notável, e possuía um equipamento que faz falta em qualquer motocicleta: estepe. É uma tranqüilidade contar com um. Na que eu tinha o bojo da esquerda era um enorme compartimento para objetos, mas nos modelos posteriores passou a alojar o estepe e, quando era o caso, a bateria. E desmontar o pneu do aro para chegar à câmara de ar era bem fácil, pois ele se abria em duas metades. 

A suspensão traseira era monobraço (o motor-câmbio fazia esse papel) com um conjundo mola helicoidal-amortecedor hidráulico, e a dianteira era por braço arrastado oscilante com mola helicoidal e amortecedor hidráulico.

A rodagem era bem razoável apesar das rodas de 8 pol com pneus 3,50-8, que não demorariam a passar para 10 pol com pneus de mesma seção, o que foi uma melhora significativa em razão do nosso piso. Os  dois freios a tambor eram suficientes para a velocidade de até 90 km/h.

Como a Vespa era prática! Não tinha bateria, a ignição era por magneto e a partida, por pedal. Seu tanque de 6 litros dava para andar 200 quilômetros sem dificuldade, com ¼ de litro de óleo junto (a proporção gasolina-óleo era 25:1 ou 4%). Havia torneira aberto-reserva-fechado. Naquele tempo alguns postos Esso  vendiam gasolina já misturada com óleo, a Esso Mix..

Terminei meu curso de piltoto privado de aeronaves no Aeroclube de Nova Iguaçu, indo e voltando do bairro da Gávea praticamente todos os dias úteis durante quatro meses, cerca 110 km ida e volta. De que eu ia? De Vespa. Naquele tempo não existia o túnel Rebouças ligando as zonas sul e norte e a Barra da Tijuca era pouco mais que um projeto de urbanização.

O incrível é durante os cinco anos em que tive a Vespa nunca nada quebrou ou enguiçou, uma coisa incrível. Confiabilidade total! Cheguei a modificar um pouco o motor para mais potência, alterando diagrama de tempos de admissão, transferência e escapamento mexando nas janelas e  subindo a taxa de compressão, obrigando o uso de gasolina de maior octanagem da época, a gasolina azul. Melhorou bem a aceleração e a velocidade máxima passou para 100 km/h.

Certa vez minha namorada, com quem me casaria, veio passar uns dias em São Paulo e resolvi vir do Rio até aqui vê-la. De quê? Não tinha dinheiro para avião e não gosto de ônibus, fora que é sempre bom ter-se transporte onde se vai passar uns dias. Assim, vim a São Paulo de Vespa, pouco mais de sete horas de viagem – na volta, pois na vinda choveu próximo à divisa de estado, em Queluz, parei num posto e um caminhoneiro ficou com pena de mim e ofereceu carona. Pusemos a Vespa no caminhão e foi assim que cheguei a São Paulo, já alta madrugada.

Na volta para o Rio teve uma hora em que colei atrás de um ônibus da Viação Cometa: devo ter chegado a uns 120 km/h, o motor zunia! Verdadeira loucura a minha, imagine-se o que uma pedra no caminho faria com a Vespa e comigo...

Depois que me pai me deu um DKW-Vemag em 1962, a Vespa ficou largada, raramente era usada. Um dia, o carro estava na oficina e resolvi sair com a Vespa. Na rua Jardim Botânico, perto do portão principal, o asfalto estava completamente ondulado próximo a um ponto de ônibus. Mais ligado às quatro rodas do que às duas àquela altura, não dei atenção maior à ondulação: a Vespa decolou e, no ar, inclinou para o lado do motor e aterrisou torta. Que tombaço! Me ralei todo, por sorte sem nada de mais grave (capacete naquele tempo, nem pensar). A Vespa nem se danificou tanto, rapidamente foi consertada. e achei que era o momento de vendê-la. Decisão própria, sem influência paterna ou materna..

Foram mesmo grandes anos, de dar saudade. Na Itália até se criou um neologismo, um verbo para o andar de Vespa: vespizzare. Como era bom vespisar por aqui!

BS

27 comentários :

  1. Bob, muito bom falar da Vespa, como voce bem lembrou ela anda naturalmente inclinada para a esquerda, após algumas centenas de kms isso era massacrante para a coluna...
    Apesar de adorar a Vespa, eu tendia mais para a Lambretta, que andava alinhada e com seu entre-eixos maior tendia a ser mais estável, apesar de menos ágil.
    Me lembro aqui em SP que havia uma quantidade enorme de Lambrettas, muitas delas fazendo entrega de pães, precursoras das CGs e similares dos motoboys de hoje...
    Abraço

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  2. Achille,
    A Lambretta tinha dois problemas. Um, não ter amortecedor dianteiro na suspensão Dubonnet. Lembro-me de que havia um amortecedor acessório para suprir a deficiência. Outro, a perda mecânica dos dois pares de engrenagens angulares, como falado no texto.
    Nunca senti problema maior na coluna pelo fato de a Vespa andar inclinada para a esquerda. Mas certamente foi o motivo para colocar o estepe e eventual bateria no bojo esquerdo.
    Era notável a engenharia da Piaggio. Foi com a Vespa que conheci a bucha silenciosa (silent bloc) que se popularizaria nos automóveis. Era a bucha da suapensão traseira.
    Tem razão, era o veículo dos entregadores em domicílio.

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  3. Bob, ri muito imaginando a cena da vespinha atras daquele monstro prateado da cometa a 120 Km/H. Certamente deve ter sido emocionante!
    Tenho saudades desse tempo que eu não vivi, kkk....

    abs

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  4. Muito boa a sua lembrança da Vespa e a sua particular convivencia com a "motoneta".
    Tambem me diverti muito com o episódio da Vespa "puxada" pelo Cometão.
    Romeu.

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  5. Ah! E me lembrei tambem do filme Candelabro Italiano, tudo a ver com uma autentica Vespa.
    Romeu

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  6. Zullino, a Vespa não deixou saudades, ainda está em produção!!!

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  7. Relato excelente do Bob

    Me senti no "vácuo" do Cometão a 120 por hora

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  8. Zullino: chorei de rir imaginando o Clóvis Bornay desmunhecando para trocar de marcha...
    A Vespa nova com certeza deve ter evoluído, mas mesmo assim como segurança ativa não deve chegar nem perto de uma boa moto.
    O pior mesmo são esses super scooters de 400 - 750 cc, Burgman e similares, coisa de louco.

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  9. Esse "causo" de andar atrás do Cometão é de arrepiar os cabelos.

    Que me dizem dessashttp://www.youtube.com/watch?v=GGXcM9evUpo

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  10. Bob,

    é sempre um prazer, viajar nas tuas histórias sobre essa paixão que o Homem tem pelas Máquinas...

    E além de tudo, sobre mais um clássico da história dos veículos em geral...

    Grande abraço!!!

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  11. Zullino, muito boas histórias!
    Agradeço ao Bob sobre seu belo artigo, que levantou em paralelo a disputa entre as Vespas e as Lambrettas.
    Lembrando de outras histórias que me contaram sobre Lambrettas de recorde de velocidade, achei esse artigo, é interessante: http://www.ilambretta.com/racing.html

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  12. Bob,

    Também me deliciei com essa sua história com a Vespa. E como você, também levei um tombaço de uma - só que no meu caso, foi pura barbeiragem de principiante.

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  13. Paulo Levi,
    Ficou só nos ralados ou se machucou mais?

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  14. Com esse apagão de memória de curto prazo, vc já ficou pensando que o alemão tava querendo pegar vc né? hehehe

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  15. Mister Fórmula Finesse09/08/10 11:09

    Isso me lembras as aventuras de Honda Biz, Yamaha Crypton e outras sucessoras de baixa cilindrada da imortal Vespa.

    O "jogo de vácuo" com caminhões furgão em subidas longas era realmente um pedido para se machucar...mas dessas, fiz muito pouco.

    Mas as pequenas também davam prazer apesar da cilindrada reduzida, era o tal de aproveitar qualquer embalo ou descida para manter uma velocidade média minimamente decente; as reduções de marcha cirúrgicas (punta tacco?) com o calcanhar, o cuidado para não enconstar o cavalete nas curvas... em estradas de interior, infelizmente os pneus das hondas não aguentavam muito.

    Pena que nunca andei de Vespa!

    Belo relato Bob!

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  16. Para Bob Sharp se lembrar de Vespa e DKW é dois tempos. Perdoem o trocadilho infame, mas aqui é algo que sai com naturalidade.

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  17. Luiz Dranger09/08/10 13:44

    É Bob,
    Bom texto. Também tive uma Vespa, mas já era 200cc, creio que essas "mais novas" que lançaram por aqui. Também levei um tobaço, mas só ralados. Curvas com Vespa usando o counter-steering não dá.
    Abração
    Luiz

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  18. Se alguém se interessa em ver o que é pilotar uma Vespa no limite vejam só esses links, de um italiano maluco que um amigo me mandou...

    http://www.youtube.com/watch?v=PhKBEvSf4rE&feature=related

    http://www.youtube.com/watch?v=D2daPNH93oc&NR=1

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  19. AHAHAHAHAHA

    Bons vídeos, Achille !!!

    Muito legal o cara fazer as curvas de lado na vespinha... com o motorzinho zumbindo e o paredão passando perto !

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  20. Bob,
    Felizmente a coisa se resumiu a alguns ralados. Eu tinha 18 anos, o acidente aconteceu na Sicília e a Vespa era alugada. Para meu alívio, o cara da locadora foi compreensivo e até me encorajou a retomar o guidom para não ficar traumatizado.

    O pior veio depois, quando parei numa farmácia pra fazer um curativo. Levei a maior descompostura da dona da farmácia e da comadre dela, que disseram que era um absurdo "esses jovens de hoje sairem pelo mundo, se meterem em encrenca e darem desgosto para os pais". Saí de lá ralado do jeito que havia chegado, e acabei fazendo o curativo num ambulatório público tão infecto que até hoje não sei como não peguei tétano.

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  21. Luiz Mendonça(Papagaio)09/08/10 22:53

    Alô Bob, lí o texto sobre a Vespa e achei FANTÁSTICO, mas a maior loucura que presenviei foi vc me ultrapassando (eu de Gordini) na freada do "Pinheirinho". Ví o chassis do seu Vemag!!!
    Mas eu, e meus primos tinhamos em Visconde de Mauá uma Lambretta e uma SACÍ. Esta era ótima! Tinha do LD 2 pedais para as 4 marchas. O primeiro cambiava a 1 e 2 e o segundo, mais atrás a 3 e 4 marchas, com ponto morto no meio dos dois. Um grande abraço, "Velho Bota Pesada"

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  22. Francisco V.G.10/08/10 18:26

    Adorei a história, aliás, deves ter muitas para contar, portanto, escreva logo seu livro. 120 numa Vespa, posso até imaginar a zoada. Andei numa dessas que voltaram a fabricar em 1986 e a 80 km/h a sensação já não foi muito boa.

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  23. Imagino o Bob no vácuo do Cometa hehe

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  24. Otimo post Bob.
    Aproveito pra dizer q ganhei nesse final de semana passado de um amigo, uma Vespa ano 87 prata.
    Ele me perguntou se eu queria uma Vespa e eu de pronto respondi q sim...rs
    Vi a Vespa umas 2x na casa dele, encostada, mas segundo ele tem pouca coisa pra fazer. Ela ta em Santos e devo buscá-la em breve e ai conto maiores detalhes sobre ela e os passeios q faremos juntos.
    Claro que, como bom entusiasta, vou desmontá-la, reformá-la e deixá-la como nova....

    Marcio Musciacchio

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  25. Cara arrepiei do caso do cometão, cresci vendo vespas e lambrettas, aqui em Uberlandia tinha a moto dias que fianciava corridas de lambrettas e vespas era uma loucura corria pra assitir nas manhãs de domingo, meus parabéns pelo blog

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  26. Puxa, esses Homens das antigas estão melhores que os mineiros em contar causos e histórias que nos fazem viajar no tempo. O que eu não daria para voltar no tempo e dar um rolê junto deles no clube das vespas... E as paqueras, e os duelos? Realmente nos deve um livro.

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