SUFFOLK SS


O SS100 é um grande clássico. Existem poucos carros que representam sua época e seu gênero tão bem como ele. Qualquer um que tente fazer uma imagem mental de um carro esporte dos anos 30 não vai chegar a algo muito diferente do carro que se vê na foto acima.

Baixo, com rodas raiadas de diâmetro generoso, pára-lamas longos e bem curvados, enormes faróis Lucas P100 flanqueando um radiador recuado, o carro mostra toda a genialidade de William Lyons, seu criador. É simplesmente um dos mais belos carros já criados. Evoca imagens de uma estrada ensolarada e vazia, óculos escuros, lenço na cabeça, cachecóis, vento, liberdade e felicidade pura, não destilada.

Mas um SS100 é da época em os carros de Lyons ainda não eram potentes felinos; da época que a empresa ainda se chamava SS e não Jaguar; da época em que, devido ao uso de chassis e mecânica da Standart Motor Company, eram conhecidos como carros de exibidos, carros para quem apenas queria parecer rápido sem necessariamente ser.


É também um raríssimo: apenas 314 deles foram fabricados, de 1936 até 1941. E a vasta maioria deles, na menos desejável versão de 2,5 litros (a outra deslocava 3,5 litros do mesmo seis em linha Standart, com cabeçote OHV Weslake).

Sendo assim, um bom SS100 original custa hoje uma verdadeira fortuna, mas entrega uma experiência na direção longe de memorável, ao contrário de muitos contemporâneos, que embora não tão felizes em aparência, eram mais sofisticados mecanicamente.


Mas desde meados dos anos 90, graças a Roger Williams e sua Suffolk SS, algo melhor está disponível. Sua réplica Suffolk SS100 é em diversas maneiras muito melhor e mais desejável que o original.

A primeira coisa que se nota é que o carro é idêntico ao original em aparência. Tão idêntico que muitas peças suas são usadas como reposição dos carros dos anos 30. As rodas e pneus, coisa muitas vezes negligenciada pelos replicadores em favor de unidades modernas, são do mesmo tamanho e desenho do carro copiado, fazendo com que as proporções continuem perfeitas. O que há de melhor em um SS100, o seu corpinho de proporção e forma incrivelmente atraentes, é carregado sem nenhuma alteração para a réplica. O interior também replica exatamente o original.


Mas as semelhanças param por aí. A carroceria básica (acima) é em uma peça única de resina poliéster com fibra de vidro, laminada a mão em molde aberto. Este molde foi feito a partir de uma carroceria de SS100 original. A capa do radiador é fabricada na empresa também, em metal, e o radiador em si é uma unidade específica, em alumínio. O capô é em folha de alumínio, e os “louvres” (pequenas aberturas para saída de ar estampadas), são reproduzidos tal e qual o original em forma e quantidade. Tudo feito a mão com o maior cuidado.


O chassi é também feito na Suffolk, e utiliza toda a mecânica, revisada e melhorada, de um Jaguar XJ doador. Desta forma, tem-se uma suspensão traseira independente (igual a do famoso XK-E, com dois amortecedores/molas por roda), freios a disco “inboard” ventilados, suspensão por triângulos sobrepostos na dianteira, discos ventilados e direção por pinhão e cremalheira assistida. O Motor é o famoso seis em linha XJ, de duplo comando de válvulas no cabeçote e mundialmente conhecido por ser um dos motores mais bonitos de se ver da história do automóvel (e, portanto, muito diferente do horrível motor do original). Neste carro desloca 4,2 litros, usa dois carburadores SU duplos, e é regulado para algo entre 200 e 230cv. Acoplado a ele uma caixa Jaguar de 4 velocidades, e lá atrás, aparafusado ao chassi, está um diferencial autoblocante Salisbury, com várias relações finais possíveis.



Com radiador, motor e cambio montados bem recuados, em posição central-dianteira, traz uma interessantíssima distribuição de peso: são 1188kg apenas, distribuídos 46% na frente e 54% atrás. Com as bem resolvidas suspensões, potencia e torque abundantes do motorzão Jaguar, e sentados lá atrás, quase em cima do eixo traseiro, sem sombra de dúvida deve ser um carro fantástico para se dirigir.



Williams já produziu 200 carros como este, e sem dúvida logo teremos mais exemplares dele do que o original. Para mim, nada mais lógico e merecido: Juntando o que de melhor a Jaguar já fez (a mecânica dos XJ/XK-E dos anos 60) com a beleza clássica do SS100, a Suffolk SS criou algo muito melhor e mais desejável do que qualquer coisa que tenha saído da linha da Jaguar. É admirável que a tentação de alterar algo na clássica aparência, seja nos pequenos detalhes, seja no resultado geral, tenha sido religiosamente deixada de lado. O carro é um SS100 sem tirar nem por, mas é muito, mas muito, melhor que o original.



Para não dizer que não há falhas, eu pediria o meu sem as placas que imitam freios a tambor, e a imitação de amortecedor de fricção na frente. O carro não precisa disso.

Ao contrário do Singer 911 sobre qual falei esta semana, este carro aperta todos os botões corretos. Posso listar uma dúzia de Porsches originais tão interessantes quanto um Singer, mas não há Jaguar tão incrivelmente correto quanto esta réplica que junta o melhor da empresa.

Eu sei que quero um, no mais escuro negro possível.

MAO

7 comentários :

  1. MAO,

    Muito legal, mas mesmo sendo apenas fotos, ao ve-las, e parafraseando algo que o MB ouviu lá na terrinha, this car screams SBC to me, can't you hear it?

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  2. o autor mereceria uma ode histórica, pelo respeito às características originais, formas, proporções, detalhes.
    esmagadora maioria das propostas de réplica sempre esbarram nas "interpretações pessoais", "bom gosto do replicador", ou "atualização logístíca", critério que pode ser visualizado com a substituição dos delgados pneus originais por outros, atuais, com 30 cm de pegada, e outras questionáveis intervenções.
    uma sugestão ao mao - e evidentemente aplicável a todos os interessados: importar a carroceria - impostos inferiores aos 35% ( a tabela correta está no escritório, mas o chassi rolante deve pagar máximos 18% de i.i. ); identico procedimento para trazer um xj dos eua, a preço ridículo; fazer o casamento aqui e pintá-lo com o preto densamente pigmentado, saturado de negro escuro.

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  3. Prezado MAO,

    Belo texto e belíssima máquina.

    Entrei no site da empresa e fiquei ainda mais fascinado depois de ver o vídeo e a galeria de fotos.

    Muito obrigado por nos apresentar a esta maravilha.

    Abraços,
    Fernando Silva

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  4. Essa é uma réplica perfeita, por manter as características de desenho externo inalteradas. Também não gosto de réplicas em que substituem os pneus e rodas originais por modelos modernos, sem nenhuma harmonia com o restante do carro.

    Pô, AG... Você tá querendo derreter os pobres pneus "canelinha" com um 350 sbc? Isso me parece ótimo!!! hehehe...

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  5. AG,

    Concordo que um XJ fica melhor com SBC, mas esse aí...precisa de um seis em linha, e este aí para mim é perfeito para ele.

    MAO

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  6. Caro MAO: o motor da Standard motors não era assim tão fraco, com 3,5 litros e 125 hp. andei muito neles nos jag Mk4 e 5 e não ,e çlembro de fraqueza, mas de boa faixa de torque e uma caixa Moss renitente.
    e um bom sistema de eixo rigido tem seu lugar, principalemnte em piso bom.
    mas o SS100 é o máximo. também fazem a Argentina.
    m

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  7. Mahar,

    Sim, não é tão ruim assim, apenas a fama da época pré-guerra era essa.

    E com os preços de hoje...fico com a réplica.

    MAO

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