OLDSMOBILE AEROTECH


O Aerotech de 1992, com cauda longa

Recordes automobilísticos são um assunto polêmico, cuja validade para o mundo dos automóveis de rua pode ser contestada quando o recordista nada tem de parecido com o carro que existe à venda.

Se os recordes de velocidade, os mais populares, são de validade discutível, o mesmo não se pode dizer dos recordes de distância, que se traduzem na vida real como durabilidade. O tempo ou distância que um carro funciona de forma correta é uma característica que talvez seja a mais importante, ao contrário de outras que aparecem mais em propagandas, mas que não garantem a imagem de uma marca, como desempenho, por exemplo.

Claro que há pessoas sem nenhum amor aos automóveis, e que conseguem estragar qualquer tipo de carro, até mesmo um blindado de uso militar. Mas esses são usuários fora do normal, que não devem ser considerados ao se projetar e construir um carro. Se assim fosse, todos os carros seriam excessivamente reforçados em todos os seus sistemas, o que significaria um peso absurdamente alto, que traria preço mais alto ainda, consumo monstruoso e tudo mais de ruim que decorre de excesso de massa. Seria penalizar a maioria pelo erro da minoria.

Um dos modos mais fáceis de se verificar a imagem de um veículo, é verificar o estado de conservação dele após alguns anos de uso.

É comum vermos carros que, apesar de ótimo acabamento e alto preço quando novos, se tornam bastante estragados após pouco anos de uso. Isso é um grande demérito para uma marca. Traduz bastante fielmente o padrão de qualidade de um veículo, seja nas peças que o compõem, seja no modo como ele é fabricado. Se for bem feito, mas tiver peças de reposição excessivamente caras, veremos exemplares com reparos mal feitos, ou gambiarras, em poucos anos, prejudicando a imagem. Claro que o cuidado dispensado pelo proprietário e/ou usuário influencia muito, por isso os julgamentos devem ser cuidadosos, e a amostragem, a maior possível.

Imagine agora correr cinquenta vezes a prova 500 Milhas de Indianápolis parando apenas para abastecer e trocar as peças de desgaste, além de fluidos. E fazer isso com velocidade média de 240 km/h, durante oito dias consecutivos.

Foi o que fez a Oldsmobile, em dezembro de 1992. Nessa data, a mais antiga marca da General Motors, morta posteriormente em 2004 aos cento e sete anos de idade, batia quarenta e sete recordes mundiais com um carro experimental, mas propulsionado por um motor muito próximo a um normal de produção. Foram pouco mais de 40.000 km rodados em oito dias.


O carro foi batizado de Aerotech, e tinha como um dos objetivos, ser muito veloz. Com rodas descobertas, e apenas 299 cv, no motor V-8 de 4 litros que viria a ser montado no modelo Aurora lançado em 1995, levou o carro a médias de mais de 275 km/h em recordes de distância.

Antes desses recordes, que foram os derradeiros para o Aerotech, pois ele não foi mais utilizado para outras provas, houve outros.

Em 27 de agosto de 1987, uma versão inicial do Aerotech, com cauda curta e sem faróis, usou o motor Quad 4, um quatro cilindros com 16 válvulas e duas árvores de comando, 2,2 litros, adicionado de um turbocompressor bastante grande.



Pilotado pelo quatro vezes vencedor de Indianápolis, A.J. Foyt, chegou a 413,788 km/h, na média da volta em pista de Fort Stockton, no Texas, que tem 12,4 km. Em uma milha marcada, a velocidade chegou a 431,100 km/h. Essa prova era apenas de velocidade, para mostrar o motor que a Oldsmobile, considerada a marca para clientes mais idosos, era capaz de fazer.

O Quad 4 começou sua carreira para as ruas com 152 cv. Para as provas, porém, a GM nunca divulgou a potência exata, mas estima-se algo como 900 cv.

De fato, o motor estreou com a Oldsmobile, mas depois foi usado também em Buicks e Pontiacs.

O corpo do carro era composto por um chassis de Fórmula Indy, da March, com a cobertura aerodinâmica desenhada pela própria GM, com uma boa parte do trabalho de estilo feita pelo então jovem Ed Welburn, hoje o vice-presidente de Design da marca, e um grande entusiasta de automóveis. Claro que as ordens eram dadas pelo túnel de vento, e esse estilo era apenas a obediência ao vento traduzida para o papel (computador, se preferirem).

Edward Welburn, de gravata



Feita em fibra de carbono e Nomex, com o para-brisas em Lexan, quando montada representava pouco para a massa total de 1.100 kg do carro, leve para a rua, mas certamente pesado para pista. Mas como acelerações não eram importantes, pois não se tratava de corrida, isso não foi problema.

O carro usado em 1987 não precisava de faróis, pois andou apenas durante o dia. Já o de 1992 teve seis faróis, peças usadas em produção normal na marca.


Se pelo lado do chassis não havia dúvidas que seria possível rodar tanto tempo em altas velocidades, imaginar um trabalho desse tipo com um motor que ainda não estava em produção é bastante sério. Dado o bom resultado com o motor Quad 4, e a necessidade de promover o motor Aurora que a marca Oldsmobile iria adotar no futuro próximo, decidiu-se por prosseguir com o trabalho no Aerotech.

O motor Aurora é um V-8 de alumínio, 4 válvulas por cilindro e quatro árvores de comando.
Para o Aerotech, foi montado a partir de um standard, como seria usado em produção, na estreia com o modelo de mesmo nome, sem modificações, feito para um transeixo transversal, e foi alterado para ter cárter seco, devido a montagem baixa no Aerotech, e posicionado longitudinalmente, com tração traseira.

O câmbio usado é a do Formula Indy à época, uma Hewland de cinco marchas, com comando por alavanca - nada de borboletas no volante. As duas últimas marchas eram bem longas, com a quinta escalonada para o motor girar a 6.000 rpm a mais de 300 km/h.

O motor de rua gera 264 cv, mas no Aerotech tinha coletor de admissão alterado para melhorar o fluxo, além de árvore de comando mais agressiva, chegando a 299 cv a 6.000 rpm. Parte dessa maior potência vinha também da tomada de ar no teto, gerando efeito de pressão dinâmica (ram air).

Sabiamente, a Oldsmobile deixou sem modificações a maior parte do motor. Bloco, cabeçotes e peças móveis eram totalmente standard. A gasolina era de 93 octanas, premium, igual à de posto nos EUA.

Os números obtidos mostraram que a decisão foi acertada. As distâncias e médias de velocidades obtidas foram:

5.000km a 273,436 km/h
5.000 milhas a 274,695 km/h
10.000km a 274,804 km/h
10.000 milhas a 251,519 km/h
25.000 km a 254,891 km/h
25.000 milhas a 245,916 km/h
12 horas a 275,232 km/h
24 horas a 274,308 km/h

Os recordes do Aerotech desbancaram os de marcas como Mercedes-Benz, Chevrolet, Dodge e Subaru, além de alguns do Mormon Meteor, válidos desde 1936.

O número de pilotos chegou a vinte e um, revezando-se a cada duas horas de tempo de pilotagem. Alguns eram profissionais de corridas, outros da própria GM. Sem contar toda equipe de apoio que chegou a duzentas pessoas.

Foram feitas três unidades iguais, um deles para treinos de todos os pilotos, e os outros dois para os recordes. Um deles foi destruído em um acidente com um veado que invadiu a pista, sobrando apenas um carro para bater a maioria dos recordes.

Um mês antes desses acontecimentos notáveis em Fort Stockton, a Oldsmobile havia sido declarada pronta para fechamento, e bater todas essas marcas foi uma tremenda dose de entusiasmo para quem lá trabalhava.

O lançamento do Aurora, três anos depois veio um pouco tarde para recuperar as glórias do passado, mas permitiu mais algumas atualizações de modelos da linha, até que em 2001 era anunciado que a marca não mais existiria além de 2004.


Foi uma prévia do que aconteceria depois, em 2009, quando a GM se desfez de Saab, Hummer, Saturn e Pontiac, todas em prol da sobrevivência do grupo.

Um final triste para a marca anciã da General Motors, e na época a terceira mais antiga do mundo, atrás apenas da Daimler e da Peugeot.

Ficou a imagem de um carro especialmente construído para provar que dinheiro e engenharia podem fazer qualquer coisa para entusiastas, mas que quem sustenta as empresas são pessoas que escolhem carros da mesma forma que compram um espremedor de frutas. Sem conhecimento nem emoção.



JJ

14 comentários :

  1. Excelente post Juvenal,
    É um tipo de informação que normalmente é restrita aos "iniciados".
    Grato pela parte que me toca...
    Alexander

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  2. Concordo com A Paris...

    Excelente post
    Parabéns!

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  3. belo post!

    Ia até comentar mas antes preciso iro estudar engenharia como pré-requisito básico pra ser um ser humano com mínimo de descência, como afirma o próprio JJ.

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  4. Ronaldo Nazário08/07/11 11:01

    Ha.....

    Post sobre carros....


    Que alívio!!!!

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  5. Mto interessante!

    Eu só tinha visto fotos desse carro e achava que só era mais um carro conceito não funcional.

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  6. Parabéns, otima informação.

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  7. Mauro Franco08/07/11 12:56

    Qualquer semelhança com o evento do Carcará da Vemag, ao bater recorde de velocidade absoluta, quando já estava na UTI, não é mera coincidência...

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  8. Que post legal, JJ!

    Lendo ele me lembrei que por volta de 2004,2005 talvez 2006, a VW fazia propaganda do motor AP 1600 na revistas de carros, mostrando que o Gol Power tinha batido três recordes de resistencia. Se não me engano uma unidade bateu o recorde de 15000Km, outra o de 20000 Km e a ultima alcançou 25000Km seguidos sem quebrar.
    Pelo que me lembro, também, nenhum dos carros quebrou, ou seja, aguentavam até mais que isso, mas para quebrar o recorde era necessário que a distancia percorrida fosse pré- selecionada para o recorde ser válido. De qualquer forma esse recorde mostrou a qualidade desse motor e da mecânica do carro de uma maneira geral.

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  9. Eduardo Costa08/07/11 14:08

    Parece um espermatozóide

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  10. Juvenal

    excelente post.
    Tbem imaginava q. esses Olds tinham sido apenas conceitos
    Sou fã de carteirinha dos V8 NorthStar;só lamento q. tenham chegado tarde para salvar os Cadillac Allanté.De qq. modo,fizeram bela carreira na Indy.
    Espero q.pegue o gancho pra falar de: 1-o "Gentleman Driver" Ab Jenkins,praticamente o homem q. tornou Bonneville a capital dos recordes; 2-os Mormon Meteor I e III; 3-e, para provar q. o inferno está cheio de boas intenções,o Chevy Vega ,e principalmente o pretensioso e detestável motorzinho Quad4
    prontinho,tá com a pauta pronta
    Vamo nessa?

    Ab...

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  11. JJ
    pq teu post não está aceitando comentário?
    Q.estranho...

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  12. JJ
    Falei m****
    Queria falar era do motor absurdo q.a GM "inventou"para o Vega msm.

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  13. gaboola,
    sobre o Vega, o MAO já escreveu muito bem o que precisamos saber. Veja aqui:

    http://autoentusiastas.blogspot.com/2009/08/ed-cole-e-o-declinio-do-general.html

    Os outros dois assuntos estão anotados.
    Obrigado.

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  14. Juvenal,

    Grande post, gostei muito mesmo!!!

    MAO

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