AUTOMOBILISMO PODE SER DIVERTIDO

Vauxhall Cresta PA

Em 1960, iniciou-se uma competição bastante interessante na Austrália. Uma corrida de 500 milhas para carros de rua.

As três primeiras provas, desse ano até 1962, foram corridas no circuito de Phillip Island, usado hoje pelo campeonato mundial de motociclismo, o Moto GP. Apenas a partir de 1963 os carros passaram a competir por essa prova em Mount Panorama, o circuito que fica na cidade de Bathurst, nome pelo qual é mais conhecido, uma pista arrepiante, com subidas e descidas em curva que são coisa para quem tem coragem de verdade.

Começando com o nome de Armstrong 500, um fabricante de amortecedores, passou a ter 1.000 km quando passou a Bathurst. Essa prova é a mais famosa e desafiadora do automobilismo australiano, sendo conhecida lá como “The Great Race” (A Grande Corrida).


Circuito de Phillip Island (foto: MotoGP.com)
A prova era disputada em 5 classes de carros, separadas por tamanho de motor, iniciando com até 0,75 litro a primeira, indo até classe E, para carros com mais de 3,5 litros. Haviam 20 carros diferentes nessa primeira corrida, o que dá uma dimensão do interesse que ela gerou. Imaginem proprietários de 20 modelos de carros querendo saber qual deles seria o melhor nas pistas. Havia desde Fiat 600, NSU Prinz, até Mercedes 220SE e Ford Customline.

O fato interessante sobre a corrida de 1960 é que o carro vencedor foi um Vauxhall Cresta, que era usado nas ruas, e já tinha quase 10.000 km rodados quando a corrida aconteceu. O carro era do concessionário de Melbourne, S.A. Chenney, de uso pessoal, porém dirigido por seu chofer. Seu filho, Keith , foi o pivô da ideia de convencer o pai a emprestar esse carro, ideia essa vinda de Frank Coad. Coad já utilizava Vauxhalls modificados em outras corridas, e precisava de um carro de rua para participar dessa prova inaugural. Dividiu a pilotagem com John Roxburgh.

Nada excepcional, tinha motor seis clindros em linha, com 2.260cm³, quatro mancais, comando de válvulas  no bloco e alimentado por um carburador simples, algo como 84 cv de potência. Câmbio de 3 marchas com comando na coluna de direção, muito comum nos carros da época, e freios a tambor nas 4 rodas. A suspensão era de duplos braços triangulares na dianteira, com barra estabilizadora, e eixo rígido com mola semi-elíptica na traseira.

Talvez por essas características nada esperançosas, a equipe tenha decidido treinar o máximo possível, já que a confiabilidade do carro era garantida. Era robusto como um tanque de guerra, apesar do desempenho sofrível, com máxima de 145 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 17 segundos.

A equipe treinou as paradas de box por várias vezes, além de terem feito algo impensável nos dias atuais: correram 500 milhas seguidas na pista, um dia antes da corrida.

Se deu certo no treino, daria certo na corrida.

Com algumas pequenas melhorias que podiam ser feitas, o carro ganhou alguma potência, embora ninguém tenha medido para saber qual.

O cabeçote do motor foi trocado por um de reposição, da marca Nasco, divisão da própria GM australiana, escolhido cuidadosamente entre 40 peças. Os pneus originais duravam pouco, apenas 20 voltas em Phillip Island e foram trocados por Michelins. O motor, que tinha tendência a má lubrificação, correu com óleo acima do nível da vareta.

Colin Passmore era o gerente responsável pela área da serviços da concessionária, e remontou o motor usando as tolerâncias mínimas, eliminado as folgas e variações que ocorrem em produção normal. Dessa forma, o carro chegou a 160 km/h, o que melhorou muito a condição da equipe.

A corrida teve largada as 7 horas da manhã ( até nisso os australianos saem dos padrões ! ), e um Mercedes 220 disparou na frente.

Após 68 voltas, o Cresta ultrapassou e liderou até o final, usando apenas redução de terceira para segunda marcha em duas curvas, todo o resto da pista sendo feito na última marcha.


Nada parecido com um carro vencedor !

Uma receita ridiculamente simples, mais treinos fora dos padrões, levaram a uma vitória histórica para um carro que era dirigido por motorista particular !

O mundo do automobismo é mesmo muito variado e divertido.

JJ

11 comentários :

  1. Tem sido muito legal ler seus ultimos posts, JJ!
    E valeu por mais essa historia que nos trouxe! Uma prova de que diversão pode vir com qualquer tipo de carro e de competição!

    Abraço!

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  2. Façam algo parecido no Brasil (que se dane a CBA e demais federações), aluguem o autódromo ( de preferência o moribundo do RJ), cobrem R$1.000,00 a inscrição, redijam termos de responsalidade para os participantes eximindo-se de quaisquer eventualidades que arrumam mais de 100 interessados para correr semana que vem. BOB e demais amigos , organizem esta bagaça

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  3. Guilherme,
    Jackie Stewart diz que "se a coisa anda, podemos correr com ela".
    obrigado !

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  4. Eduardo Costa12/07/11 18:16

    Anônimo 12/07/11 16:44

    Se tivesse um autôdromo aqui em Recife, eu com certeza arrumaria pelo menos uns 20 carros para correr. Mas nem track day a gente pode ter. O autôdromo mais próximo fica a 160km de distância e o asfalto é tão crespo que come um jogo de pneus em 20 voltas.

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  5. A 1ª corrida da história aconteceu qnd o 2º carro produzido alinhou ao lado do 1º !

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  6. Muito bacana, JJ. Nunca imaginei que o Vauxhall Cresta fosse capaz de vencer qualquer corrida.

    Sobre o motorista que virou piloto, tivemos um caso parecido aqui no Brasil: o Felice Albertini, que trabalhava para o Piero Gancia e fez dupla com ele e com outros integrantes da Equipe Jolly-Gancia em várias corridas.

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  7. Temos outros exemplos interessantes de pilotos brasileiros, outro dia estava vendo a Copa Hornet na ESPN e o piloto que ganhou era um motoboy que entregava pamonha em Sampa (era patrocinado pela loja de pamonha também hehehe...), sem falar do Macarrão e do Lazaroni da Formula Truck, que depois das corridas, pegavam seus caminhões e saiam pelo Brasil para fazer suas entregas...

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  8. Ronaldo Nazário13/07/11 15:45

    Mas que carro feio da Borra!

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  9. Um post desses que traz entusiasmo. Fatos que acontecem no mundo automobilistico e que são interessantes. Mostram que a simplicidade e perseverança funcionam muito bem.

    Sds,

    Cristiano Zank.

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  10. Alexandre - BH -13/07/11 20:02

    Isso é tão inusitado quanto seria Hoke Colburn (Morgan Freeman) vencer a corrida pilotando o Hudson Commodore de Miss Daisy!

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  11. Alexandre - BH -13/07/11 20:27

    Juvenal, olha o Cresta aí, todo posudo!
    http://www.youtube.com/watch?v=OUlDJtrF-QY&feature=related

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