JOWETT JAVELIN, O INGLÊS DE MOTOR BOXER



Jowett Javelin (1947-1953)

Lembro-me bem desse carro nas ruas do Rio de Janeiro, anos 1950, quando adolescente. Eram poucos, mas sempre chamaram minha atenção. Era diferente e moderno. Sua marca, Jowett; o modelo, Javelin, palavra que significa dardo em inglês.

A Jowett foi uma das primeiras fábricas de automóveis do mundo, fundada em 1901 pelos irmãos Benjamin e William Jowett, e por Arthur V. Lamb. Mas, como muitas, começaram pelas bicicletas, depois motores V-2 para movimentar máquinas, que não demoraram para ser comprados por fabricantes de automóveis. 

Em 1904 foi constituída a Jowett Motor Manufacturing Company, em Bradford, Inglaterra, e dois anos depois surgia o primeiro Jowett, um carro pequeno mas que não seria produzido de imediato, pois a fábrica estava ocupada com atividades de engenharia e experimentando vários tipos de motores, além de começar a produzir as seis primeiras motocicletas Scott. O carro Jowett passou por longos testes e só em 1910 começou a ser produzido.

O protótipo era um carro leve e de baixo custo e pode ser considerado o primeiro carro leve da Inglaterra. Motor e transmissão eram feitos especialmente para ele e tinham as peças principais em alumínio. Tinha bastante potência em baixa rotação e as relações de marcha eram adequadas para as serras da região de Bradford e Yorkshire.

O carro aberto de dois lugares logo se popularizou com seu motor boxer de dois cilindros de 816 cm³ refrigerado a água de 6,4 cv, câmbio de três marchas e direção por alavanca. Foram feitos apenas doze carros até a direção passar a ser por volante em 1913, em que mais 36 foram feitos até eclodir a Primeira Guerra Mundial.

Jowett Eight de antes da I Guerra Mundial (wikipedia)
Pouco depois da guerra, em junho de 1919, foi fundada a empresa privada Jowett Cars Limited para fabricar e vender automóveis e esta adquiriu a parte de fabricação da primeira Jowett, que anos mais tarde (1935) passaria a ser uma empresa de capital aberto com ações na Bolsa de Londres.

Naquele mesmo ano de 1919 foi comprado novo local para a fábrica, nas cercanias de Bradford, uma mina sem uso. A produção começou no ano seguinte com o Jowett Seven, cujo motor era uma versão aumentada do boxer para 831 cm³, logo depois, em 1921, para 907 cm³. Assim ficou até 1936, quando foi lançado o motor de quatro cilindros. O motor era notável pela potência em baixa e logo ganhou fama de ter muita força, ser durável e econômico. Em 1931 houve um incêndio na fábrica que causou muitos danos, obrigando a Jowett a interromper a produção por algum tempo.

O carro de quatro-cilindros era de 1.166 cm³, tinha dois carburadores e se chamava Jowett Ten, ficando em produção até começar a Segunda Guerra Mundial, junto com os tradicionais bicilíndricos que agora eram de 946 cm³. Benjamin Jowett se aposentava em 1936 e seu irmão William continuaria na empresa até 1940.

A produção de automóveis cessou com a guerra, mas motores continuaram a ser fabricados para conjuntos motogeradores, junto com componentes aeronáuticos e outros equipamentos militares. O motor foi usado também para movimentar bombas d'água dos bombeiros. Mas em 1945 a empresa foi comprada pelo empresário do ramo imobiliário Charles Clore, que dois anos depois a vendeu para os Irmãos Lazard, banqueiros.

Desenho interessante, considerando a época (luizcesar.blospot.com)

Assim que a produção foi retomada após a guerra, os motores de dois cilindros deixaram de ser usados nos automóveis, continuando nos veículos comerciais com 1.005 cm³, um desses o Furgão Bradford, as duas versões de uma perua chamada Utility, e a extremidade dianteira de chassis e kits para encarroçadores externos, alguns até do exterior.

Interior típico de carro inglês; note a alavanca de câmbio na coluna (pionneer-automobiles.co.uk)
O novo carro, projetado durante a guerra por uma equipe liderada por Gerald Palme, era completamente diferente dos de antes e tinha perfil aerodinâmico. O sedã fastback era avançado para o seu tempo, com o motor boxer de quatro cilindros com válvulas no cabeçote, suspensão dianteira independente com barras de torção, inclusive na suspensão traseira, e carroceria monobloco. A tração era traseira, com câmbio de quatro marchas de alavanca na coluna.

O motor boxer em corte (jowett.net)

O motor de 1.486 cm³ (72,5 x 90 mm) tinha taxa de compressão de 7,2:1 e desenvolvia 50 cv a 4.100 rpm e 10,7 m·kgf a 2.000 rpm, com dois carburadores Zenith. O Javelin atingia 132 km/h e acelerava de 0 a 96,5 km/h em 20,9 segundos. Seu sistema de refrigeração a água era por sifão térmico, por isso exigindo que o radiador ficasse atrás do motor e em posição elevada, como conhecemos aqui no DKW-Vemag.

O comando de válvulas era por cima, não por baixo como no Volkswagen. A árvore do ventilador remete ao DKW (jowett.org)

O Javelin era espaçoso, com entreixos de 2.591 mm e comprimento de 4.267 mm, com 1.524 mm de largura e 1.537 mm de altura. Apesar do tamanho, o diâmetro mínimo de curva era de apenas 9,75 m. O coeficiente de arrasto era 0,50, alinhado com o que havia na época.

Suspensão dianteira independente com barra de torção; note o parafuso de ajuste de altura na extremidade de ancoragem (jowett.net)
A surpresa da marca foi o roadster Jupiter, em 1950, cujo chassi foi projetado pelo austríaco Eberan von Eberhorst, que trabalhara na Auto Union antes da guerra. Foi o criador do Auto Union tipo D, de 1938, o melhor de todos os P-Wagen, com piloto mais recuado e suspensão traseira De Dion no lugar dos problemáticos semi-eixos oscilantes. Depois da guerra von Eberhorst se juntou a Ferry Porsche em Gmünd, na Áustria, e trabalhou no 356. A carroceria do Javelin era toda feita fora, pela Briggs Motor Bodies, que depois recebia os componentes mecânicos na fábrica Jowett em Idle.

Jowett Jupiter de 1950: uma visão do Subaru BRZ/Toyota GT 86? (commons.wikimedia.org)
Como o capô do Jupiter abria (en.wikipedia.org)

Em 1953, dificuldades financeiras acabaram levando ao fechamento da Jowett, concluído em agosto de 1954, depois de 65.000 carros produzidos, dos quais pouco mais de 23.000 Javelins.

Outro dia conversava com o Fernando Calmon sobre motor boxer e vimos que hoje só sobraram os Porsche 911/Boxster e os Subaru e Toyota GT 86, com a Subaru sempre mandando a mensagem "Proud of Boxer" (Orgulho de Boxer). Foi quando me lembrei do Javelin, daí a idéia deste post.

Estande da Subaru no Salão de Genebra de 2012 (autor)


BS


30 comentários :

  1. Eu não lembro desse carro nas ruas do Rio de Janeiro, nos anos 50. Aliás, eu não lembro das ruas do Rio de Janeiro, nos anos 50. Gostaria imensamente de lembrar. Infelizmente, cheguei atrasado, he, he!

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    1. Mr. Car
      Em que ano vc nasceu?
      Pelos seus comentarios e carros preferidos acho que somos contemporâneos
      Eu sou de 66 e vivi minha adolescência nos anos 80!
      Abs

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    2. Somos, sim: Out/63. Anos 80, ah, os anos 80...Eu venderia minha alma para viver os 80 outra vez.
      Abraço.

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    3. Ah... os 80 no Rio... Para quem está na casa dos 40 (em plena adolescência e juventude nos os 80), os anos 80 também foram ótimos: boas ondas, trânsito ainda bem traquilo no Rio, Barra da Tijuca sem sinais de trânsito (e sem calçadão da praia), Rock BR... :)

      Abç!

      Leo-RJ

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    4. Mr Car e Leo -RJ
      E isso ai .. eu sou de 66 mas vivi aqui em Sampa.
      Imagino o que nao foi a adolescencia no RJ! Que maravilha
      Tive uma so vez na cidade de voces e adorei!
      Oh terra de mulher bonita!
      Qto aos anos 80 , muitas saudades ... Fui apaixonado pela Paula Toller!
      abracos

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  2. E a Inglaterra não conseguiu manter nenhuma marca de porte. Apenas poucas e pequenas que fabricam alguns esportivos e a Morgan.

    Quais as vantagens e desvantagens do motor boxer?

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    1. Vantagens: centro de gravidade mais baixo, possibilidade de montagem em ponto mais baixo que o possível a um motor em linha ou em V, desenho que cancela as vibrações sem necessidade de eixo contrarrotativo (vide motores de 2,5 l e quatro cilindros da Subaru), possibilidade de fazer uma frente mais baixa e aerodinâmica e mesmo assim haver espaço suficiente entre o capô e o motor para que haja espaço de deformação que proteja um pedestre em caso de atropelamento, peso mais bem distribuído entre os lados (motores boxer costumam ser montados na longitudinal);

      Desvantagens: largura muito maior, peças com mesma função em duplicidade (sempre haverá dois cabeçotes e, caso se queira acionar as válvulas por comando no cabeçote, são necessários dois comandos, ou mesmo quatro), peso maior (um motor de seis cilindros da Porsche é mais pesado que um LS da GM, mesmo esse tendo dois cilindros a mais), dificuldades em se poder reduzir o balanço dianteiro e ao mesmo tempo montar tração integral (vide o que a Audi conseguiu com a plataforma MLB ao avançar o eixo dianteiro para perto do encaixe da transmissão e vide os balanços dianteiros gigantescos dos Subarus e a pergunta que fica sobre se eles seriam capazes de ao mesmo tempo encurtar o balanço dianteiro e ao mesmo tempo jogar o eixo dianteiro para mais longe da parede corta-fogo como fez a Audi)

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    2. Tem razão, CCN. É até irônico que a grande Inglaterra, berço do capitalismo industrial, país de onde saíram algumas das máquinas mais impressionantes do mundo, não tenha uma única grande fábrica de automóveis genuinamente nacional. Tatcher certamente levou uma cota de culpa por isso para a tumba, mas certamente não é questão de uma pessoa só levar um país inteiro à essa situação.
      Quanto ao motor, o que sei é parcial, mas condena irremediavelmente o Boxer: As vantagens são para o consumidor, e as desvantagens são, em maioria para o fabricante: Menor vibração, menor chance de superaquecimento, centro de gravidade mais baixo, ocupa menos espaço longitudinal (ou seja, é mais curto) e menos altura que um quatro-em-linha. Algumas peças, como juntas de cabeçote e o próprio cabeçote são duplicadas e menores, o que leva a economia de escala e exige ferramentas menores, levando a um custo de manutenção ligeiramente mais baixo. Antigamente, havia a dificuldade de manter-se dois carburadores sincronizados, mas a injeção eletrônica sepultou esse problema. Os fabricantes daquela época também tentavam eliminar o problema com um carburador central, mas os dutos necessários anulavam a vantagem dos motores poderem ser mais baixos.
      Entre as desvantagens, há o maior número de peças na montagem, o que leva a maior custo de montagem, a necessidade de um projeto muito cuidadoso, para que a nanutenção seja tão fácil quanto a de um quatro-em-linha, sem que os componentes fiquem expostos a grandes perigos (lembre-se que o motor como um todo será instalado muito baixo no carro...), a redundância de componentes (para ter duplo-comando num boxer seriam necessários quatro comandos de válvulas), etc.

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    3. Valeu pelas informações.

      Obrigado.

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    4. O mais interessante é que quase todas as empresas inglesas pertencem hoje a empresários de ex-colônias britânicas. Só para ficar com dois exemplos, a indiana Tata arrematou Land Rover e Jaguar e a malaia Proton comprou a Lotus.

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    5. Pelo q. consta, a Alfa Romeo conseguiu superar de forma brilhante todas as possiveis dificuldades e incoveniências do esquema boxer/tração dianteira no Alfasud,indo até além,ao propor o boxer 16valvulas e o Alfa 33 com transmissão 4x4 - tudo isso sem comprometer as estupendas características dinâmicas nem o custo do produto.

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  3. Bob carros desse período me agradam muito como o Anglia, Prefect,
    Consul, Austin, etc...só para falar dos ingleses.
    Abraço
    General Weigand
    ( Ex Coronel Anônimo)

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    1. General
      O Sr se recuperou do AVC?
      Estimamos sua pronta melhora!
      Parabenizamos por sua promoção a General de Brigada da reserva
      Comente sempre
      Saudações patrióticas

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  4. Gosto muito de carros europeus antigos. Mostravam sempre como se pode fazer o máximo com o mínimo. Talvez o fato de terem enfrentado duas guerras os fizeram enxergar as coisas com racionalidade, ao contrário dos americanos, que apesar de participarem de inúmeros conflitos, nunca tiveram a guerra na porta de casa. Nada contra os americanos, afinal somos todos seres humanos buscando a felicidade, mas a adversidade ajuda a desenvolver a imaginação e o espírito de improviso. Como dizia Einstein: "A necessidade é a mãe da invenção."

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  5. Carro interessante, nunca havia ouvido falar a respeito. Interessante a preocupação da empresa em lançar um veículo de baixo peso já em 1910, período em que o automóvel ainda era uma grande novidade.

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  6. Bob um desses que você citou ter visto no Rio, sobreviveu, ele é vermelho, original até o último parafuso, dorme numa garagem aqui no Rio junto com um Jaguar E-Type V12 do mesmo dono.

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  7. Meu pai teve um Javelin; eu não havia nascido, mas lembro-me que ele dizia que foi o carro que mais deu dor de cabeça a ele.

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  8. João Carlos21/04/13 17:16

    Bem que o pessoal da Subaru poderia liberar um carro pra você testar.

    Fui conhecer o novo Subaru, e eles só trouxeram a versão aventureira (XV), que chato!

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  9. Esse Joweett Júpiter tem uma bocona de sapo Cururu!
    Jorjao

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  10. Bob

    Sei onde tem um desses, inclusive da mesma cor do modelo cuja foto abre o post.

    O coitado está mofando debaixo de uma cobertura, num terreno que pertence à Federação Umbandista do ABC, localizada na estrada do Montanhão, em SBC, onde funciona um santuário de Umbanda.

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  11. eu ja vi um Jowett Javelin pessoalmente, e é um belo carro, aqui em Brusque/SC eu conheço o proprietario de um que esta parado aguardando uma reforma...

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  12. Pedro Bergamaschi21/04/13 21:16

    Esse Jowett Jupiter parece uma miniatura caricata de um Jaguar XK120, isso sim!

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    1. Bergamaschi
      Era a tendência de estilo da época, tal e qual acontece hoje. É apenas questão de convergência. Até já escrevi post a respeito.

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    2. Pedro Bergamaschi22/04/13 11:06

      Sim Bob, por isso que os carros atuais são tão igualmente sem graça...

      Mas que deve ser muito interessante ver um Jupiter ao lado de um XK120, isso deve ser!

      http://images.carpictures.cc/photo/m/00014408_Jaguar_XK120_Daveseven.jpg

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    3. Essa atual convergência para designs anabolizados já está cansando. Viram o novo possível futuro City? Aquela quantidade absurda de vincos ficou ridícula.

      Adoro esses carros antigos. Causam-me muito mais suspiros e torcicolos.

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  13. Bob,
    a abertura do capô do Júpiter é algo de sonho. Muitos carros deveriam ter algo assim, mas está cada vez mais difícil, principalmente por causa das obrigatoriedades de atendimento a impactos.

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  14. Poxa! lembro-me de um carro destes aqui no interior do RS... Acho que foi o único que vi, mas nunca imaginei que tivesse um motor boxer e ainda, para a época, as soluções de suspensão são muito avançadas e inteligentes...Típicas de carro europeu, que eram considerados frágeis para as "estradas" disponíveis. Meu pai que teve durante minha infãncia uma perua Bedford e depois um Austin A 40 Devon, nos quais ele mesmos fazia as manutenções e reformas, ao memsmo tempo que elogiava a economia de combustível de ambos, costumava reclamar da "fragilidade" das suspensões... Injustamente, percebo hoje!

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  15. Aqui no RS havia muitos, importados por firmas com conexões britânicas. E os sobreviventes receberam motores Ford V8-60 de origem Ford Pilot, Vedette e americanos. AGB

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