COEY FLYER SIX TOURING 1913, ESPORTIVO DE CINCO LUGARES

Um esportivo de quatro portas com um século

O Coey Flyer mostrado na foto acima é provavelmente o único existente. A empresa americana durou pouco, em duas fases, de 1901 a 1902 e de 1913 a 1917. Justamente em seu retorno, em 1913, construiu esse carro, o Six Touring de quatro portas e cinco lugares, carro médio para os padrões americanos da época, com entreeixos de 128 polegadas (3.251 mm).

Antes dele, a Coey fabricara o Bear cyclecar, uma categoria de carros pequenos e leves com motores de moto, da qual o mais famoso representante é o britânico Morgan de três rodas. Na foto abaixo, um Coey de corrida cuja base de construção foi um desses Bear, antes de uma prova em que participou justamente um Morgan. Desde o início Charles Coey fazia seus carros de forma a ter versões de corrida, já que essa era a verdadeira propaganda para atestar a qualidade dessas máquinas magníficas que despertavam paixões em todos, muito diferente dos dias atuais.

Inscrição bem grande no carro, para propagandear a nova marca

Ilustração de anúncio de jornal para o Bear
O Bear voltou a ser feito na segunda fase da empresa, com o exemplar laranja das fotos sendo de 1915. É difícil ter noção do tamanho por fotos, mas é um carro pequeno.


Eixo dianteiro de pequeno diâmetro mostra baixo peso do carro
Um Bear da segunda fase da empresa
A empresa se chamava Coey-Mitchell Automobile Company, criada em Chicago por Charles Andrew Coey, um balonista e piloto de corridas, concessionário da marca Thomas Flyer, dono de oficina, de frota de táxis, empresa de aluguel de carros e de auto-escola. Uma auto-escola de verdade, onde se ensinava mecânica, eletricidade, como cuidar do carro, e até como desmontá-lo e montá-lo novamente, tudo por US$ 15 para as dez lições por correspondência. 
Coey no primeiro seis cilindros de corrida, com legenda divertida, dizendo que ele fazia a barba de Barney Oldfield, mais destemido e popular piloto da época

Após essa fase, o aluno poderia se dirigir à escola e pagar pelas aulas práticas, que eram ministradas na fábrica dos carros.  Coey escreveu um livreto de propaganda de seu negócio que pode ser encontrado no site do arquivo histórico de Illinois, nesse link aqui

Ele enfatiza que conhecer automóveis é útil a todos, mesmo para quem não iria dirigir. Um pensamento lógico, quando a confiabilidade ainda era bastante baixa, e carros paravam a qualquer hora e lugar, com os passageiros muitas vezes tendo que ajudar nos reparos. Quem dera esse conselho fosse seguido ainda hoje.

Fachada da escola-fábrica

Interessante também é que cada aluno tinha direito de ser vendedor da empresa, e receberia 200 dólares por cada Flyer vendido, 10% do preço de  venda e, mais incrivelmente, se vendesse dez carros receberia um grátis! 

Aparentemente isso nunca ocorreu, pois o carro branco dessas fotos é de propriedade de Al Zamba, morador de Pittsburgh, que procura há anos um outro exemplar. Pelo que ele apurou até agora, não deve ter sido construído mais de um.

O Coey Flyer, sim, lhe dava asas!

Lobo em pele de cordeiro

Note a tampa do porta- malas integrada à carroceria

Alavanca de marchas curta; acelerador entre embreagem e freio
Tinha muita coisa boa para fazer sucesso, como, por exemplo, a garantia. O Flyer tinha uma garantia de dez anos, desde que não se rodasse mais de 5.000 milhas (8.000 km) por ano.



O carro de Zamba foi do museu de William H. Harrah, e depois de ser vendido pelo museu ficou sem funcionar por anos. O museu comprou o carro em 1958, e depois o vendeu em leilão.

O motor de seis cilindros era grande, com diâmetro dos cilindros e curso dos pistões de 4 e 5 polegadas (101,6 × 127 mm) resultando em 377 polegadas cúbicas ou 6.178 cm³, mais de um litro por cilindro, exatamente 1.029,7 cm³.

Isso lhe permitia chegar a 110 km/h, incrível para um carro de cinco lugares quando se compara aos dois mais famosos esportivos de corrida americanos, o Mercer Raceabout que chegava a cerca de 120 km/h e o Stutz Bearcat, a cerca de 135 km/h.

O Flyer era alimentado por um carburador Schebler modelo L. Desenvolvia 61 cv apesar de esse número ser muito polêmico, e segundo a fonte pesquisada, pode ter tido apenas 51 cv. Al Zamba teve grandes dificuldades para fazer o motor voltar a funcionar após encontrar o carro parado há sabe-se lá quanto tempo.

A Coey-Mitchell era uma empresa que até mesmo poderia ser chamada de montadora, pois esse motor foi feito por outra fábrica,  a Herschel-Spillman, que fazia entre outros aparatos mecânicos, bombas de água e carrosséis, e peças de reposição são inexistentes, mesmo tendo fornecido diversos tipos de motores para outras fábricas naquele início de século 20, inclusive um V-8. O que foi trocado teve que ser fabricado a partir das peças usadas e gastas. A restauração durou cerca de um ano, com muita dedicação e despesas.

Também a carroceria não era da própria Coey, mas da American Traveler Body Company, que tinha um carro muito parecido, o American Underslung, com o qual o Flyer foi confundido quando um amigo de Zamba o encontrou nos anos 1990.

A embreagem era da marca Stutz, fabricante de carros de alto padrão e de corrida, e era do mesmo tipo usado nesses últimos, em banho de óleo, e 39 discos de metal polido. A transmissão era no eixo traseiro (transeixo), de três marchas mais ré.

Diferente da maioria dos carros dessa época tão antiga, nos quais a dupla-debreagem era quase um padrão para as trocas de marcha, o Coey Flyer só requeria um movimento no pedal, e movimento rápido na alavanca. Era bastante esportivo para um carro de cinco lugares e quatro portas, mas explicado pela transmissão ser fabricada também pela Stutz.

O eixo traseiro era também dessa marca de sangue azul, vindo de um modelo de sete  lugares, superdimensionado no Flyer, portanto. As suspensões não traziam revoluções. Na frente, uma viga em "I" com molas semi-elípticas, com a traseira sendo três-quartos elípticas.

O comportamento dessas suspensões casava muito bem com o sistema de direção, e o carro parece muito mais moderno no comportamento de chassis do que o ano de 1913 faz supor. Nas poucas oportunidades em que um jornalista conseguiu dirigir o Flyer, o resumo foi muito favorável ao carro, que tem desempenho bom demais com seus 61 cv, e dirigibilidade acima da média, sem folgas de caixa de direção e sem que essa seja lenta demais. O volante ficava na direita, já que ainda não existia um padrão para a indústria.

Peso a seco de 1.240 kg, nem tanto para a época, ajudado pelo fato que não há estepe e nem lugar para fixar uma roda e pneu sobressalente, algo muito estranho e sem explicação lógica, numa época de muitas estradas não pavimentadas e pneus primitivos e pouco duráveis. Isso é mais um indicativo de que talvez seja exemplar único e de uso do próprio Coey, onde esse tipo de preocupação não ocorreu. Se houvesse sido produzido e vendido em mercado teria estepe sem dúvida, já que muitos carros tinham até mesmo dois deles.
Em 2008 foi avaliado em US$ 175.000
Outra característica curiosa é o porta-malas na traseira, integrado à carroceria, e fechado com tampa que acompanha as linhas desta. O normal era uma caixa ou baú apoiados nas longarinas do chassis, e destacados da banheira dos passageiros. Dentro dele, parte do espaço é ocupado pelo gerador de gás para os faróis.

Mais "nervoso" ainda deveria ser o exemplar de duas portas construído em 1916, do qual informações firmes não foram encontradas. A foto abaixo mostra o carro, mas nem mesmo se sabe o que era diferente nele e se chegou a andar de verdade. Um mistério nebuloso.

Também identificado como um Flyer, não há histórico dessa foto
Um carro diferente do lugar comum de exatamente um século atrás, e que pode ser considerado um dos primeiros sedãs esportivos de que se tem notícia.

JJ
Fotos: conceptcarz.com; Autoweek.com; tostayconected.com; oldclassiccar.co.uk





9 comentários :

  1. A expressão idiomática close shave significa "escapar por pouco de uma situação complicada ou perigosa". Donde se conclui que nosso amigo Coey e seu racer de seis-canecos devem ter dado bastante trabalho ao Barney Oldfield.
    Afinal, não devia ser nada fácil, mesmo naquela época, pilotar balões, disputar corridas, manter uma concessionária, uma oficina, uma frota de táxis, uma empresa de aluguel de carros e uma auto-escola e ainda por cima tocar uma barbearia...

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    1. Alexandre,
      e essa expressão idiomática pode ter influência no brasileiro "fazer barba e cabelo". Línguas são sempre fascinantes.

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  2. JJ,

    "É difícil ter noção do tamanho por fotos, mas é um carro pequeno".

    É só compará-lo com o tamanho da bandeira e dos móveis.

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    1. CCN 1410,
      e também olhar o tamanho do volante comparado à largura do habitáculo, na foto de frente.

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  3. Chitty Chitty Bang Bang!!
    Jorjao

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    1. Jorjao,
      boa a sua sugestão ! anotado.

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  4. Grande JJ e seus carros totalmente incomuns!

    Jamais havia ouvido falar do Coey Flyer. Interessante o fato de ter um porta-malas fechado, absolutamente incomum naquela época. Pode-se dizer então que o Six Touring foi o precursor dos hoje famosos sedãs esportivos, como o BMW M5.

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  5. Road Runner,
    por aí mesmo. Eu tinha uma página de revista Autoweek com o carro, e quando pesquisei para escrever notei o fato de ser um carro que chegava a 110 km/h há 100 anos. Fui ver as velocidades máximas dos esportivos da época e fiquei abestado.
    Pena não existirem números de tempos de acelerações para ele para sabermos como era.

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  6. Ele lembra muito o Vela Seca, do desenho "Missão Quase Impossível."

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