AS LEIS DA ROBÓTICA E O CARRO AUTÔNOMO

Carro autônomo: robô sujeito às leis das máquinas
Talvez muitos dos leitores não saibam, mas além de engenheiro mecânico, também sou engenheiro mecatrônico, da segunda turma formada no país, no já longínquo ano de 1991. Mas parece que foi ontem...

Das memórias que tenho dessa época, ainda guardo a primeira aula da matéria sobre dinâmica e controle de sistemas robóticos, onde focamos as leis da robótica de Isaac Asimov. Vimos que, apesar de Asimov tê-las escrito como alicerce para dar substância a muitas das situações conflitantes em seus livros, elas possuem profundo impacto na nossa relação com máquinas inteligentes.

Participei de muitas outras discussões sobre esse assunto ao longo dos anos e percebi que existe todo um mundo filosófico por trás delas.

Mas não adianta falarmos das leis da robótica se não soubermos o que é um robô.

Há muitas definições para robôs, mas, de todas, a melhor que encontrei diz que um robô é uma máquina que sente o mundo à sua volta, de alguma forma “pensa” qual a melhor forma de agir, e age. Essa capacidade de reagir inteligentemente ao ambiente que o cerca é que torna uma máquina um robô.

O robô é uma máquina especial, diferente das outras, porque é altamente adaptativa e reage inteligentemente a um ambiente mutável, não previsto previamente pelo projetista ou pelo programador.

Reparem que a definição de robô não inclui seu formato físico, então vários tipos de máquinas podem ser classificados de robôs por essa definição. Mais que isso, ela praticamente engloba boa parte dos sistemas automatizados avançados. Até mesmo softwares autônomos puros, sem hardware, podem ser classificados como robôs, segundo essa classificação.

Vamos a um pequeno teste. Quando falamos em robôs, e excluímos as temíveis ou amáveis máquinas da ficção científica, pensamos nestes robôs, certo? Errado!

Robôs? Não. Manipuladores.
Como muitas das máquinas que habitualmente são chamadas de robôs, estes não são robôs. São chamados de manipuladores, ou, em alguns textos, como  robôs-manipuladores com a percepção de estarem alguns degraus abaixo dos robôs verdadeiros.

No caso dos trabalhos de solda e pintura automobilísticos, são realizados por braços robóticos que recebem programas complexos de trajetória e manipulação, um para cada tipo de carro que passa pela linha. Estes braços robóticos recebem ordens de um computador central que seleciona o programa de solda ou pintura adequados a cada carro que fica na sua posição de trabalho.

Eles não percebem se o carro realmente está lá. Se a central der o comando na hora errada, eles podem executar suas funções sem que o próprio carro esteja lá. Eles realizam uma automação fixa, previamente calculada, e nem um pouco inteligente.

Não é a conformação de braço que torna a máquina um robô. É a falta da capacidade de "pensar" é que tira deles a classificação como robôs.

Por outro lado, podemos pegar um desses mesmos braços robóticos, instalar-lhe uma garra de manipulação no seu punho, e se o equiparmos com um computador com câmera e um programa para jogar xadrez, poderemos colocar um tabuleiro na sua frente, e ele verá e reconhecerá as peças, calculará os melhores movimentos, para então acionar o braço robótico para pegar as peças e movimentá-las.

Robô verdadeiro, jogando xadrez

Um jogo de xadrez é completamente diferente de outro e é um jogo tão complexo que não há forma de um programador programar rigidamente todas as possibilidades de jogadas. Esta condição exige da máquina um certo grau de inteligência para executar movimentos coerentes com as regras e objetivos do jogo. Aí, sim, este braço robótico se torna parte de um robô.

É exatamente a capacidade do robô de decidir suas próprias ações dentro do mundo habitado por seres humanos que estas ações precisam ser limitadas para não haver graves consequências. É dentro deste cenário que Asimov criou suas leis e explorou algumas das suas consequências.

Estas são as três leis propostas por Asimov em seu livro “Eu, robô”, publicado em 1950:

  • 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e/ou a Segunda Lei.

Vamos compreender o que estas leis significam.

A 1ª Lei evita que o robô se revolte contra o ser humano. A primeira história de ficção científica era exatamente sobre uma criatura que se rebelava contra seu criador: o monstro de Frankenstein.

Frankenstein: caso a ser evitado com a criação de robôs

Desde então, máquinas agindo contra multidões, quer por rebelião própria, quer a mando de seu criador ou de um oportunista, permearam o cinema e a TV por muitos anos.

É o caso do primeiro robô visto no cinema, o Maschinenmensch (algo semelhante a “máquina humana”, em alemão), em "Metrópolis", de Fritz Lang, 1927.

Robô de "Metrópolis": ferramenta de destruição social manipulada por seu criador

O livro “Eu, robô”, de Asimov, onde as três leis são mencionadas pela primeira vez, sendo ele uma coletânea de contos sobre robôs escrito prara revistas durante a década de 1940, e a partir de seu sucesso passa a influenciar a ficção científica.

Observem esta cena do filme "Planeta Proibido" (Forbbiden Planet, de1956). É uma demonstração clara da imposição da 1ª Lei a um dos mais famosos robôs do cinema, Robby.


A 2ª Lei é uma lei clara de servidão. Permitam-me trocar a palavra “robô” por “escravo” e vejam o sentido que esta lei toma:

  • 2ª Lei: Um escravo deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
Esta troca não é aleatória.

A primeira vez que o nome “robô” apareceu foi na peça “Rossum's Universal Robots”, escrito pelo checo Karel Čapek, em 1920. O termo “Robot” usado por Čapek é uma corruptela de “robota”, que em checo significa “trabalhador forçado”, servo, escravo.

Esta 2ª Lei é a mais controversa das três justamente por sua natureza de serviência. E se um dia os robôs atingissem um nível de consciência igual ou superior ao nosso? Temos horror pela escravização de um humano por outro humano. Será que aceitaríamos impor a escravidão de uma inteligência superior só porque esta inteligência não é humana?

Vemos então, que além da questão de imposição de servidão, a 2ª Lei é uma lei discriminatória. De certa forma, este caráter discriminatório pode ser visto também na 1ª Lei, na medida em que a preservação do ser humano é superior à autodeterminação e autopreservação do robô.

A 3ª Lei é a mais natural de todas. Ninguém deseja que uma máquina se danifique de forma fútil. É lógico que o robô tome ações de autopreservação.

Ao mesmo tempo que a 2ª Lei condiciona as máquinas a uma situação de inferioridade aos humanos, a 3ª Lei equipara os robôs aos seres vivos, já que o instinto de autopreservação é, junto com o instinto de procriação, um dos pilares da sobrevivência de qualquer ser vivo no planeta.

Anos mais tarde, Asimov inseriu uma nova lei a estas três, uma espécie de “lei zero”, que usa o texto da 1ª Lei, substituindo o termo “ser humano” por “humanidade”, para obter uma maior abrangência.

Esta lei é menos conhecida e raramente mencionada, até porque muitos críticos pensam que se a 1ª Lei já impede o mal ao indivíduo, o robô automaticamente se vê barrado a fazer o mal para toda uma coletividade.

Entretanto, como o próprio Asimov demonstrou usando e abusando deste recurso em seus livros, as três leis levam a paradoxos de julgamento moral.

Imaginem que um robô veja um humano apontando uma arma para outro humano e irá dispará-la. Pela 1ª Lei, o robô não pode ficar omisso, permitindo que o primeiro humano se fira ou seja morto. Entretanto, para impedir que o primeiro humano sofra com o disparo, o robô deverá tomar uma ação que poderá ferir o segundo humano, o que também é proibido pela 1ª Lei. Dentro da rigidez das três leis, o paradoxo é insolúvel para o robô.

Os especialistas em robótica são quase unânimes em afirmar que, embora as leis de Asimov sejam importantes, é impossível programá-las nos robôs atuais, o que torna as leis simplesmente inúteis.

Para que robôs tivessem sua programação balizada pelas três leis precisariam de um nível de inteligência alto o suficiente para fazer críticas morais sobre seus atos, diferenciando o que é bom do que é mau, para aí então poder aplicar as leis no julgamento de suas ações.

Para muitos dos autores sobre robótica as três leis não passam de mera curiosidade literária sobre a premonição de uma realidade dos robôs agindo na sociedade.

Há, no entanto, uma forma viável de aplicarmos as três leis. Se não podemos programá-las, podemos  usá-las como alicerce para a concepção do projeto das máquinas.

Vamos pensar num carro com um sistema controlador de velocidade adaptativo (Adaptive Cruise Control,  ACC). Num carro destes, podemos ajustar a velocidade da viagem para que o computador a mantenha constante. Entretanto, este sistema possui um radar frontal que detecta carros e outros obstáculos à frente, podendo fazer reduzir a velocidade ou até frear o carro para manter uma distância segura daquilo que segue à sua frente.

Carro com controlador de velocidade adaptativo: robô verdadeiro

Um carro com ACC percebe o mundo à sua volta (radar), “pensa” (programa), e age (atuadores) da maneira apropriada. Portanto, ele é um robô.

Se aparecer um obstáculo à frente, ele pode reduzir a velocidade ou mesmo frear, preservando a segurança do motorista e das pessoas no outro carro. Assim, ele atende tanto à 1ª Lei de preservar a segurança das pessoas, bem como ele se preserva, atendendo à 3ª Lei.

O motorista pode regular a velocidade de viagem como ele bem entender, desde que a situação não ofereça risco. Desta forma, o carro com ACC atende à 2ª Lei.

Vemos então que, embora não estejam programadas, pela própria concepção carro com ACC, enquanto robô, as três leis são plenamente atendidas. E por isso o carro com ACC se mostra uma máquina útil, conveniente e ética.

Por outro lado, o que podemos dizer sobre um avião sem piloto (Unmanned Aerial Vehicle, UAV), capaz de realizar todas as principais missões dos aviões de caça-bombardeiros tripulados?

UAV militar: robô que desde a concepção não obedece às leis da robótica

Esta é uma arma-robô. Matar está na base da concepção de seu projeto, o que é uma violação direta à 1ª Lei.

Enviar máquinas para combater homens tornará as guerras sangrentas apenas para o lado mais fraco. Sem perdas de seus cidadãos, o país que usar robôs conseguirá uma guerra sem sacrifícios e não haverá resistências internas à guerra, permitindo os piores abusos desse poder.

Esta situação levará vários países a investirem em armas robotizadas, enquanto as leis da robótica serão simplesmente esquecidas. Assim, nosso futuro será cheio de máquinas nascidas fora de uma concepção ética e moralmente aceitável.

Quando deslocamos a aplicação das leis da robótica da área de funções programadas para a área de concepção de projeto, mudamos mais que seu ponto de aplicação.

Nos robôs das histórias de Asimov, o julgamento moral pertence à máquina para que, a partir dela sejam aplicadas as leis da robótica, enquanto nos robôs reais a aplicação das leis da robótica, como base conceitual do projeto do equipamento, transfere a responsabilidade ética e moral ao seu projetista/programador e ao seu operador.

Entretanto, essa questão ética vai muito além da questão das armas-robô. Ela permeia toda a concepção da automação, pois a automação toma muitas funções antes efetuadas por humanos.

Se ela tomar o lugar de um ser humano com ganhos de qualidade e produtividade, e isso pode ser visto como algo bom, a forma como ela toma é questionável.

O grande poder por trás da automação está na capacidade que os projetistas possuem em captar uma base de conhecimento sobre o processo a ser automatizado e colocá-lo sob uma forma capaz de ser processada por um computador.

É esta base de conhecimento, decantada numa forma computacional que cria a capacidade de “pensar” do robô, e com os contínuos avanços em tecnologia de inteligência artificial, da velocidade e capacidade de memória etc., os robôs hoje realizam o que até bem pouco tempo era realizável apenas por especialistas.

Quando uma função ainda está além da capacidade de automação, para que as tarefas sejam realizadas é preciso que haja um especialista se dedicando a cada ciclo executado. Isso gera muitos empregos de mão de obra proporcionalmente qualificada à complexidade da tarefa executada.

Quando esta tarefa passa pela síntese da base de conhecimento, o projetista precisa criar o programa de automação uma única vez. Uma vez criada, a máquina automatizada pode realizar milhões de ciclos com uma base de conhecimento equivalente ou até superior à do especialista, sem necessitar de acompanhamento humano. E mais: essa mesma base de conhecimento pode ser replicada em milhares de máquinas realizando ciclos paralelos sem acompanhamento humano. Não só a automação dispensa o especialista  para o resto da vida, como a replicação dessa base de conhecimento em várias máquinas dispensa especialistas em larga escala.

Quanto mais a tecnologia de automação avança, mais ela penetra em nichos onde antes as exigências de especialização de mão de obra eram mais elevadas, e mais auto-suficiente ela se torna em tarefas já antes dominadas por ela, dispensando o suporte humano.

Durante a evolução deste processo, o que vemos habitualmente é primeiro a oferta de uma opção idílica, mas o quadro que se desenha após a evolução não é nada tão maravilhoso assim.

Os leitores mais velhos devem se lembrar das promessas sobre a evolução da informática nos anos 1980. A principal promessa naquela época era a de que, com a capacidade de trabalho automático do computador, as pessoas progressivamente poderiam reduzir suas horas de trabalho ao ponto de trabalharem apenas meio período. Porém, o que temos percebido nas décadas seguintes é que, conforme a capacidade de trabalho do computador cresce, o excedente de mão de obra vai sendo dispensado, e mantendo alta a carga de trabalho sobre os poucos que permanecem. Cabe àqueles que foram dispensados procurar novos empregos, enquanto aqueles que permanecem terão de lidar com quantidades crescentes de informações fornecidas ou obtidas dos computadores, ao ponto de doenças ocupacionais relacionadas com a sobrecarga de informações sobre o cérebro já aparecerem nas estatísticas sobre a saúde do trabalhador.

Outra promessa dos anos 1980 era de que a automação não iria gerar desemprego, pois se ela dispensa mão de obra que lidava diretamente com os processos da empresa, a própria automação demandaria novos empregos de suporte, mais qualificados que aqueles que foram substituídos.

Durante as décadas de 1980 e 1990, este equilíbrio entre empregos perdidos e criados até foi mantido, mas já há dados do Banco Mundial que aponta que na última década este equilíbrio foi rompido desfavoravelmente aos empregos. A automação está penetrando em áreas onde mesmo os especialistas eram céticos, enquanto ela vem sendo irrestritamente empregada na substituição de mão de obra humana menos qualificada, já que produz 24 horas por dia, sempre dentro do mesmo padrão de qualidade e sem exigir as demandas das leis trabalhistas. É fácil entender este processo.

O trabalho se organiza na forma de uma pirâmide, onde a base larga concentra grande quantidade de pessoas em tarefas de baixíssima especialização e, conforme se sobe nessa pirâmide, o grau de especialização sobe, mas o número de vagas é menor.

Quando a automação penetra essa pirâmide, ela o faz pela base, pela menor exigência de inteligência. Com o avanço da tecnologia, além de mais barata, permitindo assumir mais postos junto à base, sua inteligência aumenta, permitindo que ela penetre em níveis mais altos de especialização. Este processo empurra as pessoas a procurarem emprego nas camadas mais altas da pirâmide, onde o número de vagas é menor. 

Com a maior oferta de mão de obra num determinado nível de especialização, há uma desvalorização dessa mão de obra, empurrando os trabalhadores mais velhos nesse nível a buscar vagas nos níveis mais altos para não perder poder aquisitivo e status. A entrada da automação pela base pressiona então toda estrutura da pirâmide de baixo para cima.

Quando o processo de automação acelera e passa a tomar mais vagas do que surgem novas nas camadas mais altas pelo crescimento natural da pirâmide, ou quando a reciclagem profissional está além das capacidades financeira ou de aprendizagem das pessoas, temos uma crise, com pessoas perdendo seus empregos para as máquinas. A automação da produção nesta escala contraria, mesmo que indiretamente, a 1ª Lei.

Este é um processo em crise. Conforme a automação se torna mais conveniente que empregar pessoas, para o empresário a substituição é lógica. Porém, quando a automação toma empregos em larga escala, mais pessoas não terão proventos para consumirem os produtos produzidos eficientemente pelas máquinas, fazendo com que todos acabem perdendo no processo, o que também indiretamente é contrário à 1ª Lei.

Um processo mais recente foi a promessa da internet móvel através de smartphones, tablets e banda larga celular. Haveria diversão e informação para todos, a toda hora e em qualquer lugar. Mas o que se verifica é que as pessoas não conseguem se desconectar do mundo virtual. Já virou motivo de piada na internet o caso das pessoas que mesmo durante os happy hours passam o tempo mexendo nos smartphones e completamente alheios aos colegas fisicamente presentes.

Smartphones: muitas promessas maravilhosas, mas uma realidade cheia de vícios

Também para muitas empresas e pessoas a considerarem falta de profissionalismo do profissional caso ele não responda um e-mail em meia hora, mesmo que ele tenha que acordar às 3 horas da madrugada para dar uma posição sobre uma situação urgente na filial das Filipinas. Profissionais permanentemente conectados estão em plantão eterno sem que a empresa pague por essas horas de disponibilidade, já que computar essas horas tem se mostrado algo difícil de comprovar.

Por outro lado, várias empresas já perceberam que esse excesso de conectividade tira o profissional do foco do seu trabalho, baixando sua produtividade, e já começam a estabelecer regras para essa facilidade.

Há, portanto, uma distância entre as promessas de futuro e a realidade do presente quando o assunto é automação.

E como podemos julgar moral e eticamente esta realidade sob a ótica das leis da robótica? Será que a ampla adoção da automação cumpre a 1ª Lei gerando desemprego e trabalho incessante?

Dentro desta visão, como podemos entender o tão propagandeado carro autônomo?

O carro autônomo

Certamente ele é um robô, pois sente, pensa e reage, e, portanto seu projeto está sujeito à visão crítica das leis da robótica. Ele está ainda no campo da promessa. E quais são mesmo estas promessas?

Carro autônomo: promessa de recreação para ex-motoristas

Dentro deles poderemos nos abster da estafante tarefa de dirigir e aproveitar o tempo livre dentro dele. Jogos, notícias, filmes, …, tudo ao alcance do ex-motorista em meio ao congestionamento. Nada mau para quem hoje vive se estressando no trânsito congestionado.

Essa promessa não é nova. Na edição de abril de 1958, a revista Science Digest exibe um artigo sobre carros auto-dirigidos por meios eletrônicos.

Science Digest de 1958: promessa do carro autônomo sob a ótica do American Way of Life

Porém, será esta a realidade futura? E qual o futuro que os especialistas esperam?

Hoje, numa cidade como São Paulo, as pessoas já perdem em média três horas por dia para irem e voltarem de seus empregos apenas por conta das condições do trânsito. São horas estafantes, totalmente improdutivas, e o funcionário não rende o que poderia durante seu turno.

Para o futuro, em todas as grandes cidades do mundo os especialistas preveem a quase manutenção da rede viária enquanto as frotas de veículos continuarão crescendo explosivamente. Dentro deste cenário, espera-se que os congestionamentos deixarão de se concentrar em horários de pico para se tornarem contínuos ao longo do dia, e neles as pessoas passarão a perder seis ou oito horas presas no tráfego todos os dias, sem a mínima previsão do horário de chegada.

Hoje é fácil as empresas imputarem a responsabilidade de chegar no horário de trabalho aos empregados, mas será impossível para elas ignorarem as dificuldades nos futuros cenários.

Para que atendam ao seu horário de trabalho, as pessoas terão de sair tão cedo de casa e chegar tão tarde que não terão atendido sequer seu tempo natural de sono. Pior ainda será para aquelas que se propuserem a fazer cursos noturnos.  Isto resulta em trabalhadores completamente exaustos logo no começo do expediente, com baixa produtividade para a empresa.

Se pensarmos sob este futuro esperado, e tirando algum aprendizado sobre a diferença entre a promessa futura e a realidade presente em outras faces da automação, o que podemos esperar do carro autônomo?

Para o futuro nas grandes cidades, o carro autônomo é mais que um mero luxo. Ele será uma necessidade para uma realidade degradada. As pessoas não serão produtivas se tiverem que dirigir seus próprios carros por intermináveis horas de trânsito travado, nem dentro do carro, nem dentro da empresa. Porém, dentro de um veículo autônomo, a própria disponibilidade de conexão em banda larga móvel irá mudar a finalidade do tempo do ex-motorista dentro do carro. Tão importante para sua empresa quanto ele não se estressar com o tráfego ruim será transformar aquelas inevitáveis horas sem propósito em horas produtivas a seu favor.

O carro autônomo não será a sala de estar para o prazer do ex-motorista, mas seu escritório de trabalho, pairando a questão se ele será ou não remunerado por este horário.

E quem pagará por este “escritório volante”? A empresa ou o empregado?

Hoje até existe um movimento ao qual os gerentes de tecnologia da informação das empresas devem estar preparados, que é a onda do “Bring your own device” (BYOD - Traga seu próprio dispositivo), no qual os profissionais optam por trabalhar usando seus gadgets pessoais (smartphones e tablets pessoais). Pode-se pensar que o carro autônomo possa seguir essa onda, entretanto, um carro é um bem muito mais caro que os gadgets atuais, tornando essa opção de compra ou troca como financeiramente mais complexa para a empresa e seu empregado.

Carros autônomos possuirão sistemas informatizados sofisticados, porém em rápida evolução, bem como sistemas de infotenimento avançados, e por isso mesmo, sensíveis à rápida obsolescência.

Como agirá a empresa sobre um funcionário que possuir um carro com sistema de infotenimento obsoleto, incapaz de se conectar à moderna rede segura da empresa? A empresa pagará pelo upgrade do equipamento ou do carro, ela exigirá esse custo do funcionário, ela simplesmente trocará de empregado de carro velho por outro com carro atualizado, ou ela placidamente aceitará que esse funcionário continue com seu carro velho enquanto promove os mais produtivos que aceitem pagar pelo upgrade do próprio bolso?

Será que é isso que esperamos do carro autônomo? Será que não existe uma outra forma de o pensarmos e o usarmos?

Por mais que a automação do carro autônomo possa vir para facilitar diretamente a vida das pessoas, ela pode indiretamente impactar de uma forma negativa nas relações entre pessoas e entre pessoas e empresas, em flagrante desrespeito à 1ª Lei da robótica.

Nenhum outro poder foi mais transformador na sociedade nos últimos 30 anos que a automação. Criamos muitas soluções para problemas antigos, mas junto criamos muitos problemas novos.

Só como exemplo, tivemos a introdução da internet, que nos permite acesso irrestrito à informação. Mas também agora estamos cheios de vírus, spams, programas que capturam números de cartões de crédito, redes de computadores zumbi, todo tipo gente tendo acesso às nossas crianças dentro de casa.

Ao longo de toda a História, a humanidade desenvolveu diversos tipos de poder. Porém, percebeu-se no decorrer do tempo que o exercício irrestrito de cada novo tipo de poder causava diversos males indesejáveis. Era, portanto, necessário repensar seu uso e limitá-lo dentro de condições coerentes.

Nasciam daí a moral, a ética, a filosofia e, por fim, a lei.

Fascinada pelas promessas da tecnologia e movida pelas óbvias vantagens imediatas proporcionadas por ela, a humanidade está  acelerando ao máximo a evolução e a aplicação da automação, mas não estamos medindo nem nos preparando para as possíveis consequências, boas e más, que essa escolha tem proporcionado.

Em algum instante, tal poder transformador mostrará outras faces, e surgirá a necessidade de limitá-lo e regulá-lo. Neste momento, a imaginação de um escritor libertada há mais de 60 anos poderá vir a se tornar um conjunto de leis reais para máquinas e … homens!

Homens e máquinas: leis para uma relação produtiva e pacífica


AAD

Link das imagens:

http://robogames.net/photos.php
https://sites.google.com/site/unipluizvital/
http://halfaworldapart.wordpress.com/2012/06/29/we-dont-need-no-stinkin-cruise-control/
http://www.theatlantic.com/technology/archive/2012/04/predicting-the-driverless-car-in-1958/255823/
http://socialeyezer.com/2012/03/24/revving-up-technology-states-making-way-for-driverless-cars/
http://notthemsmdotcom.wordpress.com/2012/09/29/america-in-yemen/predator-firing-missile4/
http://spark.qualcomm.com/blog/future-autonomous-cars-act-driving-coaches-not-just-chauffeurs
http://trendit.my/topics/gadgets_and_tech


39 comentários :

  1. Aléssio Marinho28/02/13 12:38

    Excelente post!

    Deixei de usar smartphone a 5 anos, quando comecei a ficar dependente daquela coisinha sem botões e que acessava a internet em qualquer lugar.
    Hoje, sou taxado de atrasado, por ter um telefone que liga, recebe e tira fotos...
    Não me imagino a bordo de um carro 100% controlado por eletrônicos. Melhor andar de metrô ou ônibus, não?
    Quanto a passar 3 a 6 horas por dia pra ir e vir do trabalho, existe uma solução: morar perto dele. Sofre quem quer. rsrsr
    Qualidade de vida não é só um gordo depósito na conta no 5º dia útil...

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    1. Moro a 10 minutos do trabalho e não pego congestionamento pois vou no sentido oposto que muitos brasilienses vão. E só saio para um local mais longe só se eu ganhar no mínimo o triplo.
      Lembro do tempo que fazia faculdade, todo dia tinha que pegar aquele trânsito enjoado, seja de ônibus ou de carro, e não rendia nada. Me sentia um lixo, pois no colégio eu sempre me esforçava e conseguia aprender a matéria e tirar boas notas, mas na faculdade nunca rendi o esperado e vivia cansado.

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  2. Acredito ser este, um dos post mais longos que li nos últimos anos - juntamente com seus anexos -. Mas para mim, um dos mais deliciosos. Tecnologia e carros são meus pratos favoritos, portanto, me empanturrei. Adorei.

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  3. Nossa eu lembro do Robo robby, eu era criança quando vi esse filme! Excelente post, como o tulio falou gigante mesmo mas muito bom! gostei!

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  4. Sensacional o post !

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  5. Mais um post brilhante, André Dantas!

    Agora, quanto ao drone UAV, creio que ele se encaixaria mais no conceito de manipulador, não?

    Até porque controlando o drone desde o momento da decolagem até o pouso está um piloto em terra treinado para isso. Todas as ações executadas por ele são ordenadas por um humano, inclusive o momento de disparar o míssil. Pode ser que ele tenha um modo de vôo automático que funcionaria da mesma forma quie um avião comercial (manter altitude, curso e velocidade de cruzeiro previamente programados), mas a maior parte das ações parte de uma pessoa.

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    1. Carlos Eduardo, os UAV são robôs verdadeiros.

      Eles podem sim ser operados por telecomando, mas isso não é uma necessidade.

      Mesmo pequenos UAV´s, lançados à mão, já possuem inteligência para atingir uma determinada altitude e realizar uma tarefa.
      Há UAV´s de mão que são capazes de receber uma ordem de terra mandando seguir um determinado carro ou uma pessoa vistos pela câmera onboard. O robô tem inteligência interna para seguir um alvo pré-determinado.

      No caso dos grandes UAV´s, a coisa está ainda mais avançada.
      Hoje é impossível para um caça tripulado bater um UAV tipo caça-bombardeiro num dogfighting. Cerca de 1/3 do peso e do arrasto de um caça-bombardeiro tripulado refere-se a suporte à tripulação (instalações de oxigênio, painéis de instrumentos, assento ejetável, canopy, etc.) Um UAV de poder de fogo equivalente não carrega nada disso, deixando ele mais leve e com menos arrasto. Além disso, nenhum avião pode ultrapassar os 9 G´s durante as manobras, mas os UAV´s podem usar os 15 G´s que a estrutura da aeronave suporta. Mesmo que a inteligência artificial no UAV esteja muito aquém da humana, a vantagem física do UAV o faz vencer com grande margem.

      Para tornar a "brincadeira" ainda mais interessante, esses UAV´s de todos os portes vem tirando partido de avanços numa área da inteligência artificial chamada de "sistemas multi-agentes". Trabalhando de forma colaborativa, a soma de UAV´s de baixa inteligência cria uma entidade esparsa muito mais inteligente, assim como ocorre com formigas e abelhas.
      Se um caça tripulado aparece contra um grupo de UAV´s, enquanto o caça se fixa em derrubar um UAV, haverão outros 10 se posicionando para derrubá-lo.

      Ainda penso em escrever um artigo de como essa inteligência coletiva funciona, porque ela ocorre até entre humanos, e será necessária para os carros autônomos.

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    2. Lorenzo Frigerio28/02/13 19:53

      Só que tem uma coisa, André: os UAVs são suscetíveis à interferência eletrônica, e creio que todo avião de caça moderno, ou com aviônica modernizada, tem recursos para desabilitá-lo. Como você deve saber, os iranianos conseguiram capturar um UAV intacto.
      Leia sobre as 22 "dicas" da Al-Qaeda para se driblar drones:
      http://hosted.ap.org/specials/interactives/_international/_pdfs/al-qaida-papers-drones.pdf

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    3. André Dantas,

      Um cenário possível é que um país invada o sistema que guia esses UAVs (não existe sistema inviolável, qualquer um no primeiro ano de análise de sistemas sabe isso) e use os mesmos UAVs para bombardear o país ao qual eles pertencem.

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  6. Excelente post. Esse assunto rende muita discussão pois não temos como controlar o uso da tecnologia só para o bem, como no proprio texto diz ela favoarece alguns e no mesmo tempo prejudica outros. Sem contar que boa parte de desenvolvimento tecnologico se deu em épocas de guerras (I, II e Guerra Fria).

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    1. Bart, devagar com essa linha de raciocínio. Estou rascunhando outro artigo chamado "O Tao do Carro" que enfoca exatamente esse tipo de situação.

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    2. Lorenzo Frigerio28/02/13 19:55

      Você o está baseando em "O Tao da Programação"?

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  7. Corsário Viajante28/02/13 15:45

    Caramba, começo inesperado, mas valeu a pena, texto muito legal!
    Uma dica que dou sobre ética e robôs é o filme Blade Runner. Embora um pouco confuso e ocasionalmente um pouco pedante e chato, vale a pena.
    Enfim, difícil comentar uma análise profunda dessas. Mas não gosto da idéia de carros autônomos, talvez seja boa idéia em ônibus e cia. (em SP alguns metrôs são autônomos, se não me engano) mas acho que essa questão, às vezes, serve para maquiar o real problema: a falência do nosso modelo de urbanização e etc etc onde todo mundo mora longe do trabalho e não tem como ir com dignidade de forma coletiva.
    Enfim, assunto dá pano para a manga! Parabéns!

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  8. Lorenzo Frigerio28/02/13 16:36

    Uma cena que sempre me volta à cabeça é aquela do filme Robocop, em que ele era programado, em baixo nível, para não atacar nenhum dos executivos da empresa que o havia criado. O Ronny Cox, que era o verdadeiro bandido do filme, era o presidente da empresa. Foi então que o dono da empresa disse: "You are fired!".
    O Robocop então falou "thank you" e mandou bala. O cinema inteiro vibra.

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    1. Lorenzo, o filme Robocop é da época que fiz o curso da mecatrônica, e discutimos essa cena.

      O grande problema entre o Robocop e as leis da robótica é que ele não é um robô puro.
      Há implicações éticas enormes em autômatos comandados por cérebros humanos.

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  9. Nossa, chamar de post é até uma ofensa, isso foi um artigo!

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  10. Quando se cria um robô ou um manipulador para substituir um posto de trabalho por questões puramente econômicas, não existe diferença prática entre este equipamento e um UAV militar...a primeira lei da robótica estará infrigida nos dois casos da mesma forma, apenas a rapidez da destruição é diferente!

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  11. Fenomenal o text, AAD, como sempre! Aguardo ansiosamente pelos próximos! Abraço.

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  12. Como sempre, post perfeito, completo e direto ao ponto.

    Sobre carros autônomos, uma forma que vejo como muito mais eficiente para reduzir o tempo perdido em congestionamentos seria trabalhar em casa. Com o avanço da confiabilidade de conexões de alta velocidade, muitas pessoas poderiam trabalhar a maior parte do tempo em casa, indo ao escritório ocasionalmente.

    Se for para ter um carro autônomo, prefiro ficar sem carro, pois qual seria a graça de entrar e ficar somente de passageiro? Quando necessitasse de locomoção e o sistema de transporte coletivo não fosse possível de ser usado, chamaria um táxi e pronto!

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    1. Road Runner,

      Pensando de forma racional, um carro autônomo ainda ofereceria várias vantagens em relação a transporte público ou taxi. Afinal com um veículo próprio, autônomo ou não, não dependemos de horários nem feriados, podemos carregar o que der na telha no veículo, podemos fazer viagens longas sozinhos ou só com quem gostamos sem aturar o bando de gente mal educada, porca e sem noção que sempre tem em ônibus / trem, etc. Sem contar que podemos ir a lugares onde nenhum transporte público chega e não tem táxi (nessas situações, não sei como seria um carro autônomo - ou ele precisaria ser capaz de "enxergar" e seguir uma estradinha de terra cercada de mato que não existe nos mapas, ou teria um modo de condução manual).

      Entendo que é toda essa liberdade e independência que ter um veículo próprio proporciona que tornou o automóvel um símbolo dos EUA, e não o ato de dirigir em si.

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  13. Lauro Agrizzi28/02/13 19:52

    Pior do que proibir a torcida em comparecer ao jogo é o advogado do menor que se diz o acionador do sinalizador, pedir exame de corpo delito para provar que o mesmo é culpado. Nunca vi isto na minha vida. Advogado provar que o réu é culpado. Ta cheirando armação para defender os corintianos presos.Manda o cara se apresentar lá na Bolívia.Isto é uma armação ridícula da torcida organizada do Clube.Isto demonstra que o Brasil não pode ser considerado um país sério.Como um menor tem dinheiro para comprar um sinalizador do qual diz que não sabe usar? Estão chamando o povo de otários.Vamos parar com esta brincadeira.

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  14. Dá para copiar e colar e apresentar como TCC na faculdade. Ficou muito bom o artigo, André.

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  15. Lorenzo Frigerio28/02/13 20:12

    André, o que você acha do computador HAL-9000?
    Quando era garoto e vi o filme pela primeira vez, o comportamento irracional do mesmo me pareceu pura obra de ficção.
    Entretanto, muitos anos depois, quando PCs já haviam se tornado objetos de uso diário, rodando o infeliz Windows 98, caiu-me a ficha de que o HAL havia sucumbido a um erro de programação, ou seja, "deu pau" e se comportou de uma maneira que julgamos irracional; porém, considerando-se a falha no programa, ele não havia funcionado irracionalmente.
    O que nos diferencia das máquinas que criamos, é que elas não podem falhar quando o programa é perfeito, e um software ou OS perfeito não é impossível. Já nós estamos ainda tentando entender a nós mesmos, e como esse conhecimento não é de um nível "divino", damos apenas a nós o direito de cometer erros.

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    1. Lorenzo, vc leu o livro o do 2010?

      No livro do 2010, existe uma pequena introdução do próprio Arthur Clark, onde ele conta a história do livro.

      2001 foi escrito pra ficar inconcluso, mas para surpresa do próprio Arthur Clark, ele recebeu uma correspondência um dia de um jovem brasileiro contendo o esqueleto do que seria o 2010. E o ponto chave para ele escrever esse esqueleto foi ter resolvido vários enigmas que o autor tinha deixado na história original para ficarem em aberto.

      No filme do 2001, quando HAL é desligado, o astronauta Dave vê uma mensagem gravada sobre os reais motivos da missão a Júpiter.

      No livro do 2010, o Dr. Chandra descobre que a Casa Branca inseriu burocraticamente a mensagem e todos os parâmetros reais da missão sob o conhecimento de HAL, mas HAL recebeu ordens de sigilo absoluto e impedir que a tripulação sequer desconfiasse desses objetivos, assim como instruí-lo de que a missão era importante demais para fracassar, ao mesmo tempo que o prepararam pra concluir a missão mesmo que toda tripulação estivesse morta.
      Toda essa pressão sobre a inteligência de HAL o levou a paradoxos e o jeito de resolver os paradoxos era matando toda tripulação.

      No livro isso fica bem melhor explicado que no filme.

      Eu ando estudando muito sobre tecnologia de ponta de inteligência artificial, e tenho uma notícia engraçada pra vc.
      Existem várias tecnologias de inteligência artificial se desenvolvendo a passos largos, mas nem tudo nelas é um mar de flores.
      - Esses sistemas inteligentes apresentam flexibilidades que não podem ser programadas por seres humanos. O aprendizado tem de ser ensinado e não programado;
      - Não se tem controle sobre o que e como esses sistemas inteligentes aprendem;
      - O aprendizado da máquina é uma grande caixa preta. Uma rede neural bem ensinada é indiscernível de outra que mal começou a aprender pra quem olha dentro das duas. Não é possível extrair da rede treinada nenhuma regra sintética que possa ser utilizada por um programa convencional.
      - A natureza de aprendizado e de flexibilidade desses sistemas está associada indivisivelmente a uma certa margem de erro. Esses sisetamas erram, ao contrário do que estamos acostumados com computadores sempre precisos.

      Por causa dessas características, a aplicação da tecnologia de inteligência artificial tem sido minimizado nos produtos de consumo.
      Um programa de reconhecimento de carateres (OCR) precisa de uma boa rede neural pra funcionar. Mas essa rede vem de fábrica com o aprendizado feito e vai passar o resto da vida útil sem aprender mais nada. A rede é mantida travada para o aprendizado.

      Engenheiros e programadores só tem gostado dessas tecnologias em jogos. O resto, o pessoal se puder, passa longe.

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  16. Lembrei-me de 'Matrix' e do Arquiteto, personagem que engendrava a opressão das máquinas sobre o que restou de humanos sob (sob mesmo, no subterrâneo) a Terra.

    Tecnologia demais atrapalha. A sociedade moderna se desumaniza a olhos vistos, com sua lógica da 'obsolência programada', como disseram alhures, nem sei se foi neste blog. A apologia da ciência e do Ego conduzem a um novo positivismo que rejeita qualquer coisa não tecnológica e sepulta qualquer tentativa de rejeição deste sistema.

    Ainda bem que não viverei para ser conduzido pelos carros robotizados...

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    1. João, engraçado que estou assitindo o Animatrix atualmente.

      A natureza é sábia porque ela trabalha dentro de equilíbrios. Nós buscamos sempre a eficiência máxima, então todos nossos modelos quer sejam tecnológicos, sociais, econômicos, etc, são sempre modelos em crise.

      Esse é o problema com a tecnologia atual. Estamos radicalizando, e aí, lá na frente, vamos pisar no tomate e viajar na batatinha.

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    2. Isso mesmo, caro André. Parabéns pelo post. Aliás, só um reparo: onde acima escrevi 'obsolência' entenda-se 'obsolescência'.

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    3. João, sobre a obsolescência, eu faço referência dentro do texto a outro post antigo meu, chamado "O Inferno da Obsolescência Eletrônica".

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  17. Sr. André Dantas, para complementar a história, Isac Asimov, Físico e um dos maiores escritores de ficção científica, que criou as 3 leis da robótica, usou a palavra Robot, baseado em um escritor Tcheco(Karel Kapek) que foi o criador da expressão em 1924, em seu livro RUR(Renzo Universal Robot) completando esse ano faleceu
    outro grande escritor do genêro o Inglês Ray Bradbury.
    Abraço
    Coronel Anônimo

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  18. Quero pedir desculpas pois como não li integralmente o post acabei repetindo o escrito pelo Sr.André Dantas, provando mais uma vez que a pressa é inimiga da perfeição.
    Meu motivo foi, que por ser apreciador do genero ficção científica, tendo mais de 100 livros sobre o assunto(inclusive ha grandes escritores brasileiros, como Origenes Lessa e Dinah Silveira de Queiroz que escreveram ficção científica) eu pisei no tomate.
    Mais uma vez peço escusas pelo meu açodamento.
    Coronel Anônimo

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  19. É como dizia um professor: máquina não quebra, não tem preguiça, não briga com a mulher nem fica de mal humor quando o Corinthians perde.

    Quanto ao conceito do carro autônomo, permitir nos abster da estafante tarefa de dirigir e aproveitar o tempo livre dentro dele, penso que já existe uma solução mais simples há tempos: motorista, seja ele particular ou do transporte público.

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  20. Jorge Dias Lage01/03/13 17:01

    Parabéns ao articulista André Dantas, por abordar a questão da ética versus tecnologia. O texto é primoroso. Na minha opinião, apenas a questão econômica tem sido considerada no desenvolvimento de sistemas autônomos e da tecnologia de modo geral. Decorrem da ambição desmedida as promessas utópicas de um futuro "à la" Jetsons, que não serão cumpridas, posto que, como comprovado no texto do autor, a tecnologia sempre traz no bojo a exploração do homem pelo sistema econômico, se não forem estabelecidos limites. Eu sou engenheiro, minha formação não é em automação, mas atuo no campo de ensino de tecnologia e considero de suma importância incluir os aspectos éticos e humanos no currículo.

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    1. Jorge, vivemos num mundo em dinheiro, diversão e prazer vem antes do cuidado com o futuro. Esquecemos as antigas lições a duras penas aprendidas pelas gerações anteriores.

      O trabalho do engenheiro não é inconsequente. Todo trabalho trás consequências boas e más a longo prazo.
      Por isso a ética é tão importante no nosso ramo.

      O parabenizo pela sua iniciativa, cada dia mais rara.

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  21. Sobre o problema das ruas cada vez mais congestionadas e de se perder a maior parte do dia se deslocando para e do trabalho, acredito que com a evolução da informática e conexões de banda larga cada vez mais rápidas a preços acessíveis, a melhor saída é o home office.

    Hoje quase todos os funcionários cujo trabalho não é braçal nem envolve atendimento ao público, já poderiam perfeitamente trabalhar de casa com um computador e uma conexão a internet, conectado a vpn da empresa. Muitas empresas se recusam a adotar o home office por pura visão tacanha e retrógrada dos seus gestores (que quase sempre moram bem perto ou comparecem quando querem), que até passam mal se o "escravo" não estiver ali todo dia batendo ponto e presente para o capataz poder chicoteá-lo.

    Embora nem todos consigam manter a mesma produtividade ao trabalhar de casa, não só as empresas mas o próprio governo não poderá continuar fechando os olhos para esse problema por muito tempo. Já passou da hora do governo oferecer incentivos para empresas que adotam e encorajam o home office. Quanto mais gente trabalhando em regime de home office, além de diminuir o estresse e melhorar a produtividade, menos congestionadas as ruas ficam para aqueles que realmente precisam estar presentes no trabalho. Em vez de desencorajar o uso do carro, o governo poderia incentivar o home office, começando com o próprio funcionalismo público.

    Já recusei uma oferta de emprego onde ganharia quase o dobro do que ganho atualmente, porque eu perderia no mínimo umas 3 horas por dia no deslocamento casa-trabalho-casa - podendo chegar a 5 horas em dias com trânsito complicado (eu poderia alugar uma moradia próximo da empresa, mas pra isso a oferta teria que ser um pouco maior já que tenho a vantagem de morar em casa própria).

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  22. Adriano
    Coincidentemene, ontem a Yahoo (EUA) divulgou nota dizendo que a partir de maio quem trabalhava em casa terá de voltar a trabalhar presente na empresa. O motivo alegado é o convívio com colegas gerar novas idéias, até mesmo no bate-papo na hora do café.

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    1. Bob,

      É estranha essa ação do Yahoo, já que vai na contramão do que tenho visto na maioria das corporações americanas, que tem adotado o home office em massa. Até porque a interação via internet está cada vez mais facilitada, com sistemas de videoconferência, e acredito que em parte suprime essa necessidade de interação. Na empresa onde trabalho nossas melhores idéias costumam surgir em conversas via e-mail ou Skype.

      Nos casos de home office sou a favor de se adotar um meio termo, como pedir o comparecimento do funcionário 1 ou 2 vezes por semana, para alimentar esse tipo de interação presencial.

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    2. Adriano
      Também achei muito estranho e o que você disse sobre conversas via Skype é fato. Tenho um trabalho em andamento com um editora espanhola e comumente fazermos reuniões, com o Atlântico no meio.

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  23. AD, tenho um tio que trabalha com esta questão de automóveis autônomos, e ao replicar a ele este belo post, ele me retornou 2 link´s bem interessantes:

    http://www.baboo.com.br/2012/05/volvo-testa-veiculos-autonomos-na-espanha/
    e
    http://www.youtube.com/watch?v=JoWbUR4b9io

    Acho que em alguma coisa vem a calhar :)

    [ ]´s
    Assis

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    1. Assis, esse experimento da Volvo eu já havia visto. Ainda é um experimento limitado, pois o caminhão à frente funciona como "mestre" enquanto os carros que vem atrás são "escravos", já que boa parte das informações sobre condições da pista vem do caminhão-mestre e os demais apenas obedecem.

      Na verdade, isso é parte de um experimento maior, pois há especialistas prevendo que o futuro estará num comportamento colaborativo entre os carros.

      Já esse vídeo da FIAT eu não conhecia.
      Porém, acho bom vc guardá-lo, pois daqui há 20 anos, quando carros autônomos estiverem nas ruas, será possível comparar as promessas de futuro feitas no passado e a realidade daquela atualidade, assim como digo no texto.

      Mande um agradecimento ao seu tio.

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