google.com, pub-3521758178363208, DIRECT, f08c47fec0942fa0 AUTOentusiastas Classic (2008-2014)

Prometo a todos vocês que não voltarei a falar em bicicletas tão cedo, mas não pude perder a oportunidade de emendar este post no outro.

Recebi essa foto em um forum de discussões onde contam a seguinte história: em 1977 um possível candidato a ciclista voador resolveu estabelecer um recorde de velocidade em cima de uma bicicleta. Ciente de que a aerodinâmica é a inimiga número 1 de qualquer ciclista, achou que seria muito bom ter um Porsche 935 à sua frente.

A tentativa de estebelecer o recorde foi realizada na pista de alta velocidade de Wolfsburg, mas acabou frustrada: o pneu traseiro da bicicleta descolou do aro (pneu tubular) a cerca de 100 km/h, mas felizmente o ciclista conseguiu manter o controle da bicicleta e saiu ileso da brincadeira.

A carenagem do 935 foi guardada para outra tentativa, mas acredito eu que o ciclista finalmente criou juízo e desistiu da aventura.

Pergunta aos leitores do blog: alguém reconhece o piloto do Porsche? Perguntinha relativamente fácil, considerando a barbicha e a carequinha que são marcas registradas do mesmo.

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É interessante ver como um assunto serve de gancho para o outro. O Marco Molazzano acabou de postar sobre motocicletas e a mesmice de certos desenhos, fruto da falta de criatividade e/ou coragem por parte dos fabricantes, que muitas vezes têm receio de "chocar" seus consumidores com algum produto inovador.

Nunca tive uma motocicleta. A minha iniciação no mundo da mecânica se deu através das bicicletas: as primeiras porcas e parafusos que apertei na vida, o primeiro contato com óleo, graxa, rolamentos, correntes de transmissão, engrenagens, manetes. Acredito que praticamente todos os entusiastas começaram desta maneira, duvido muito que algum entusiasta não saiba andar de bicicleta.

Sempre tive predileção pelas mountain bikes, por serem bicicletas capazes de rodar em qualquer tipo de terreno. E foi andando de mountain bike que conheci Horst Leitner, um engenheiro austro-americano que fez fama no mundo das motocicletas (e fora dele também).


Horst Leitner era um piloto de motocross quando ainda morava na Áustria, na década de 60, ocasião em que o esporte ainda era apenas um hobby. Em pouco tempo o motocross profissionalizou-se e Leitner foi trabalhar para a equipe oficial da Puch, o tradicional fabricante de motocicletas (e veículos) austríaco.

Ainda morando na Áustria, Leitner chegou a abrir um concessionário Puch, ao mesmo tempo em que prestava serviços de engenharia para a Mercedes-Benz e outros fabricantes. No final da década de 70 imigrou para os Estados Unidos, mantendo os bons contatatos que tinha com a Puch.

Continuou praticando o motocross e logo percebeu que a suspensão traseira das motocicletas era muito influenciada pela tensão da corrente de transmissão. Foi então que Leitner desenvolveu o Anti-Tension Kettenantrieb.


O mecanismo, apesar de simples, fazia uma grande diferença no comportamento da motocicleta ao anular a influência do torque da corrente no movimento da balança da suspensão traseira. Foi a primeira das idéias geniais de Leitner, o que lhe rendeu uma grande notoriedade na época.

Ciente do talento de Leitner, um dos herdeiros da família Puch convidou-o para fabricar motocicletas nos Estados Unidos, partindo do zero. Leitner aceitou o desafio e o colega austríaco tratou de entrar em contato com fabricantes patrícios, como a KTM e a Rotax.

O palavrão Anti-Tension Kettenantrieb foi abreviado e assim surgia a ATK Motorcycles:


A ATK revolucionou o mercado ao introduzir não apenas o próprio Anti-Tension Kettenantrieb, mas também as primeiras dirt bikes com motores de 4 tempos e partida elétrica. Introduziu também as primeiras motard, a injeção eletrônica (no motocross) e a suspensão traseira linkless, que hoje é uma das marcas registradas da KTM. Hoje a ATK é o único fabricante norte-americano de dirt bikes.

E onde é que entram as bicicletas nessa história? Pois bem, logo que comecei a andar de mountain bike, no final dos anos 80, todas as bicicletas eram rígidas e obedeciam a um método de construção tradicional em aço cromo-molibdênio, tendo como base o projeto original de Tom Ritchey. Uma mountain bike era praticamente uma bicicleta de estrada reforçada, equipada com uma transmissão de bicicletas de ciclo-turismo.

Foi em 1989 que um ex-mecânico da equipe de motocross da Honda chamado Paul Turner desenvolveu a primeira suspensão (dianteira) para mountain bikes. Era o Rock Shox RS1, um garfo telescópico que funcionava com ar-comprimido e tinha controle hidráulico de compressão e retorno, um verdadeiro objeto de desejo para qualquer mountain biker na época.


Fora o conceito de suspensão em uma bicicleta, não havia nada de novo. O garfo era basicamente uma miniatura simplificada dos garfos Showa utilizados nas Honda CR dos anos 80 e apresentava uma infinidade de problemas: falta de rigidez, selos de vedação problemáticos e alteração na geometria da bicicleta. Como costuma dizer o amigo André Dantas, em engenharia não existe "ganha-ganha", mas sim "ganha-perde".

Na mesma época, Horst Leitner vendeu a ATK para um grupo de investidores e criou a AMP Research, uma empresa americana que tinha como objetivo criar mecanismos simples e funcionais para a indústria automobilística.

Ciente da complexidade e das deficiências do Rock Shox de Paul Turner, o criativo Leitner surpreendeu o mundo do ciclismo com sua mais nova criação: o garfo AMP F1:


Novamente, uma invenção relativamente simples, mas revolucionária: um garfo rígido articulado por um paralelogramo, utilizando uma pequena mola de aço como elemento elástico, com compressão e retorno ajustáveis através de um pequeno amortecedor hidráulico. Ao contrário do garfo telescópico, a interferência na geometria da direção da bicicleta era mínima. E o peso do garfo AMP era muito menor, sobretudo em suas evoluções F2 (em alumínio) e F3 (em fibra de carbono)
.

Apesar de revolucionário, o garfo AMP não se tornou um objeto de desejo dos ciclistas. Foi um produto muito à frente de seu tempo, que realmente "barbarizou" o mercado com seu mecanismo inovador. Mas Leitner não se deu por vencido e resolveu inovar mais uma vez.

Ainda com a cabeça focada em suspensões para bicicletas, Leitner criou um sistema de suspensão traseira cujo funcionamento era muito semelhante ao Anti-Tension Kettenantrieb das motocicletas: em mais uma lição de simplicidade, ele adicionou um simples pivô na balança da suspensão traseira, logo à frente e ligeiramente abaixo do eixo traseiro. Estava criado o Horst Link (na figura abaixo, o número 4):

O Horst Link permite que o eixo traseiro gire para frente ao ser puxado pela corrente, atenuando significativamente o efeito de tensão na corrente e consequentemente eliminando os efeitos da cadência do ciclista no movimento da suspensão traseira.

Este sistema sim caiu nas graças do público e hoje é utilizado por 90% das bicicletas equipadas com suspensão traseira. O sucesso foi tão grande que muitos fabricantes começaram a copiar o desenho descaradamente. Sem condições financeiras de brigar com todos os fabricantes, Leitner vendeu a patente à Specialized, que hoje cobra royalties de todos os sistemas baseados no Horst Link.

A engenhosidade das bicicletas de Leitner era tão grande que a Mercedes Benz resolveu contratar a AMP Research para fabricar bicicletas com a sua grife. Durante muitos anos as bicicletas Mercedes Benz foram sinônimo do que havia de melhor, superior às bicicletas BMW (Pro-Flex/K2) e Porsche (Votec).


Leitner já não produz mais bicicletas, mas é responsável pela criação de diversas engenhocas para a GM, Ford, Chrysler, Toyota, Nissan, Mazda, Mitsubishi, Subaru e Harley Davidson.

De estribos retráteis para SUVs a comandos de embreagem mais leves para Harleys, Horst Leitner continua a trabalhar tendo como inspiração a famosa frase de Albert Einstein: "Tudo deveria se tornar o mais simples possível, mas não simplificado."

Me arrependo amargamente de ter vendido meu garfo AMP: apesar de não comercializar mais seus garfos e bicicletas, o próprio Horst em pessoa faz questão de suprir seus antigos clientes com peças de reposição, ao contrário da Rock Shox, que mudou de mãos e simplesmente ignora velhos mountain bikers como eu.

FB

Sites que valem a visita:

ATK Motorcycles

KTM Motorcycles

AMP Research
Desculpe pelo longo intervalo desde o último post.
O assunto hoje é design. De motos, mais especificamente. Assim como os carros, elas estão se tornando cada vez mais commodities. Soluções parecidas, chega a cansar. A esmagadora maioria de carros 4-cilindros com tração dianteira tem paralelo em motos, mas por segmento. Inúmeras monocilíndricas com transmissão por corrente que imperam das 50 cm³ às 350 cm³. Depois bicilíndricas sem pretensão esportiva no segmento intermediário e, fechando, as quatro cilindros em linha para esportivas dos mais variados níveis de especialização. Por isso, aplaudo qualquer variação do mainstream, onde vivem normalmente os bichos que sobreviveram a esse Darwinismo mercadológico. V-2s como as Harleys ou as Ducatis, boxers como as BMWs e uns poucos modelos que dare to be different, como as V-4 de Hondas VFRs e Yamahas V-Max e boxers 6 como nas Gold Wings.
Mesmo os raros 3-cilindros tiveram um reaparecimento interessante na Triumph 675, eleita moto do ano por várias revistas. Percebe-se que a sobrevivência depende dos mitos, senão já teriam solução "típica", caindo nos habituais cilindros em linha. Me incomoda ver modelos novos de BMW que usam L-4, mesmo bem inclinados etc, como única maneira de aproximá-los do desempenho dos líderes nipônicos. Ora, números! Olhar apenas potência máxima, é só isso? E a dirigibilidade de uma moto boxer com seus cilindros lá embaixo, completamente diferente do comportamento de uma L-4? Colocadas lado a lado, não vai ganhar a corrida contra um competidor com L-4 moderno, mas quem disse que eu quero colocar minha moto na pista?
Mais tedioso do que configuração de motores é a variedade de suspensões, principalmente na dianteira. Variam quase nada. Conto alguns poucos modelos de Harley Davidson que não usam garfos telescópicos, as BMWs boxer com seu misto de telescópico com amortecedor/mola externos chamado TeleLever, novamente as BMWs L-4 com um interessante paralelogramo e garfos rígidos chamado Duolever (estranho como fica escondido, muitos nem devem saber que são diferentes, parece que temem chocar a clientela) e só. Garfo invertido ou normal não vale, é refinamento apenas, a configuração é a mesma! A suspensão dianteira das motos tem vários desafios, como lidar com a torção e a mudança de geometria quando comprimida. A tradicional suspensão telescópica vem lidando com a torção através de maiores dimensões e melhores materiais (e design invertido, a tal "upside down"), mas a mudança de geometria é inerente a esse design. Qualquer suspensão que use um elemento elástico que altere câmber e cáster terá o mesmo comportamento (como no sistema Telelever da BMW).


BMW Telelever, usado nas "R"

BMW Duolever, usado nas "K"

Aí alguns malucos aparecem com idéias interessantes, objeto deste meu texto. Lembro, quando moleque, da fantástica Elf que corria nas 500-cm³ nos anos 80. Aquela suspensão dianteira horizontal (com um braço direcional) rendia ótimas fotos e sempre chamava a atenção.


A Yamaha chegou a vender a GTS 1000, com sistema semelhante.


O criativo neo-zelandês John Britten decidiu criar sua própria moto na garagem de casa para competir na Superbike. Seu sistema é parecido com o DuoLever da BMW, muda pouca coisa na localização de mola/amortecedor. Repare que esses elementos da suspensão dianteira estão escondidos dentro da carenagem. A mola logo atrás da roda dianteira é parte da suspensão traseira. Compare com a imagem da BMW K lá em cima. Lembre-se que a BMW K com essa suspensão foi lançada recentemente e a moto de Britten é de 1992.
Infelizmente John faleceu precocemente aos 45 anos em 1995.
A Confederate usa um sistema parecido, mas creio que aquele garfo oversized apela demais pra estética em detrimento da funcionalidade. Bem diferente da Britten e da BMW K.


Quem quisesse comprar alguma coisa diferente tinha a opção da Bimota Tesi com sua suspensão dianteira que se assemelhava à traseira, com as traves horizontais. O design do resto da moto nem era tão diferente assim. Repare que a solução para a direção é parecida com a de carros, uma barra de direção rígida. Na foto há duas barras vermelhas. A superior é parte da suspensão, existe para manter a geometria inalterada com o movimento do braço. A barra vermelha inferior é quem movimenta a roda lateralmente. Nota-se o pequeno ângulo de giro que isso proporciona. No trânsito não é ágil como um scooter, mas não comprometia a condução em estradas, onde esse extremo não é imprescindível.

A Bimota morreu e renasceu, como várias outras marcas. Eu temia que fosse novamente uma jogada de marketing de um empresário oportunista, mas tive a grata surpresa de ver que o modelo de suspensão horizontal foi atualizado. É a única opção, hoje, para quem queria experimentar essa solução diferente.

Ops, era a única, porque um sueco maluco (sempre eles, não?) inventou esse bicho aí em cima. O responsável foi um tal de Stellan Egeland, dono de uma empresa de customização de motos (http://www.seservice.se/) que já ganhou vários prêmios (Melhor da Europa e Melhor do Mundo). Sinceramente não sei o valor ou a metodologia desses prêmios, mas é evidente que a moto é diferente e criativa. Novamente a suspensão dianteira é repensada. Neste caso, a direção é hidráulica. A barra visível acima do braço de suspensão em treliça é parte da suspensão apenas, não da direção. A roda dianteira movimenta-se para os lados pelo acionamento de dois pistões bem na base do conjunto (há um de cada lado). O circuito hidráulico vai quase até a suspensão traseira (aquele tubinho que passa por baixo do cilindro do motor BMW boxer e desaparece atrás da pedaleira). Eu, particularmente, gostei também do design geral da moto. Mas é claramente um estilo "Ame-o ou odeie-o!".
Gosto de ver coisas assim. Saindo do comum, tentando soluções novas para velhos problemas.
MM
autor do post: Arnaldo Keller

Não adianta dizer que não ou que não é bem assim, pois tenho certeza que piloto que é piloto é bicho burro, mesmo. Ajoelhado e de braços abertos, com o rosto voltado para o céu, confesso, sou piloto e bicho burro. Vou dar um exemplo recente para provar o que afirmo.
Como estou organizando os carros antigos que estão expostos no Quatro Rodas Experience -- que são 15, distribuídos em 3 boxes --, fico por lá meio-período, e nessas um amigo, o Zique, foi me visitar. Chegando lá ele ficou na fissura de guiar em Interlagos, coisa que nunca havia feito, e tratou de ir atrás de comprar uma guiada, fosse lá em qualquer carro.
Para nossa surpresa, nos informaram que para comprar o raio da guiada ele teria que ir até o Portão 7, isso mesmo, o portão lá de fora na beira da rua, o que seria uma boa caminhada ou ele teria que ir até o estacionamento, pegar seu carro, ir até o portão etc, etc, uma trabalheira e perda de tempo estúpida. Por sorte um rapaz da organização, meu chapa, logo se prontificou a levar o Zique num jipinho do evento que estava ali do lado, e lá foram eles... tuc...tuc...tuc no sacolejante jipinho.
O Zique voltou dizendo que as reservas estavam encerradas não sei por que raios, fulo da vida. Falei que dava um jeito. Fomos lá para o pit-lane e o pessoal legal arrumou um Mégane Hatch turbo pro Zique e um Mégane Gran Tour pra mim. Falei pro Zique que aquele carro dele ao ser freado no talo -- tipo a freada para a Curva do Lago ou para o S do Senna --, ciscava com a traseira pra lá e pra cá, pois no ano anterior eu pegara aquele mesmo carro meio amarelinho e ele fazia isso.
E era verdade. No ano passado eu senti isso quando tirava um racha com outro amigo, o Diego, cada um num Hatch turbo. Depois do racha, o Diego disse que o dele não rebolava na freada, e eu tinha visto que ele esteve freando forte. Mesmo assim, escrevi confirmando minhas impressões quanto à freada, deduzindo que era devido a muita transferência de peso para a dianteira e alívio da traseira -- poderia ser molas dianteiras fracas --, e má dosagem da distribuição de forças nos freios.

Um pouco antes do Zique e eu entrarmos nos carros, um piloto amigo confirmou minha impressão e disse que aquele que o Zique guiaria, anos atrás tomara uma forte cacetada na traseira e, mesmo com tudo consertado como se deve, nunca mais ficou bom de freada. Taí. A gente precisa acreditar no nosso taco. Eu estava certo.

O Zique se mandou com o turbo dele lá de uns 200 cv e lá fui eu brincar com o Gran Tour de 2 litros, 16 válvulas e 6 marchas. Belo dum carro. Ergonomia perfeita, o volante regula altura e distância, bancos que nos agarram justinho, motor elástico e bom de giro alto, e ótima estabilidade, apesar de eu achar que as 35 libras dos pneus eram pouco. Acho que pra pista devemos colocar ao redor de 30% a mais do que usamos na rua, ou seja, esses pneus que usamos 30 na rua deveriam estar com 40 na pista, daí que os dianteiros dobravam muito cedo.

Ao meu lado, como instrutor, um ex-piloto da Indy, o Thiago, que veio de volta pro Brasil para correr de Stock e agora está dando um tempo. Muito simpático, muito legal o Thiago, e evidentemente um baita dum piloto, porque na Indy não entra um mais ou menos, é tudo fera da brava. Falei pra ele não esquentar e me controlar. Ele falou que tudo bem e que só era pra não passar os outros nas curvas, só nas retas. Fiquei assim, nas retas eu aliviava e deixava o pessoal distanciar, e nas curvas eu sentava a bota.

Na 2a ou 3a volta, ainda passeando, no momento me distanciando e prestes a acelerar forte para brincar no Laranjinha, pelo retrovisor vejo um lampejo de farol e em seguida escuto uma buzinadinha. Fiquei quieto na minha porque esse carro vinha lascado por fora, pela esquerda, e nessas me passa um Ferrari 430 que entra forte no Laranjinha com aquele V-8 roncando com uma saúde que era uma beleza. Seu traçado estava perfeito, fazendo as duas tangências da curva.

Não deu outra. Aí é que entrou o burro na parada. Falei pro Thiago: “Filha da mãe! Vou dar um suador nesse cara!”, e reduzi para 3a marcha e acelerei no talo. Que cara idiota, eu, achar que ia colar naquele Ferrari bem pilotado. Que cara idiota! E outra, o Thiago nem falou nada e de rabo de olho só o vi se ajeitando no banco, se preparando pra encrenca, sem falar nada e tudo bem com ele, porque me pareceu que já confiava na minha tocada e estava a fim do pega.


Estão vendo porque é que a gente é burro? Tem cabimento?
E pior. Logo antes do Pinheirinho já colei num carro lento, cujo qual não me era permitido passar – e pela lei local o Ferrari podia, já que estava sendo pilotado por um piloto profissional contratado. Se eu passasse o lento no miolo o Thiago teria que responder perante o organizador porque é que me deixara fazer aquilo. E então, até agora, este burro aqui ainda tem algumas dúvidas se teria dado um suador no Ferrari ou não.

E agora, escrevendo de sangue frio, raciocino: vai ser burro assim lá adiante!

AK

O post do Bob sobre o dia em que atravessou a cidade sem sinal vermelho pode ter dado esperanças ao amigo, mas no meu caso, continuo pessimista.
Domingão passado, finzinho de feriado prolongado, o meu mais novo teve a pachorra de me acordar às 7h30 da manhã, exigindo que fizesse algo com ele porque o sol já havia nascido. Frio desgraçado, cobertores quentinhos, mas resolvi levantar e fazer a vontade do moleque, visto que esse ano tenho passado menos tempo que o normal com ele devido a compromissos profissionais. Por um lado foi até bom, porque lá fora o sol brilhava gostoso, e o céu estava extremamente azul como só acontece no inverno.
Botei ele no carro e saímos em direção a uma padaria que, por ser localizada relativamente longe, não frequento muito, mas que tem uns pãezinhos de queijo que o Joãozinho adora.
A caminho de lá, passo por uma larga avenida de 3 pistas, que aquela hora no domingo estava completamente deserta, às moscas. Andando devagar, conversando com o Joãozinho que já tagarelava um monte de coisas aboletado em sua cadeirinha (onde essas crianças arrumam tanta energia?), eis que noto, já tarde, que haviam montado um radar fotográfico móvel na via. Uma olhada no velocímetro e outra no retrovisor bem na hora do flash confirmam: tomei mais uma multa.
Estava a 90 km/h na maior tranquilidade e segurança possível. O limite ali é 60. Talvez seja uma daquelas que por si só já se perde a CNH.
Não é de se revoltar? Em meu bairro, não há UM DIA que não se saiba de alguma casa que foi invadida e assaltada. Vivo sempre com medo de bandidos, porque sei que a impunidade reina para eles no ponto br.
Mas ai de quem se atrever a andar acima dos limites de velocidade ridículamente baixos que vigoram em nossas vias! Para esses criminosos e assassinos em potencial, não há perdão nem escapatória!!!
E se tomar uma cerveja no almoço e voltar dirigindo para casa então, é xilindró na certa!
As vezes, me canso de ser brasileiro...

MAO
Como a notícia do dia é sobre a Saab, aí vai um wallpaper apropriado.




O Felipe Bitu já informou no post abaixo, mas não posso me furtar de escrever sobre essa ótima notícia sobre uma de minhas marcas favoritas.
Em nota divulgada no dia de hoje, a GM Europa informou que a Saab e a Koenigsegg firmaram um acordo, sacramentado através de uma carta de intenções, onde a empresa menor assumirá o controle da Saab. Esses negócios são complicados, cheios de advogados para entender as partes e redigir contratos, assuntos que jamais me apetecerão, mas a decisão é que importa. A negociação deve estar finalizada até o final do terceiro trimestre deste ano.
A Saab passará a ser controlada por mentes suecas, só por isso, mais fácil de ser entendida pelos administradores, e livre para criar produtos com linhagem 100 % Saab, retornando ao que foi até 1990.
Tudo tende a melhorar para quem lá trabalha, para os entusiastas da marca e os entusiastas em geral. Basta lembrarmos que foi a fábrica que primeiro fez funcionar decentemente um turbocompressor em um carro de produção quase "popular". Outras inovações foram comentadas nesse texto que escrevi há uns meses.
O site Autoblog, que não perde tempo, publicou algumas fotos belíssimas do CCX e do Aero X, que reproduzo aqui.
Hoje é um dia importante para pensarmos que ainda há esperança para quem gosta de carros, que nem todas as marcas são fabricantes de utilidades de transporte, que não precisamos ter medo do futuro, já que nem todo mundo está disposto a ganhar dinheiro fabricando apenas carros sem personalidade.
Foi o melhor que poderia ter acontecido.
JJ
A notícia que todos esperavam foi confirmada: a Saab foi salva da extinção pela Koenigsegg.

É a melhor notícia automotiva em meses (ou mesmo anos). Deus queira que a Saab volte a ter o mesmo espírito criativo de sempre, algo que nos faça esquecer o negro ostracismo da marca sueca nos últimos anos.

É o que podemos esperar dos entusiastas que comandam a Koenigsegg.

Não é segredo nenhum para quem acompanha este blog que tenho uma certa fixação pela Porsche e pela GM. Não é de se estranhar, então, que preste muita atenção nas vezes em que a história das duas empresas se cruzam. São sempre episódios interessantíssimos, eventos raros que acontecem para nos lembrar de quão pequeno é esse nosso mundo, e de como gente inteligente sempre presta atenção no que outras pessoas inteligentes andam fazendo. E faz parte do grande barato, da grande diversão, que é conhecer a história do automóvel.

Já contei aqui o episódio em que a Chevrolet fez um 356 de seis cilindros, bem como a vez em que a GM ensinou a Porsche a medir dirigibilidade. Este agora diz respeito ao primeiro Porsche refrigerado a água.

Aproveito para fazer uma retificação em um texto que escrevi alguns anos atrás no BCWS sobre o 924 e seus descendentes. Desde aquela época aprendi que antes de ser imaginado como um cupê Audi, o EA425 (número de projeto da VW para o carro que conhecemos como 924) era para ser o próximo VW-Porsche, o substituto do 914. Com o colapso da joint-venture já explanado aqui pelo Paulo Keller, a VW tomou para si o projeto que já havia financiado até então.

A Porsche só conseguiu o carro de volta para si devido à intervenção de Ferdinand Piëch, que a esta época era um executivo da Audi depois de abandonar a empresa de sua família. Com a crise do petróleo de 1973 tirando o sossego da VW, Piëch detectou uma falta de interesse em continuar com o EA425 e aproveitou-a para costurar um acordo vantajoso para as duas partes, onde o carro seria comercializado pela Porsche, mas fabricado pela Audi em Neckarsulm, a apenas 20 minutos de carro de Zuffenhausen.

Mas voltando à história que queria contar, o 924 foi criado quase que exclusivamente com peças VW. A suspensão traseira era do Fusca alemão (praticamente igual à de nossa Variant II), a dianteira era um misto de Golf e Fusca (de novo, leia-se Variant II no Brasil), motor e câmbio de Audi 100. Mas como o Porsche não poderia ter tração dianteira, foi então tomada a decisão de que o motor ficaria na frente do carro, e o câmbio lá atrás, equilibrando o carro, dando a desejada tração traseira, e mantendo o uso de peças VW sem grandes modificações, para manter o custo sob controle.

Até aí, tudo bem, mas como ligá-los? Deveria ser uma árvore diferente de um cardã normal, que gira a velocidades relativas às rodas traseiras e tem que aguentar um torque multiplicado pela transmissão. Não, este componente giraria à mesma velocidade do motor, e com seu torque original apenas. O problema básico seria balanceamento, e portanto deveria ser mais fino e bem suportado por mancais.

Depois de bater a cabeça com várias possibilidades fracassadas, alguém no campo de Weissach teve uma brilhante ideia. Pediu para a subsidiária americana que encontrasse um Pontiac Tempest 1962 em bom estado, o comprasse e enviasse a Stuttgart. O Tempest, para quem não sabe, era contemporâneo do Corvair, e fazia parte do avançadíssimo trio de carros compactos lançado pela GM em 1960. Liderada pelo brilhante Ed Cole, a GM vivia uma época sem medo de inovação, uma época em que o maior fabricante de automóveis consolidava sua liderança investindo em tecnologia.

O Tempest tinha motor dianteiro e transmissão traseira com suspensão independente, tal qual pretendia a Porsche para seu 924. Não é surpresa que o Porsche acabou parecidíssimo com o Pontiac mecanicamente. O conceito era exatamente o mesmo, só mudando em dimensões específicas.

No 924, o sistema consistia em um tubo de 84 mm de diâmetro e 4 mm de espessura de parede, dentro do qual era montado uma árvore sólida (não tubular) de 20 mm de diâmetro, apoiada em 4 rolamentos fixos ao tubo maior via coxins de borracha. Nas duas pontas desse tubo maior saíam as flanges necessárias para acoplar o motor/embreagem de um lado e o câmbio, do outro. Desta forma, o conjunto ficava rigidamente ligado, podendo ser montado completo no carro. Ajudava também como suporte de escapamento e de trambuladores e cabos de transmissão. Simples e genial.

E onde entra o Opel do título? Bem, como a Porsche queria acumular quilometragem o mais rápido possível no novo sistema, e ainda não tinha carrocerias, montou a mecânica completa do futuro carro em dois Opel Manta e, pronto!

Como diz meu antigo mestre da FEI e atual colega de blog Waldemar Colucci, "Cuidado com as ca(pééééé)das que você fizer, porque a concorrência vai lá e copia!"

MAO
Chegou a peça que faltava pra colocar a Merça para andar novamente. Comprei no eBay por menos de 30 doletas (o frete é que foi mais caro) e não precisei pagar imposto de importação.


Vai para esse carro, um (ou uma ?) 280S ikonengold '74, a versão mais comum do modelo W116. Assim que tiver novidades, posto aqui.

Há anos participo de grupos na internet, onde o foco são carros e preparação de motores. E lá sempre me deparo com a mesma conversa: o maior é sempre o melhor. Como engenheiro (e, por que não dizer, engenhoqueiro) calejado, percebo o quanto esse canto das sereias é enganoso.

Nesses fóruns, a conversa é quase sempre a mesma. O melhor turbo tem que ser o maior, o melhor comando de válvulas é sempre o com maiores ângulos de abertura e com maior levantamento da válvula possíveis. E é por aí que a conversa vai.

Com esta conversa, os colegas de fórum se enganam numa coisa fundamental. Boa parte dessas modificações levam a motores mais potentes sim, porém também a motores com uma distribuição de potência completamente desequilibrada. O motor tem muita potência numa faixa estreita de rotações, e somente com um câmbio com muitas marchas (seis ou sete, muitas vezes) se conseguiria usar esse motor na sua estreita faixa útil de potência.

Um bom indício de que algo está errado é que numa peça tão tecnologicamente sofisticada quanto é um motor, as escolhas discutidas não envolvem um cálculo sequer. O maior é sempre o melhor e fim de papo. Se fosse tão simples, o ponto mais alto do pódio em qualquer competição automobilística seria sempre um lugar apertado.

Recentemente me envolvi numa discussão dessas, referente a coletores de admissão e escape e corpos de borboleta. A conversa, como sempre, era a mesma. Os dutos, para serem melhores, precisam ter o maior diâmetro possível, e o corpo de borboleta ter que ser o mais aberto também. Se ambos puderem ter dimensões gigantescas, melhor ainda.


O canto das sereias está em perceber o óbvio e não perceber o sutil pelo desconhecimento da parte técnica mais profunda.

Coletores de admissão e de escape são basicamente dutos que alimentam ou sangram fluxos de gases do motor. Para estudá-los, podemos imaginá-los como tubos simples atravessados por um fluido. Então, podemos imaginar dois tubos que são atravessados por fluxos de fluido iguais. A diferença entre eles é que um tem o dobro do diâmetro do outro.

Entre estes dois tubos é óbvio que o duto de maior diâmetro é o que oferece a menor restrição à passagem do fluido. Levada esta conclusão para os motores, fica claro a qualquer pessoa que um motor desenvolverá maior potência com um duto mais largo porque vai conseguir admitir mais ar. Parece que, de novo, o maior é o melhor. É um pensamento simples, imediato e indiscutível, e por isso mesmo, cômodo para o leigo.

Porém, há o reverso da moeda.

Se esses tubos têm o mesmo comprimento, a massa contida no tubo de maior diâmetro é quatro vezes maior que no tubo menor. Como a energia cinética dessa massa é proporcional à velocidade do fluxo ao quadrado e à própria massa, e como a velocidade do fluxo é quatro vezes maior no tubo menor do que no maior, percebemos que a energia cinética do fluxo no duto menor é quatro vezes maior que no tubo maior.

Se levarmos em consideração a unidade de massa, a densidade energética do duto menor é dezesseis vezes maior que no tubo maior. Portanto, a energia cinética dentro de um duto é inversamente proporcional ao quadrado do diâmetro do duto, e a densidade energética é inversamente proporcional à quarta potência do mesmo diâmetro. Da mesma forma, a energia cinética é linearmente dependente do comprimento do tubo.

Observem que esta energia cinética e esta densidade energética são as responsáveis pela entrada e saída de gases do cilindro, assim como a intensidade da turbulência dentro da câmara de combustão, que é um fator crucial para uma boa queima da mistura.

O efeito de restrição ao fluxo de gases num motor cresce de forma exponencial com o fluxo passante. Sendo assim, um duto que é restritivo em alta potência oferece uma pequena restrição em potências mais baixas, e nestas condições, os efeitos de inércia dos gases são muito mais importantes.

Quando um duto é alargado em 10% de seu diâmetro, perde-se quase uma parte em seis de energia cinética e mais de 30% da densidade energética. O motor passa a oferecer uma potência máxima maior, mas tem enchimento de cilindro e nível de turbulência da câmara menores nas potências mais baixas, ou em outras palavras, ele queima pior a menor quantidade de mistura admitida, e perde potência nas rotações baixas e médias.

Retrabalhando no alargamento dos dutos, a curva de torque do motor progressivamente deixa de ser plana e desloca o ponto de torque máximo para uma rotação mais alta. A curva de potência deforma-se, tornando-se mais aguda e mais deslocada para a alta rotação, com um pico mais alto e valores intermediários mais baixos em boa parte da faixa de rotações.

Extremando este retrabalho junto com outros ajustes que visam única e exclusivamente o aumento de potência, obtém-se um motor de potência brilhante numa condição muito específica, e fraco no resto da faixa de utilização. Este é o que denominamos de “motor agudo”.

Acima de um determinado alargamento do duto, outros fatores de restrição começam a pesar mais na limitação do fluxo (como a passagem pelas válvulas, por exemplo), tornando inócuo esse retrabalho além deste limite. Entretanto, o dano à energia cinética nos regimes mais baixos continua, ou seja, há um ponto em que o alargamento do duto passa a ser totalmente prejudicial ao desempenho do motor. Então, há um limite para o alargamento de dutos. O maior, definitivamente, não é o melhor.


O canto das sereias é doce e atrai os marinheiros incautos para os mortais recifes...

Como não há uma forma de computar diretamente qual a medida ideal do duto para um determinado motor, deve-se ter em mente o propósito do motor (para se estabelecer quanto se admite perder de potência intermediária para ganhar em potência máxima), e gastar horas, dinheiro e muito trabalho modificando os dutos e ensaiando diferentes comprimentos e diâmetros deles até se conseguir o ajuste desejado para cada motor.

Esta é a maneira certa e séria de se fazer o dimensionamento dos dutos, mas são recursos que poucos preparadores tem à disposição. Fora disso, fica difícil dizer que o trabalho de preparação é o melhor possível.

Com o corpo de borboleta temos o mesmo problema.

Este componente é uma restrição variável que controla o fluxo de mistura que entra no motor, e assim se consegue controlar a potência do motor. Da mesma forma que com os dutos, passa-se a impressão que o corpo de borboleta é restritivo. E já temos de novo a conversa de que o maior é melhor.

Abra qualquer revista nacional de performance, e verá dúzias de anúncios oferecendo retrabalho para alargar o corpo de borboleta, prometendo maior potência. Há algum tempo, até mesmo uma destas revistas veio com uma matéria entitulada “Corpo de Borboleta: Quanto maior, melhor”. Na verdade, não há a menor garantia sequer de que a potência aumente, porque ela depende de todo um conjunto de fatores além do tamanho da borboleta.


Estas são as sereias cantando, atraindo os marinheiros para os recifes para depois provar a sua carne...

Este exagero não é um problema exclusivamente nacional, mas lá fora existem empresas mais sérias, oferecendo equipamentos de primeira linha que foram desenvolvidos especificamente para cada motor a partir de exaustivos ensaios em dinamômetros.

Vejam de que pouco adianta um corpo de borboleta gigantesco, se a restrição nos dutos e na passagem pelas válvulas de admissão forem mais significativos. Quem perde nestas condições é o motorista, que tem parte significativa do curso do acelerador completamente insensível à abertura para mudança de potência.

Neste caso, tanto faz um corpo absurdamente alargado ou o corpo original, com a vantagem para o segundo, que oferece maior curso sensível ao motorista.


Porém, assim como os dutos, o corpo de borboleta além de restringir o fluxo, varia sua velocidade ao variar a área de passagem, portanto modificando a energia cinética do ar que entra no coletor de admissão.

Alguns motores, dependendo das configurações deles e de seus coletores de admissão, oferecem em algumas rotações intermediárias um pouco mais de potência com aberturas parciais da borboleta (por exemplo, 80%) do que em abertura total. É que, dependendo de vários detalhes, acima de determinada abertura, a mudança de restrição é pequena, mas o incremento de energia cinética pelo fechamento parcial da borboleta é significativo para um enchimento maior dos cilindros, obtendo-se mais potência.

Então, de novo voltamos à questão. Nem sempre o maior não é o melhor. O melhor é o dimensionado para aquele motor e para aquela aplicação. Em resumo, corpos de borboleta maiores oferecem maior potência máxima, enquanto corpos de borboleta menores oferecem melhor potência intermediária.

Alguns preparadores possuem tabelas orientativas sobre o tamanho aproximado dos corpos de borboleta em função da potência máxima (portanto do fluxo máximo) que o motor oferecerá, mas eles sabem que tais valores podem mudar bastante em função das características do motor e do tipo de uso que será feito dele. Não há uma regra explícita aqui. O ideal só é alcançado após testes rigorosos com diferentes configurações.

Sabendo disso, alguns motores vem equipados com corpos de borboletas duplos ou triplos que se abrem em estágios. Desta forma, eles obtém uma potência intermediária melhor pelo uso de uma borboleta pequena, ao mesmo tempo que obtém uma potência máxima maior em função da maior área de passagem de ar com as duas borboletas abertas.


O Gol GTi, o primeiro carro de série injetado fabricado no Brasil, vinha com um corpo de borboleta bi-estagiado, onde a borboleta menor era aberta primeiro, e após terminar de abrir, começava a abrir a borboleta maior. Os donos deste carro regularmente reclamavam que o carro acelerava firme no começo, mas quando o segundo estágio começava a abrir, eles sentiam uma certa perda de potência.

A razão dessa perda é que com a abertura do segundo estágio, o fluxo passava a se dividir entre as duas borboletas, reduzindo rapidamente a velocidade do fluxo pela borboleta menor, com impacto sobre a potência instantânea do motor.


Este é um assunto longo e muito detalhado.

Como o fluxo dentro dos coletores não é contínuo, mas intermitente, além dos efeitos inerciais, temos outros efeitos, como golpes de aríete, que formam ondas de pressão ao longo dos dutos, sendo que estas ondas são tão importantes na entrada e saída de gases quanto os efeitos inerciais. Porém é um assunto complexo para ser comentado plenamente aqui, mas é bom saber que eles existem e quão importante eles são.

Mesmo sem uma compreensão total destes efeitos, já dá para ter uma boa ideia de que, quando o assunto é motor, quase nunca é verdadeiro dizer “o maior é o melhor”. Tudo tem um dimensionamento certo para se alcançar determinado resultado.

Portanto, quando ouvirem alguém dizendo algo neste sentido, coloquem um pé atrás nessa conversa.

Fotos: Instituto Smithsonian
Causou certa polêmica a afirmação do MAO em sua última coluna, dizendo que prefere não torcer para carros movidos a óleo diesel em Le Mans.

Eu discordo dele. Para mim, sendo motor de combustão interna, tá valendo. Ciclo Otto ou ciclo Diesel, o que importa é o conjunto do carro.

O Duesenberg Modelo A da foto acima foi o pioneiro, inscrito pela Cummins para disputar a 500 Milhas de Indianápolis de 1931. Equipado com um motor diesel de 4 cilindros e 5,9 litros, completou a prova em 13º lugar, sem precisar parar para reabastecer. O piloto Dave Evans levou o mecânico Thane Houser a tiracolo e concluiu o percurso em cinco horas e 48 minutos, com velocidade média de 137,9 km/h.

A grande autonomia resultante da maior eficiência dos motores de ciclo diesel se mostrou uma ótima estratégia para corridas de longa duração. A Cummins fez escola.

E não parou por aí: nas fotos abaixo podemos ver outras tentativas da Cummins, mas vou deixar para falar destes modelos em uma outra ocasião.


Bill Cummins em Daytona Beach, 1934.



Toda essa conversa aqui no Blog sobre as 24 Horas de Le Mans me fez lembrar que, há exatamente 39 anos, a Porsche ganhava a famosa prova francesa pela primeira vez.

A empresa não era estranha à vitória na prova, tendo ganhado o primeiro lugar várias vezes antes deste dia, mas sempre nas categorias inferiores. Até 13 de junho de 1970, a vitória incontestável, o primeiro lugar na classificação geral, a honra de ser o carro que mais distância percorreu ao cabo de 24 horas, era desconhecido pela companhia.

E o carro que tornou isto possível é o que, em minha opinião, é o mais fantástico carro de competição já criado, aquele que o saudoso engenheiro/piloto Mark Donohue viria a chamar de “The perfect race-car”: o Porsche 917.

Falar do 917 é difícil por ser um assunto extremamente interessante, mas extenso. Na verdade, uma série de livros já foram escritos sobre o tema, e portanto não vou pretender me alongar aqui; para quem se interessar ao final do post indico dois livros básicos para se aprofundar no assunto. Não, vou apenas tentar fazer vocês entenderem algumas das coisas que o fazem grandioso, memorável e inesquecível.

Para começo da conversa, o que deve se entender é que o 917 é o ápice de uma era. Entre 1965 e 1969, a Porsche se lançou numa campanha impressionante de competições, lançando um carro de competição por ano, do Carrera 6 de seis cilindros de 1966 ao 917 de doze, passando pelos 907, 907L, 910 e o famoso 908 de oito cilindros e três litros. Todos eles com motor contraposto refrigerado a ar.

Foi uma verdadeira blitzkrieg tecnológica, um crescendo de potência, velocidade, dirigibilidade e leveza que, ao culminar com o 917, mostrou toda a capacidade técnica da empresa. Com algo em torno de 800 kg, e um doze cilindros contraposto com nunca menos de 550 cv, e evoluindo para três vezes isto ao final de sua carreira, o 917 pretendia e conseguiu o retorno da Alemanha à dominação completa das competições de carro esporte no mundo.


Houve dois motores para esta campanha. Um deles foi um financiamento pouco conhecido da VW. O gigante de Wolfsburg pagava uma quantia de dinheiro considerável para que a Porsche competisse. Em troca, uma única exigência: que os motores sempre fossem refrigerados a ar. Nesta época já havia quem desse como obsoleto este sistema de refrigeração, e para a VW ter alguém vencendo competições de alto nível com motores refrigerados a ar era de uma utilidade óbvia.

A outra força motriz dessa campanha foi o conflito entre os Porsche e Piëch para o controle da empresa. Os dois clãs descendentes do velho Professor Porsche, encabeçado por Ferry do lado dos Porsche, e por sua irmã Louise Piëch (sobrenome vindo de seu casamento com o advogado Anton) do outro, se digladiavam constantemente durante os anos 60. Este embate encontrou seu clímax na mesma época em que a Porsche ganhava Le Mans pela primeira vez. Depois de 1971, todos os membros da família abandonaram as operações cotidianas da empresa familiar, por decisão conjunta de Ferry e Louise.

O mais forte combatente nessa batalha fraterna foi sem sombra de dúvida Ferdinand Piëch. Os mais antigos na empresa sabiam que herdara de seu avô mais que o primeiro nome: a mesma vontade férrea e que não podia ser contestada, a mesma facilidade de lidar com assuntos técnicos, por mais complicados que fossem. Piëch escolheu o departamento de competições como seu território, e foi pela vontade de mostrar seu valor que o 917 veio ao mundo.

O 917 acabou por dominar tão completamente as competições de carro esporte que acabou legislado para fora delas. Banido então para a categoria Can-Am, onde não havia limite algum para o propulsor, e onde dominavam McLarens com motores Chevrolet big-block de alumínio e mais de 850 cv, teve seu flat-12 turbinado (a primeira vez que a Porsche adotava o caracol que a tornaria ainda mais famosa) para alcançar mais de 1.500 cv e dominar tão completamente a categoria, que também foi legislado para fora dela!



Este carro de até 1.500 cv, o 917/30 (acima), fora desenvolvido com Mark Donohue, e foi praticamente seu último carro, já que morreu tragicamente logo após.

Mas a mais emblemática história do 917 é aquela de seu nascimento. Explica-se: àquela época, para homologar um carro esporte da categoria do 917, era necessário que fossem construídos 25 carros. Mas, na verdade, competições sendo como são, construir 25 carros de corrida antes de competir era o mesmo que ter que desmontá-los novamente, para realizar as inevitáveis modificações. Ninguém o fazia...a FIA se contentava em ver peças suficientes para construir 25 carros (as vezes, menos que isso) e ter a promessa raramente cumprida que seriam feitos, e todo mundo ficava contente. Mas a FIA, em 1969, estava sendo severamente criticada pela falta de seriedade desses métodos, e então acabou por recusar a homologação do 917.

Sabendo disso, Piëch pensou em ir aos tribunais. Seus concorrentes todos não tiveram tal tratamento. Mas Piëch sendo Piëch, resolveu fazer diferente. Pediu que os representantes da FIA voltassem em três semanas. Quando voltaram, pouco mais de 40 anos atrás, no dia 21 de abril de 1969, foram surpreendidos por esta imagem:

Em três semanas, Piëch havia feito 25 carros esporte de competição. Todos iguaizinhos, todos em branco, numerados (o primeiro sendo ‘917’) e o melhor: todos prontos para competir.

Piëch, incapaz de conter a alegria de seu feito, ofereceu aos oficiais da FIA: em qual deles querem dar uma volta? Sim, todos funcionavam perfeitamente. Um feito histórico; nunca tantos carros de competição complexos foram construidos em tão pouco tempo.

A mensagem era clara: nada pode segurar a Porsche (leia-se a Porsche de Piëch) quando ela se propõe a fazer algo. Não tem como não admirar o sujeito, por mais ditatorial que tenha se tornado mais tarde em sua longa carreira.

Depois do 917, a Porsche ganharia Le Mans outras vezes. Mas o carro ficou como o ápice de uma era. Uma era onde motores contrapostos refrigerados a ar eram sempre presentes nos Porsches de competição, uma era em que a criatividade dos descendentes de Ferdinand Porsche geravam coisas tão imortais quanto o 911. Em pouco tempo, a Porsche faria carros refrigerados a água, e seria administrada como uma empresa qualquer, por profissionais muitas vezes sem paixão alguma.

Pensando nesse glorioso carro, gritando seu berro de doze cilindros refrigerados a ar pela antiga reta de Mulsanne (sem chicanes) a quase 400 km/h, nas famosas cores da Gulf Racing, me lembro de mais um motivo para não mais acompanhar competições.

Torcer para carros movidos a diesel em Le Mans? Obrigado, mas não, obrigado.

MAO

Para saber mais:

Porsche: Excellence was expected – K.Ludvigsen

The unfair advantage – Mark Donohue