PERCEPÇÃO x XIITISMO



Moro ao lado de um estacionamento onde "dormem" automóveis de todos os tipos: veículos de passeio de uso diário, utilitários da vizinhança (caminhõezinhos, carros de entrega, vans escolares etc.) e alguns carros antigos. Nada do outro mundo: um Passat 1983, Fuscas tratados a pão de ló, um Fiat 147 e uns dois Jeeps bem-cuidados. Mas o que me levou a escrever este post foi um Dodginho.

Da janela do meu escritório, tal qual uma velha fofoqueira, passei a reparar que, semana sim semana não, dois rapazes chegam a bordo de um Dodge Dart com um cabo de chupeta, plugam a bateria do Dart na do Dodginho e fazem o motorzinho de 4 cilindros funcionar por uns 15 ou 20 minutos. Ficam com o rádio ligado, batendo papo, conversando amenidades. Depois que o motor do Dodginho esquenta, desligam, entram no Dart e vão embora. O Dodginho pode até ter saído para rodar alguma vez, mas eu mesmo nunca vi.

Até aí, tenho nada a ver com isso: não pago a gasolina que o dono do Dodginho queima para ficar parado, muito menos as contas dele. Tudo o que este post pretende é levantar a discussão sobre a real percepção de um produto contra o conceito que uma marca tem. Tentar entender porque a turma dos Dodge V-8 trata os Dodginhos com tanto carinho, como se eles fossem a Famiglia Corleone que adota o pobre e indefeso menino Tom Hagen como filho.

Pergunte a um "dodgeiro" o que um Dodginho tem em comum com um Dart e eles responderão: "quase nada, talvez apenas o volante". Pergunte novamente por que eles gostam tanto do Dodginho e a maioria responderá cegamente: "É um Dodge!". E muitos continuam se rendendo a essa idolatria cega, mesmo após saber que o Dodginho era apenas uma variante de um carrinho inglês sem relação alguma com os Chrysler americanos: o Hillman Avenger.

Confesso que eu tento entender, mas não consigo. Há alguns anos, visitei meu amigo Isaac, quando ele ainda morava em frente ao Estaleiro do Romano, em São Bernardo do Campo, às margens da represa Billings. Ele estava todo contente, pois havia acabado de comprar um motor de popa Chrysler da década de 1970. Perguntei o que ele iria fazer com aquilo e ele respondeu: "Sei lá... O que importa é que é Mopar!".


Dá para entender uma coisa dessas?

Uma breve análise sobre o meu ponto de vista: sou o tipo de entusiasta que gosta de estudar todos os detalhes técnicos dos automóveis. Uma das coisas que mais gosto de fazer é abrir o capô, tirar a capa, "fuçar", levantar o carro no elevador, observar tudo minuciosamente. Tal qual um crítico de arte que tenta interpretar um quadro de Joan Miró, eu tento entender o que se passou na cabeça do engenheiro responsável por aquela pecinha boba, aquele braço de suspensão, o comprimento de um duto... Coisa de maluco mesmo, mas é assim que eu sou.

Se algum carro apresenta alguma solução técnica que eu desaprovo, pode apostar, esse carro não entra na minha garagem. Pode ser o carro do ano, pode ser obra de Pininfarina, pode custar R$ 20.000,00 com todos os itens básicos de conveniência ("ar + direção + trio elétrico"), pode acelerar de 0 a 100 km/h em 5 segundos e fazer 30 km/L... Se eu cismei com um pequeno detalhe, por mais irrisório que possa parecer, não compro.

É como se ver diante do carro dos seus sonhos e deixar de comprá-lo após saber que ele levou uma senhora colisão dianteira: sempre haverá um rangidinho psicológico para estragar tudo, uma roda desalinhada que come o pneu de maneira irregular, mas a culpa sempre será da longarina torta e mal-reparada.

Pois bem: muitos aqui sabem que eu fui criado a bordo da primeira geração de Volkswagens refrigerados a água. A família inteira andava de Passat, Voyage, Parati, os Gols entraram para nossa cadeia automobilística assim que receberam o motor MD do Passat, mesma coisa para a Saveiro. Depois vieram os Santanas e Quantums que ainda guardo em minha garagem.





Muito além daquela parafilia infantil de "ter o carro que meu pai tinha", eu aprecio muito o motor EA 827 (vulgo VW AP) e seu câmbio longitudinal, chamado internamente Audi 013. Para mim, é um conjunto mecânico tão robusto e confiável que eu simplesmente ignoro outras virtudes e também as mazelas do resto de automovel que lhe cerca. Fáceis de manter, gostosos de guiar, não sei até quando os terei, mas faço questão de tê-los enquanto me trouxerem felicidade. E pouco me importa a marca que eles ostentam: um primo meu tem um Ford Versailles Ghia imaculado e na tampa de válvulas está estampado um FORD tão autêntico quanto uma nota de R$ 3,00. Ainda assim, é um carro que eu faria questão absoluta de ter em minha garagem.

Sou incapaz de sentir o mesmo apreço por alguns Volkswagens atuais (não todos, obviamente), por melhores que sejam. E não tem nada a ver com a posição transversal do motor: gosto muito do VW Polo, um carro que já mostra sinais claros de cansaço, mas que envelheceu bem: tem qualidades suficientes para ser um carro prezado e reverenciado por mais alguns anos, até que outro concorrente (ou sucessor) venha e estabeleça o novo benchmark.

Mas há algo no Polo que não aprovo e, por isso, não faço questão de tê-lo em minha garagem. Coisinha besta, irrisória, mas que para mim é como encontrar alho num milkshake de chocolate: não desce. Minha família e alguns amigos não entendem, muitos deles ainda fazem parte do "Volkswagen Futebol Clube", lembrando com saudade dos velhos Passat e balançando as chaves para estufar o peito bradando aquela velha expressão "é Volks!".

E daí que é Volks? Nessas horas eu tenho vontade de pegar minha família e meus amigos e apresentar ao Isaac e meia dúzia de dodgeiros que fazem parte do meu círculo de amizades. Gostaria de juntar essa turma toda e perguntar que diabos é isso na foto abaixo.



É Volks? É Dodge? É Mopar? A questão que fica aos leitores: até onde vai a percepção substancial do produto e até onde ele se deixa influenciar pelo conceito de uma marca que muitas vezes o leva a uma espécie de xiitismo automobilístico?

Para eles eu não sei o que é: para mim, é uma variante de um carrinho inglês, fabricado na Argentina, com um motorzinho 1500 vareteiro de comando no bloco, carburador SU e eixo rígido traseiro. É digno de um adesivo no vidro traseiro: "Você conhece, você confia: Mopar Or No Car!"

Com todo respeito a quem aprecia, mas em síntese: é um carro que eu não queria nem dado. O rapaz do estacionamento que faça bom proveito de suas viagens estacionárias.

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